Guia de Mobilização Articular e Método Cyriax

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Tipos de Mobilização

  • Mobilização passiva: Manter a amplitude de movimento, prevenir contraturas. Reduzir dor e melhorar a circulação sanguínea.
  • Mobilização Ativa Assistida: Indicada quando o paciente tem força muscular limitada ou dor, mas pode contribuir para o movimento. Promover o ganho progressivo de força e mobilidade. Prevenir rigidez enquanto o paciente recupera a força.
  • Mobilização Ativa: Melhorar o controlo neuromuscular e a coordenação. Manter ou aumentar a força muscular e a ADM (Amplitude de Movimento).
  • Mobilização resistida: Aumentar a força muscular e promover resistência articular. Melhorar a função em atividades que envolvam carga e esforço.

Princípios Gerais da Mobilização

  1. Conhecer o Doente: Antes de qualquer intervenção, é crucial realizar uma avaliação completa do histórico clínico do paciente.
  2. Envolver o Doente no Processo: A participação ativa do paciente é fundamental. Deve-se explicar claramente os objetivos da técnica e como será a sua colaboração.
  3. Mobilização Sem Dor: A mobilização deve ser realizada dentro de um limiar de conforto, sem provocar dor excessiva. É essencial monitorizar a resposta do paciente e ajustar a intensidade da técnica continuamente.
  4. Posição Correta do Doente: O paciente deve estar posicionado de forma confortável, estável e segura.
  5. Evitar Movimentos Compensatórios: Durante a mobilização, é imperativo observar e corrigir quaisquer movimentos que o paciente realize para compensar a limitação da articulação-alvo.
  6. Respeitar os Limites do Corpo: Nunca se deve forçar uma articulação para além dos seus limites anatómicos e fisiológicos.
  7. Técnicas Preparatórias: A aplicação de calor superficial ou a realização de massagem nos tecidos moles antes da mobilização.
  8. Técnica de Pega e Suporte: O fisioterapeuta deve utilizar uma pega firme e adequada, que garanta o controlo total sobre o segmento a ser mobilizado.
  9. Tensão Progressiva nas Estruturas: A força aplicada para alongar os tecidos deve ser progressiva e controlada.
  10. Monitorizar a Resposta do Doente: A comunicação deve ser constante. O fisioterapeuta deve observar atentamente os sinais verbais e não-verbais do paciente.

Efeitos da Mobilidade Articular

1) Aumento da Mobilidade Articular: Promove o alongamento de tecidos moles periarticulares. 2) Redução da Sensação de Dor: A aplicação de mobilizações suaves estimula mecanorrecetores que, segundo a Teoria da Comporta, inibem a transmissão de sinais de dor ao nível da medula espinal. Estimula a libertação de endorfinas e melhora o alinhamento articular e o funcionamento biomecânico, reduzindo a tensão nas articulações dolorosas. Este fluido é essencial para a nutrição da cartilagem articular. 3) Melhoria do Controlo Neuromuscular: As mobilizações, especialmente as ativas e ativas-assistidas, estimulam os recetores proprioceptivos. 4) Prevenção de Contraturas e Rigidez: A mobilização regular, mesmo que passiva, previne o encurtamento adaptativo dos músculos e a fibrose dos tecidos. 5) Efeitos Psicológicos: A redução da dor e a sensação de progresso contribuem para isso.

Indicações e Contraindicações

A mobilização articular é indicada para:

  1. Rigidez articular;
  2. Contraturas articulares e encurtamento muscular;
  3. Dores articulares;
  4. Pré e pós-operatório;
  5. Recuperação da ADM após imobilização;
  6. Disfunções articulares.

Contraindicações Absolutas:

  • Fraturas não consolidadas ou instabilidade articular grave;
  • Processos inflamatórios agudos;
  • Neoplasias;
  • Luxações ou subluxações;
  • Doenças sistémicas graves;
  • Rotura completa de ligamentos.

Contraindicações Relativas:

  • Osteoporose;
  • Hérnia discal;
  • Doenças cardiovasculares graves;
  • Inflamação ou dor aguda;
  • Gravidez;
  • Hipermobilidade articular.

Contraindicações Específicas para Tecidos Moles:

  • Tromboflebite;
  • Lesões abertas;
  • Edema severo;
  • Cirurgias recentes em tecidos moles.

Precauções Especiais em Pacientes com Patologias Crónicas:

  • Pacientes com doenças metabólicas;
  • Diabetes Mellitus;
  • Doenças Reumáticas;
  • Hipertensão Arterial.

O Modelo de Cyriax

3 princípios de Cyriax:

  • Toda a dor é resultado de uma lesão.
  • Todo o tratamento deve abordar a lesão.
  • Todo o tratamento deve ter um efeito benéfico na lesão.

Definição de End-feel

O end-feel corresponde à sensação que o examinador experimenta quando, durante a realização de um movimento passivo ao utente, a articulação chega ao fim da sua amplitude de movimento disponível.

End-feel normais:

  • Mole: aproximação de duas massas musculares (ex: flexão do joelho);
  • Duro: osso com osso (ex: extensão do cotovelo);
  • Firme ou elástico.

End-feel patológicos:

  • Espasmo;
  • Vazio;
  • Bloqueio Elástico;
  • Os normais quando se encontram numa articulação onde não se devem encontrar.

Padrão Capsular

Corresponde à lesão da cápsula articular, que se manifesta por uma redução da mobilidade, seguindo um padrão específico para cada articulação. A sua importância reside no facto de nos permitir entender se é provável ou não que a causa das queixas do utente esteja na cápsula. Ou seja, se o utente apresentar padrão capsular, é muito provável que a origem da lesão esteja na cápsula.

Dor Referida

A dor tem uma referência segmentar. Pode ser sentida em todo ou parte do dermátomo. Regras para a dor referida:

  • Predominância distal;
  • É sentida profundamente;
  • Por norma, não cruza a linha média.

Massagem Profunda de Cyriax (Fricção)

Condições específicas de aplicação: Disfunção acrómio-clavicular, epicondilites, epitrocleítes, subluxação do capitato, lesão dos ligamentos laterais do punho, tendinite do cubital posterior e anterior, tendinite do 1º e 2º radial, tenossinovite de Quervain.

Efeitos da aplicação: A pressão profunda e contínua nos tecidos causa lesão local e liberta uma substância similar à histamina e outros metabólitos que atuam diretamente nos capilares e arteríolas do local, causando vasodilatação. A vasodilatação local promove um aumento do líquido tecidular da área, o que provocará distensão local. O movimento produz uma inflamação controlada da área-alvo e, ao mesmo tempo, mobiliza as estruturas que não apresentavam uma mobilidade correta.

Contraindicações:

  • Ossificação e calcificação de tecidos moles;
  • Tendinite/tenossinovite bacteriana ou reumatoide;
  • Problemas de pele (úlceras, psoríase, blisters);
  • Infeção bacteriana vizinha;
  • Bursite e distúrbios de estruturas nervosas;
  • Hematoma (se for grande).

Avaliação e Execução segundo Cyriax

1. Movimentos Ativos:

  • Avaliar a vontade e a capacidade do paciente para realizar o movimento;
  • Determinar a amplitude de movimento disponível;
  • Avaliar a força muscular global.

2. Movimentos Passivos:

  • Avaliar a presença de dor e em que ponto da amplitude surge;
  • Determinar a amplitude de movimento passiva real;
  • Caracterizar o end-feel no final da amplitude.

3. Movimentos Resistidos:

  • Avaliar a presença de dor durante a contração muscular isométrica;
  • Determinar a força muscular da unidade contrátil específica.

Questões Diagnósticas de Cyriax:

  • Quais as articulações envolvidas?
  • É uma dor que se consegue reproduzir?
  • Há limitação de movimento?
  • O que se sente no final da amplitude de movimento?
  • A lesão envolve tecido contrátil ou inerte?
  • Se envolve o tecido inerte, a perda de amplitude de movimento segue um padrão capsular?

Categorias de Distúrbios Musculoesqueléticos:

  • Traumático: Lesão resultante de um único trauma agudo ou de múltiplos microtraumas repetidos (lesões por overuse).
  • Inflamatório: Processo inflamatório de origem traumática ou degenerativa, incluindo condições como a artrite reumatoide.
  • Desarranjo Interno: Presença de corpos intra-articulares que interferem com a mecânica normal, como fragmentos de menisco, cartilagem ou deslocamentos do disco intervertebral.
  • Distúrbios Funcionais: Alterações da função sem uma lesão estrutural evidente, como instabilidade articular, fraqueza muscular ou défices proprioceptivos.
  • Dor Psicogénica: Dor para a qual não se encontra uma explicação funcional ou anatómica.

Princípios Fundamentais de Execução:

  • A fricção deve ser aplicada exatamente no ponto correto da lesão.
  • A estrutura a ser tratada deve estar posicionada adequadamente: em estiramento para ligamentos e tendões, ou em relaxamento para ventres musculares.
  • Os dedos do terapeuta devem movimentar-se com a pele e os tecidos subcutâneos, e não deslizar sobre eles. Por este motivo, não se utiliza qualquer tipo de lubrificante.
  • A pressão é aplicada apenas numa direção (para a frente ou para trás) durante a fase ativa do movimento.
  • Os movimentos devem possuir profundidade e amplitude suficientes para atingir a estrutura lesionada.
  • Para músculos de grandes dimensões (ex: quadríceps), pode ser necessário aplicar um reforço com dois dedos ou polegares para garantir a pressão adequada.

Graus de Mobilização no Modelo de Cyriax:

  • Grau A: Corresponde a um movimento passivo realizado dentro da amplitude de movimento livre de dor. O seu objetivo é principalmente a redução da dor e a manutenção da mobilidade existente.
  • Grau B: Refere-se a movimentos passivos realizados até ao final da amplitude de movimento possível, que é indicado pela sensação terminal (end-feel). Todas as técnicas de alongamento e tração são consideradas mobilizações de Grau B, visando o aumento da amplitude.
  • Grau C (Manipulação): Consiste num impulso (thrust) de alta velocidade e pequena amplitude, com uma força mínima, realizado no final da amplitude de movimento, no momento exato em que o terapeuta atinge o end-feel.

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