Intervenção com Redes Primária, Secundária e Mista
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Trabalho com a Rede Secundária
O trabalho com a rede secundária é essencial na proteção de crianças em risco, uma vez que muitos problemas familiares exigem uma intervenção articulada entre várias instituições. O objetivo principal é coordenar esforços, alinhar narrativas e evitar ruturas ou contradições institucionais que prejudicam a intervenção.
O que são as Redes?
- Rede primária: Pessoas com laços informais com o sujeito ou família (vizinhos, parentes, amigos, colegas).
- Rede secundária: Instituições com papel formal (saúde, educação, apoio social, justiça, CPCJ, Segurança Social, etc.).
- Rede mista: Combinação da rede primária e secundária.
Porquê trabalhar com a rede secundária?
- Perda dos valores comunitários: Menos apoio informal.
- Maior especialização técnica: Necessidade de apoio profissional.
- Estado-Providência: Ampliação das respostas institucionais.
- Intervenção protetiva do Estado: Responsabilidade legal.
A rede pessoal desmobilizou-se, delegando nas instituições o que antes era feito por vizinhos ou família. A resposta institucional passou a exigir parcerias técnicas, combinando vários tipos de apoio.
Objetivos do Trabalho com a Rede Secundária
- Conhecer os elementos da rede e como se relacionam;
- Construir uma visão comum dos problemas e das forças da família;
- Definir objetivos comuns, coerentes com a compreensão do caso;
- Criar uma intervenção articulada e complementar (evitar duplicações ou contradições);
- Descristalizar narrativas: Gerar novas interpretações do caso e identificar padrões familiares ou institucionais que bloqueiam a mudança.
Indicações de que é necessário trabalhar a rede
- Instituições não se conhecem entre si;
- Conflitos encobertos ou desqualificação mútua;
- Narrativas deficitárias dominantes (foco apenas nos problemas);
- Comunicação muito simétrica (competitiva) ou excessivamente complementar (submissão/controlo).
Armadilhas Frequentes no Trabalho em Rede
- Posição rigidamente “one-up”;
- Postura de substituição: Instituições fazem pelos pais aquilo que estes deveriam fazer;
- Crenças e expectativas divergentes entre técnicos e famílias;
- Triangulação: Instituições contra outras ou a família a jogar técnicos uns contra os outros;
- Escalada simétrica;
- Diminuição da rede primária: A família torna-se demasiado dependente da rede secundária;
- Ausência de tradição de articulação;
- Clima de desconfiança.
Etapas do Trabalho com a Rede Secundária
- Estádio social: Apresentação dos participantes; agradecimento e clarificação dos objetivos da reunião; síntese da reunião anterior e das tarefas acordadas.
- Estádio de estudo do problema: Definição do problema; clarificação de diferentes pontuações, alianças e coligações; identificação do cliente e das instituições presentes. Uso de ferramentas como o Ecomapa e o IMIAS (Instrumentos de Mapeamento das Interações e Alianças Sistémicas).
- Estádio interativo: Utilização de técnicas como escultura, troca de papéis e círculos concêntricos. Foco no futuro e abertura a novas narrativas e alternativas de ação.
- Conclusão: Reenquadramento final (síntese); marcação da próxima reunião; definição de tarefas e responsabilidades.
A rede secundária inclui todas as instituições formais que intervêm com a família. Trabalhar com a rede é essencial devido à diminuição do apoio comunitário e à crescente especialização dos serviços. O objetivo é criar uma intervenção articulada, com visão comum e narrativa não deficitária.
Trabalho com a Rede Primária e Mista
O trabalho com redes (primária, secundária ou mista) reconhece que os problemas das famílias não existem isoladamente — são sempre influenciados pelo seu contexto social, relacional e institucional. Assim, envolver redes permite ampliar o apoio, diversificar perspetivas e promover mudanças mais sustentáveis.
Funções da Rede Social Pessoal (Rede Primária)
- Companhia social e apoio emocional;
- Apoio instrumental (ajuda prática);
- Guia cognitivo (conselhos, orientação);
- Apoio técnico e regulação/controlo social;
- Acesso a novos contactos.
Características Importantes da Rede
- Tamanho e Densidade (coesa, fragmentada ou dispersa);
- Dispersão geográfica;
- Homogeneidade vs. Heterogeneidade;
- Reciprocidade dos vínculos.
Porquê trabalhar com a rede primária?
a) Insucessos terapêuticos: Alguns sintomas persistem porque não são apenas problemas da família nuclear, mas do grupo alargado (amigos, vizinhos, colegas, família extensa).
b) Objetivo central: Ajudar os membros da rede a perceber que o problema não é só do indivíduo ou da família, mas um problema do grupo. Isto permite a redefinição do problema como uma realidade social e relacional, não individual.
Historial do Modelo
- Décadas 60/70: Ross Von Speck (EUA).
- Décadas 70/80: Desmarais (Canadá), Montagano (Itália), Elkaim (Bélgica).
Objetivos do Trabalho com a Rede Primária
- Alargar visões sobre o problema;
- Diversificar o apoio oferecido à família;
- Ativar e empoderar a rede (o profissional atua como catalisador, não substituto);
- Criar rede primária quando esta é inexistente ou pobre.
Exemplo de Modelo – Desmarais (Canadá)
Este modelo envolve três intervenientes: a Pessoa/Família (PI), a Rede Primária e a Equipa Técnica. Caracteriza-se pela participação ativa e igualitária, trabalhando com o círculo de intimidade (6 a 10 pessoas).
Processo:
- Avaliação: Redefinição do problema e análise da rede primária;
- Convite à rede;
- Intervenção: Exploração de diferentes perspetivas, polarização (para expor diferenças e trabalhar sobre elas) e procura conjunta de soluções.
Trabalho com a Rede Mista
Objetivos: Alargar a rede de apoio, articular apoios formais e informais e descristalizar narrativas (abrir novas interpretações).
Quando convocar uma rede mista?
- Possibilidade de amplificar o apoio informal;
- Família e rede formal têm maleabilidade para novas narrativas;
- Rede formal não tem uma narrativa demasiado deficitária;
- Ausência de conflitos graves entre família/rede primária e rede secundária;
- Instituições desconhecem os recursos umas das outras.
Modelo de Seikkula (Open Dialogue aplicado a redes mistas)
Princípios: Foco “dos problemas às soluções”, ênfase no futuro e nas exceções (momentos em que as coisas correram bem) e amplificação dessas exceções para a criação de resultados únicos.
Etapas da Reunião da Rede Mista (Seikkula et al., 2003)
- Estádio Social: Acolhimento, apresentações, explicitação dos objetivos e criação de um ambiente seguro.
- Trabalho com a Rede Primária: Perguntas orientadoras com foco no futuro: “Imaginem que passaram X meses e tudo está bem — como estaria a vossa vida?”; “O que faria cada pessoa feliz?”; “O que teria cada um feito para ajudar?”.
- Trabalho com a Rede Secundária: Perguntas direcionadas aos técnicos: “O que fez para apoiar esta evolução?”; “Com o que estaria preocupado?”; “Quem o escutaria?”.
- Finalização: Definição do que cada um pode fazer para concretizar a mudança, estabelecendo tarefas, responsabilidades e, se necessário, marcando uma nova reunião.
A rede primária inclui familiares, amigos e vizinhos; a rede mista integra também serviços formais. Trabalhar com estas redes é fundamental para redefinir problemas como questões relacionais, ampliar o apoio e criar soluções partilhadas. O trabalho com a rede primária visa ativar recursos informais e alargar perspetivas, enquanto o trabalho com a rede mista articula o apoio formal e informal, focando-se em soluções e exceções positivas.