Metodologias de Investigação e Desenho de Projeto

Classificado em Psicologia e Sociologia

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Desenho de um Projeto de Pesquisa

Objetivos da investigação:

  • Exploração: Satisfazer a curiosidade; analisar a exequibilidade de um estudo mais aprofundado; desenvolver métodos a serem empregues num estudo mais aprofundado. Ex: emergência de um movimento social anti-impostos.
  • Descrição: Ex: censos; sondagens.
  • Explicação: Compreensão; estabelecer relações. Ex: razões de comportamento eleitoral.

O Ciclo de Pesquisa

  1. A questão de partida
  2. A exploração (2.1 leituras; 2.2 entrevistas exploratórias)
  3. A problemática
  4. A construção do modelo de análise
  5. A observação
  6. A análise das informações
  7. As conclusões

Entrevistas de Investigação

Pressupostos e Objetivos

A entrevista de investigação pode ser compreendida sob duas definições principais:

  • “Técnica de produção de informação que utiliza a comunicação verbal entre investigador e os indivíduos observados e que tem por objetivo produzir discursos mais ou menos estruturados e contínuos sobre um determinado tema a definir no âmbito da pesquisa.”
  • “A entrevista pode ser considerada como uma forma de exercício espiritual, visando obter, pelo esquecimento de si, uma verdadeira conversão do olhar que lançamos sobre os outros nas circunstâncias comuns da vida.” (P. Bourdieu)

Pressupostos Epistemológicos

As representações veiculadas pela palavra têm uma enorme importância para compreender os factos sociais: o objeto da pesquisa será analisado através da experiência que dele têm um certo número de indivíduos. A entrevista faz apelo ao ponto de vista do ator e confere à sua experiência vivida, à sua lógica e à sua racionalidade um lugar de primeiro plano.

Centralidade do Discurso

O discurso atua como ponto de mediação entre:

  • O racional e o afetivo
  • O individual e o social
  • O vivido e o histórico
  • O dito e o não dito
  • O objetivo e o subjetivo
  • O saber e o poder

Objetivos, Virtualidades e Limites

Objetivos:

  • Estudo das representações sociais (sistemas de normas e valores, saberes sociais, representação de objetos, etc.)
  • Estudo do discurso e estratégias de argumentação
  • Estudo de ações passadas (aproximação biográfica, constituição de arquivos orais…)

Virtualidades:

  • Permite o aprofundamento da perceção do sentido que as pessoas atribuem às suas ações.
  • Torna-se flexível porque o contacto direto permite a explicitação das perguntas e respostas.

Limites:

  • É menos útil para efetivar generalizações. O que se ganha em profundidade perde-se em extensividade.
  • Implica interações diretas. As respostas são condicionadas pela própria situação de entrevista. Estes efeitos devem ser tidos em conta.

Tipologias de Entrevista

  • Grau de diretividade: Diretivas; semi-diretivas; não diretivas.
  • Estrutura: Centrada; em profundidade; clínica.
  • Objetivos: Controlo; verificação; aprofundamento; exploração.
  • Tipos de utilização: Exploratória; principal; complementar.
  • Número de entrevistados: Individuais; em grupo (focus group).

Tipologia de Entrevistas e Objetivos de Pesquisa

Tipo / ObjetivosNão DiretivaSemi-DiretivaDiretiva
Controlo
Verificação
Desenvolvimento
Exploração

A Realização de Entrevistas: Parâmetros e Procedimentos

  • A situação social
  • O contrato de comunicação
  • A interação discursiva

Contrato de Comunicação

Envolve saberes implícitos e explícitos. Os parâmetros incluem:

  • Informação sobre os objetivos de pesquisa
  • A escolha dos entrevistados e a forma de contacto
  • A utilização de um gravador
  • O tipo de relação esperado

A Situação Social

  • Factores ligados ao contexto situacional (constrangimentos espaciais e temporais)
  • Factores ligados às características sociais dos intervenientes

A Interação Discursiva

  • Estratégias de escuta
  • Estratégias de intervenção (instruções e comentários)

Comentários e Atos Linguísticos

Registo Discursivo / Acto LinguísticoDeclaraçãoInterrogaçãoReiteração
Modal (Atitude)InterpretaçãoQuestão sobre a atitudeReflexo
Referencial (Conteúdo)ComplementaçãoQuestão sobre o conteúdoEco

Exemplo de Intervenções-Comentário

“Os ativistas dos direitos humanos são corajosos, mas eu penso que eles são irresponsáveis”

  • Declarações:
    • Complementação: “...eles não se dão conta (síntese parcial)” ou “...mas também empenhados (antecipação incerta)”
    • Interpretação: “...você tem receio das consequências negativas...”
  • Reiterações:
    • Reflexo: “...você pensa que eles são irresponsáveis”
    • Eco: “...eles são irresponsáveis”
  • Interrogações:
    • Questão sobre o conteúdo: “Em que caso?”
    • Questão sobre a atitude: “O que é que você pensa exatamente?”

Estratégias de Investigação

Classificações Metodológicas (Greenwood)

  • Método Experimental
  • Método de Medida (Análise extensiva)
  • Método de Casos (Análise intensiva)

Estratégias Metodológicas: Quantitativas vs. Qualitativas

1. Estratégias Extensivas/Quantitativas:

  • Objetivos: Explorar padrões gerais (the big picture) a partir da análise de relações entre variáveis num elevado número de casos.
  • Procedimentos: Construção de instrumentos estandardizados (ex: inquéritos por questionário, fontes estatísticas).
  • Resultados: Relações quantificadas entre variáveis.
  • Vantagens: Estandardização, generalização e uso de meios informáticos.
  • Inconvenientes: Rigidez, excessiva estruturação e superficialidade.

2. Estratégias Intensivas/Qualitativas:

  • Objetivos: Estudo em profundidade de um caso ou número limitado de casos; investigar a complexidade das relações.
  • Procedimentos: Recolha de dados multifacetada (observação), implicando interação próxima do investigador.
  • Resultados: Estudos de caso; descrição densa (thick description).
  • Vantagens: Procedimentos flexíveis; dados ricos e heterogéneos.
  • Inconvenientes: Impossibilidade de generalizar; possível dispersão.

3. Estratégias Comparativas/Tipológicas:

  • Objetivos: Captar a diversidade do fenómeno a partir de um número limitado mas significativo de casos.
  • Procedimentos: Comparação de unidades através de metodologias de “média intensidade” (entrevistas, análise documental).
  • Resultados: Tipologias das principais modalidades do fenómeno.

A Investigação-Ação

  • Objetivos de aplicação direta dos conhecimentos.
  • Trabalho em equipas multidisciplinares.
  • Níveis de intervenção variáveis (do diagnóstico à participação).
  • Ciclo entre ação e reflexão.

Objetivos Gerais da Investigação

  1. Identificar padrões e relações gerais
  2. Testar e especificar teorias
  3. Fazer predições
  4. Interpretar a significância cultural e histórica dos fenómenos
  5. Explorar a diversidade
  6. “Dar voz”
  7. Desenvolver novas teorias

Método Biográfico e Histórias de Vida

Utiliza uma diversidade de documentos como cartas, diários, fotografias e filmes. Baseia-se na indagação não estruturada sobre as histórias de vida relatadas pelos próprios sujeitos.

  • Histórias de vida (life history): Análise detalhada da trajetória biográfica; indivíduo como estudo de caso; uso de documentos complementares.
  • Relatos de vida (life story): Narrações biográficas ligadas ao objeto de estudo; foco em aspetos particulares da experiência.

Contradições Teóricas e Distorções

  • A “utopia biográfica” (Passeron): Tendência a que todos os detalhes pareçam significativos.
  • A “ideologia autobiográfica” (Bertaux): Tendência do narrador em reorganizar a existência para buscar coerência.
  • A “ilusão biográfica” (Bourdieu): Ilusão de coerência imposta pelo analista a vidas descontínuas.

Modalidades de Análise (Daniel Bertaux)

  • Perspetiva etno-sociológica (estruturalista): Busca de “saturação” e primado da teoria.
  • Modelo hermenêutico: Análise em profundidade dos sentidos ocultos.

Dimensões nos Relatos de Vida

  • Realidade histórico-empírica: Contexto e vivência de acontecimentos; tempo coletivo vs. biográfico.
  • Realidade psíquica: Conteúdos semânticos e itinerário biográfico.
  • Realidade discursiva: O relato como fruto da situação de entrevista; encadeamentos e sequências.

Perspetivas de Análise

  • História Natural (Thomas e Znaniecki): Reconstituição de contextos objetivos através de definições subjetivas.
  • Análise Compreensiva (Bertaux): Identificação de índices, pontos de viragem (epifanias) e contextos socio-históricos.
  • Análise Temática (Boyatzis): Identificação de núcleos temáticos e categorias centrais.
  • Análise Interpretativa (Denzin): Relatos como “ficções” interpretadas; método progressivo-regressivo.
  • Análise da Identidade (Demazière e Dubar): Análise estrutural em três níveis (sequências, atuantes, proposições).

Observação e Observação Participante

“A verdadeira fórmula não consiste em identificar-se, mas em participar nas atividades quotidianas (…) não pôr demasiadas questões, mas, ao contrário, escutar.” (J. Portela)

  • Observação Direta: Técnicas visuais e auditivas sem interações verbais específicas; supõe anonimato.
  • Observação Participante:
    • Vantagens: Acesso à informação real sem distorções; observa condutas de difícil verbalização; útil para sujeitos que não podem prestar informação.
    • Tipologias: Grau de sistematização (ocasional vs. controlada) e grau de participação.

Grau de Participação do Observador (Burgess/Gold)

  1. Participante completo: Investigador oculto (under cover).
  2. Participante como observador: Participação ativa com papel de observador explícito.
  3. Observador como participante: Contacto breve e formal; acesso limitado.
  4. Observador completo: Sem interação com os informantes.

Instrumentos e Procedimentos Finais

  • Acesso ao terreno: Negociação em várias fases e múltiplos pontos de acesso.
  • Recolha de informação: Observação direta e participante; atenção aos efeitos de redundância e saturação.
  • Análise dos dados: Simultaneidade e integração.
  • Relações: Privilégio da informalidade e uso de informantes privilegiados para inserção e obtenção de dados sobre o contexto.

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