Guia de Doenças Vesículo-Bolhosas e Ulceradas Orais
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Doenças Vesículo-Bolhosas e Ulceradas
Gengivoestomatite Herpética Primária
- Definição: Infecção primária por exposição do paciente sem anticorpos ao vírus do herpes simples (HSV).
- A infecção pode ser assintomática.
- Quando apresenta alterações, a gengivoestomatite herpética aguda é o padrão mais comum de infecção primária sintomática: sinais e sintomas clínicos intensos, resultado da infecção pelo HSV-1.
- A maioria dos casos ocorre entre os 6 meses e 5 anos de idade.
- Início: O início é abrupto (sinais prodrômicos) com linfadenopatia cervical (nódulos palpáveis, livres, amolecidos ou duros e extremamente doloridos), febre, anorexia, irritabilidade e lesões bucais dolorosas.
- Nota: As lesões parecem aftas, mas surgem principalmente na gengiva inserida (onde a afta comum não aparece).
- Apresenta também um quadro de sialorreia (excesso de salivação).
- As manifestações variam de debilidade leve a intensa.
- Inicialmente, a mucosa apresenta numerosas vesículas que se rompem rapidamente, formando inúmeras lesões pequenas, avermelhadas e ulceradas.
- Estas lesões aumentam de tamanho e formam áreas de ulceração recobertas por fibrina amarela; tanto a mucosa móvel quanto a aderida podem ser afetadas.
- A gengiva envolvida exibe erosões (perda das camadas superficiais do epitélio sem expor tecido conjuntivo) ao longo da margem gengival livre. Pode haver envolvimento da mucosa labial e do vermelhão do lábio.
- Autoinoculação: Pode ocorrer para dedos, olhos e áreas genitais.
- Duração: Casos brandos resolvem-se em 5 a 7 dias; casos graves podem estender-se por até duas semanas.
- Em adultos: Casos sintomáticos manifestam-se como faringoamigdalites com dor de garganta, febre, mal-estar e cefaleia. Vesículas nas amígdalas e faringe posterior rompem-se formando ulcerações que se coalescem.
- É comum a formação de um exsudato amarelo-acinzentado difuso. Em adultos, a infecção pode estar associada ao HSV-2.
- Tratamento: Sintomático (analgésicos, anti-inflamatórios ou antibióticos). Instruir o paciente a evitar contato com lesões ativas.
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) auxiliam no desconforto. O uso de lidocaína viscosa deve ser cauteloso em pediatria.
- Protocolo Antiviral:
- Casos agressivos (internação): Aciclovir (dose por peso).
- Adultos (casos brandos): 1g de Aciclovir/dia (5 comprimidos de 200mg) por 5 a 10 dias.
- Adultos (casos graves): Valaciclovir 500mg (12/12h) por 10 dias.
- O vírus progride pelos nervos sensitivos até os gânglios (ex: gânglio trigêmeo), onde permanece em latência.
Estomatite Herpética Recorrente (Herpes Recorrente)
- Reativação do HSV-1 afetando o epitélio inervado pelo gânglio sensitivo.
- Gatilhos: Idade avançada, luz ultravioleta, estresse, gravidez, alergia, trauma, menstruação ou imunossupressão.
- O sítio mais comum é o vermelhão do lábio (Herpes Labial).
- Sintomas Prodrômicos: Dor, ardência, prurido e eritema (6 a 24 horas antes das lesões). Dica: O uso de gelo intermitente nesta fase pode abortar a lesão.
- Fase Vesicular: Múltiplas pápulas eritematosas e vesículas com líquido.
- Fase Crostosa: Rompimento e formação de crostas em 2 dias. Cicatrização em 7 a 10 dias.
- Panarício Herpético: Infecção nos dedos (autoinoculação ou falta de EPIs em profissionais de saúde). Pode causar parestesia.
Herpangina
- Etiologia: Vírus Coxsackie.
- Afeta principalmente bebês e crianças; maioria assintomática.
- Características: Incubação de 4 a 7 dias. Dor de garganta, disfagia, febre, vômitos e cefaleia.
- Lesões (2 a 6) no palato mole ou pilares amigdalianos. Iniciam como máculas vermelhas, evoluem para vesículas frágeis e ulceram. Cicatrização em 7 a 10 dias.
Doença dos Pés, Mãos e Boca
- Etiologia: Vírus Coxsackie.
- Lesões orais precedem as cutâneas. Febre e dor de garganta leves.
- Lesões cutâneas em palmas, plantas e dedos (máculas eritematosas com vesículas centrais).
- Lesões orais assemelham-se à herpangina, mas são mais espalhadas (mucosa jugal, labial e língua). Regridem em 7 dias.
Herpes Zoster
- Reativação do vírus Varicela-Zoster (VZV).
- Condições: Imunodepressão, neoplasias, álcool, radiação.
- Sintomas: Dor prodrômica intensa (pode simular dor de dente ou infarto) 1 a 4 dias antes das lesões.
- Sinais: Vesículas agrupadas que se tornam pústulas, rompem e ulceram. Formam crostas em 7 a 10 dias.
- Diferencial: Respeita a linha média e costuma deixar cicatrizes.
- Sequela: Nevralgia pós-herpética (dor por mais de um mês, comum em idosos).
- Pode envolver o globo ocular (risco de cegueira).
- Tratamento: Suporte e altas doses de Aciclovir/Valaciclovir.
Epidermólise Bolhosa
- Grupo de doenças (genéticas ou adquirida) caracterizadas por bolhas após traumas leves.
- Formas Hereditárias: Manifestam-se na infância; defeitos em desmossomos ou colágeno de ancoragem.
- Forma Adquirida: Manifesta-se na vida adulta; natureza autoimune (depósitos de IgG).
- Clínica: Bolhas em cotovelos, joelhos e boca. Na boca, causam cicatrizes, constrição da fenda bucal e hipoplasia de esmalte.
- Tratamento: Evitar traumas, suporte, corticosteroides ou imunossupressores.
Pênfigo Vulgar
- Doença autoimune mucocutânea grave.
- Patogenia: Autoanticorpos contra glicoproteínas dos desmossomos, causando acantólise (fenda intraepitelial).
- As lesões orais são frequentemente o primeiro sinal ("primeiras a chegar, últimas a sair").
- Sinal de Nikolsky: Pressão lateral na mucosa normal provoca bolha (Positivo).
- Tratamento: Corticoterapia sistêmica (Prednisona) e imunossupressores (Azatioprina). Mortalidade de 5 a 10%.
Penfigoide Cicatricial
- Doença autoimune crônica contra componentes da membrana basal (fenda subepitelial).
- Bolhas mais resistentes que as do pênfigo (teto mais espesso).
- Complicação Grave: Envolvimento ocular pode levar à cegueira (simbléfaro).
- Gengivite Descamativa: Padrão clínico comum na gengiva.
- Tratamento: Corticosteroides tópicos/sistêmicos e Dapsona.
Penfigoide Bolhoso
- Autoimune, curso limitado (2 a 3 anos), diferente do cicatricial.
- Prurido inicial, seguido de bolhas cutâneas e ulcerações orais grandes e rasas.
- Tratamento com Prednisona ou Dapsona.
Varicela (Catapora)
- Infecção primária pelo VZV. Contagiosa até a fase de crosta.
- Exantema pruriginoso (face/tronco para extremidades).
- Lesões orais: vesículas branco-opacas que ulceram, geralmente indolores.
Sarampo
- Etiologia: Paramixovírus. Transmissão por perdigotos.
- Sinal Patognomônico: Manchas de Koplik (pontos brancos na mucosa jugal).
- Exantema máculo-papular que evolui para pigmentação marrom.
- Pode causar hipoplasia de esmalte em dentes permanentes.
Eritema Multiforme
- Processo imunológico mediado, muitas vezes após Herpes Simples ou uso de medicamentos.
- Lesões em Alvo: Anéis eritematosos concêntricos na pele.
- Lesões Orais: Necrose epitelial rápida, erosões dolorosas e crostas hemorrágicas nos lábios. Não costuma afetar gengiva.
- Síndrome de Stevens-Johnson: Forma grave com envolvimento ocular e genital.
Lúpus Eritematoso
- Sistêmico (LES): Multissistêmico, padrão em "asa de borboleta" na face. Mulheres 8-10x mais afetadas. Comprometimento renal é o aspecto mais grave.
- Crônico Cutâneo (LECC): Lesões discoides em áreas expostas ao sol. Lesões orais idênticas ao líquen plano erosivo (estrias brancas irradiadas).
- Diagnóstico: Anticorpos antinucleares (ANA/FAN) e imunofluorescência.
- Tratamento: Antimaláricos (Hidroxicloroquina), AINEs e corticoides.
Notas Adicionais sobre Herpes em Imunodeprimidos
- A recorrência pode ser persistente e disseminada.
- Na mucosa oral, atinge frequentemente a mucosa aderida com áreas de necrose superficial e bordas circinadas amareladas.
- Respeita a linha média. Tratamento com antivirais e clorexidina.