A Reforma Protestante e a Contrarreforma Católica

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A Reforma e a Contrarreforma

Crise na Religião Medieval

A expansão da vida e da atividade religiosa no século XV está conectada com uma tensão crescente que se desenvolveu na Idade Média em relação aos ideais defendidos pelos grandes santos do século XIII.

A força espiritual que se desenvolve durante o século XV tende a se concentrar dentro do indivíduo.

Esta onda de renovação espiritual colide com a estrutura social e eclesiástica, causando o surgimento de correntes religiosas divisionistas. Essas correntes, que se espalharam pelo Velho e Novo Mundo, baseavam-se nos ideais de pobreza e igualdade, em oposição a uma Igreja medieval que havia se tornado rica e hierárquica.

Desenvolveram-se várias heresias, como o Socialismo Cristão Alemão e os Valdenses, na França. A agitação social e as preocupações religiosas manifestavam-se também através de um fenômeno não menos preocupante: o apocalipticismo, apoiado por textos bíblicos, que renovou a ideia do Anticristo.

A Igreja do século XV estava em condições inadequadas para canalizar a corrente religiosa. O Papado estava desacreditado pelo mundanismo de seus líderes; a emergência dos Estados-nação havia enfraquecido sua posição política; e a aristocracia tomou posse de bispados e abadias. Além disso, o baixo clero, pobre e mal-educado, não podia realizar sua missão entre as almas de seus paroquianos.

Novas Formas de Espiritualidade: Devotio Moderna e Erasmo

O descontentamento com a organização social e econômica, baseado nos ideais bíblicos de pobreza e igualdade, perante uma Igreja rica e poderosa, deu origem ao Socialismo Cristão que manchou de sangue os campos alemães durante os motins agrícolas antes e depois da Reforma Luterana. O Socialismo Cristão aproximava-se dos ideais defendidos pela seita dos Irmãos da Boêmia e promovia a divulgação dos Valdenses, baseada no cumprimento das leis de Deus.

O apocalipticismo é desenvolvido no Evangelho e no Apocalipse de São João.

Intelectuais humanistas ajudaram a preparar o clima para a Reforma. Os humanistas baseavam-se em ideais opostos aos da Igreja, buscando a renovação do cristianismo e da cultura clássica, enfatizando os valores individualistas do espírito cristão. O dogma foi substituído pelo teísmo universal, e a crítica religiosa prevaleceu.

Na Espanha, o novo ideal estava a serviço da Igreja para a reforma no âmbito de suas tradições históricas. O resto da Europa, por outro lado, vivia sob os preceitos da filosofia de compromisso com o programa de Erasmo de Roterdã.

Erasmo defendia a conciliação do esplendor do Papado com o Humanismo, instituindo um racionalismo teológico. Para Erasmo, o problema surge como uma manifestação da inteligência soberana que reflete sobre a fé e os valores, considerados independentes de Deus, Cristo, da Igreja e do homem.

Lutero e o Ambiente Político do Império

O fervor religioso do século XV, na Alemanha, misturava sentimentos dissidentes com o dogmatismo nacional e da Igreja de Roma. A instabilidade social e o fracasso das tentativas de governança pública de centralizar a situação criaram um ambiente favorável para o enraizamento de novas posições religiosas na população. Nesta atmosfera cresceu a geração reformista de 1517, cujas características eram o espírito entusiasta, violento, crítico e profundamente religioso.

Durante o reinado de Frederico III, a anarquia do regime era evidente, o que exigiu a consideração da reforma, que seria enfrentada por Maximiliano I.

Ruptura com Roma: Impacto Social e Político

O novo impacto da Escolástica exerceu profunda influência sobre o espírito de Lutero; o nominalismo ockhamista gravou duas ideias em sua mente: a forte declaração da vontade humana e a justiça severa de Deus.

Lutero ingressou na ordem dos eremitas agostinianos em 1505. O problema de como alcançar a salvação eterna era sua preocupação mais premente. Sua visão do mundo e seu temperamento excessivo o levaram a procurar uma solução, baseando-se em um conceito pessoal. Chegou a uma conclusão negativa: a vontade humana por si só não conseguia superar o estado de pecado e alcançar a justiça diante de Deus.

A doutrina da justificação pela fé, pelo puro ato de pensar e sentir, continha o conceito latente de predestinação, e de que a Providência concedia ou não a suprema misericórdia de Deus e a crença na obra histórica de Cristo.

As indulgências concedidas pelo Papa Leão X favoreceram a difusão de suas doutrinas, pois Lutero demonstrou discordância com a forma materialista como as indulgências eram tratadas.

Tetzel e Eck responderam às teses de Lutero. Estes debates tiveram uma ressonância popular inesperada. Devido a essa comoção, o Papa Leão X e o Imperador Maximiliano se envolveram na questão, enquanto Lutero teve o apoio de Frederico, o Sábio.

A Controvérsia de Leipzig (julho de 1519) resultou no reconhecimento do argumento hussita em favor de Lutero e na negação da hierarquia do Papado e da autoridade dos concílios.

A ruptura de Leipzig ficou clara e levaria à criação de uma nova igreja moldada pelos sentimentos luteranos.

Em junho de 1520, o Papa declarou-o herege e o excomungou.

A partir de 1519, Lutero apareceu com um círculo de humanistas e eruditos, protegido pelo eleitor da Saxônia.

Lutero foi incapaz de controlar o movimento que havia iniciado. Pregadores evangélicos espalharam a nova doutrina pelas cidades ricas do sul da Alemanha e do Reno. A difusão da nova doutrina deu origem a muitos conflitos.

Anabatismo

A Reforma Suíça, em estreita colaboração com o espiritismo e o humanismo da Alta Alemanha e sua atmosfera revolucionária, difere da obra Luterana tanto no aspecto religioso quanto no político.

Aqui se desenvolveu a seita dos Anabatistas, como ala esquerda da Reforma Protestante. Nascida da agitação entre as classes mais baixas da população rural e urbana, a seita adotou formas apocalípticas e comunistas.

Calvino e a Segunda Fase da Reforma

Na França, as ideias reformistas não foram eficazes em se opor à monarquia e aos movimentos de reforma dentro da própria Igreja.

Calvino é um reformador de segunda geração e contribui para a subversão religiosa no século XVI com características originais, que imprimiram um caráter inconfundível.

Após um período de atividade de propagação, a burguesia de Genebra expulsou os dois reformadores, que se estabeleceram em Estrasburgo.

Calvino, partindo da premissa luterana da justificação pela fé, afirmou a predestinação cristã. Privou o homem do livre-arbítrio e defendeu que a justificação pela fé se comunica apenas por escolha divina.

Esse racionalismo exigente levou Calvino a negar qualquer instituição religiosa que não decorresse da interpretação do Evangelho. Sua principal preocupação era impor o espírito de Cristo em cada aspecto da vida na época, o que o levou a intervir na vida pública, estabelecendo um governo teocrático em Genebra.

Propagandistas calvinistas saíram de Genebra para a Europa. Fundaram comunidades na França, Inglaterra, Escócia, Holanda, Alemanha, Polônia, Hungria e Transilvânia, sendo atacados pelo governo.

Zwingli e a Reforma em Zurique

A Reforma Suíça está intimamente ligada com o espiritismo e o humanismo da Alta Alemanha e também com a atmosfera criada por Lutero.

A Questão do Divórcio de Henrique VIII e o Cisma Inglês

A Reforma na Inglaterra é o resultado da formação de igrejas nacionais dominadas pela monarquia centralizadora. Originalmente, não era uma heresia, mas sim um movimento cismático de forte conteúdo antipapista.

A forma original de governo imposta por Henrique VIII foi observada em vários fatos: a aspiração ao Império Alemão em 1519, ou as combinações traçadas no campo da política internacional para tirar proveito da luta entre Carlos V e Francisco I.

Mas o problema do divórcio do rei e sua esposa, Catarina de Aragão, precipitado pela falta de um herdeiro masculino e pela paixão avassaladora de Henrique VIII por Ana Bolena, logo se tornou um assunto de interesse nacional. O Papado deu uma resposta formalmente negativa. Então, Henrique VIII decidiu divorciar-se e romper com Roma.

Situação da Igreja na Inglaterra: Thomas Cranmer e a Reforma Inglesa

A Igreja Católica Inglesa manteve-se muito mais pura do que outras igrejas do continente. Henrique VII adotou uma postura defensiva da Igreja.

Quando o divórcio do rei levou à ruptura com Roma, a maioria da Inglaterra era católica, com exceção de algumas partes de Londres e Cambridge, onde o Luteranismo tinha feito progressos.

Em 1531, o rei foi declarado chefe supremo da Igreja, que só foi entregue ao rei em 1532. O Vaticano excomungou o monarca, à qual o Parlamento respondeu, passando o Ato de Supremacia, em 1532, que legalizou a formação da nova Igreja Anglicana.

A publicação dos Seis Artigos de 1539 procurou defender os anglicanos das reformas luteranas e anabatistas, e tentou mostrar que a Igreja Anglicana poderia continuar Católica sem o Papa como sua cabeça.

A Contrarreforma Católica

Posição da Igreja Católica frente à Reforma Protestante

No ano em que Lutero pregou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, nasceu na Igreja Católica a ideia de profunda renovação da vida eclesiástica. Era necessário pôr fim à dissolução moral do clero, pois a opinião pública estava contra ele. Isso seria feito através da formação de sacerdotes de vida irrepreensível que soubessem viver no mundo.

O saque de Roma pelas tropas de Carlos V encerrou o esplendor romano renascentista. Aos papas humanistas do final do século XV e início do XVI, seguiu-se uma série de homens que falavam duramente sobre a vida da Igreja.

O Papa Paulo III convocou o Concílio Ecumênico de Trento (1545), que também reservou um lugar para os adeptos de Lutero, uma posição que ele recusou.

O Catolicismo se distinguia naquele tempo por duas gerações distintas: a reformista e a combativa. A linha divisória de ambas as posturas se estabelece em 1541, quando falhou a última tentativa de aproximação católica com os protestantes na Dieta de Ratisbona. Os reformadores queriam dar à sua obra um tom tradicional, conciliador e educativo. A virulência protestante tornou impossível alcançar o objetivo. Assim, prevaleceu a atitude combativa, dramática e de propaganda social, típica da Contrarreforma.

O Concílio de Trento: Etapas e Conclusões

Muitos católicos necessitavam introduzir mudanças na Igreja, razão pela qual ocorreram movimentos de reforma católica em países com raízes profundas.

O convite para um concílio ecumênico foi adiado devido aos receios do Papado, que suspeitava que a insistência de Carlos V em impor um plano na Alemanha escondia sua autoridade suprema. A situação de guerra vivida na Europa contribuiu para o atraso. Após a Paz de Crépy, foi possível pensar no Concílio. Paulo III convocou o Concílio de Trento. As sessões duraram de 1545 a 1563.

As reuniões são divididas em três períodos: 1545-1547 (período do Papa Paulo III), 1551-1552 (período do Papa Júlio III), e o período de 1562-1563 (período do Papa Pio IV). A política internacional resultou em duas suspensões: uma em 1547 pela ação de Carlos V contra a Liga de Esmalcalda, e a segunda em 1552 na sequência do sucesso dos protestantes e das resoluções da Dieta de Augsburgo.

Havia duas tendências: uma mais conservadora e centralista, representada pelos bispos italianos, e outra mais renovadora, enfatizada por eminentes teólogos jesuítas e dominicanos espanhóis. Foi definida a necessidade de boas obras. Foram definidos os sete sacramentos, a existência do purgatório, e o culto da Virgem e dos santos. A autoridade do Papa foi reafirmada, confirmou-se o celibato para os sacerdotes, e os funcionários da Igreja foram obrigados a não acumular cargos, e os bispos e abades a residir em suas dioceses e mosteiros.

Começou a luta, iniciada pelos príncipes católicos do mundo, para reconquistar os territórios perdidos até 1517. O Concílio de Trento deu à fé católica uma fundação nova e firme de espiritualidade e organização.

O Concílio de Trento encerra um ciclo de crise que começou no século XIII com o surgimento dos grandes movimentos heréticos, intensificado no século XIV com a luta entre o Papado e os Concílios, e que culminou no início do século XVI com a Reforma Protestante. Nesta guerra, a Igreja Católica não fez prisioneiros.

A Companhia de Jesus e as Ordens Reformadas

O veículo mais importante do novo espírito da Igreja Católica foi a Companhia de Jesus. Seu fundador foi Inácio de Loyola. Com alguns colegas, ele criou as bases da nova ordem, que em 1540 foi confirmada pelo Papa Paulo III. A Companhia de Jesus foi organizada com rigidez militar.

Para a construção da consciência e do caráter, serviram os Exercícios Espirituais jesuítas (dias de recolhimento e meditação). A ordem não negligenciava o ascetismo e a renúncia.

Outras ordens foram criadas ou reformadas na época. Entre as figuras mais proeminentes, destacam-se Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

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