Memorial do Convento: Personagens e Simbolismo
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Baltasar Sete-Sóis
É um mutilado de guerra que, no início da obra, é apresentado como um homem rude e marginal, capaz de matar. Contudo, ao conhecer Blimunda num auto de fé no Rossio, transforma-se pelo amor. Baltasar tem um papel fundamental na concretização do projeto do padre Bartolomeu: ele materializa o sonho, transformando-o em realidade. Esta tarefa restitui-lhe a grandeza humana, abalada pela perda da mão esquerda, conferindo-lhe uma dimensão divina, pois Bartolomeu Lourenço compara-o a Deus, que é maneta e fez o universo.
Blimunda Sete-Luas
Mulher extraordinária, dotada de poderes únicos que lhe permitem ver o interior das pessoas e das coisas, desde que em jejum e durante as fases da lua. Filha de Sebastiana Maria de Jesus, condenada pela Inquisição, Blimunda possui uma sabedoria profunda. Ela ajuda na construção da passarola, recolhendo as vontades vitais necessárias para o voo. Por amor a Baltasar, recusa usar a sua magia para conhecer o interior dele. O padre Bartolomeu, reconhecendo a complementaridade do casal, batiza-a de Blimunda de Sete-Luas: "Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras."
Padre Bartolomeu Lourenço
O sonho da passarola voadora apresenta o padre como um homem que só evita a Inquisição devido à amizade com o rei D. João V, que também partilha o desejo pela máquina voadora. Com o auxílio de Baltasar, Blimunda e Domenico Scarlatti, o padre concretiza a sua obra.
Domenico Scarlatti
Músico italiano e exímio cravista, vem a Portugal dar aulas à infanta. Fascinado pelo sonho do padre, torna-se o quarto elemento do projeto. No momento em que a passarola levanta voo, Scarlatti associa a sua música ao instante e, posteriormente, atira o seu cravo a um poço para esconder a ligação à Inquisição. A sua música também desempenha um papel curativo, devolvendo a vontade de viver a Blimunda após o seu debilitamento.
A Trindade Terrestre
O conjunto formado por Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu (cujos nomes começam pela letra B) dedica-se à construção da passarola, enfrentando as consequências dessa ousadia. Enquanto o padre enlouquece e morre, Baltasar é queimado num auto de fé e Blimunda sofre uma busca dolorosa de nove anos. A obra estabelece um contraste entre a construção do convento — fruto da vaidade e da repressão — e a construção da passarola, que simboliza a capacidade humana de sonhar e acreditar no próximo.