Raízes do Brasil: A Cultura Política e o Desenvolvimento
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No seu magnífico livro Raízes do Brasil, publicado originalmente em 1936, Sérgio Buarque de Holanda refere-se ao conflito entre os tipos do “aventureiro” e do “trabalhador”, que ele associa à distinção entre os povos “caçadores” e “lavradores”, respectivamente. Segundo ele, o primeiro tipo de sociedade, onde os “caçadores” são majoritários, almeja alcançar o ponto de chegada, “dispensando os processos intermediários”, enquanto que as sociedades compostas por “lavradores” baseiam-se, em palavras que ficaram famosas, no “esforço lento, pouco compensador e persistente, sem perspectivas de rápido proveito material”.
O Brasil é um país onde, politicamente, as “coalizões reformistas” têm dificuldades de se estabelecer, justamente pelo divórcio que existe entre os custos políticos que certas reformas exigem — das quais a previdenciária é a mais evidente — e a recompensa que, muitas vezes, chega apenas anos depois. Daí porque Câmara Cascudo pronunciou certa vez, há muitas décadas, a sentença que tão bem identifica certa característica brasileira de protelar a tarefa de encarar os problemas de frente: “o Brasil não tem problemas, mas apenas soluções adiadas”.
Transformações Econômicas e Perspectivas
Em linhas gerais, no começo da década de 2000, o Brasil se encontrava em circunstâncias algo similares às que países como Espanha ou Portugal tinham vivido em meados dos anos 1980, quando começavam a enfrentar os custos da integração à então Comunidade Econômica Europeia, sem que as vantagens disso ainda fossem claras.
A partir do início dos anos 1990, o Brasil passou por mudanças importantes na sua economia:
- Aumento do grau de abertura comercial e financeira;
- Maior competitividade empresarial;
- Amplo processo de privatização;
- Combate à inflação como prioridade (a partir de 1994);
- Adoção de medidas severas de ajuste fiscal.
No conjunto, tais passos constituem etapas do processo de transformação de uma economia rumo a uma situação de maior competição com o exterior, envolvendo o objetivo de ter indicadores fiscais sólidos, inflação baixa e regras de política econômica relativamente estáveis. Pode-se dizer que, na América Latina, o Chile é o caso bem-sucedido por excelência dessa trajetória, tendo começado o percurso antes do Brasil, com bastante êxito.