A Era Pós-Primeira Guerra Mundial: Revolução, Totalitarismo e Crise Global
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A Expansão da Revolução Comunista
Lênin e Trotski acreditavam que a revolução soviética não poderia ser consolidada se não se espalhasse para outros países. A tentativa mais significativa foi o levante revolucionário na Alemanha. Seu objetivo era conquistar o poder e criar um regime comunista, mas a tentativa foi abortada pelo exército. Em 1919, também houve uma revolução na Hungria, que impôs um sistema comunista de curta duração, liderado por Béla Kun. Na Europa, partidos comunistas foram estabelecidos na maioria dos países. No entanto, em nenhum lugar da Europa a possibilidade de uma revolução socialista parecia estar próxima.
Lênin: Morte e Disputa pelo Poder
Em 1924, Lênin morreu, deixando um mistério sobre sua sucessão. O vácuo de poder rapidamente desencadeou uma luta entre os líderes do Partido Bolchevique, conhecida como o Grande Debate, que se desenvolveu entre 1924 e 1928 em várias frentes. O debate polarizou-se em torno de duas figuras: Trotski e Stálin. Mas as intrigas também implicaram outros líderes bolcheviques, como Kamenev, Zinoviev, Bukharin e Lunacharski.
Trotski e seus aliados representavam a ala radical do partido, que defendia o abandono da NEP (Nova Política Econômica) para aprofundar a revolução socialista. Outros líderes, com Stálin à frente, representavam as posições mais conservadoras. Em 1927, a luta se aprofundou, e Stálin conseguiu tomar o poder. O resultado foi a criação de um poder autoritário nas mãos de um ditador, um centralismo absoluto e a extrema dificuldade de seguir qualquer caminho de participação democrática na revolução. Stálin também optou por encerrar a economia mista e pela coletivização forçada de todos os bens, perseguindo todos aqueles que lhe resistiram. Stálin eliminou todos os seus adversários, deportando-os ou condenando-os à morte após julgamento. Tornou-se uma ditadura real, baseada no poder absoluto de Stálin, do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) e do Estado.
Stálin: A Consolidação do Poder
O sistema stalinista impôs o primado absoluto da ideologia comunista. O Partido Comunista tornou-se uma entidade monolítica que não permitia o debate, exigindo a submissão de todos os seus membros à linha do partido. Stálin estabeleceu uma ditadura pessoal, baseada nos recursos do Partido Comunista, que perseguiu, prendeu e aniquilou todos os que se opuseram a ele ou que poderiam ofuscá-lo. Stálin usou a burocracia para fortalecer o partido e o Estado, criando uma nova classe privilegiada: a Nomenclatura. Ela era composta por planejadores econômicos, gestores empresariais, dirigentes de cooperativas agrícolas, arquitetos responsáveis por obras públicas e uma série de líderes do partido ligados à organização e administração do Estado. Essas elites tinham acesso a privilégios que eram inacessíveis à maioria das pessoas. O pensamento socialista foi reduzido a um conjunto de dogmas e apropriado para o culto à personalidade de Stálin, que era reverenciado como líder e benfeitor da URSS. Também impôs uma censura rígida do Estado em todas as áreas. O Realismo Socialista tornou-se a arte oficial da União Soviética. A arte vanguardista foi proibida.
Coletivização, Planejamento e Economia Soviética
Na frente econômica, Stálin direcionou-se para a construção de uma sociedade sem propriedade privada, com controle estatal de todos os meios financeiros. O Estado implementou um rígido controle do planejamento econômico, que se consubstanciou nos obrigatórios Planos Quinquenais, desenvolvidos e supervisionados pela Gosplan. Seu objetivo era duplo: transformar a URSS em um país totalmente industrializado e tornar o setor agrícola um centro de produção extraordinário, através da exploração coletivizada. O Primeiro Plano Quinquenal foi de 1929 a 1933. Durante o primeiro plano, nas cidades, foram coletivizadas propriedades de transporte e instrumentos financeiros. Toda a indústria foi socializada, e também se defendeu a abolição da economia de mercado e a alocação de recursos pelo Estado. A coletivização em massa da agricultura começou em 1929. A coletivização visava o fim dos kulaks. O capital necessário para o crescimento industrial foi retirado da agricultura, mineração e outras atividades primárias, o que gerou uma desigualdade significativa entre a cidade e o campo. A agricultura foi o setor onde o planejamento teve seu maior fracasso. Resultou em períodos de escassez na oferta de alimentos. A prioridade à indústria pesada resultou em escassez de produtos de consumo, e a sociedade soviética viu-se privada de bens essenciais. Consequentemente, o nível de vida da população não melhorou substancialmente. O planejamento impulsionou a industrialização da URSS em dez anos e transformou rapidamente a estrutura da economia. A produção industrial cresceu enormemente, especialmente na siderurgia, produção de energia e consolidação da infraestrutura.
O Terror Stalinista e os Grandes Expurgos
O stalinismo desenvolveu uma ditadura com estruturas políticas e sociais mais rígidas. Stálin e o partido voltaram-se para a eliminação política. Ao longo da década de 1930, começou uma repressão generalizada conhecida como os Grandes Expurgos. Através de órgãos estatais, antigos líderes do partido foram perseguidos por crimes contra o Estado, colaboração com a Alemanha Nazista e outros crimes imaginários, no processo de militares supostamente em oposição a Stálin. Entre 1936 e 1938, ocorreram os infames Julgamentos de Moscou. Eles foram baseados em falsas acusações, e os acusados eram forçados a confessar seus 'erros' antes de receber a sentença. Stálin eliminou assim qualquer eventual oposição ou alternativa ao poder. O sistema prisional, conhecido como o "Gulag", reuniu uma série de campos de trabalho situados nas zonas mais inóspitas da URSS.
Novas Instituições Políticas na URSS
Uma mudança radical na organização e nas estruturas foi consagrada na nova Constituição. A nova Constituição manteve os sovietes como a espinha dorsal do sistema político, mas eles deixaram de ser assembleias livres e deliberativas, tornando-se parte do aparelho do Estado sob o controle do partido. O Estado soviético procurou adquirir alguma aparência de democracia, mas essa representação foi completamente prejudicada pelo fato de que as eleições só podiam apresentar candidatos aprovados pelo Partido Comunista da União Soviética. Falava-se da liberdade de expressão, mas apenas quando não atacava o sistema socialista. As instituições políticas foram mantidas de acordo com o esquema desenhado na década de 1920. O corpo deliberativo era o Soviete Supremo, que se reportava ao Presidium. O governo continuou a consistir dos comissários, com poderes crescentes, mas sempre subordinado ao de Stálin. Por sua vez, o poder local era exercido pelos sovietes locais. O Estado soviético manteve sua estrutura federal, e cada uma das repúblicas da União Soviética tinha seu próprio Soviete Supremo eleito. Apesar do aumento do poder central, o direito à autodeterminação foi exercido, mas Stálin submeteu qualquer capricho de autonomia nacional a um severo controle.
Efeitos Imediatos da Primeira Guerra Mundial
A Grande Guerra enfraqueceu os contendores europeus, afetando negativamente a população e a produção e provocando a quebra da cooperação entre os aliados. Em novembro de 1918, quase um décimo da capacidade de produção europeia foi prejudicado pela destruição. Os preços dos alimentos subiram, e as moedas europeias sofreram um processo de desvalorização. Os países aliados estavam muito endividados com os EUA, devido aos empréstimos. Os tratados de paz assinados após o fim das hostilidades geraram grandes divergências econômicas entre os países, desestabilizando o sistema monetário internacional e reduzindo a confiança dos investidores. A Alemanha foi responsabilizada pelo conflito e exigiu o pagamento de grandes somas de dinheiro, o que impediu sua recuperação econômica. A França, em particular, condicionou o pagamento das dívidas de guerra aos outros países aliados ao recebimento de indenizações da Alemanha. Os EUA se opuseram a essas reparações. Por sua vez, exigiram a satisfação das dívidas Interaliadas, o que gerou sérias discrepâncias entre os antigos aliados, que não chegavam a um acordo. Essas divergências enfraqueceram ainda mais a economia europeia. Os problemas econômicos foram particularmente graves na Alemanha. Entre 1923 e 1925, a França e a Bélgica ocuparam a bacia do Ruhr, o principal centro de mineração de carvão e aço da Alemanha, como garantia do pagamento das reparações necessárias. Isso desestabilizou ainda mais a economia alemã e estimulou o apoio a um nacionalismo radical.
Desequilíbrios Comerciais Pós-Guerra
As novas fronteiras alteraram os fluxos de produtos. A Alemanha perdeu muitos territórios, privando-a do acesso a matérias-primas. Isso dificultou as relações econômicas. Seu território e sua população diminuíram. Áustria e Hungria perderam grande parte de sua extensão. Bulgária, Turquia e Rússia foram afetadas por decisões políticas impostas pelos tratados. Houve um desequilíbrio comercial entre os países industrializados e os países exportadores. A recuperação da produção provocou uma escassez de alimentos e matérias-primas. O declínio dos preços agrícolas piorou a situação, tornando a importação e exportação mais difíceis e exigindo muito capital estrangeiro para compensar o déficit. A diminuição do valor reduziu as receitas, e os países não podiam pagar juros, sendo obrigados a buscar novos créditos.
A Ascensão da Economia Americana
A guerra acelerou o processo de consolidação da supremacia dos EUA sobre o Reino Unido. A moeda britânica continuava a ser a mais utilizada nas transações de reservas do banco central. A libra ainda era a moeda de referência para o comércio internacional. Pouco a pouco, o dólar impôs-se como moeda de troca, já que era o único conversível em ouro. Bancos dos EUA estabeleceram-se como os mais dinâmicos, e os EUA tornaram-se o único centro financeiro capaz de manter um sistema de empréstimos a longo prazo. Assim, tornou-se o principal investidor no mundo, substituindo o Reino Unido. Também influenciou o desequilíbrio comercial entre os EUA e a Europa. O aumento da competitividade dos EUA levou a uma balança comercial favorável. Assim, a economia dos EUA tornou-se a única a financiar a importante reconstrução europeia após a guerra.
A Prosperidade Americana e Seus Limites
Os EUA, como fornecedores de bens de capital, aceleraram o crescimento da produção industrial, acompanhado de uma mudança na estrutura de sua economia. A maioria dos produtos dos EUA entrou em mercados anteriormente dominados pelas potências europeias. Isso gerou um superávit crescente na balança comercial. Houve uma expansão da economia, graças à inovação tecnológica e às mudanças na organização do trabalho que dominaram a produção. Houve uma renovação energética que envolveu um grande aumento no uso de eletricidade e petróleo. Novas indústrias também se consolidaram. Popularizou-se o uso do telefone, automóveis e eletrodomésticos. O automóvel foi o primeiro a aplicar a produção em massa usando linhas de montagem. Seus efeitos foram muito positivos. Generalizou-se também a construção de arranha-céus nas grandes cidades, cujo crescimento populacional foi bem acima da média. Este foi um processo de concentração, resultado da forte concorrência e preços mais baixos. Houve um grande aumento na produtividade, o que permitiu à economia dos EUA reduzir os custos de produção. Teve efeitos muito positivos sobre o emprego, o que levou a uma maior demanda e estimulou o crescimento da oferta. Também houve uma grande mudança nos sistemas de negociação. Estabelecimentos comerciais especializados e de pequeno porte tiveram que lidar com cadeias de lojas de departamentos, que estabeleceram novos métodos de vendas. A compra a crédito ou o aluguel permitiram às famílias aumentar suas compras, tornando-se grandes motores da expansão econômica. O desejo de vender mais deu à publicidade e ao marketing um papel importante. Surgiu a revolução do consumo, que abriu as portas para a chamada sociedade de consumo. A confiança das pessoas fez com que o consumo crescesse a uma taxa superior ao crescimento da renda, o que causou um elevado endividamento das famílias. Os lucros e dividendos dos acionistas aumentaram, mas o aumento dos salários foi muito mais baixo. A melhoria do poder de compra dos trabalhadores não foi suficiente. Assim, em poucos anos, o fenômeno da superprodução começou a ser um problema para a economia dos EUA. A agricultura foi o setor mais atingido. Os produtores agrícolas viram sua renda reduzir devido à queda das exportações e dos preços a partir de 1922. Os preços industriais mantiveram-se bem acima dos agrícolas. Os agricultores foram forçados a vender suas terras e migrar para as cidades.
A Febre da Bolsa de Valores e a Crise de 1929
Em 1925, os lucros corporativos tendiam a ser gastos em crédito e no mercado de ações. O boom do mercado de ações, impulsionado por boas perspectivas de negócios, deu lugar a uma bolha especulativa: o valor das ações aumentava principalmente pela crença dos investidores de que, quanto antes comprassem, mais ganhariam. Esse fenômeno gerou uma demanda por títulos que aumentou ainda mais seu valor de mercado. O interesse pelo mercado de ações atingiu os pequenos investidores, muitos dos quais pegaram empréstimos para comprar ações. Pensavam que poderiam reaver o dinheiro com a venda de algumas ações, que, por sua vez, eram adquiridas por outros pequenos investidores, também a crédito. Enquanto o preço das ações continuou sua tendência ascendente, a euforia persistiu, e os empréstimos podiam ser devolvidos sem problemas. No entanto, isso parou de refletir as contribuições para os benefícios e o possível desenvolvimento futuro das empresas. O problema começou em 1929, quando o valor das ações começou a diminuir.