Reflexão sobre as Misericórdias e a Caridade Cristã
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Reflexão sobre as Misericórdias
I
De acordo com a etimologia da palavra (miseris + cor + dare), ter misericórdia para com alguém é abrir o próprio coração àqueles que, de certa forma, sofrem de alguma natureza de “miséria”, segundo um princípio em que está sempre ausente qualquer espécie de discriminação ou exclusão.
Por “misericórdia” entende-se também uma congregação ou irmandade de leigos comummente designados como irmãos e que são animados por um espírito de caridade fraterna junto de todos os que mais precisam. Esta caridade é vivida num clima de voluntariado generoso, conforme um fundamento genuinamente cristão de dar força aos que são vítimas de alguma necessidade. Estas associações de irmãos que vivem norteados por objectivos de solidariedade, são conformes a uma vocação evangélica, num espírito sistematicamente aberto ao sofrimento dos outros.
São conhecidas, e já foram largamente comentadas ao longo de vários números deste Boletim da Misericórdia de Santarém, assinados e comentados com a devida clareza por António Monteiro, as chamadas “Obras de Misericórdia” que tradicionalmente se costumam agrupar em 14 categorias. Recordando, pois, as designadas obras corporais:
- Dar de comer a quem tem fome;
- Dar de beber a quem tem sede;
- Vestir os nus;
- Dar pousada aos peregrinos;
- Visitar os doentes;
- Visitar os presos;
- Dar sepultura aos mortos.
Recordando também as chamadas obras espirituais:
- Dar bom conselho a quem pede;
- Ensinar os ignorantes;
- Corrigir os que erram;
- Consolar os que estão tristes;
- Perdoar as injúrias;
- Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo;
- Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos.
Portanto, o objecto de todas as obras de misericórdia mencionadas não pode senão ser o nosso próximo, entendendo-se por próximo todo aquele de quem cada um mais se aproxima, tendo sempre em conta que para a caridade não há fronteiras ou obstáculos de qualquer natureza. Assim, é um princípio assente que, para os irmãos de uma determinada Misericórdia, a sua respectiva função na mesma constitui um compromisso para com a comunidade envolvente que, em circunstância alguma, deve ser obliterado ou esquecido.
(Continua nos próximos números)
António Pita Soares