A Legibilidade da Cidade: Lynch e a Estrutura Urbana

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Em seu livro A Imagem da Cidade, Kevin Lynch descreve que uma cidade legível é aquela que, em um modelo geral, seria fácil de reconhecer e agrupar seus bairros, marcos e vias. No primeiro capítulo, Lynch apresenta como ler estes elementos da cidade:

  • Vias: os canais de circulação ao longo dos quais o observador se locomove de modo habitual, ocasional ou potencial;
  • Limites: elementos lineares entendidos como barreiras ou divisões pelo observador, como pontes ou praças;
  • Bairros: os movimentos de vida e identidade marcantes em nosso dia a dia;
  • Pontos nodais: lugares estratégicos de uma cidade através dos quais o observador pode entrar, sendo focos intensivos de circulação;
  • Marcos: objetos físicos definidos de maneira simples, como edifícios, sinais, lojas ou montanhas (ex: a Torre Eiffel ou o Obelisco do Parque Ibirapuera).

Lynch afirma que nenhum desses elementos existe concretamente em uma situação isolada, pois cada um completa o outro: “[…] Os bairros são estruturados com pontos nodais, definidos por limites, atravessados por vias e salpicados por marcos […]” (p. 54). A partir disso, a percepção da cidade muda conforme o olhar do observador; por exemplo, uma via pode ser um canal de circulação para um motorista, mas um limite para um pedestre. A cidade está em constante transformação.

Este exemplo nos leva a concluir que elementos semelhantes, porém localizados em contextos diferentes, adquirem significados distintos. Essa percepção é construída gradualmente, já que é impossível apreender toda a cidade de uma só vez. Portanto, o tempo é um elemento essencial. Nada é experimentado individualmente, mas em relação ao seu entorno.

A inter-relação desses elementos confere uma forma satisfatória à cidade. A visão articulada desses conjuntos deve proporcionar ao usuário uma fácil locomoção e uso dos espaços. Faço aqui uma associação com o livro O Espaço Intraurbano no Brasil, de Flávio Villaça, que coloca o usuário como personagem principal da cidade.

Esses personagens são subdivididos em duas classes: a classe dominante e a classe dominada. A facilidade de locomoção está diretamente relacionada ao deslocamento vivenciado diariamente por essas classes. A disputa por consumo está sempre relacionada à localização e ao deslocamento — local de moradia, trabalho e estudo — influenciando a maneira de consumo dos indivíduos.

A dificuldade enfrentada hoje por essas classes é um dos principais agentes da dificuldade de articulação dos espaços intraurbanos. A segregação e a estruturação desses espaços são resultados do deslocamento de classes. O deslocamento de um centro comercial, por ação do mercado imobiliário (outro ator urbano, junto com as classes e o Estado), para um “novo centro”, auxilia na diminuição dos grandes deslocamentos de pessoas para a realização de serviços, sejam eles de trabalho, educação ou moradia.

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