A Importância da Contação de Histórias na Educação Infantil

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Introdução

A contação de histórias na Educação Infantil estimula a curiosidade na criança, desperta o imaginário, a construção de ideias, expande seus conhecimentos e faz com que ela vivencie situações de alegria, tristeza, medo, entre outros, ajudando a resolver esses conflitos e criando novas expectativas. Para Bettelheim (2009), as histórias representam, de forma imaginativa, aquilo em que consiste o processo sadio de desenvolvimento humano. O conto não poderia ter seu impacto psicológico sobre a criança se não fosse, primeiro e antes de tudo, uma obra de arte.

O ato de narrar histórias, além de trabalhar a emoção, é também uma atividade lúdica que socializa, educa e informa. A contação de histórias desenvolve a capacidade cognitiva nas estruturações mentais das crianças, fornece elementos para a imaginação, estimula a observação e facilita a expressão de ideias. No cotidiano da Educação Infantil, a narração de histórias pode ser um excelente instrumento de trabalho para o professor, um novo caminho para a aprendizagem da criança e, consequentemente, para a formação de um aluno leitor.

Diante disso, o problema que se investiga neste trabalho é: o professor de Educação Infantil pode trabalhar com a contação de histórias, despertando na criança a imaginação, a criatividade, a curiosidade e o gosto pela leitura? O objetivo geral deste estudo é mostrar a importância e a utilidade das histórias contadas na Educação Infantil para o desenvolvimento educativo da criança. Com esse trabalho, pretende-se:

  • Apontar a importância das histórias infantis;
  • Relacionar a contação de histórias e a aprendizagem na Educação Infantil;
  • Mostrar habilidades que o professor deve ter ao contar histórias;
  • Identificar diferentes maneiras de se contar histórias na Educação Infantil.

Desta forma, pretende-se confirmar a importância de contar histórias na Educação Infantil, o que permite à criança entrar no mundo da imaginação, aprender e construir seu conhecimento e suas referências para a vida.

Uma Visão Historiográfica sobre a Contação de História

Na transição do século XVII para o XVIII, o significado e o papel social da infância, assim como uma literatura adequada para esta instituição que apenas foi criada posteriormente, as crianças eram reconhecidas como pequenos adultos, possuidores de tarefas e cuidados semelhantes aos de um adulto, o que pode explicar a alta taxa de mortalidade infantil naquela época. Compartilhando todas as atividades com as pessoas mais velhas, as crianças também possuíam a mesma cultura literária que os demais.

Apenas com a ascensão da burguesia e reestruturação familiar, a criança começou a ser reconhecida como indivíduo diferente do adulto, com atribuições diferentes. No século XVIII, a literatura infantil mostrou-se importante no âmbito escolar e na necessidade de uma mudança na mentalidade sociocognitiva que a criança possuía. A escola foi um dos principais agentes para que a mudança na literatura ocorresse.

As primeiras produções infantis foram realizadas por professores e pedagogos no final do século XVII e durante o século XVIII. Coelho (2001) afirma que “estudar a história é ainda escolher a melhor forma ou o recurso mais adequado de apresentá-la.” (COELHO, 2001, p. 31).

A contação de histórias é uma das atividades mais antigas de que se tem notícia. Essa arte remonta à época do surgimento do homem há milhões de anos. Contar histórias e declamar versos constituem práticas da cultura humana que antecedem o desenvolvimento da escrita. Na cultura primitiva, saber ler, escrever e interpretar sinais da natureza era de grande importância, porque mais tarde iam se tornar registros pictográficos, com os quais seriam relatadas coisas do cotidiano que poderiam ser lidas e compreendidas pelos integrantes do grupo.

As histórias são uma maneira mais significativa que a humanidade encontrou para expressar experiências que nas narrativas realistas não acontecem. Os contos são temidos porque objetivam os fatos e as verdades que não podem ser expressos pela razão, por isso nos estudos dos contos observa-se: “Em primeiro lugar, o fato de que eles falam sempre de relacionamentos humanos primitivos e, por isso, exprimem sentimentos muito arcaicos do psiquismo humano.” (VIEIRA, 2005, p. 10).

Desde aqueles tempos remotos e ainda hoje, a necessidade de exprimir os sentidos da vida, buscar explicações para nossas inquietações, transmitir valores de avós para netos têm sido a força que impulsiona o ato de contar, ouvir e recontar histórias. A contação de histórias é atividade própria de incentivo à imaginação e o trânsito entre o fictício e o real. Ao preparar uma história para ser contada, tomamos a experiência do narrador e de cada personagem como nossa e ampliamos nossa experiência vivencial por meio da narrativa do autor. Os fatos, as cenas e os contextos são do plano do imaginário, mas os sentimentos e as emoções transcendem a ficção e se materializam na vida real. (RODRIGUES, 2005, p. 4).

A contação de histórias é uma atividade fundamental que transmite conhecimentos e valores; sua atuação é decisiva na formação e no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. As histórias são uma maneira mais significativa que a humanidade encontrou para expressar experiências que, nas narrativas realistas, não acontecem. A contação de histórias, além de pertencer ao campo da educação e à área das ciências humanas, é uma atividade comunicativa. Por meio dela, os homens repassam costumes, tradições e valores capazes de estimular a formação do cidadão.

Por isso, contar histórias é saber criar um ambiente de encantamento, suspense, surpresa e emoção, no qual o enredo e os personagens ganham vida, transformando tanto o narrador como o ouvinte. O ato de contar histórias deve impregnar todos os sentidos, tocando o coração e enriquecendo a leitura de mundo na trajetória de cada um. A contação de histórias está ligada diretamente ao imaginário infantil. O uso dessa ferramenta incentiva não somente a imaginação, mas também o gosto e o hábito da leitura; a ampliação do vocabulário, da narrativa e de sua cultura; o conjunto de elementos referenciais que proporcionarão o desenvolvimento do consciente e subconsciente infantil, a relação entre o espaço íntimo do indivíduo (mundo interno) com o mundo social (mundo externo), resultando na formação de sua personalidade, seus valores e suas crenças.

A capacidade de imaginar permite que o ser humano crie uma habilidade de entendimento e compreensão de histórias ficcionais, pois nossa vida apenas é entendida dentro de narrativas. As histórias nos transmitem informações e abrangem nossas emoções. É por esse motivo que algumas pessoas se sentem receosas ao trabalhar com crianças e jovens em desenvolvimento. A história tem um papel significativo na contribuição com a tolerância e o senso de justiça social, podendo criar novos rumos à imaginação, podendo ser eles bons ou ruins.

Sendo assim, a reformulação da literatura infantil foi de extrema importância para que a sua função social e individual pudesse respeitar as especificidades e necessidades da intencionalidade que a história possui e quer transmitir para a criança. Além, é claro, da adequação condizente com a faixa etária. “Chegaram ao seu coração e à sua mente, na medida exata do seu entendimento, de sua capacidade emocional, porque continham esse elemento que a fascinava, despertava o seu interesse e curiosidade, isto é, o encantamento, o fantástico, o maravilhoso, o faz de conta.” (ABRAMOVICH, 1997, p. 37).

A contação de histórias é um momento mágico que envolve a todos que estão nesse momento de fantasia. Ao contar histórias, o professor estabelece com o aluno um clima de cumplicidade que os remete à época dos antigos contadores que, ao redor do fogo, contavam a uma plateia atenta às histórias, costumes e valores do seu povo. A plateia não se reúne mais em volta do fogo, mas, nas escolas, os contadores de história são os professores, elo entre o aluno e o livro. O ato de contar histórias é próprio do ser humano, e o professor pode apropriar-se dessa característica e transformar a contação em um importantíssimo recurso de formação do leitor. (PENNAC, 1993, p. 124).

Inúmeras são as possibilidades que o uso da contação de histórias em sala de aula propicia. Além de as histórias divertirem, elas atingem outros objetivos, como educar, instruir, socializar, desenvolver a inteligência e a sensibilidade. A literatura não está recebendo um estímulo adequado, e a contação de histórias é uma alternativa para que os alunos tenham uma experiência positiva com a leitura, não uma tarefa rotineira escolar que transforma a leitura e a literatura em simples instrumentos de avaliação, afastando o aluno do prazer de ler.

Contação de História como Prática Educativa: Uma Reflexão Pedagógica

A contação de histórias é uma prática cada vez mais presente na escola. Ora se desenvolve a partir do planejamento do professor, ora a escola recebe a visita de um contador, ora ela permeia os espaços culturais (como feiras do livro). O professor, através de sua formação, tem contato com diversas possibilidades de integrar a literatura em sua aula. Muitos teóricos abordam a questão da importância dos textos literários na escolarização. Ao considerar a contação de histórias como portadora de significados para a prática pedagógica, não se restringe o seu papel somente ao entendimento da linguagem. Preserva-se seu caráter literário, sua função de despertar a imaginação e sentimentos, assim como suas possibilidades de transcender a palavra.

A ação de contar histórias deve ser utilizada dentro do espaço escolar, não somente com seu caráter lúdico, muitas vezes exercitado em momentos estanques da prática, como a hora do conto ou da leitura, mas adentrar a sala de aula como metodologia que enriquece a prática docente, ao mesmo tempo em que promove conhecimentos e aprendizagens múltiplas. De acordo com prévia pesquisa bibliográfica, ficou evidente que a contação de histórias pode e deve ser usada como metodologia para o desenvolvimento dos alunos e de sua personalidade, melhorando de maneira significativa o desempenho escolar.

Na maioria dos casos, a escola acaba sendo a única fonte de contato da criança com o livro e, sendo assim, é necessário estabelecer-se um compromisso maior com a qualidade e o aproveitamento da leitura como fonte de prazer. (MIGUEZ, 2000, p. 28). A questão da contação de histórias como participante da práxis pedagógica não pretende de forma alguma desconfigurar sua função de transmitir beleza, sensibilidade, prazer. Aliás, acredita-se que o caráter artístico da contação de histórias pode servir de elo no processo de ensino e aprendizagem. Portanto, a contação de histórias pode auxiliar a práxis sem perder seu valor estético e artístico.

Muitos teóricos abordam a questão da importância dos textos literários na escolarização. Bettelheim (2000) fala da importante e difícil tarefa na criação das crianças, a qual consiste em ajudá-las a encontrar significado na vida. Em primeiro lugar, o autor coloca o impacto dos pais nessa tarefa; e, em segundo lugar, cita a herança cultural transmitida de maneira correta: “Quando as crianças são novas, é a literatura que canaliza melhor este tipo de informação.” Quanto à leitura em si, ele acrescenta: “A aquisição de habilidades, inclusive a de ler, fica destituída de valor quando o que se aprendeu a ler não acrescenta nada de importante à nossa vida”. (BETTELHEIM, 2000, p. 12).

A escola, dia a dia, vem perdendo seu papel de estimuladora da literatura para seus educandos; já não é contínuo o uso de livro paradidático. As palavras de Maciel (2010) são bem oportunas para a reflexão proposta neste trabalho, já que o autor defende a ideia de que o espaço da literatura em sala de aula, além de desvelar a obra e aprimorar percepções, também é uma maneira de enriquecer o repertório discursivo dos alunos, sem ter medo da análise literária. Pois, “longe da crença ingênua de que a leitura literária dispensa aprendizagem, é preciso que se invista na análise da elaboração do texto, mesmo com leitores iniciantes ou que ainda não dominem o código escrito.” (MACIEL, 2010, p. 59).

Acredita-se que é estimulando as crianças a imaginar, criar, envolver-se, que se dá um grande passo para o enriquecimento e desenvolvimento da personalidade; por isso, é de suma importância o conto. Acredita-se, também, que a contação de história pode interferir positivamente para a aprendizagem significativa, pois o fantasiar e o imaginar antecedem a leitura. Utiliza-se da leitura, através da contação de histórias, como metodologia para o desenvolvimento dos sujeitos e melhoria de seu desempenho escolar, respondendo a necessidades afetivas e intelectuais pelo contato com o conteúdo simbólico das leituras trabalhadas. Para formar grandes leitores, leitores críticos, não basta ensinar a ler. É preciso ensinar a gostar de ler. [...] com prazer, isto é possível, e mais fácil do que parece. (VILLARDI, 1997, p. 2).

Dessa forma, utilizar a contação em sala de aula faz com que todos saiam ganhando, tanto o aluno, que será instigado a imaginar e criar, quanto o professor, que ministrará uma aula muito mais agradável e produtiva e alcançará o objetivo pretendido: a aprendizagem significativa. Além disso, as histórias ampliam o contato com o livro para que os alunos possam expandir seu universo cultural e imaginário e, através de variadas situações, a contação de histórias pode: intrigar, fazer pensar, trazer descobertas, provocar o riso, a perplexidade, o encantamento etc. Ou seja, ao se contar uma história, percorre-se um caminho absolutamente infinito de descobertas e compreensão do mundo. As histórias despertam no ouvinte a imaginação, a emoção e o fascínio da escrita e da leitura. Afinal, contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte e convidá-lo a se apaixonar pela história e pela leitura. A contação de história é fonte inesgotável de prazer, conhecimento e emoção, em que o lúdico e o prazer são eixos condutores no estímulo à leitura e à formação de alunos leitores.

A Importância das Histórias Infantis

Qualquer pessoa em algum momento da vida já ouviu ou contou uma história, pois as histórias e os contos populares sempre existiram, ou seja, desde que o ser humano adquiriu fala. Não há nesse mundo um só povo que não tenha suas histórias; elas são uma necessidade do ser humano por serem um elo que une as pessoas. As histórias devem ter nascido com o homem no momento em que ele sentiu necessidade de contar aos outros alguma experiência sua, que poderia ter significado para todos.

Há quem conte histórias para enfatizar mensagens, transmitir conhecimentos, disciplinar, até fazer uma espécie de chantagem - "se ficarem quietos, conto uma história" - quando o inverso é que funciona. A história aquieta, serena, prende a atenção, informa, socializa, educa. (COELHO, 1999, p. 12). Na infância, a narrativa de histórias amplia a aquisição de conhecimentos e experiências das crianças, desperta a criatividade, a imaginação, a atenção e principalmente o gosto pela leitura.

Para Abramovich (1989), a importância de se contar histórias para crianças reside no fato de que escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, é também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras ideias para solucionar as questões. Na Educação Infantil, as histórias despertam nas crianças, desde pequenas, gostos e valores, pois quando se conta uma história tem-se vários objetivos, entre eles: ensinar, instruir, educar e divertir. É na infância, quando a criança está nesta fase de desenvolvimento e descobertas, que se deve proporcionar-lhe este contato com os livros, fazendo com que ela perceba que através deles ela pode aprender a escrever, a imaginar, a pensar e a descobrir o mundo.

Digamos que o conto poderia ser para a criança um objeto transicional que lhe permitisse passar do mundo da onipotência imaginária àquele da experiência cultural, e em que o prazer e o desejo pudessem encontrar sua fonte de renovação. (GILLIG, 1999, p. 19). Contar histórias é promover e estimular a leitura, o escrever, o desenhar, o imaginar, o brincar. Através das histórias, a criança sente diferentes emoções como alegria, medo, tristeza, bem-estar, insegurança, entre tantas outras, e assim ela aprende a lidar com seus sentimentos da sua maneira.

A vida é com frequência desconcertante para a criança; ela necessita mais ainda que lhe seja dada a oportunidade de entender a si própria nesse mundo complexo com o qual deve aprender a lidar. Para que possa fazê-lo, precisa que a ajudem a dar um sentido coerente ao seu turbilhão de sentimentos. Necessita de ideias sobre como colocar ordem na sua casa interior, e com base nisso poder criar ordem na sua vida. (BETTELHEIM, 2009, p. 13). Percebe-se que a contação de histórias na Educação Infantil é de extrema importância; a criança que é incentivada e gosta de ouvir e ler histórias será, com certeza, um adulto diferenciado.

A Contação de História e a Aprendizagem na Educação Infantil

A contação de história é uma atividade lúdica, artística e pedagógica, podendo estar ao alcance do professor na sala de aula como um instrumento de trabalho, um recurso importante para o aprendizado do aluno e, consequentemente, para a formação do aluno leitor. Segundo Abramovich (1989), é através de uma história que se podem descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo.

O professor, quando conta uma história, está fazendo uma ponte entre o leitor e o livro, criando um elo imaginário, contribuindo para aquisição da linguagem, estimulando a observação, facilitando a expressão de ideias e desenvolvendo a capacidade cognitiva de perceber o livro como um instrumento de informação. Para Coelho (1999), a história não acaba quando chega ao fim; ela permanece na mente da criança, que a incorpora como um alimento de sua imaginação criadora.

Além de ser uma atividade lúdica, o ato de contar histórias trabalha a emoção, a socialização, a atenção; é uma nova forma de ensinar e de aprender. Se, adquirindo o hábito da leitura, a criança passa a escrever melhor e a dispor de um repertório mais amplo de informações, a principal função que a literatura cumpre junto a seu leitor é a apresentação de novas possibilidades existenciais, sociais, políticas e educacionais. (CADEMARTORI, 1986, p. 19-20). Quando lemos para as crianças pequenas, estamos mostrando o mundo em sua plenitude, ajudando-as a olhar, pensar e entender essa imensidão a que todos nós pertencemos.

A contação de histórias, além de apresentar o mundo, oferece à criança um sentimento de pertencer à cultura e à família. Aproximamo-nos afetivamente dela: na entonação da voz, na escolha de uma história que consideramos interessante, além de apresentar o mundo em toda sua complexidade. Gillig (1999) destaca que os pedagogos que trabalham ou trabalharam na escola infantil sabem a importância da hora do conto para as crianças pequenas e conhecem o fascínio que podem exercer sobre elas através desta atividade. Na Educação Infantil, os professores devem ser incentivadores do hábito da leitura. Contar ou ler histórias para as crianças desde pequenas será de grande importância para despertar nelas o gosto pela leitura e assim contribuir para o seu desenvolvimento e aprendizagem.

A Criança e o Livro

“O livro é aquele brinquedo, por incrível que pareça que, entre um mistério e um segredo põe ideias na cabeça”.

— Maria Dinorah

Partindo deste pressuposto, quanto mais cedo a criança tiver contato com livros e perceber o prazer que a leitura produz, maior é a probabilidade de nela nascer, de maneira espontânea, o amor aos livros. Desde muito cedo, a criança gosta de ouvir a história de sua vida, a mais importante para ela. Da reunião de histórias do passado, a criança constrói o quadro dela mesma no presente.

A literatura é importante para o desenvolvimento da criatividade e do emocional infantil. Quando as crianças ouvem histórias, passam a visualizar de forma mais clara sentimentos que têm em relação ao mundo. As histórias trabalham problemas existenciais típicos da infância como medos, sentimentos de inveja, de carinho, curiosidade, dor, perda, além de ensinar infinitos assuntos (CARUSO, 2003).

É através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Direito, Política, Sociologia, Antropologia, etc., sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula. Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer, e passa a ser didática, que é um outro departamento (não tão preocupado em abrir todas as comportas da compreensão do mundo) (ABRAMOVICH, 2003).

Da mesma forma, as histórias inventadas são importantes. A criança precisa saber de coisas que não fazem parte de sua experiência cotidiana. É comum ela ter um amigo imaginário ou atribuir qualidades humanas e sobrenaturais a um brinquedo ou a um animal. As conversas e as histórias desses personagens, unindo o real e o imaginário, dão aos pais muitas dicas sobre seus filhos, pois é nessas horas que a criança deixa transparecer sentimentos como medo, insegurança, ódio e amor.

Ler histórias para as crianças, sempre, sempre... É suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, e encontrar muitas ideias para solucionar questões - como os personagens fizeram... - é estimular para desenhar, para musicar, para teatralizar, para brincar... Afinal, tudo pode nascer de um texto, é o que afirma Abramovich (2003). A partir de histórias simples, a criança começa a reconhecer e interpretar sua experiência da vida real.

Citamos, por exemplo concreto: uma mãe ou um pai estão lendo um livro cativante quando a criança quer colo e aconchego. Eles tomam o bebê no colo e continuam as leituras, mas deixam a criança participar... usam suas mãozinhas para virar as páginas do livro. Após algum tempo, a criança adormece nos braços do leitor, mas continua a sentir a emoção da leitura. Isso acontece muito mais do que imaginamos e, toda vez que isso acontece, está sendo lançada uma preciosa semente de amor aos livros.

É em momentos como este, quando ouve a voz do pai ou da mãe, que a criança os observa de uma outra maneira que não a usual. Como explica Caruso (2003), no dia a dia os pais estão mais centrados em outras coisas e automatizados em educar o tempo todo. Na hora das histórias, a fantasia toma conta e acaba fazendo com que os pais representem um outro papel, de quem também sabe brincar e participar daquele mundo de fantasia.

No entanto, é necessário sublinhar: os livros devem ser introduzidos na vida da criança de acordo com o seu nível de compreensão do mundo, de seu nível de elaboração de pensamento e sua experiência anterior. Isso significa que o livro ideal para a criança é aquele em que ela encontra tanto elementos que ela já reconhece, como alguns elementos novos, a partir dos quais ela possa alargar seus horizontes e enriquecer sua experiência de vida.

Além disso, é fundamental que o livro venha sempre associado a momentos de prazer. Para os bebês, o livrinho de plástico na hora do banho, com o qual ela pode bater na água e vê-la respingar, é muito prazeroso. Para crianças já um pouco maiores, nada é mais aconchegante que uma historinha bem contada na hora de dormir. Se os pais tivessem consciência da importância de contar uma história ao pé da cama para seus filhos pequenos, certamente teríamos uma adolescência menos traumatizada. As vozes do pai ou da mãe chegam aos ouvidos dos pequenos carregadas de afetividade.

Desta afetividade, que se expressa na voz, no olhar, no carinho e no aconchego, a criança precisa para minimizar os conflitos que a acompanham em seu crescimento. Sublinhamos: a fantasia e a magia de uma história encantam e despertam as imaginações da criança e, com isso, criam condições favoráveis para o desenvolvimento de uma mente criativa e inventiva. Outrossim, como afirma Ramos (2003), a leitura oferece a possibilidade de se ver os dados do mundo com mais amplitude. Compreender a leitura de um texto é uma das tarefas mais significantes para a escola, professores e alunos, pois leva o indivíduo a conhecer a si e aos outros, preparando-se para sua formação humana.

Contar histórias é uma arte. Muitas pessoas têm um dom especial para esta tarefa. Mas isso não significa que pessoas sem esse dom excepcional não possam tornar-se bons contadores de histórias. Com algum treinamento e alguns recursos práticos, qualquer pessoa é capaz de transmitir com segurança e entusiasmo o conteúdo de uma história para pequenos. Repetimos: os recursos e os métodos que usamos para contar uma história têm seu valor, mas nada pode substituir a afetividade pessoal que acompanha a história.

Citamos a experiência de um pai: a filha com 5 anos de idade fazia questão que o pai a levasse para a cama, a cobrisse e lhe contasse uma história. Em certa fase, a menina pediu, durante semanas, a repetição da mesma história que ela escutava de olhos fechados e adormecia. Um dia o pai gravou a história, levou a menina para a cama, a cobriu, ligou o gravador e retirou-se. No dia seguinte perguntou: “Gostaste da história ontem à noite?”. A menina respondeu: “Não foi bom, porque quem contou a história foi o gravador.” Isso significa que a história contada de viva voz é história humanizada. Em tempos de desumanidade, precisamos refletir sobre essa função da narrativa, projetada aos pequenos pela afetividade da voz e da presença do narrador.

A escritora francesa Jaqueline Held, em sua obra “O imaginário no poder”, nos apresenta muitos exemplos do sofrimento e da angústia que a solidão, pela ausência dos pais, provoca em cada vez mais crianças. Pais superocupados correm o risco de ignorar as necessidades e as carências dos filhos. O mesmo problema acontece em famílias hipnotizadas por uma televisão, que não permite diálogo. Para despertar o amor e o interesse de uma criança por livros, é de suma importância que ela veja e sinta que o livro motiva diálogo, traz prazer e estimula a comunhão e a afetividade. A presença de livros e o hábito de leitura na família parecem ser condições ambientais favoráveis, como se a leitura fosse transmitida por contágio.

Como Contar Histórias

O processo de estímulo e incentivo para se contar uma história são inúmeros, mas sua eficácia depende de como o contador os utilizará. Não há “fórmulas mágicas” que substituam o entusiasmo do contador. Quem aspira ser um bom contador de histórias deve desenvolver alguns passos importantes em seus preparativos:

  • Memorização: A história a ser contada e apresentada deve estar bem memorizada. Por isso, é imprescindível ler a história várias vezes e estar bem familiarizado com cada parágrafo do livro, para não perder “o fio da meada”.
  • Destaque: Destacar e sublinhar os tópicos mais importantes, interessantes e significativos, para que na apresentação recebam a devida valorização.
  • Vivência: Procurar vivenciar a história. Envolver-se com ela, fazer parte dela e sentir a emoção dos personagens para atrair os ouvintes para a magia da narrativa.
  • Naturalidade: Ao apresentar a história, falar com naturalidade e dar destaque aos tópicos mais importantes com gestos e variações de voz, cuidando para não exagerar.
  • Interatividade: Oferecer espaço aos ouvintes que querem interferir na história e participar dela. É preciso respeitar as pausas, perguntas e comentários naturais.
  • Entusiasmo: Toda história e toda dramatização devem ser apresentadas com entusiasmo e paixão. Sem esses componentes, os ouvintes não são atingidos e logo perdem o interesse.

Segundo Abramovich (1993), “o ouvir histórias pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo. Afinal, tudo pode nascer de um texto!” A criança, ao ouvir histórias, vive todas essas emoções. Afinal, escutar histórias é o início, o ponto-chave para tornar-se um leitor, um inventor, um criador.

Considerações Finais

Ao investigar a contação de histórias na Educação Infantil, constatou-se que é um instrumento poderoso e fundamental para o professor utilizar em sala de aula, pois contribui de diversas maneiras na educação das crianças, despertando nelas a imaginação, a criatividade, o interesse e o gosto pela leitura. Realizando este trabalho, foi possível perceber que, através da contação de histórias, o professor pode tornar a aprendizagem mais significativa e atraente para os alunos da Educação Infantil.

Além disso, considera-se que contar histórias para as crianças proporciona momentos de grande interação entre os alunos e o professor; é uma forma diferente e significativa de ensinar. Toda a escola tem um papel importante a exercer: cuidar para que o aprender seja uma conquista. E, como um instrumento indispensável, pode utilizar a contação de histórias nas diferentes situações. Quando o professor conta histórias para as crianças pequenas, está mostrando a elas como é o mundo em que vivem, ajudando a criança a pensar, olhar e entender um pouco daquilo que as circunda.

É fundamental que a criança na Educação Infantil seja estimulada a todo tempo, mantendo-se curiosa e criativa, aprendendo de forma estimulante e significativa. Através das histórias, a criança pode sentir emoções importantes como alegria, tristeza, bem-estar, medo, tranquilidade e tantas outras, com toda a amplitude, significância e verdade que cada história faz brotar. O professor que utiliza a contação de história como recurso em sala de aula aguça a imaginação das crianças, desenvolvendo nelas a capacidade cognitiva de percepção do livro como instrumento de informação e descontração.

Através da pesquisa realizada neste estudo, foi possível compreender como é ampla a utilidade da contação de histórias como um instrumento mediador em sala de aula, contribuindo significativamente para o desenvolvimento infantil. Constatou-se que contar histórias para as crianças da Educação Infantil contribui de forma intensa para o seu desenvolvimento e aprendizagem. Com esta pesquisa, espera-se despertar nos professores e educadores de Educação Infantil um interesse maior por contar histórias em sala de aula, tornando-se assim investigadores de novas descobertas e conhecimentos que conduzem a uma forma atraente e significativa de ensinar e aprender.

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