O Regime da Restauração e o Sistema Canovista

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O regime da Restauração e o sistema canovista

A restauração da monarquia: Afonso XII (1875-1885).

A instabilidade do Sexênio Democrático foi a principal causa do sucesso da Restauração que Cánovas del Castillo preparou para o filho de Isabel II. Esta abdicou em favor de seu filho em junho de 1870, e Cánovas acelerou o processo durante o governo de Serrano.

1. Princípios da Restauração

Cánovas ofereceu um programa de reconciliação nacional em troca da aceitação da monarquia por todos, exceto carlistas e republicanos. Para isso, foi essencial influenciar a opinião pública internacional e ganhar o apoio da França e da Áustria-Hungria. O Exército apoiou o golpe de Martínez Campos. Cánovas redigiu o Manifesto de Sandhurst, que apresentava Afonso XII como um monarca constitucional, liberal e respeitador do catolicismo, em vez de um monarca absoluto.

Cánovas assumiu o comando de um ministério de regência, concentrando poderes. Decretou censura à imprensa, que seria levantada posteriormente, exceto para os republicanos. Buscou uma política moderada de "paz e ordem", suspendeu legislações anteriores (como a lei das associações) e obteve o apoio de Sagasta, líder liberal-progressista. Imitando o sistema inglês de alternância no poder, tornou-se mais tolerante, apoiando, por exemplo, o casamento civil e o sufrágio universal.

Em 14 de fevereiro de 1875, Afonso XII entrou em Madrid sob indiferença popular, mas apoiado pelas classes altas e pela aristocracia. A desordem social da Primeira República foi a sua melhor propaganda.

2. Constituição de 1876

É uma Constituição curta, pragmática, flexível e baseada no doutrinarismo. É semelhante à de 1845, mas inclui alguns direitos de 1869. Inspirado pelo turnismo inglês entre Whigs (liberais) e Tories (conservadores), Cánovas defendeu a recuperação dos elementos tradicionais do Estado: a monarquia hereditária e as Cortes, consideradas instituições básicas da soberania antes de qualquer documento escrito. É o que se chamou de Monarquia Histórica Espanhola.

A monarquia não apenas representava o Estado; a monarquia era o Estado, símbolo de continuidade histórica e pedra angular do sistema. O Exército, pilar dos liberais no século XIX, ficou afastado da política, especialmente após a pacificação de Cuba e a Terceira Guerra Carlista.

A soberania era compartilhada entre as Cortes e o Rei. O monarca possuía um papel moderador e amplos poderes: comandante supremo das forças armadas, prerrogativa de nomear e demitir ministros, e o poder de dissolver o Parlamento. Assim, o sistema dependia da personalidade do rei.

As Cortes dividiam-se em Senado (Câmara Alta) e Congresso dos Deputados (Câmara Baixa). O Senado compunha-se de três tipos de senadores: por direito próprio (realeza, nobreza, clero), vitalícios (nomeados pelo rei) e eleitos (por corporações e grandes contribuintes).

Na questão religiosa, os conservadores impuseram uma fórmula ambígua: o Estado era confessional católico, mas permitia-se a liberdade religiosa privada. A flexibilidade da Constituição permitia que servisse tanto a progressistas quanto a conservadores. O sufrágio universal masculino foi aprovado em 1876, mas os conservadores impuseram o sufrágio censitário posteriormente.

3. O desempenho do sistema e das forças políticas

Inspirado no bipartidarismo britânico, o sistema organizou-se em dois grandes blocos:

  • Partido Conservador: Liderado por Cánovas, uniu moderados e unionistas. Baseava-se na burguesia, aristocracia e altos comandos militares, com forte presença no sul da Espanha.
  • Partido Liberal: Liderado por Sagasta, reunia democratas, radicais e unionistas de esquerda. Sua base estava entre comerciantes e industriais, principalmente no norte.

O governo alternava entre os partidos dinásticos. O rei utilizava a prerrogativa real para nomear o novo Presidente do Conselho, que dissolvia o Parlamento e convocava eleições manipuladas para garantir a maioria. O sistema baseava-se no caciquismo rural e na fraude eleitoral (pucherazo), permitindo que uma oligarquia dirigisse a vida política.

Fora do sistema estavam:
  • Carlistas: Derrotados militarmente em 1876.
  • Republicanos: Divididos entre a colaboração com o sistema (Castelar) e a oposição radical.
  • Regionalismos e Nacionalismos:
    • Catalanismo: A Renaixença promoveu a língua e cultura catalãs. Surgiram o Centre Català (1882) e a Unió Catalanista, que elaborou as Bases de Manresa (1892). Mais tarde, surgiu a Lliga Regionalista.
    • Nacionalismo Basco: Fundado por Sabino Arana (PNV), com um projeto tradicionalista, católico e inicialmente antiespanhol, defendendo a pureza da cultura basca contra os maketos (imigrantes).


  • Movimento Operário: Dividido entre socialistas e anarquistas.
    1. Anarquismo: Ideologia influente, introduzida por Giuseppe Fanelli. Dividiu-se entre a "ação direta" (terrorismo) e o anarcossindicalismo (Solidariedade Operária, germe da CNT).
    2. Socialismo: Em 1879, Pablo Iglesias fundou o PSOE. Em 1888, criou-se a UGT. Buscavam o poder político para a classe operária através da organização em Casas do Povo.

4. A regência de Maria Cristina (1885-1902)

A morte de Afonso XII gerou uma crise, mas não o fim da Restauração. Cánovas e Sagasta firmaram o Pacto de El Pardo para garantir a estabilidade e apoiar a regência de Maria Cristina de Habsburgo. O governo de Sagasta (1885-1890) promoveu reformas importantes: o sufrágio universal masculino (1890), a Lei do Júri (1888) e a Lei das Associações (1887).

Na economia, os conservadores adotaram o protecionismo com a tarifa de 1891. A questão social agravou-se com atentados anarquistas (como no Liceu de Barcelona) e a dura repressão estatal. Em 1897, Cánovas foi assassinado.

5. Os Caciques

A alternância política era garantida pela manipulação eleitoral. O sistema funcionava de cima para baixo: o governo elaborava o encasillado (lista de candidatos escolhidos) e os caciques locais garantiam a vitória através de coação, compra de votos e falsificação de atas (o pucherazo).

O caciquismo era uma realidade sociopolítica onde figuras influentes (proprietários, advogados) atuavam como intermediários entre o Estado e a população rural. Criou-se uma rede de clientelismo onde favores eram trocados por votos, mantendo a exclusão das classes média e baixa da decisão política real. A regra de ouro era: "Para os inimigos, a lei; para os amigos, o favor".

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