Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa: Guia Prático
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Ensinar Português
Na intenção de levá-lo a refletir sobre o uso da língua, começaremos nossa primeira aula com a leitura do texto de Milton José de Almeida (1999, p. 10-14), que narra a conversa entre duas pessoas, uma delas, professor de Português. Durante a leitura, analise cada resposta, cada interferência ocorrida durante o diálogo, para que inicie o estudo da disciplina e compreenda o uso da língua e suas variantes. Vamos à leitura?
Objetivo da Aula
O diálogo nos traz uma discussão linguística acerca do ensino da Língua Portuguesa na escola, mostrando que, apesar de ser uma só língua, aponta diferenciações entre o português ensinado na rede pública do ensinado na rede privada, salientando que o meio social a produz no tempo e no espaço, além de interferir na aquisição da linguagem.
Variantes Linguísticas
Segundo Geraldi (2006), todas as línguas variam. Não existe nenhuma sociedade ou comunidade em que todos falem da mesma forma. A variedade linguística é o reflexo da variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel, essas diferenças se refletem na linguagem. Por isso, muitas vezes percebem-se diferenças na fala das pessoas de diferentes classes, idades, sexo ou etnias.
As línguas fornecem também meios de constituição de identidade social. Por isso, seria estranho uma pessoa idosa, por exemplo, falar como uma criança; uma autoridade falar como um marginal social, etc. Muitos meninos não podem usar a chamada linguagem correta na escola, sob pena de serem marcados pelos colegas, porque em nossa sociedade a correção é considerada uma marca feminina.
Nossa linguagem, ou seja, nossas falas, nossos textos, nosso discurso são atravessados pelas ideias do nosso tempo, do lugar e grupo social no qual estamos inseridos e com o qual interagimos. As variações linguísticas são condicionadas por fatores internos da língua ou por fatores sociais, ou por ambos ao mesmo tempo.
Saberes e Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa
O aluno, quando chega à escola, já faz uso de sua língua. Tem uma gramática natural, um sistema de regras pelo qual constrói seu discurso. É um saber intuitivo, o próprio saber linguístico ou competência de cada falante. A escola não pode desvalorizar esse saber linguístico, reprimindo a diversidade. Ao contrário, deve atender à linguagem dos diferentes sujeitos e dos grupos sociais em que se inscrevem e, aos poucos, apresentar a variedade considerada como padrão – a culta –, sabendo abrir-se à pluralidade de discursos.
A prática de pretender favorecer ao aluno o domínio da língua culta sem respeitar a variedade linguística que este traz e dela partindo, em vez de aproximar o aluno do nível culto com segurança, pode ter como consequência negativa dois resultados: ou o aluno fica bloqueado em sua expressividade oral e escrita, dentro e fora da escola, ou, tateando, é possível que adquira alguma familiaridade com o nível culto escrito da língua, mas muito superficial.
O que deve a escola ensinar?
A conclusão mais imediata a que se pode chegar é a de que a escola não tem conseguido propiciar ao aluno situações e atividades, tanto oral quanto escrita, que favoreçam sua familiaridade com a variedade culta-padrão. É importante, então, que a escola apresente grande variedade de textos, deixando que o aluno entre em contato com diferentes usos sociais da língua, com o objetivo de que perceba o porquê e o para quê utiliza a escrita.
Língua oral: usos e formas
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais da Língua Portuguesa (p. 38): "Não é papel da escola ensinar o aluno a falar: isso é algo que a criança aprende muito antes da idade escolar. Talvez por isso, a escola não tenha tomado para si a tarefa de ensinar quaisquer usos e formas da língua oral. Quando o fez, foi de maneira inadequada: tentou corrigir a fala 'errada' dos alunos — por não ser coincidente com a variedade linguística de prestígio social —, com a esperança de evitar que escrevessem errado. Reforçou assim o preconceito contra aqueles que falam diferente da variedade prestigiada."
Linguagem, atividade discursiva e textualidade
Conforme apresentam os PCNs (p. 21), a linguagem é uma forma de ação interindividual orientada por uma finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos da sua história. A língua é um sistema de signos histórico e social que possibilita ao homem significar o mundo e a realidade.
Produções textuais
A língua escrita é outro sistema de representação em relação à língua falada. Falar e escrever são objetos de conhecimento distintos, que exigem que o sujeito se aproxime de cada um de uma forma diferenciada. Na fala, o interlocutor está presente e intervém a qualquer instante; na escrita, trabalha-se com um interlocutor virtual.
Registros
Desde a escola grega, o que primeiramente se mostrou notável na prática da escrita foi o fato de ela registrar o que antes era oral de modo muito mais eficaz e em dimensões superiores. A escola vive o trivial da reprodução, mas exalta a criação. É imprescindível abrir espaço na sala de aula para a diversidade de formas de discursos.
Gêneros
Os textos que existem no mundo têm diferentes formas, diferentes gêneros, que se constituem a partir do uso e, por meio dele, são aprendidos. Os gêneros são a forma natural pela qual usamos a língua para nos comunicar. Conforme afirma Bakhtin (1992), cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, que denominamos gêneros do discurso.
Leitura: Estratégias e Competências
A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do conhecimento sobre o assunto, sobre o autor e sobre a língua. Um bom leitor é aquele que decodifica, infere, antecipa, seleciona e checa com eficácia.
O papel da escola na formação de leitores
O desafio que devemos enfrentar, nós que estamos comprometidos com a instituição escolar, é combater a discriminação desde o interior da escola; é unir nossos esforços para alfabetizar todos os alunos, para assegurar que todos tenham oportunidades de se apropriar da leitura e da escrita como ferramentas essenciais de progresso cognitivo e de crescimento pessoal.
Rodas de leitura
O objetivo principal das rodas de leitura é levar o aluno a gostar de ler e interagir com o texto de modo aprazível. Além de estimular a prática da leitura, visa dar oportunidade aos alunos de terem contato com obras literárias que tratam de temas diversos e incentivar a percepção da leitura como atividade prazerosa.
A gramática, a ortografia e a pontuação
O que se objetiva, principalmente nas séries iniciais, é que o aluno compreenda como a gramática pode funcionar na organização de um texto, considerando que o discurso deva ser claro e eficiente entre os interlocutores. A ortografia e a pontuação devem ser trabalhadas de forma contextualizada, integradas à produção textual e à reflexão sobre a língua, evitando o ensino mecânico e descontextualizado.