Marxismo, Ideologia e Ciência em Michael Löwy

Filosofia e ética8,19 KB

- Marxismo, de Michael Löwy

Abordemos a relação entre a ideologia e o conhecimento científico. Para Marx, a ideologia é uma especulação metafísica idealista, que inverte a realidade. Ideologia como visão de mundo. Sobre esta, o autor afirma que quem cria as ideologias são as classes sociais: o processo de produção da ideologia não se faz ao nível dos indivíduos, mas das classes sociais.

Os criadores das visões de mundo, das superestruturas, são as classes sociais, mas quem as sistematiza, desenvolve e dá-lhes forma de teoria, de doutrina ou de pensamento elaborado, são os representantes políticos ou literários da classe: os escritores, os líderes políticos, etc. São eles que formulam sistematicamente essa visão de mundo, ou ideologia, em função dos interesses da classe.

As ideologias, as visões de mundo, não configuram ideias isoladas, mas um conjunto orgânico. São, sobretudo, uma maneira de pensar. Não existe apenas a representação política ou literária; existe também a representação científica de classe. Portanto, para Marx, ciência e representação científica de classe não são contraditórios. É possível fazer uma relação dialética entre ciência e representação de classe.

A economia política burguesa pôde se manter como ciência, pôde ter um caráter científico, enquanto a luta de classes permaneceu latente ou não se manifestou senão em episódios isolados. Isso quer dizer que, enquanto a burguesia era uma classe opositora, uma classe revolucionária que lutava contra a ordem estabelecida, e enquanto não existia ainda o movimento operário ameaçando os interesses da burguesia, era possível o desenvolvimento científico objetivo e imparcial da ciência econômica, em fins do século XVIII e início do século XIX.

A partir do momento em que a burguesia se transformou em classe dominante, sobretudo a partir de 1830, e a partir do momento em que surgiu uma nova classe — um movimento operário que ameaçava os interesses da classe burguesa —, ela não pôde mais se dar ao luxo desse desinteresse e dessa objetividade científica. Necessita agora de uma apologética, de uma legitimação pura e simples de seus interesses, de uma ideologia a serviço de sua posição de classe. Nesse momento, declina e morre a economia política científica, que é substituída pela economia política vulgar. É a luta de classes que nos permite entender essa mudança da natureza da economia política, em função das necessidades da classe burguesa.

Como explicar, por exemplo, que David Ricardo, que era um pensador burguês, um representante teórico da burguesia, cuja obra era inteiramente situada dentro da perspectiva de classe burguesa, tenha ao mesmo tempo um valor científico? Apesar de sua boa-fé, de sua imparcialidade e do seu amor à verdade, ele é um burguês; isto é, a visão de mundo burguesa impõe certos limites à sua ciência e ao grau de conhecimento que ele pode alcançar. Então, o ponto de vista burguês na obra de Ricardo não é produto de uma apologia direta, servil aos interesses das classes dominantes, mas resulta do fato de que a sua visão de mundo, a visão que orienta o seu trabalho científico, é a visão social da burguesia, o que não é necessariamente uma mentira, mas inclui uma boa dose de ilusão e de autoilusão. A maneira de pensar de Ricardo depende do ponto de vista burguês; ele tem o seu horizonte intelectual.

Marx mostra que o ponto de vista do progresso nem sempre é o mais científico, nem é o único científico. A classe que representa o progresso, no caso, a burguesia industrial, e o seu porta-voz mais progressista, que é David Ricardo, ignora certos aspectos da realidade, enquanto um autor mais conservador, mais passadista e retrógrado, percebe-os com mais lucidez. Enquanto Ricardo vê todas as vantagens do progresso capitalista, Sismondi (economista suíço do século XIX) só vê as desvantagens. Cada um só vê um elemento da realidade, mas, em uma visão dialética, tem-se que observar esses dois aspectos.

Segundo o pensador, o socialismo como ciência, como teoria científica, só aparece no momento em que surge a luta de classes e o proletariado. Marx vê como ciência revolucionária aquela que manifesta, no terreno do conhecimento, o ponto de vista de uma nova classe que inicia sua luta: o proletariado. Ele afirma claramente que o ponto de vista que defende é vinculado a uma classe social determinada (classe cuja missão histórica é a destruição do modo de produção capitalista e a abolição final das classes). Existe uma visão social de mundo, do ponto de vista de uma classe (o proletariado), com a qual a obra de Marx se relaciona.

Como é que se definiria o proletariado hoje?

Há várias maneiras de se definir o proletariado. Existe uma que é bastante tradicional, que parece insuficiente: o proletariado sendo igual à classe operária produtiva, no sentido econômico da palavra. O conceito marxista do proletariado é muito mais amplo. O proletariado é o conjunto daqueles que vivem da venda de sua força de trabalho.

Isso inclui não só a classe operária industrial, como uma série de camadas que tradicionalmente eram de origem pequeno-burguesa (ou da classe média), mas que conheceram ou estão conhecendo, no período histórico contemporâneo, um processo de proletarização ou de semiproletarização. Isso se refere ao trabalho intelectual, para diferenciá-lo do trabalho manual. O intelectual era um indivíduo que vendia serviços, pertencendo à pequena burguesia. Nos últimos 30 anos, vem se desenvolvendo um processo de proletarização ou de semiproletarização do trabalho intelectual. Cada vez mais, o intelectual vende a sua força de trabalho. Vai-se formando, então, uma massa enorme de trabalhadores intelectuais proletarizados, ou semiproletarizados, cada vez mais com características semelhantes ao resto do proletariado.

O que caracteriza a questão do conhecimento científico e do conhecimento verdadeiro? Os dois são idênticos?

O que define a ciência como tal é a tentativa de conhecimento da verdade. Nesse sentido, há uma relação entre ciência e conhecimento da verdade. Porém, a verdade absoluta jamais será conhecida; todo o processo de conhecimento é um processo de acercamento, de aproximação à verdade. Deste modo, quando digo ciência, não estou dizendo verdade, e sim o processo: a ciência é um processo de produção do conhecimento da verdade. A partir da luta de classes, dão-se as condições mais favoráveis para um conhecimento científico da realidade e da verdade.

Como fazer a relação entre ponto de vista e consciência de classe?

Tomando por exemplo o caso de Marx: Marx não era operário, nem proletário. Sua classe era a pequena burguesia. A sua origem de classe não é proletária, mas ele situava suas obras, sua ação e seu compromisso com a classe proletária. Ele se situava do ponto de vista do proletário. É por isso que se fala de ponto de vista, já que o proletariado chega a esse ponto de vista através da tomada de consciência de seus interesses históricos. O processo que leva o proletariado a esse ponto de vista é o processo de tomada de consciência de classe.

Mas os marxistas partem da hipótese de que, por mais que os proletários empiricamente tenham tal ou qual opinião, essa consciência de classe atribuída, imputada, esse ponto de vista do proletariado é algo ao qual o proletário pode chegar em uma conjuntura histórica determinada. Enquanto a burguesia, como classe — e não apenas indivíduos isolados —, no seu conjunto, nunca poderá chegar ao nível do ponto de vista do proletário. A possibilidade objetiva do proletariado de chegar a esse ponto de vista, de chegar a uma consciência verdadeira, à consciência histórica ou revolucionária, realiza-se nas conjunturas de crise revolucionária.

Baixar

PDF Word HTML