Pioneirismo e Inovação na TV Brasileira: Excelsior e Tupi

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A Inovadora TV Excelsior: Visão e Legado

A Excelsior já nasceu grande. Mário Wallace Simonsen, milionário do ramo do café, era ligado aos políticos e pensadores reformistas e modernizantes da economia política, o que facilmente o confundia com um comunista, mas que hoje seria classificado como centro-esquerda liberal. Comprou a concessão do Canal 9 em São Paulo, de Vitor Costa, que também era dono do Canal 5, a TV Paulista, emissora mais tarde comprada por Roberto Marinho.

Pioneirismo na Gestão e Tecnologia

Ele fez da emissora, para a época, um exemplo de profissionalismo e administração empresarial. Foi a primeira no Brasil a pagar salários dignos, separar os contratos entre rádio e TV, para que a remuneração e trabalho pudessem ser exercidos de forma independente e, principalmente, verticalizou a administração e a programação, para o que hoje é conhecido como grade de programação. Essa fórmula seria copiada pela Globo nos anos 70. Além disso, trouxe o que mais havia de moderno no mercado televisivo, o Vídeo Tape, que permitia que a televisão se liberasse das transmissões ao vivo e do material cinematográfico para trabalhos externos.

Contratou, pelo menos pelo dobro dos salários vigentes, os melhores artistas e jornalistas de que poderia dispor.

Conteúdo Nacionalista e Talentos

Quanto ao seu conteúdo, era inteiramente nacionalista, como seu proprietário. Não se passavam músicas estrangeiras e, em todos os programas oferecidos pela emissora, jornalísticos ou não, discutia-se o Brasil e a cultura nacional. A transmissão de teatro na televisão foi algo raro historicamente na televisão brasileira, e dela se sobressaíram nomes como Gianfrancesco Guarnieri, Walter George Dust, Vianinha e Jorge Andrade. Em 1963, a emissora esvaziou o cast da TV Rio; dentre os que chegaram a São Paulo estavam Chico Anísio, Moacyr Franco e Golias, assim como Edson Leite e Alberto Saad, trazidos do forte jornalismo da rádio Bandeirantes.

O Telejornalismo de Vanguarda

Quanto ao telejornalismo, a Excelsior trouxe profissionais como João Baptista Lemos, Fernando Pacheco Jordão e Wladimir Herzog, que introduziram o telejornal entre as duas telenovelas da emissora, outra forma copiada pela Globo. Quanto à forma, seguiram o modelo norte-americano da época de alta qualidade visual, e jornalistas especializados em assuntos diferenciados, como política e economia, com o intuito de dar a notícia, explicá-la e comentá-la por pessoas gabaritadas. A redação era composta, dentre outros, por Newton Carlos, Tarcísio Holanda, Villas Boas Correa, Haroldo de Holanda, Gilda Müller, Milor Fernandes e Borjalo.

Todos estes faziam o Telejornal de Vanguarda, que foi premiado no exterior como o melhor telejornal do mundo, fato até hoje inigualado, e que, depois da promulgação do AI-5, não mais foi transmitido por escolha dos próprios jornalistas. "Cavalo de raça se mata com um tiro na cabeça", afirmou um dos produtores, ao comentar a decisão da redação, que percebeu a impossibilidade da existência de tal telejornal sob o novo ato.

O telejornal também bebeu da fonte da montagem cinematográfica em suas experiências com o vídeo tape, adicionando movimento às matérias e mesmo o fundo em que os apresentadores apareciam no vídeo pelo corte de várias imagens, técnica criada por Ciro Dornelas, que mais tarde repetiu a fórmula na Globo no telejornal-revista Fantástico.

Perseguição Política e o Fim da Excelsior

Mas, como seu dono era uma figura proeminente de pensamento progressista de esquerda, mesmo sem ser comunista, passou a ser perseguido depois do golpe de 1964. Na ocasião, foi instaurada a CPI do Café, exclusivamente para devassar os negócios de Simonsen. A posição que a emissora se definiu em relação ao golpe era de repúdio, pois defendia o constitucionalismo.

A perseguição se estendeu a todos de sua família e a todos os seus outros negócios, como a companhia de aviação Panair, que foi fechada pelo governo.

Quanto à inovadora TV Excelsior, sua concessão foi suspensa pelo governo federal no dia 28 de setembro de 1970. A maior parte de seus grandes profissionais foi incorporada pela Globo, enquanto a maior parte dos técnicos foi para as recém-inauguradas TV Gazeta e TV Cultura.

A Primeira Fase da Televisão Brasileira: Anos 50

A primeira transmissão de TV no Brasil aconteceu no Rio de Janeiro em 1949, quando uma multinacional norte-americana veio ao país para apresentar a novidade. Transmitiu-se da Rádio Nacional o primeiro sinal de televisão a dois aparelhos colocados um de cada lado da esquina da Avenida Rio Branco com a Rua São José. Os dois únicos minutos de imagens e sons irradiados pelo aparato foram tão mal recebidos que a diretora da rádio recusou a oferta e alegou que a televisão não tinha futuro no Brasil.

Os americanos então foram à segunda rádio mais ouvida, a Tupi, oferecer o serviço a seu dono, Assis Chateaubriand. Ele aceitou.

O Nascimento da TV Tupi: Desafios e Inovação

O contrato foi firmado com a RCA Victor, cinco milhões de dólares pela compra de 30 toneladas de equipamento. Os estúdios seriam construídos ao lado da Rádio Difusora Tupi, no bairro do Sumaré, em São Paulo. Coube a Demerval Costa Lima e Cassiano Gabus Mendes, este com 19 anos na época, preparar o terreno para que, no ano seguinte, fosse inaugurada a TV Tupi, apenas baseados em suas experiências em rádio.

A primeira transmissão aconteceu no dia 5 de julho de 1950, um teste dos equipamentos. O evento foi a inauguração da primeira sede do Museu de Arte de São Paulo - MASP, na Rua Sete de Abril, no mezanino do prédio dos Diários Associados.

Para o evento, foi convidado o Padre José de Guadalupe Mojica, que havia sido astro em Hollywood, substituindo Rodolpho Valentino como ídolo dos filmes mudos, mas que decidiu, em certa hora, tornar-se frade no Peru. Os monitores foram instalados no saguão do edifício Guilherme Guinle, e outro no espaço entre as Ruas Sete de Abril e Bráulio Gomes. Desta vez, a transmissão foi bem-sucedida.

No dia 18 de setembro, todos aguardavam a inauguração oficial da emissora. Um mês antes, o engenheiro americano Walter Obermüller, trazido da NBC para auxiliar na empreitada, descobriu que não havia sido vendido um único aparelho de televisão para que as pessoas assistissem à Tupi. O dono dos Associados disse ao americano que tudo "se dava um jeito". Ele próprio contrabandearia as televisões para o país e, para evitar problemas, enviou um televisor como presente para o presidente Dutra.

Os problemas não haviam acabado. A cerimônia de inauguração havia sido atrasada várias vezes. Uma das três câmeras, a que registraria uma cena externa, havia quebrado. O consultor cancelou a inauguração. Cassiano Gabus Mendes disse aos artistas e técnicos que ignorassem a ordem. Cassiano tocou a inauguração apenas com duas câmeras. Uma hora depois, entrava no ar a transmissão inaugural da primeira TV brasileira, a TV Tupi. O americano, mais tarde, desafiou os brasileiros a explicarem como, na estreia da primeira televisão do país, havia mais gente atrás das câmeras do que na frente dos televisores assistindo à programação.

Os Primeiros Telejornais e a Popularização

O primeiro telejornal brasileiro entrou no ar na mesma semana, chamava-se Imagens do Dia. O noticiário era filmado em película de 16mm, já que os equipamentos da época não eram nem portáteis nem fáceis de manejar. As imagens eram reveladas em um laboratório e montadas na redação dos Diários Associados e, apenas então, enviadas para a emissora no Sumaré. O rolo era telecinado para a TV, que era acompanhado de um off, feito ao vivo por Rui Resende e Paulo Salomão. Foi apenas meses depois que O Grande Jornal Falado, originário do rádio, ganharia uma versão televisiva, desta vez com apresentadores no vídeo.

Durante os cinco primeiros anos, havia apenas três emissoras (a terceira em Belo Horizonte), mas todas com pouca capacidade real de transmissão, cobriam, no máximo, de 50 a 100 Km, para cerca de 7 mil aparelhos. A popularização só aconteceu depois que surgiram os aparelhos Invictus, os primeiros não importados, feitos no Brasil com o máximo de peças nacionais possíveis. No final da década de 50, por incentivo de Juscelino, o então presidente, a publicidade aumentou drasticamente na TV, impulsionada pela ampla abertura de crédito para a compra de televisores por pessoas com menos posses.

Jornais da rede Associada, pró-governo. Na virada dos anos 50, surgiram dois repórteres que se tornariam ícones do jovem jornalismo televisivo: Tico-Tico (José Carlos de Moraes), veterano da Rádio Bandeirantes, e Carlos Spera. Ambos, originários do rádio, estavam longe da figura moderna de jornalista televisivo: o primeiro, de estatura muito abaixo da média, e o segundo, com graves vícios de linguagem. O último abria suas reportagens com a frase "Senhoras e senhores...".

Outro marco da Tupi foi o programa de entrevistas Pinga-Fogo, em que um entrevistado era sabatinado por vários jornalistas dispostos em círculo, formato revivido pela TV Cultura décadas depois. Neste programa, o Governador de São Paulo Adhemar de Barros disse, no início de março de 1964, para que as pessoas não se surpreendessem se "dentro de um mês não teríamos outro governo no Brasil".

Outras Emissoras Pioneiras: TV Rio

Outras emissoras surgiram com o incentivo do governo e de setores privados do país. O maior exemplo disto foi a TV Excelsior, mas houve outra que a precedeu: a TV Rio.

Esta, que sobreviveu por relativamente pouco tempo, revelou José Bonifácio Sobrinho, o Boni, e Walter Clark. A pequena emissora carioca lançou o primeiro telejornal intitulado Jornal Nacional, que foi liderado por Heron Domingues, o mesmo do Repórter Esso, e Armando Nogueira, vindo de O Cruzeiro. A emissora se apoiou no humorismo para galgar rapidamente a liderança na então capital do país. Surgida em 1955, sofreu dois grandes abalos que selaram seu fim, além da desavença interna da família proprietária: a inauguração da Excelsior, que levou, da noite para o dia, todo seu elenco artístico, e a da Globo, que levaria seus executivos. Um dos grandes talentos revelados pela TV Rio foi Fernando Barbosa Lima, filho de Barbosa Lima Sobrinho, ex-presidente da ABI e da ABL, uma das principais vozes antiditatoriais, seja no Estado Novo ou no Golpe de 1964. Ele demonstrou na emissora carioca um talento enorme para a televisão e se destacou neste período inicial. Na TV Rio, fez o programa de entrevistas Preto no Branco, em que o entrevistado era sabatinado por perguntas feitas por diversos jornalistas em um cenário simplificado e filmado em película. Com o tempo, Fernando também foi contratado pela Excelsior.

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