Os Lusíadas e Mensagem: semelhanças e diferenças entre as duas obras
Resumo
Este documento compara Os Lusíadas de Camões e Mensagem de Fernando Pessoa, duas obras sobre Portugal separadas por cerca de quatro séculos. Analisa a forma, o conteúdo, a conceção de heroísmo, o amor à Pátria e a figura de D. Sebastião. O estudante perceberá as diferenças entre a epopeia narrativa e a obra simbólica e mítica, bem como os pontos em comum entre ambas.
Pontos-chave
- Os Lusíadas são uma epopeia clássica de caráter narrativo, centrada na viagem de Vasco da Gama e na História de Portugal.
- Mensagem é um poema épico-lírico-simbólico-mítico, dividido em três partes, de caráter interpretativo e com pouca narração.
- Em Os Lusíadas o heroísmo concretiza-se em feitos épicos; em Mensagem é de caráter mental e conceptual.
- Em Os Lusíadas o tema é o real e histórico; em Mensagem é a essência de Portugal e a missão que deve cumprir.
- Ambas as obras evocam o passado para projetar e idealizar o futuro, e apresentam D. Sebastião como figura ligada à missão divina de difundir a Fé de Cristo.
- Os Lusíadas foram compostos no início da dissolução do império, enquanto Mensagem foi publicada na sua fase terminal.
Os elementos estruturantes das obras (forma e conteúdo) são marcados pela diferença de quatro séculos que separam os autores.
| Os Lusíadas | Mensagem |
|---|---|
| Dinamismo: a viagem, a aventura, o perigo. | Estatismo: o sonho, o indefinido. |
| A ação, a inteligência, o concreto, o conhecimento do Império no apogeu e na decadência, a possibilidade de ter esperança. | O abstrato, a sensibilidade, a utopia, a falta de razões para ter esperança, o sebastianismo. |
| O poeta dirige-se a D. Sebastião, que era uma realidade viva, e invectiva o rei a realizar novos feitos que deem matéria a uma nova epopeia. | D. Sebastião é uma entidade que vive na memória saudosa do poeta, uma sombra, um mito. |
| A memória e a esperança situam-se no mesmo plano. | A esperança é utopia, só existe no sonho. |
| Conceção de heroísmo: concretização de feitos épicos pelos humanos. | Conceção de heroísmo: de caráter mental, conceptual. O autor identifica-se com os heróis e, através deles, revela-se num processo lírico-dramático. Os heróis são símbolos de um olhar visionário, as figuras são espectros, resultado do trabalho do pensamento. |
| Amor à Pátria: enaltecimento e imortalização da História de Portugal e dos heróis portugueses, através de um poema épico, trabalho árduo e longo. | Amor à Pátria: atitude metafísica, procura incessante do que não existe. Expressão de fé no Quinto Império, evasão angustiada da vivência absurda. |
| Linguagem épica, estilo grandiloquente. | Linguagem épico-lírica, estilo lapidar. |
| Epopeia clássica pela forma e pelo conteúdo. Narração da viagem de Vasco da Gama, da luta dos deuses, da História de Portugal em alternâncias, discurso encaixado, analepses e prolepses. | Mega-poema constituído por quarenta e quatro poemas breves, agrupados em três partes principais (1.ª, 2.ª, 3.ª, sendo a 1.ª e a 3.ª subdivididas). De caráter ocultista, a sua natureza é predominantemente de índole interpretativa, com reduzida narração. |
| Assunto: os Portugueses e os feitos concretos cumpridos. O poeta canta a saga lusa na conquista dos mares. | Assunto: a essência da Pátria e a missão que esta deverá cumprir. |
| Os heróis agem norteados pela Fé de Cristo, dando a conhecer novos mundos ao mundo. A missão de Vasco da Gama foi coroada de êxito, dela derivou o Império Português do Oriente; outra missão poderá ser realizada pelo rei D. Sebastião: difusão do Cristianismo e conquistas no Norte de África. | Os heróis, numa atitude contemplativa e enigmática, buscam o infinito: a Índia tecida de sonhos. A missão terrena de Portugal foi cumprida por vontade divina; outra, de índole ocultista, aventura espiritual e cultural, está ainda por cumprir, a hegemonia do Quinto Império. |
| Epopeia de dimensão humanista-renascentista: acesso ao conhecimento dos segredos da Natureza pelo Homem. | Poema épico-lírico-simbólico-mítico, projeto de ideal de fraternidade universal: utopia. Elogio da loucura, do sonho; evasão do real, valorização do imaginário. |
Semelhanças entre as Obras
- Poemas sobre Portugal.
- Conceção da História Portuguesa enquanto demanda mística.
- D. Sebastião, ser eleito, enviado por Deus ao mundo, para difundir a Fé de Cristo.
- Os heróis concretizam a vontade divina.
- Conceito abstrato de Pátria.
- Apresentação dos heróis da História de forma fragmentária.
- Exaltação épica da ação humana no domínio dos mares.
- Superação dos limites humanos pelos heróis portugueses.
- Superioridade dos navegadores lusos sobre os nautas da Antiguidade.
- Glória marcada pelo sofrimento e lágrimas.
- Sacrifício voluntário em nome de uma causa patriótica.
- Estrutura rigorosamente arquitetada.
- Evocação do passado (memória) para projetar e idealizar o futuro (apelo, incentivo).
Diferenças Adicionais
- Os Lusíadas foram compostos no início do processo de dissolução do império e Mensagem foi publicada na fase terminal de dissolução do império.
- Os Lusíadas têm um caráter predominantemente narrativo e pouco abstratizante, enquanto Mensagem tem um caráter menos narrativo e mais interpretativo e cerebral.
- No primeiro, o Adamastor é sinónimo de lágrimas e mortes, sofrimento e audácia que as navegações exigiram, enquanto no segundo simboliza os medos e terrores vencidos pela ousadia.
- Em Os Lusíadas, o tema é o real, o histórico, o factual (os acontecimentos, os lugares); em Mensagem, o tema é a essência de Portugal e a necessidade de cumprir uma missão.
- Para Camões, os deuses olímpicos regem os acidentes e as peripécias do real quotidiano; para Pessoa, os deuses são superados pelo destino, que é uma força abstrata e inexorável.
- Em Os Lusíadas, os heróis são pessoas com limitações próprias da condição humana, mesmo se ajudados nos sonhos pela intervenção divina cristã ou pelos deuses do Olimpo; em Mensagem, os heróis são mitificados e encarnam valores simbólicos, assumindo proporções gigantescas.
- Os Lusíadas: narrativa comentada da história de Portugal; Mensagem: metafísica do ser português. Os Lusíadas: heróis e mitos que narram as grandezas passadas; Mensagem: heróis e mitos que exaltam as façanhas do passado em função de um desesperado apelo para grandezas futuras.
- A comparação entre Os Lusíadas e Mensagem impõe-se pelo próprio facto de esta ser, a alguns séculos de distância e num tempo de decadência, o novo mito da pátria portuguesa.
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Qual é a principal diferença entre Os Lusíadas e Mensagem?
Os Lusíadas têm um caráter narrativo e concreto, centrado nos feitos históricos e na viagem de Vasco da Gama. Mensagem tem um caráter mais abstrato, simbólico e interpretativo, centrado na essência de Portugal e numa missão ainda por cumprir.
Que papel tem D. Sebastião em cada obra?
Em Os Lusíadas, D. Sebastião é um rei vivo a quem o poeta se dirige para realizar novos feitos. Em Mensagem, é uma entidade que vive na memória saudosa do poeta, uma sombra e um mito.
O que simboliza o Adamastor em cada obra?
Em Os Lusíadas, o Adamastor simboliza as lágrimas, as mortes e o sofrimento exigidos pelas navegações. Em Mensagem, simboliza os medos e terrores vencidos pela ousadia.
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