Kant: A Síntese entre Racionalismo e Empirismo
Bloco I (Kant): Resumo e Superação Racional e Empírica
"Sapere aude!" (Atreva-se a pensar). De acordo com os ideais do Iluminismo, a Razão se destaca como um estado independente, ganhando sua autonomia total de qualquer autoridade externa. O Iluminismo proclama sua fé no progresso e acredita que o desenvolvimento da ciência é a forma de melhorar a humanidade.
Em Kant, ocorre a confluência das duas grandes correntes do pensamento moderno: o racionalismo e o empirismo. Ele formou-se na tradição do racionalismo, mas o trabalho de Hume o despertou do "sono dogmático", impressionado pela grande síntese realizada por Newton. A ciência newtoniana, na qual raciocínio e experiência são combinados, é apresentada como o modelo perfeito de todas as ciências.
O racionalismo e o empirismo haviam questionado a validade da ciência. Para o racionalismo, a realidade pode ser conhecida a partir de certos conceitos inatos, sem recorrer à experiência. Isso garante o caráter necessário e universal do nosso conhecimento, mas não o seu valor real. O empirismo garantia um conhecimento objetivo e experimental, mas não conseguia justificar a universalidade e a necessidade das leis científicas.
Kant critica nos racionalistas o seu dogmatismo, alegando que a razão por si só não era capaz de compreender a estrutura da realidade. Criticou o empirismo porque este reduz a mente aos fenômenos da experiência sensível, deslizando para o ceticismo, onde o nosso conhecimento do mundo torna-se uma mera "crença". Kant realiza uma tentativa de síntese e organização das duas fontes do pensamento moderno. Tanto a experiência quanto a razão têm papéis importantes em nossa compreensão da realidade. Todo o nosso conhecimento sobre o mundo provém das percepções, mas há certas condições na mente humana que ajudam na captura do mundo que nos rodeia.
4. Analítica Transcendental
Entendimento: o ato de pensar em objetos. Quando se entende alguma coisa, submete-se o objeto ao tribunal do intelecto. O entendimento, portanto, pode ser considerado como o poder de julgar, ou seja, coordenar e unificar os dados da experiência em um juízo.
- Temos os fenômenos (experiência) e, a esses fenômenos, aplicamos o que Kant chamou de formas a priori do entendimento, que são as categorias.
- Elas são conceitos puros (causa, substância, etc.) produzidos naturalmente pelo intelecto.
- O entendimento inclui os fenômenos, referindo-os às doze categorias ou conceitos puros inatos à mente humana.
O princípio básico é presidido pela compreensão da síntese, através da qual as diferentes representações se unem em uma única unidade. As categorias são válidas apenas quando aplicadas aos fenômenos dados na experiência. Elas são os conceitos-chave nos quais toda a realidade deve ser classificada.
Os juízos sintéticos a priori na física são possíveis graças às categorias. A maioria das explicações sobre os fenômenos físicos baseia-se no princípio da causalidade. Contudo, a categoria da razão não provém da experiência, mas é anterior a ela; é um princípio a priori e, portanto, universal e necessário.
2. Classificação de Juízos
Toda a ciência é apresentada como um conjunto de proposições ou juízos verdadeiros. Para que um juízo seja considerado científico, deve satisfazer duas condições:
- Ser extensivo, para aumentar nosso conhecimento.
- Ter validade universal e necessária.
Classificação dos juízos de acordo com dois critérios:
- Relação entre sujeito e predicado:
- Juízos analíticos: a noção do predicado está incluída no sujeito. São universais e necessários, mas não extensivos.
- Juízos sintéticos: a noção do predicado não está incluída no sujeito. São extensivos, mas não universais nem necessários.
- Como saber a verdade dos juízos:
- Juízos a priori: cuja verdade pode ser conhecida independentemente da experiência. São de necessidade universal.
- Juízos a posteriori: cuja verdade é conhecida pela experiência. São extensivos, mas não universais nem necessários.
Kant acredita que há outro tipo de processo: os juízos sintéticos a priori. Por serem sintéticos, são extensivos; por serem a priori, são universais e necessários. Estes são os critérios básicos para o desenvolvimento do conhecimento científico.
A Crítica da Razão Pura dedica-se à análise de três níveis da mente humana:
- Estética Transcendental: estudo do conhecimento sensível e das condições que tornam possíveis os juízos sintéticos a priori na matemática.
- Analítica Transcendental: estudo do entendimento e das condições que tornam possíveis os juízos sintéticos a priori na física.
- Dialética Transcendental: estudo da razão e da possibilidade (ou impossibilidade) dos juízos sintéticos a priori na metafísica.
3. Estética Transcendental
Nossos sentidos captam sensações. A representação do objeto em nossa consciência, através das sensações, é a intuição. A multiplicidade de sensações que recebemos é organizada em intuições por dois elementos a priori que o sujeito possui: o tempo e o espaço.
O espaço e o tempo são duas formas a priori da sensibilidade, também chamadas de "intuições puras". Não provêm da experiência, mas são as condições precedentes que a tornam possível. Não são conceitos desenvolvidos pelo intelecto, mas representações da sensibilidade, coordenadas onde as sensações são ordenadas.
O espaço é uma forma a priori da sensibilidade externa. O resultado da consolidação e gestão dos sentimentos no espaço-tempo é o fenômeno. Tudo o que percebemos é, primeiramente, um fenômeno no tempo e no espaço.
Existe uma distinção fundamental entre fenômeno e númeno (a coisa em si). Nosso conhecimento é limitado ao mundo da intuição sensível (fenômenos). Não podemos saber nada de certo sobre como o mundo e as coisas são "em si".
Os juízos sintéticos a priori na matemática são possíveis graças à existência do tempo e do espaço. A geometria trata do espaço e a aritmética trata do tempo. Sua universalidade provém do fato de dependerem das formas puras a priori da sensibilidade, e seu caráter sintético manifesta-se quando aplicados ao conteúdo da experiência.