A Picaresca e o Quixote: Contexto e Evolução Literária

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CAUSAS SOCIAIS DA PICARESCA

As causas que determinam o aparecimento da picaresca são quatro, as quais nomeio e explico a seguir:

  1. Desemprego: Foi causado devido à expulsão dos judeus, o que gerou uma grande perda de mão de obra e de capital, uma vez que eles movimentavam muito dinheiro. Também se somou à perda de postos e empresas na América.

  2. A pureza de sangue: A sociedade dividia-se em duas linhagens: os ancestrais que não eram judeus e aqueles que eram misturados e compartilhavam essa descendência.

  3. O conflito da Contrarreforma: Uma tentativa de travar as ideias reformistas, pois a Igreja não aceitava que o homem questionasse suas doutrinas. Apela-se ao Concílio de Trento a fim de conter a propagação dos textos reformistas.

  4. O contexto cultural: Após o Concílio de Trento, houve um aumento de livros religiosos para treinar as pessoas nas ideias da Contrarreforma.


A IRONIA DE LAZARILLO

A ironia é a pedra angular de toda a obra, tanto quanto os padrões morais estabelecidos nos romances de cavalaria. A ironia manifesta-se em dois personagens:

  • O cego: Embora seja social e moralmente nocivo para Lázaro, é um personagem positivo que o ensina a sobreviver e a defender-se em terreno hostil.

  • O clero: Possui bom reconhecimento social, mas aparece como um explorador de Lázaro, sendo lascivo e sem escrúpulos.

Lázaro representa a figura do anti-herói; segue-se uma comparação entre um herói de cavalaria e Lázaro:

HERÓI

LÁZARO

De nascimento nobre

Bastardo: filho de uma prostituta e de um ladrão, adotado por um negro.

Bonito e bem vestido

Doentio, sujo e vestido de farrapos.

O amor atua como um estímulo para suas realizações.

Não aparece. Matrimônio "de conveniência".

Honra e reconhecimento do seu valor pela "amada".

Fome.

Obtém títulos e reconhecimento social.

Consente com a fama de corno.

Espaço aberto.

Espaço localizado na cidade.


A TEORIA DE CERVANTES NO QUIXOTE

A teoria de Cervantes deve satisfazer três eixos básicos desse romance, que explico abaixo:

  1. Ficção-Realidade: Só pode haver uma história fantástica se o leitor conseguir se identificar com o conflito. Por isso, busca-se um equilíbrio para que o romance possa ser realmente interessante, tratando de algo que o leitor conhece.

  2. Unidade-Pluralidade: A história deve partir de um eixo central para resolver a trama sem quebrar a unidade, incorporando as contribuições necessárias; o equilíbrio estrutural reside aqui.

  3. Prazer-Crueldade: Busca alcançar a harmonia entre o que seria aprendido com o ensino (didatismo) e, ao mesmo tempo, entreter e dar prazer ao leitor até o final.



REALIZAÇÕES DO QUIXOTE DE CERVANTES

Há muitos sucessos alcançados com este romance:


  • Nível literário: Reprocessou toda a tradição anterior, rompendo com os livros de cavalaria irreais; é uma obra fundamental da literatura mundial.

  • Nível social: Plasmou uma crise de valores sociais, humanos e religiosos, retratando o modelo social de seu próprio tempo e sendo relevante para a mentalidade da época.

  • No nível humano: Simboliza a dualidade em cada ser humano e também o homem único, capaz de lutar por seus ideais.

  • Quanto à categoria do personagem: Cria um herói na vida cotidiana que responde ao perfil de um paranoico; o leitor nunca despreza a voz de D. Quixote, mas o respeita como um estudioso.

    Suas façanhas não são o que o tornam heróico, mas sim a humilhação que faz dele um herói psicológico ao corrigir seus erros.


A HISTÓRIA DA CAVALARIA


O romance de cavalaria atingiu o seu ponto mais alto até o final do período glorioso, mas declinou com o surgimento de obras como o Quixote. Estes livros recolhem as aventuras de um herói, a serviço nobre de um ideal forte, que tenta conquistar o amor de uma mulher.

  • C. Física: Ele é jovem, bonito e bem vestido.

  • C. Psicológica: Possui espírito nobre, apaixonado por uma mulher conforme o cânone do amor cortês.


FUNÇÃO: Fornecer um paradigma de comportamento perfeito e um tratamento estilizado.

Obras: "Tirant Lo Blanc" e "Amadis de Gaula".



DIFERENÇAS ENTRE O PRIMEIRO E O SEGUNDO LIVRO DO QUIXOTE


Neste quadro, podemos ver claramente as diferenças entre as duas partes:

Primeiro Livro

Segundo Livro

As interpolações são mais forçadas; por vezes, a presença de D. Quixote é passiva.

A interpolação surge de forma natural na ação central.

Aventuras imaginativas e excitantes.

As aventuras ficam em segundo plano perante o valor literário e humano dos personagens.

Diálogo explicitamente apoiado pela voz do autor.

O diálogo atinge a sua plenitude.

A ação é o elemento-chave.

A ação é menos importante; o sentido do processo psicológico do personagem está em primeiro plano.

D. Quixote interpreta a realidade a partir de sua visão utópica.

Aqui vê a realidade como ela é; agora são os outros que fantasiam para se encaixar na sua loucura.

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