Hannah Arendt e a Banalidade do Mal: Uma Análise Crítica
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Resenha Intelectual
Hannah Arendt: Eichmann em Jerusalém – A Banalidade do Mal
Lucas Santiago S. Thomaz 09/12409
Introdução à Filosofia, Turma O
Professor José Wilson
Introdução
O livro descreve a cobertura jornalística que Hannah Arendt fez para a revista New Yorker sobre o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann. A autora tenta entender as várias facetas envolvidas no julgamento do criminoso. Nele, ela discorre não somente sobre o desenrolar das sessões, mas faz uma análise da "pessoa Eichmann". Segundo ela, Adolf Eichmann não possuía um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de uma pessoa com caráter distorcido ou doentio. Ele agiu como agiu por desejo de ascender em sua carreira profissional, e seus atos foram resultados do cumprimento de ordens superiores. Ele era um simples burocrata que cumpria ordens sem racionalizar suas consequências. Para Eichmann, tudo era realizado com zelo e eficiência, e não havia nele o sentimento de "bem" ou "mal" em seus atos.
Adolf Eichmann, ao contrário do que a acusação insistia em demonstrar, era uma pessoa normal, sem a expressão diabólica esperada de um oficial nazista. Apesar de apontar traços de mediocridade na personalidade de Eichmann, Hannah Arendt destaca, através da história e de algumas declarações do réu, que não há como deixar de notar a coerência de suas atitudes. Por outro lado, o livro apresenta uma série de trapalhadas do governo israelense — inclusive a forma como se deu o rapto de Eichmann em Buenos Aires —, que fez de tudo, até mesmo distorcer a história, para encarnar Hitler na pessoa do réu. Relata ainda que os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam (p. 121).
Em cima desta análise, ela criou a expressão "Banalidade do Mal" para indicar que alguns indivíduos agem dentro das regras do sistema a que pertencem sem racionalizar sobre seus atos. Eles não se preocupam com as consequências destes, só com o cumprimento das ordens. A tortura, a execução de seres humanos ou a prática de atos do "mal" não são racionalizados em seu resultado final, desde que as ordens para executá-los advenham de instâncias superiores. Arendt classifica o mal praticado por Eichmann como o "mal banal", feito por homens que não pensam criticamente.
Hannah Arendt discorre sobre a complexidade da natureza humana e alerta que é necessário estar sempre atento para o que chamou de "banalidade de atos do mal" e evitar a sua ocorrência. Hoje, a frase é utilizada com significação universal para descrever o comportamento de alguns personagens históricos que cometeram atos de extrema crueldade e sem nenhuma compaixão para com outros seres humanos, e que em suas vidas pregressas não foram encontrados traços de traumas ou quaisquer desvios de personalidade que justificassem os seus atos. Em resumo: eles eram "pessoas normais".
A tese do "mal banal" de Hannah Arendt, embora não pareça ser uma tese completa para explicar os males praticados pelos homens, serve como explicação para muitos comportamentos humanos de hoje. De fato, diariamente somos confrontados com homicídios e monstruosidades sem fim por motivos totalmente banais. Males, ao que parece, sem raízes lógicas nem explicações humanitárias: a pura irracionalidade. E por que, segundo Hannah Arendt, existiriam tais males? Porque o ser humano não é educado para pensar criticamente a realidade da vida e a organização das estruturas sociais. Fundamental seria a educação da juventude, tornando-a capaz de analisar criticamente as práticas religiosas, culturais e políticas de nosso tempo.
Estamos diante de um tipo de mal sem relação com a maldade, uma patologia ou uma convicção ideológica. Trata-se do mal como causa do mal, pois não tem outro fundamento. O praticante do mal banal não conhece a culpa. Ele não praticou o mal motivado pela ambição, ódio ou doença psíquica. Nada disso foi encontrado em Eichmann. A única coisa que chamou atenção de Arendt foi a sua incapacidade de pensar. Ao renunciar ao pensamento, Eichmann destituiu-se da condição de ser dotado de espírito que lhe possibilitaria o descondicionamento e, assim, dizer: "não, isso eu não posso".
O mal banal caracteriza-se pela ausência do pensamento. Essa ausência provoca a privação de responsabilidade. O praticante do mal banal submete-se de tal forma a uma lógica externa que não enxerga a sua responsabilidade nos atos que pratica. Age como mera engrenagem. Não se interroga sobre o sentido da sua ação ou dos acontecimentos ao seu redor. Buscar o sentido não é apenas se informar, não é algo da ordem do conhecimento nem da aferição da eficácia. Trata-se de medir e buscar a estatura do que está acontecendo a partir do crivo da dignificação dos envolvidos. Quem pensa resiste à prática do mal. O praticante do mal banal renuncia à capacidade pertencente aos humanos de mudar o curso das ações rotineiras através do exercício da vontade própria. Repete heteronomamente o seu comportamento. Renuncia, desse modo, à faculdade do julgamento. Em suma, recusa-se a viver com os dons provenientes das suas faculdades espirituais: pensar, querer e julgar.
Ser obediente é uma virtude em qualquer situação?
Em suas reflexões sobre ética, Aristóteles afirma que o propósito da vida humana é a obtenção do que ele chama de "vida boa". Isso significava, ao mesmo tempo, "vida do bem e vida harmoniosa". Ou seja, para Aristóteles, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos sobrepostos, e ambos estavam presentes na atividade pública. O melhor governo, dizia ele, seria "aquele em que cada um melhor encontra o que necessita para ser feliz".
Por ter potencialidades múltiplas, o ser humano só será feliz e dará sua melhor contribuição ao mundo se desfrutar das condições necessárias para desenvolver o talento. A organização social e política, em geral, e a educação, em particular, têm a responsabilidade de fornecer essas condições. A virtude, para Aristóteles, é uma prática e não um dado da natureza de cada um, tampouco o mero conhecimento do que é virtuoso.
Aristóteles entende que a natureza do homem bom é composta de duas partes distintas: um corpo e uma alma. Na alma está a razão e o desejo, sendo que o intelecto (nous) é a parte superior da alma. Dessa forma, o intelecto é quem deve mandar, enquanto a outra parte (o corpo), privada de razão, deve obedecer.
Também parece razoável pensar que o dever de obediência pode decorrer de um contexto cultural em que as pessoas estão inseridas. Aquele que obedece recebe aprovação da sociedade, e os desobedientes contumazes são tratados como antissociais, desordeiros, rebeldes ou anormais. Assim, seja por razões genéticas, seja por razões culturais, ou por uma combinação de ambos os fatores, os seres humanos estão propensos a obedecer. Seres humanos podem realizar ações inimagináveis, do ponto de vista da destruição e da morte, sem qualquer motivação maligna. Ser obediente é uma virtude em qualquer situação?
A pessoa não vê a situação como um todo, diz Milgram, mas apenas vê uma pequena parcela do geral, e assim fica incapaz de agir em algum tipo de direção geral. A pessoa se sujeita à autoridade e, ao fazer isso, aliena-se de suas próprias ações (p. 28).
Referências
- MILGRAM, Stanley. Obediência à Autoridade. São Paulo: Ed. Francisco Alves, 1983.
- VIRTUDE SEGUNDO O FILÓSOFO ARISTÓTELES. Disponível em: http://pt.shvoong.com/humanities/philosophy/1857340-virtude-segundo-fil%C3%B3sofo-arist%C3%B3teles/.
- ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.