Impérios, Islã e Feudalismo na Alta Idade Média
Império Bizantino (Império Romano do Oriente)
O Império Bizantino, ou Império do Oriente, era mais rico do que o Império Ocidental e resistiu às invasões germânicas. Sua capital era Constantinopla (antiga Bizâncio, hoje Istambul), construída pelo imperador Constantino.
O Reinado de Justiniano
O imperador bizantino mais importante foi Justiniano. Para governar o império, ele estabeleceu uma boa organização:
- O Basileu (imperador) concentrava todos os poderes.
- O império possuía uma extensa rede de funcionários e um exército poderoso.
- Justiniano criou o Código Justiniano (Corpus Juris Civilis).
Após a morte de Justiniano, o império entrou em declínio. Em 1453, o Império Bizantino desapareceu, conquistado pelas autoridades turcas.
Características do Império
- As cidades mantiveram suas funções comerciais. As moedas bizantinas foram o principal meio de pagamento no Mediterrâneo por muito tempo.
- Após o reinado de Justiniano, o grego substituiu o latim como língua oficial.
- Ocorreu o Cisma do Oriente, que incluiu a proibição do culto às imagens (ícones).
Arte Bizantina
A arte bizantina era rica e focada em obras religiosas (Igrejas). Suas características incluem:
- Planta em Cruz Grega (com cúpula).
- Uso de mosaicos, que cobriam as paredes e tetos de igrejas e palácios.
Império Carolíngio
Após a desintegração do Império Romano no século V, o reino dos Francos estabeleceu-se nos territórios que hoje correspondem à França.
Ascensão dos Carolíngios
Neste reino, os reis eram fracos e deixavam o governo nas mãos de altos funcionários, os Mordomos do Palácio (Majordomus).
- O mordomo mais importante foi Carlos Martel, que em 732 derrotou os muçulmanos na Batalha de Poitiers, impedindo a queda do reino sob domínio muçulmano.
- Seu filho, Pepino, o Breve, depôs o último monarca franco em 751 e foi coroado rei.
Carlos Magno e a Organização do Império
O sucessor de Pepino foi seu filho, Carlos Magno, que tentou reconstruir o Império Romano do Ocidente. Seu poder era tão grande que, no dia de Natal do ano 800, o Papa o coroou Imperador do Ocidente.
Para melhor governar, o império foi dividido em:
- Condados: Províncias governadas por um Conde.
- Marcas: Territórios de fronteira com um exército, comandados por um Marquês.
Condes e Marqueses tinham que jurar fidelidade ao imperador. No império, prevalecia uma vida de caráter rural.
Divisão do Império
O único filho sobrevivente de Carlos Magno, Luís, o Piedoso, dividiu o império entre seus descendentes: Luís, Carlos e Lotário. Os irmãos se enfrentaram e, finalmente, assinaram o Tratado de Verdun (843), que reconheceu a divisão do império. Após a morte de Lotário, seu reino foi dividido entre seus dois irmãos.
O Islã e Maomé
Maomé é o fundador do Islã. A Península Arábica é uma vasta península da Ásia, situada entre o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, com um clima desértico. Os árabes estavam organizados em tribos nômades, dedicadas à pastoragem e eram politeístas. Não havia um poder político centralizado.
As duas grandes cidades eram Meca (a cidade santa) e Medina, onde o comércio se concentrava.
A Hégira e a Expansão
Maomé era um comerciante em Meca. Ele conhecia as duas religiões monoteístas, o Judaísmo e o Cristianismo. Após uma revelação, ele abandonou seu emprego e dedicou-se à pregação do Islã. Os mercadores de Meca reagiram contra Maomé, que teve que se mudar para Medina em 622. Esta data é chamada de Hégira e marca o início do calendário muçulmano.
Em Medina, Maomé recrutou um exército e conquistou Meca. A partir daí, o Islã se expandiu por toda a Arábia. Quando Maomé morreu, quase todos os árabes praticavam a religião islâmica.
A Religião Islâmica: Os Cinco Pilares
A pregação de Maomé está definida no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Os muçulmanos devem cumprir cinco obrigações fundamentais (Os Cinco Pilares):
- Crer que Deus é Único (Alá).
- Rezar cinco vezes ao dia.
- Fazer a peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida.
- Fazer o jejum durante o mês do Ramadã.
- Dar esmolas para ajudar os pobres.
A Mesquita
A mesquita é o lugar onde os muçulmanos se reúnem para orar. Todas as mesquitas são inspiradas na casa de Maomé em Medina e possuem os seguintes elementos:
- Um grande pátio com uma fonte para as abluções (purificação do corpo antes da oração).
- Um minarete, uma torre de onde o almuadem chama para a oração cinco vezes por dia.
- Uma sala de colunas onde os fiéis rezam (Haram).
- Uma parede chamada alquible, onde se localiza o mihrab, um nicho que indica a direção de Meca.
- O minbar, o púlpito de onde o imã conduz a oração.
O interior da mesquita e dos palácios é decorado com motivos vegetais, geométricos e caligrafia árabe, pois a religião muçulmana proíbe figuras humanas. A mesquita também servia como escola.
A Propagação do Islã e as Dinastias
Após a morte de Maomé, os exércitos muçulmanos difundiram a nova religião através da Guerra Santa, criando um vasto império. O Califa era a autoridade máxima, auxiliado pelo Vizir (conselheiro).
- Em 661, o Califa Ali (da família de Maomé) foi morto, e o poder passou para a dinastia Omíada. Eles mudaram a capital para Damasco e conquistaram vastos territórios, incluindo a Pérsia.
- Em 750, a família Omíada foi deposta, e o poder passou para a família Abássida. A nova capital foi Bagdá.
No século XIII, o império entrou em declínio, e o Império Turco conquistou grande parte do mundo islâmico.
A Civilização Islâmica
A civilização islâmica floresceu, especialmente devido a uma economia próspera e ao crescimento de cidades como Damasco, Bagdá, Córdoba e Cairo.
- Agricultura: Muito produtiva, utilizando técnicas de irrigação e moinhos. Propagaram culturas como arroz, laranja, açafrão e cana-de-açúcar.
- Artesanato: De grande qualidade (cerâmica, armas, tecidos).
- Comércio: Rotas terrestres (caravanas) e marítimas (navios) ligavam a Europa e a Ásia.
- Inovações: Trouxeram da Ásia novas técnicas (fabricação de papel) e objetos (pólvora, bússola) que chegaram à Europa. Desenvolveram a astronomia, a matemática (introdução do zero e dos algarismos arábicos), a álgebra e a medicina (com médicos como Avicena e Averróis).
A Sociedade Feudal: Os Camponeses
Cerca de 90% da população na Idade Média era composta por agricultores. Eles se dividiam em duas categorias:
Servos
Os servos estavam totalmente sob a autoridade do Senhor. Eles não podiam deixar a terra nem se casar sem a permissão dele. Trabalhavam gratuitamente, cultivando a terra da reserva senhorial ou realizando serviços domésticos. Em troca, recebiam alimentos do Senhor. A servidão era hereditária, passada de pai para filho.
Camponeses Livres
Os camponeses livres podiam deixar a terra. Trabalhavam nas fazendas do manso e pagavam aluguel ao Senhor, mas podiam ficar com o restante da colheita. Pagavam também o dízimo à Igreja (uma porcentagem da colheita).
A Vida e o Trabalho no Campo
As famílias rurais viviam em pequenas aldeias, em casas muito pobres feitas de madeira, barro e canas, consistindo geralmente em um único cômodo onde toda a família comia e dormia. Os móveis eram escassos, e era comum compartilhar o mesmo quarto com os animais domésticos. O pai era o chefe da família.
Os camponeses eram autossuficientes, produzindo tudo o que precisavam (alimentos cultivados e roupas tecidas pelas mulheres). Tinham um padrão de vida muito baixo, comiam mal, não tinham medicamentos e a vida era curta. Secas, inundações, epidemias e pragas causavam muitas mortes.
O trabalho no campo era muito difícil, realizado de sol a sol. Como não havia fertilizantes, a cada ano cultivava-se apenas metade do terreno, e a outra metade era deixada em pousio. A produção agrícola foi muito baixa.
O Clero e a Igreja Católica
A Igreja Católica estava presente em toda a Europa Ocidental. O Papa de Roma era o chefe da Igreja, governava os Estados Pontifícios e possuía seus próprios exércitos. O Papa tinha grande influência: se um rei não se comportasse adequadamente, ele poderia ser excomungado (expulso da Igreja). A excomunhão era um castigo muito severo, pois liberava os súditos da lealdade ao rei.
Ordens Religiosas
A maior ordem religiosa da Idade Média foi a dos Beneditinos, fundada por São Bento de Núrsia, na Itália, no século VI, e que se espalhou por toda a Europa. Cada ordem tinha uma regra que detalhava sua organização, e para participar era necessário jurar fidelidade a essa regra.
Os monges viviam em conventos e mosteiros, dedicados a:
- Rezar e meditar.
- Cultivar o jardim e cuidar dos pobres e enfermos.
- Copiar manuscritos à mão nas bibliotecas dos mosteiros, decorando-os com pequenas ilustrações chamadas miniaturas.
Os mosteiros geralmente se localizavam em lugares isolados, nos arredores das aldeias.
O Feudalismo
Com a fragmentação do Império Carolíngio, a Europa dividiu-se em muitos reinos. Os reis eram fracos e não possuíam um exército centralizado. Sem a proteção real, os camponeses buscaram refúgio junto aos nobres, que possuíam exércitos próprios e castelos para proteção local. Em troca de proteção, os camponeses trabalhavam para o nobre e estavam sob sua autoridade, tornando-se servos.
O Feudalismo é um novo sistema social caracterizado por:
- A grande nobreza alcançou o domínio total de suas terras.
- O poder do rei estava limitado aos territórios que controlava diretamente.
O Pacto de Vassalagem
Os nobres aceitavam a primazia do rei através de um pacto chamado vassalagem. Os nobres tornavam-se vassalos do rei em uma cerimônia chamada homenagem: ajoelhavam-se e beijavam a mão do rei, jurando fidelidade, assistência e consultoria militar no governo. Em troca, o rei cedia ao vassalo uma porção de terra, chamada feudo.
Os nobres podiam ter seus próprios vassalos (geralmente nobres menos importantes), criando uma série de laços pessoais que uniam o rei aos nobres, frequentemente causando guerras.
O Feudo (Senhorio)
O feudo era a terra concedida, que incluía um castelo (residência do senhor), várias aldeias onde viviam os camponeses dependentes, campos agrícolas, pastagens e florestas.
As terras eram divididas em:
- Reserva Senhorial: A terra pertencente e cultivada diretamente pelo Senhor (geralmente por trabalho servil).
- Mansos (Fazendas): Porções de terra que o Senhor cedia aos agricultores para cultivarem. Em troca, eles pagavam uma renda (em dinheiro, bens ou serviços pessoais).
Nos feudos, os senhores exerciam justiça e tributação. Cobravam pelo uso do moinho, do forno e da prensa, além de pedágios (portagem) e taxas para cruzar pontes (pontagem).
A Nobreza e a Cavalaria
Os nobres eram os donos de grandes feudos e imensas riquezas. A guerra era a sua principal atividade. Lutavam a cavalo, e suas armas típicas eram a lança, o escudo e a clava.
A educação militar dos filhos dos nobres começava na infância, passando pelas seguintes etapas:
- Pajem: Serviço inicial na corte.
- Escudeiro: Assistente pessoal do cavaleiro.
- Cavaleiro: Tornavam-se cavaleiros na idade adulta, após uma cerimônia específica.
Em caso de guerra, o rei convocava os nobres para pedir ajuda militar. Os nobres deviam estar sempre prontos para a guerra. Os torneios eram uma forma importante de treinamento e serviam para ganhar prestígio e respeito.
O Papel das Mulheres Nobres
O papel principal da mulher nobre era casar e ter filhos. Os casamentos eram organizados pelos pais. As mulheres que permaneciam solteiras entravam para mosteiros. A mulher dirigia o trabalho dos criados, educava as crianças menores, bordava e tecia. Raramente saía do castelo, e as famílias estavam sujeitas à autoridade do marido.
O Castelo Medieval
Os castelos eram a residência do senhor, de sua família, dos servos e dos soldados. Para proteção, eram cercados por fossos e muralhas com torres. O interior incluía:
- Pátios, estábulos, ferreiros, poços e uma capela.
- A Torre de Menagem, onde o senhor e sua família viviam.
- O Grande Salão, onde o senhor recebia os cavaleiros e realizava festas e banquetes.
A Segunda Onda de Invasões (Séculos IX e X)
A segunda metade do século IX e o século X na Europa foram caracterizados pela divisão e incerteza. O desaparecimento do Império Carolíngio enfraqueceu o poder político e a capacidade defensiva, facilitando uma segunda onda de invasões. Os novos invasores foram:
- Vikings: Originários da Escandinávia. Eram guerreiros ferozes e cruéis que conquistaram as Ilhas Britânicas, entre outros territórios.
- Magiares: Vieram das estepes da Ásia e formaram o reino da Hungria.
- Sarracenos: Eram piratas muçulmanos que realizaram muitas invasões e saques ao longo da costa mediterrânea da Europa.
Essas invasões foram interpretadas como um castigo de Deus e um anúncio do fim do mundo, que se esperava para o ano 1000.
A Sociedade Medieval de Ordens
A sociedade medieval era dividida em três classes (ou ordens):
- Nobreza (Bellatores): Tinha a missão de defender o restante da população.
- Clero (Oratores): Monges e sacerdotes. Sua missão era rezar.
- Trabalhadores (Laboratores): Camponeses, artesãos e comerciantes. Eram responsáveis pela produção de alimentos e bens necessários à sociedade.
A pertença a cada classe era determinada pelo nascimento. A Nobreza e o Clero eram as classes privilegiadas: não pagavam impostos e controlavam a maioria dos cargos importantes da administração.