Guia de Mobilização Articular e Método Cyriax
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Tipos de Mobilização
- Mobilização passiva: Manter a amplitude de movimento, prevenir contraturas. Reduzir dor e melhorar a circulação sanguínea.
- Mobilização Ativa Assistida: Indicada quando o paciente tem força muscular limitada ou dor, mas pode contribuir para o movimento. Promover o ganho progressivo de força e mobilidade. Prevenir rigidez enquanto o paciente recupera a força.
- Mobilização Ativa: Melhorar o controlo neuromuscular e a coordenação. Manter ou aumentar a força muscular e a ADM (Amplitude de Movimento).
- Mobilização resistida: Aumentar a força muscular e promover resistência articular. Melhorar a função em atividades que envolvam carga e esforço.
Princípios Gerais da Mobilização
- Conhecer o Doente: Antes de qualquer intervenção, é crucial realizar uma avaliação completa do histórico clínico do paciente.
- Envolver o Doente no Processo: A participação ativa do paciente é fundamental. Deve-se explicar claramente os objetivos da técnica e como será a sua colaboração.
- Mobilização Sem Dor: A mobilização deve ser realizada dentro de um limiar de conforto, sem provocar dor excessiva. É essencial monitorizar a resposta do paciente e ajustar a intensidade da técnica continuamente.
- Posição Correta do Doente: O paciente deve estar posicionado de forma confortável, estável e segura.
- Evitar Movimentos Compensatórios: Durante a mobilização, é imperativo observar e corrigir quaisquer movimentos que o paciente realize para compensar a limitação da articulação-alvo.
- Respeitar os Limites do Corpo: Nunca se deve forçar uma articulação para além dos seus limites anatómicos e fisiológicos.
- Técnicas Preparatórias: A aplicação de calor superficial ou a realização de massagem nos tecidos moles antes da mobilização.
- Técnica de Pega e Suporte: O fisioterapeuta deve utilizar uma pega firme e adequada, que garanta o controlo total sobre o segmento a ser mobilizado.
- Tensão Progressiva nas Estruturas: A força aplicada para alongar os tecidos deve ser progressiva e controlada.
- Monitorizar a Resposta do Doente: A comunicação deve ser constante. O fisioterapeuta deve observar atentamente os sinais verbais e não-verbais do paciente.
Efeitos da Mobilidade Articular
1) Aumento da Mobilidade Articular: Promove o alongamento de tecidos moles periarticulares. 2) Redução da Sensação de Dor: A aplicação de mobilizações suaves estimula mecanorrecetores que, segundo a Teoria da Comporta, inibem a transmissão de sinais de dor ao nível da medula espinal. Estimula a libertação de endorfinas e melhora o alinhamento articular e o funcionamento biomecânico, reduzindo a tensão nas articulações dolorosas. Este fluido é essencial para a nutrição da cartilagem articular. 3) Melhoria do Controlo Neuromuscular: As mobilizações, especialmente as ativas e ativas-assistidas, estimulam os recetores proprioceptivos. 4) Prevenção de Contraturas e Rigidez: A mobilização regular, mesmo que passiva, previne o encurtamento adaptativo dos músculos e a fibrose dos tecidos. 5) Efeitos Psicológicos: A redução da dor e a sensação de progresso contribuem para isso.
Indicações e Contraindicações
A mobilização articular é indicada para:
- Rigidez articular;
- Contraturas articulares e encurtamento muscular;
- Dores articulares;
- Pré e pós-operatório;
- Recuperação da ADM após imobilização;
- Disfunções articulares.
Contraindicações Absolutas:
- Fraturas não consolidadas ou instabilidade articular grave;
- Processos inflamatórios agudos;
- Neoplasias;
- Luxações ou subluxações;
- Doenças sistémicas graves;
- Rotura completa de ligamentos.
Contraindicações Relativas:
- Osteoporose;
- Hérnia discal;
- Doenças cardiovasculares graves;
- Inflamação ou dor aguda;
- Gravidez;
- Hipermobilidade articular.
Contraindicações Específicas para Tecidos Moles:
- Tromboflebite;
- Lesões abertas;
- Edema severo;
- Cirurgias recentes em tecidos moles.
Precauções Especiais em Pacientes com Patologias Crónicas:
- Pacientes com doenças metabólicas;
- Diabetes Mellitus;
- Doenças Reumáticas;
- Hipertensão Arterial.
O Modelo de Cyriax
3 princípios de Cyriax:
- Toda a dor é resultado de uma lesão.
- Todo o tratamento deve abordar a lesão.
- Todo o tratamento deve ter um efeito benéfico na lesão.
Definição de End-feel
O end-feel corresponde à sensação que o examinador experimenta quando, durante a realização de um movimento passivo ao utente, a articulação chega ao fim da sua amplitude de movimento disponível.
End-feel normais:
- Mole: aproximação de duas massas musculares (ex: flexão do joelho);
- Duro: osso com osso (ex: extensão do cotovelo);
- Firme ou elástico.
End-feel patológicos:
- Espasmo;
- Vazio;
- Bloqueio Elástico;
- Os normais quando se encontram numa articulação onde não se devem encontrar.
Padrão Capsular
Corresponde à lesão da cápsula articular, que se manifesta por uma redução da mobilidade, seguindo um padrão específico para cada articulação. A sua importância reside no facto de nos permitir entender se é provável ou não que a causa das queixas do utente esteja na cápsula. Ou seja, se o utente apresentar padrão capsular, é muito provável que a origem da lesão esteja na cápsula.
Dor Referida
A dor tem uma referência segmentar. Pode ser sentida em todo ou parte do dermátomo. Regras para a dor referida:
- Predominância distal;
- É sentida profundamente;
- Por norma, não cruza a linha média.
Massagem Profunda de Cyriax (Fricção)
Condições específicas de aplicação: Disfunção acrómio-clavicular, epicondilites, epitrocleítes, subluxação do capitato, lesão dos ligamentos laterais do punho, tendinite do cubital posterior e anterior, tendinite do 1º e 2º radial, tenossinovite de Quervain.
Efeitos da aplicação: A pressão profunda e contínua nos tecidos causa lesão local e liberta uma substância similar à histamina e outros metabólitos que atuam diretamente nos capilares e arteríolas do local, causando vasodilatação. A vasodilatação local promove um aumento do líquido tecidular da área, o que provocará distensão local. O movimento produz uma inflamação controlada da área-alvo e, ao mesmo tempo, mobiliza as estruturas que não apresentavam uma mobilidade correta.
Contraindicações:
- Ossificação e calcificação de tecidos moles;
- Tendinite/tenossinovite bacteriana ou reumatoide;
- Problemas de pele (úlceras, psoríase, blisters);
- Infeção bacteriana vizinha;
- Bursite e distúrbios de estruturas nervosas;
- Hematoma (se for grande).
Avaliação e Execução segundo Cyriax
1. Movimentos Ativos:
- Avaliar a vontade e a capacidade do paciente para realizar o movimento;
- Determinar a amplitude de movimento disponível;
- Avaliar a força muscular global.
2. Movimentos Passivos:
- Avaliar a presença de dor e em que ponto da amplitude surge;
- Determinar a amplitude de movimento passiva real;
- Caracterizar o end-feel no final da amplitude.
3. Movimentos Resistidos:
- Avaliar a presença de dor durante a contração muscular isométrica;
- Determinar a força muscular da unidade contrátil específica.
Questões Diagnósticas de Cyriax:
- Quais as articulações envolvidas?
- É uma dor que se consegue reproduzir?
- Há limitação de movimento?
- O que se sente no final da amplitude de movimento?
- A lesão envolve tecido contrátil ou inerte?
- Se envolve o tecido inerte, a perda de amplitude de movimento segue um padrão capsular?
Categorias de Distúrbios Musculoesqueléticos:
- Traumático: Lesão resultante de um único trauma agudo ou de múltiplos microtraumas repetidos (lesões por overuse).
- Inflamatório: Processo inflamatório de origem traumática ou degenerativa, incluindo condições como a artrite reumatoide.
- Desarranjo Interno: Presença de corpos intra-articulares que interferem com a mecânica normal, como fragmentos de menisco, cartilagem ou deslocamentos do disco intervertebral.
- Distúrbios Funcionais: Alterações da função sem uma lesão estrutural evidente, como instabilidade articular, fraqueza muscular ou défices proprioceptivos.
- Dor Psicogénica: Dor para a qual não se encontra uma explicação funcional ou anatómica.
Princípios Fundamentais de Execução:
- A fricção deve ser aplicada exatamente no ponto correto da lesão.
- A estrutura a ser tratada deve estar posicionada adequadamente: em estiramento para ligamentos e tendões, ou em relaxamento para ventres musculares.
- Os dedos do terapeuta devem movimentar-se com a pele e os tecidos subcutâneos, e não deslizar sobre eles. Por este motivo, não se utiliza qualquer tipo de lubrificante.
- A pressão é aplicada apenas numa direção (para a frente ou para trás) durante a fase ativa do movimento.
- Os movimentos devem possuir profundidade e amplitude suficientes para atingir a estrutura lesionada.
- Para músculos de grandes dimensões (ex: quadríceps), pode ser necessário aplicar um reforço com dois dedos ou polegares para garantir a pressão adequada.
Graus de Mobilização no Modelo de Cyriax:
- Grau A: Corresponde a um movimento passivo realizado dentro da amplitude de movimento livre de dor. O seu objetivo é principalmente a redução da dor e a manutenção da mobilidade existente.
- Grau B: Refere-se a movimentos passivos realizados até ao final da amplitude de movimento possível, que é indicado pela sensação terminal (end-feel). Todas as técnicas de alongamento e tração são consideradas mobilizações de Grau B, visando o aumento da amplitude.
- Grau C (Manipulação): Consiste num impulso (thrust) de alta velocidade e pequena amplitude, com uma força mínima, realizado no final da amplitude de movimento, no momento exato em que o terapeuta atinge o end-feel.