Guia de Literatura: Pessoa, O'Neill e Miguel Torga
Enviado por Anônimo e classificado em Língua e literatura
Escrito em em
português com um tamanho de 5,12 KB
Fernando Pessoa: Ortónimo
Fingimento artístico: O poeta é um "fingidor". A poesia não é uma explosão espontânea de sentimentos, mas uma construção intelectual onde a dor sentida é transformada em dor imaginada pela razão (fingir/ser, razão/emoção, fingimento/sinceridade, imaginação/realidade).
Dor de pensar: O sujeito poético sofre de uma angústia existencial causada pelo excesso de reflexão. Isto gera um desejo de "inconsciência alegre", invejando a simplicidade de quem não pensa, como a ceifeira ou os animais. (Pensar — reflexões filosóficas e abstratas — afasta da realidade, gerando inquietação e angústia intelectual).
Sonho e realidade: O sonho surge como um refúgio e escape de uma realidade quotidiana que é sentida como insatisfatória, fragmentada e limitada.
Infância como idade mítica: A infância é vista como um paraíso perdido e uma idade mítica de felicidade, precisamente por ser um tempo onde se sentia sem a necessidade de pensar.
Heterónimos
Alberto Caeiro ("O Mestre"): É o poeta da natureza e da objetividade, o único que conseguiu atingir a paz de espírito. Defende que as coisas não têm um sentido oculto; elas são apenas o que são, ou seja, para ele as coisas não têm sentido além de existirem. Para ele, o conhecimento verdadeiro vem através do sensacionalismo puro (ver, tocar, ouvir, cheirar, sentir), e não do pensamento. (Sensacionismo e valorização da experiência imediata); Exaltação da vida no campo e da natureza como verdade absoluta (O bucolismo e a simplicidade da natureza).
Para Caeiro, "pensar é estar doente dos olhos" e a única metafísica aceitável é não pensar em nada (rejeição do pensamento abstrato).
Ricardo Reis ("O Classicista"): É um médico e monárquico, cuja filosofia baseia-se no Estoicismo (aceitação serena do destino e da morte, acreditando que o ser humano não deve deixar-se afetar pelas emoções) e no Epicurismo (defende a procura de prazeres moderados e a paz interior através do carpe diem — aproveitar o presente com equilíbrio). Possui uma visão politeísta (deuses como símbolo da natureza) e a consciência constante da efemeridade da vida.
Álvaro de Campos ("O Modernista"): Único que apresenta uma evolução nítida na sua escrita, oscilando entre o entusiasmo e a depressão. Divide-se em três fases de escrita:
- Fase futurista e sensacionista: Exaltação das máquinas, da velocidade e da energia do mundo moderno. Ao contrário de Caeiro, o seu sensacionismo é absoluto: ele quer "sentir tudo de todas as maneiras" ao mesmo tempo.
- Fase decadentista: Marcada pelo tédio, cansaço e uso de ópio como refúgio ("Opiário").
- Fase de tédio e angústia existencial: Marcada por um profundo cansaço existencial, vazio e sentimento de fracasso ("Tabacaria"), onde o poeta se sente uma máscara sem nada por trás.
Alexandre O'Neill
A obra dele é descrita como uma "revolta" que evoluiu de um surrealismo radical para uma poesia mais existencial e direta. Os seus pilares principais são:
- A crítica social e política: Utilizava a poesia como uma arma poderosa para denunciar a hipocrisia, o conformismo e a "podridão" da sociedade portuguesa durante o Salazarismo. Não poupava o regime nem os intelectuais que se mantinham em silêncio.
- Surrealismo, absurdo e humor: Utilizava o humor como estratégia de resistência.
- A esperança e o sonho contra a morte: A morte na sua poesia é uma metáfora para o fim da imaginação e dos sonhos.
Miguel Torga
A obra de Torga é descrita como uma reflexão intensa sobre a "alma humana", dividindo-se em três pilares fundamentais:
- A terra, o homem e a natureza (Telurismo): Ao contrário da visão sensorial pacífica de Caeiro, a natureza em Torga é agreste e desafiadora. O autor explora o telurismo, a ideia de que a força magnética da terra e o solo onde se nasce influenciam diretamente os costumes e o caráter humano.
- O homem não deve aceitar o seu destino sem o questionar: O mundo não é lugar para submissão, porque o homem deve ser cantado pela sua coragem, mas não deixa de ser mortal.
- Espelho do sofrimento e da resistência humana: Faz-se um de nós e não um poeta inatingível.