h2: A Pintura de Si em Montaigne: Análise de Telma Birchal

Classificado em Língua e literatura

Escrito em em português com um tamanho de 7,72 KB

A Filosofia e a Inquietude do Mundo

A Filosofia traz consigo uma espécie de caixa de Pandora a todos que se dedicam, e tal caixa traz uma inquietação diante do mundo. Seu enfrentamento demanda a difícil combinação entre bom senso e perspicácia, atenção ao pormenor e capacidade de distanciamento, a ser alimentado por um ânimo em que devem convergir o talento para lidar com o complexo e a aptidão para a simplicidade, sem desperdiçar os recursos teóricos compatíveis com o desenvolvimento de cada um deles. Mobilizando no espírito que se lança a ela possibilidades paradoxais, a tarefa talvez se apresente melhor como configuração clara dos termos de um enigma do que como solução ou equacionamento de um problema – seu horizonte parece infinito.

h3: Força da Interpretação em "O Eu nos Ensaios de Montaigne"

Ao final de uma primeira leitura, o que impressiona neste O Eu nos Ensaios de Montaigne, de Telma Birchal, são a força e a consistência dos resultados obtidos na interpretação do tema da "pintura de si", tópico central, nos Ensaios, para tudo o que concerne à questão clássica referida acima. A evidente familiaridade com o conjunto da obra montaigneana dota a pesquisa de grande abrangência, que vem secundada por um uso criterioso do fôlego analítico necessário para sua consecução. Não menos importante, o diálogo com a fortuna crítica do autor é também fecundo e bem dosado, promovendo uma circulação segura entre as diversas polarizações que balizam o campo de estudo em que se transita. O saldo mais notável disso é a realização autorizada de um percurso próprio com o potencial de reordenar as perspectivas de acesso ao assunto tratado. Pois os deslocamentos que calçam o passo do texto sublinham a maturidade do trabalho, tornando bastante plausível a figuração da subjetividade que nele se constrói.

h4: A Montagem do Problema: Moralidade e Ceticismo

A montagem do problema, para começar, é muito feliz. Após inspecionar brevemente as características que convertem o cartesianismo num marco incontornável para pensar a questão do sujeito – sem descuidar de sua inscrição histórica relativa aos antigos e aos demais modernos –, a autora estabelece sua pedra de toque. Não obstante a relevância da dimensão epistemológica aí envolvida – contemplada inclusive por Montaigne, como se sabe –, o âmbito em que a matéria se desdobra é, preferencialmente, o da moral. Não é uma inflexão fácil e nem decide as coisas de uma vez por todas, como atesta a atenção continuada que se verifica ao longo de todo o livro em relação à validação dos discursos e à determinação exata de seus estatutos. Em todo caso, o exame preliminar da "Apologia de Raimond Sebond" conforma com nitidez o quadro em que estamos nos movimentando, pois esclarece de modo amplamente defensável o significado do ceticismo do filósofo, em vista do andamento posterior da composição de sua "pintura de si". A instanciação da sequência de objeções e tréplicas à teologia de Sebond permite que se focalizem com precisão as opiniões em jogo a respeito das possibilidades da razão em relação à verdade. O dilema que envolve pirrônicos e dogmáticos é saneado pela crítica montaigneana e sua superação se dá em direção a outras paisagens. Legitima-se, assim, a passagem às próximas etapas da reflexão, em que as preocupações éticas são preponderantes.

h5: Desvendando o Relativismo e o Naturalismo

Ainda uma vez, a escolha dos ensaios de referência revela-se oportuna para os fins em vista. O acento, por assim dizer, comparatista presente em "Dos canibais" e "Da arte de conversar" permite que se entenda a escrita em investigação para além de rubricas simplificadoras, como relativismo e naturalismo. As experiências do contraste e da alteridade, tomadas a favor de uma construção ativa de si, rechaçam a caracterização de Montaigne como um relativista a mais. A ausência de fundamentação epistêmica, a essa altura novamente justificada, não conduz à anulação da subjetividade, mas, ao contrário, desimpede o caminho para seu exercício. Fica claro também que a pluralidade de ângulos empregados pelo filósofo não se resolve através de uma redução do que se lê a uma cifra meramente naturalizada. Em suma: não se trata de calibrar o compasso de Protágoras, mas de mapear o curso da navegação com outros instrumentos, de modo a passar ao largo de exigências exorbitantes no tocante à verdade.

h6: A Conversação como Exercício de Integridade

Embora sem fundamentos, o saber não chega a existir sem exame. E uma modalidade promissora deste é a conversação – ou debate – na qual a aliança agonística dos interlocutores milita contra a tirania dos que se julgam de posse da verdade. Além disso, a autora nos mostra o sentido pedagógico da conversa e indica quais são as credenciais que podem contribuir para a validação das opiniões lá expressas. Ao se medir com seu amigo/adversário, um homem de bem tende a reconhecer as limitações inerentes a si mesmo, aprendendo a observar-se e aos seus afetos e pontos de vista à distância. Desse exercício recolhe-se algo extraordinário: o compromisso com a própria integridade. Bem entendido, não se trata de uma gravação lapidar em uma base substantiva, mas apenas da freqüentação de uma escola de probidade. Vale apontar, por curiosidade, que o Nietzsche de Ecce Homo tem suas cores muito realçadas à luz do que se lê aqui.

h3: A Propositura Central: A Subjetividade em Montaigne

O tratamento específico dos objetivos fixados de início dá ensejo ao ponto alto do livro. Em torno da "pintura de si" e da qualificação de "O Eu dos Ensaios" articula-se a vertente mais propriamente propositiva do estudo, pela qual somos inteirados dos contornos e dos elementos constitutivos da subjetividade a partir de Montaigne. O senso de colocação da autora prova-se outra vez um guia confiável: equidistante das problematizações subordinadas a uma filosofia da representação, ela evita os equívocos simétricos da substancialização do sujeito e de seu esvaziamento ou anulação completos. Somente sob a lógica da definição da unidade essencial sob as aparências, afinal demasiado metafísica, tais leituras seriam conseqüentes – e este não é, definitivamente, o caso. Por outro lado, também consciente das fragilidades implicadas nos modos antigo e moderno de lidar com o sujeito – em bloco: ali, alma reificada, objeto entre objetos; aqui, coisa pensante ou, no pólo extremo, apenas "feixe de sensações" – o texto oferece sua versão sobre o que quer dizer "pintar a passagem". Nem entusiasmo e nem renúncia, mas atividade criativa, que enreda as vivências e as experiências do corpo, o pensado e o provado numa trama narrativa que nos dá a chance de situarmo-nos no mundo em nome próprio.

h4: O Legado da Obra: Um Exemplo para a Subjetividade Contemporânea

A retomada do livro, em segundas leituras, reserva-nos ainda algo a dizer. Os Ensaios exibem a feição de um labirinto para o leitor desavisado. Saber quem fala ali é dispor de um fio de ouro. Ora, uma reconstrução sóbria desse sujeito, sem ornamentos, mas não sem elegância, assinala um tento importante. O proveito que se tira dessas páginas rigorosas e serenas serve não só para o erudito dedicado a Montaigne, mas para todos os contemporâneos interessados em uma nova configuração da subjetividade. O belo retrato de que dispomos agora, amálgama do filósofo e de sua obra – evocando para nós mais Jan van Eyck que Francis Bacon – pode decerto nos valer como exemplo para a formação de uma imagem/identidade menos obscura de nós mesmos.

Entradas relacionadas: