A Picaresca e o Quixote: Contexto e Evolução Literária
CAUSAS SOCIAIS DA PICARESCA
As causas que determinam o aparecimento da picaresca são quatro, as quais nomeio e explico a seguir:
Desemprego: Foi causado devido à expulsão dos judeus, o que gerou uma grande perda de mão de obra e de capital, uma vez que eles movimentavam muito dinheiro. Também se somou à perda de postos e empresas na América.
A pureza de sangue: A sociedade dividia-se em duas linhagens: os ancestrais que não eram judeus e aqueles que eram misturados e compartilhavam essa descendência.
O conflito da Contrarreforma: Uma tentativa de travar as ideias reformistas, pois a Igreja não aceitava que o homem questionasse suas doutrinas. Apela-se ao Concílio de Trento a fim de conter a propagação dos textos reformistas.
O contexto cultural: Após o Concílio de Trento, houve um aumento de livros religiosos para treinar as pessoas nas ideias da Contrarreforma.
A IRONIA DE LAZARILLO
A ironia é a pedra angular de toda a obra, tanto quanto os padrões morais estabelecidos nos romances de cavalaria. A ironia manifesta-se em dois personagens:
O cego: Embora seja social e moralmente nocivo para Lázaro, é um personagem positivo que o ensina a sobreviver e a defender-se em terreno hostil.
O clero: Possui bom reconhecimento social, mas aparece como um explorador de Lázaro, sendo lascivo e sem escrúpulos.
Lázaro representa a figura do anti-herói; segue-se uma comparação entre um herói de cavalaria e Lázaro:
HERÓI | LÁZARO |
De nascimento nobre | Bastardo: filho de uma prostituta e de um ladrão, adotado por um negro. |
Bonito e bem vestido | Doentio, sujo e vestido de farrapos. |
O amor atua como um estímulo para suas realizações. | Não aparece. Matrimônio "de conveniência". |
Honra e reconhecimento do seu valor pela "amada". | Fome. |
Obtém títulos e reconhecimento social. | Consente com a fama de corno. |
Espaço aberto. | Espaço localizado na cidade. |
A TEORIA DE CERVANTES NO QUIXOTE
A teoria de Cervantes deve satisfazer três eixos básicos desse romance, que explico abaixo:
Ficção-Realidade: Só pode haver uma história fantástica se o leitor conseguir se identificar com o conflito. Por isso, busca-se um equilíbrio para que o romance possa ser realmente interessante, tratando de algo que o leitor conhece.
Unidade-Pluralidade: A história deve partir de um eixo central para resolver a trama sem quebrar a unidade, incorporando as contribuições necessárias; o equilíbrio estrutural reside aqui.
Prazer-Crueldade: Busca alcançar a harmonia entre o que seria aprendido com o ensino (didatismo) e, ao mesmo tempo, entreter e dar prazer ao leitor até o final.
REALIZAÇÕES DO QUIXOTE DE CERVANTES
Há muitos sucessos alcançados com este romance:
Nível literário: Reprocessou toda a tradição anterior, rompendo com os livros de cavalaria irreais; é uma obra fundamental da literatura mundial.
Nível social: Plasmou uma crise de valores sociais, humanos e religiosos, retratando o modelo social de seu próprio tempo e sendo relevante para a mentalidade da época.
No nível humano: Simboliza a dualidade em cada ser humano e também o homem único, capaz de lutar por seus ideais.
Quanto à categoria do personagem: Cria um herói na vida cotidiana que responde ao perfil de um paranoico; o leitor nunca despreza a voz de D. Quixote, mas o respeita como um estudioso.
Suas façanhas não são o que o tornam heróico, mas sim a humilhação que faz dele um herói psicológico ao corrigir seus erros.
A HISTÓRIA DA CAVALARIA
O romance de cavalaria atingiu o seu ponto mais alto até o final do período glorioso, mas declinou com o surgimento de obras como o Quixote. Estes livros recolhem as aventuras de um herói, a serviço nobre de um ideal forte, que tenta conquistar o amor de uma mulher.
C. Física: Ele é jovem, bonito e bem vestido.
C. Psicológica: Possui espírito nobre, apaixonado por uma mulher conforme o cânone do amor cortês.
FUNÇÃO: Fornecer um paradigma de comportamento perfeito e um tratamento estilizado.
Obras: "Tirant Lo Blanc" e "Amadis de Gaula".
DIFERENÇAS ENTRE O PRIMEIRO E O SEGUNDO LIVRO DO QUIXOTE
Neste quadro, podemos ver claramente as diferenças entre as duas partes:
Primeiro Livro | Segundo Livro |
As interpolações são mais forçadas; por vezes, a presença de D. Quixote é passiva. | A interpolação surge de forma natural na ação central. |
Aventuras imaginativas e excitantes. | As aventuras ficam em segundo plano perante o valor literário e humano dos personagens. |
Diálogo explicitamente apoiado pela voz do autor. | O diálogo atinge a sua plenitude. |
A ação é o elemento-chave. | A ação é menos importante; o sentido do processo psicológico do personagem está em primeiro plano. |
D. Quixote interpreta a realidade a partir de sua visão utópica. | Aqui vê a realidade como ela é; agora são os outros que fantasiam para se encaixar na sua loucura. |