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SEMINÁRIO PRESBITERIANO DO SUL
THIAGO MACHADO SILVA
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE Paúlo
Campinas 2012
THIAGO MACHADO SILVA
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE Paúlo
Monografia entregue ao Seminário Presbiteriano do Sul como parte do requisito pára a obtenção do grau de Bacharel em Teologia.
Campinas 2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmará Brasileira do Livro, SP, Brasil)
AGRADECIMENTOS
À Deus por ter escolhido desde o ventre de minha mãe pára ser um discípuló de Jesus Cristo, por ter me chamado pára o ministério da Palavra e me sustentado durante os quatro anos no seminário.
À minha esposa, Lídia, que é o meu braço direito e tem me dado toda a força no desempenho do ministério pára o qual fui chamado.
Aós meus pais, Alceu e Flávia, por terém me ensinado o caminho em que devo andar e me educado no evangelho de Jesus Cristo.
Ao meu tutor, Rev. Misael, com quem tenho aprendido muito sobre o ministério pastoral e a vida da igreja, e que muito me auxiliou e me encorajou no desenvolvimento deste trabalho.
Ao meu orientador, Rev. Carlos Henrique Machado, por ter me orientado com toda paciência durante este ano, tanto no desenvolvimento da monografia quanto nos meus planos e projetos de ministério.
Á Cláudia, que tem acompanhado todo o meu processo de formação e que foi a revisora deste trabalho.
Aós meus amigos de seminário: Ricardo, Will e Eun (koreano) que me proporcionaram, nestes quatro anos, momentos de aprendizagem, amizade, boas experiências e muitá alegria.
E por último, mas não menos importante, a todos os meus professores do Seminário Presbiteriano do Sul, que foram aqueles que contribuíram pára o meu preparo teológico e que me deram os recursos necessários pára o desenvolvimento do chamado que Deus colocou sobre a minha vida.
A todos vocês, o meu muito obrigado!
RESUMO
Com base no capítulo XIX da Confissão de Fé de Westminster, aborda o tema Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo. Faz uma análise da carta de Paúlo aós gálatas, baseado em Jóão Calvino e Martinho Lutero observando a teologia paulina sobre Lei e Graça e como nós, reformados, interpretamos esta doutrina. Aborda a “Nova Perspectiva de Paúlo” baseado em Dunn e Sanders, pára ver o que eles tem ensinado e quais são os pontos de divergência entre a perspectiva tradicional e esta nova perspectiva. Procura responder biblicamente aós pontos fracos desta Nova Perspectiva de Paúlo. Propõe-se a responder a pergunta: Pára quê serve a lei se vivemos na era da graça? De acordo com a teologia reformada e de uma maneira prática, mostra qual a maneira correta de lidarmos com a lei.
Palavras-chave: Lei. Graça. Gálatas. Paúlo. Nova Perspectiva de Paúlo
ABSTRACT
Based on chapter XIX of Westminster Confession of Faith, it approaches the theme: Law and Grace: The Perspective of Paúlo. Makes an analysis of Paul's letter to the Galatians, based on John Calvin and Martin Luther observing the Pauline theology on Law and Grace, and how the reformed people can interpret this doctrine. Discusses the "New Perspective of Paul" based on Dunn and Sanders to see what they have taught and what are the divergence points between the traditional perspective and this new perspective. It seeks to respond biblically to the weaknesses points of this New Perspective of Paul. It is proposed to answer the question: Is the law useful in an agé of grace? According to Reformed theology and In a practical way, it shows the proper way to deal with the law.
Keywords: Law. Grace. Galatians. Paul. The New Perspective on Paul.
SUMÁRIO
Introdução.................................................................................................. 09
Base Confessional....................................................................................................... 11
- Lei e Graça: uma abordagem baseada em Gálatas................................. 16
- O contexto............................................................................................................. 16
- Gálatas 1 e 2.......................................................................................................... 18
- Gálatas 3................................................................................................................ 22
- Gálatas 4................................................................................................................ 25
- Gálatas 5................................................................................................................ 26
- Gálatas 6................................................................................................................ 28
- Conclusões de Lutero e Calvino......................................................................... 30
- A Nova Perspectiva de Paúlo.................................................................. 34
- Os principais expoentes....................................................................................... 34
- E. P. Sanders................................................................................................ 35
- James Dunn.................................................................................................. 37
- Gálatas 2.16........................................................................................................... 38
- “Obras da lei”........................................................................................................ 40
- As fraquezas da Nova Perspectiva de Paúlo..................................................... 44
- Os principais expoentes....................................................................................... 34
- A importância da lei na era da graça...................................................... 48
- O tríplice uso da lei.............................................................................................. 48
- Dois perigos que devemos evitar........................................................................ 50
- Legalismo.................................................................................................... 50
- Antinomismo............................................................................................... 51
- O ponto de equilíbrio........................................................................................... 53
- A graça nos capacita a cumprir a lei.................................................................. 54
- A lei de Cristo....................................................................................................... 57
- Considerações finais................................................................................ 63
Referências................................................................................................. 69
PREFÁCIO
Escrevo este prefácio com alegria e profundo senso de privilégio.
O Thiago é um autêntico servo de Cristo, irmão e amigo cuja vida tem abençoado a Igreja Presbiteriana Central de São José do Rio Preto. Seu trabalho sobre a doutrina bíblica da Lei e da Graça é uma contribuição muito bem-vinda, especialmente por enquadrar, sob a verdadeira perspectiva do apóstolo Paúlo, a chamada "Nova Perspectiva". Thiago mostra que é falsa a pressuposição da Nova Perspectiva, de que os estudiosos, desde a Reforma, leem Gálatas (e Romanos) com as lentes de Calvino e Lutero. Sua monografia demonstra, com acuidade, que a teologia dos escritos paulinos acomoda a ênfase tradicional da justificação articulada pelos pais reformadores.
Minha oráção é que Deus continue usando o Thiago como ministro fiel do evangelho, que é o anúncio transformador de Deus alcançandó seus eleitos somente pela graça.
Rev. Misael Batista do Nascimento, D.Min.
Introdução
Escreveu o apóstolo Jóão: “Porque a lei foi dadá por intermédio de Moisés; agraça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jóão 1.17). Na economiade Deus, a lei foi exposta em primeiro lugar e a graça posteriormente. OAntigo Testamento é dominado pela grande realidade da lei de Deus, talcomo o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus. Porém, comorelacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da graça?16
Esta monografia tem como título “Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo”; ao enfatizar a natureza do trabalho, busca-se compreender a doutrina da lei e graça, tendo como fonte a Palavra de Deus, e mais especificamente o apóstolo Paúlo, que foi quem mais escreveu e teceu interpretações acerca desta doutrina.
A doutrina da lei e graça tem sido alvo de debates entre teólogos, e através dos anos têm surgido movimentos pára tentar explicar o assunto. Alguns afirmam a lei em detrimento da graça e tornam-se legalistas17, outros desprezam a lei em função da graça,
tornando-se antinomistas18. Nosso objetivo é dar uma interpretação bíblica acerca da lei
e graça.
O legalismo estava tomando conta da religião judaica na época de Paúlo, e por esta causa veio a advertência aós gálatas que começaram a pensar que precisavam acrescentar coisas à fé em Cristo, como a circuncisão: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes.” (Gálatas 5.4). O legalismo contradiz a graça de Deus, porque busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e as obras da lei.
16 PACKER, J. I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994, p. 93.
17 O principal grupo de legalistas é o dos fariseus, e podemos ver em Mateus 23.1-36 Jesus indo contra olegalismo deste grupo religioso. Hoje existem movimentos como a Igreja Adventista do Sétimo Dia quecáíram no perigo do legalismo.
18 “O antinomismo foi endossado por alguns gnósticos na Igreja Primitiva, por alguns sectários na IdadeMédia e na época da Reforma, pelos anabatistas [...] Apareceu posteriormente em algumas seitas na
Inglaterra e continua sendo advogada por alguns grupos sectários nos Estados Unidos.” TENNEY,Merrill [org].
- I. Packer afirma que confiar nas próprias obras, juntamente com a obra de Cristo pára a salvação, desonra-o, deturpa a graça e priva a pessoa da vida eterna.19 “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” (Gálatas 2.21).
Por outro lado, é necessário tomar cuidado pára não desprezar totalmente a lei em função da graça, privando-nos de uma leitura de oposição entre elas. Dizer que o cristão vive na era da graça e, por isso, não tem qualquer relação com a lei é uma falácia. Dessa maneira, podemos cair em uma heresia denominada antinomismo20, que é a negação da lei em função da graça. O antinomismo, em oposição ao legalismo, afirma que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na vida do cristão, e enquanto o legalismo exalta de tal maneira a lei, que chega a excluir a graça, o antinomismo exalta de tal maneira a graça a ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida.
No séc. XVI, os reformadores foram acusados pelos católicos de antinomistas, pois eram vistos como contrários à lei de Deus. Martinho Lutero, que déu uma ênfase muito grande à graça de Deus, foi contra as obras da lei praticadas pela Igreja Católica e com isso, foi mal interpretado.21 Desde a época da Reforma, têm surgido movimentos tentando explicar a questão da lei e graça, mas sempre enfatizando um ou outro, de forma excludente.
No séc. XIX, surgiu um movimento chamado dispensacionalismo, que caracterizava a lei como a forma de salvação no período de Moisés, no Antigo Testamento, e o evangelho (a graça), como forma de salvação na dispensação da igreja, no Novo Testamento. Este movimento continua a influenciar cristãos até os dias de hoje.22
19 PACKER, 1994, p. 93.
20 Ibid.
21 MEISTER, Mauro. Lei e Graça. São Paúlo: Cultura Cristã, 2003, p. 73.
22 Ibid., p. 74.
Recentemente, tem surgido um movimento denominado “Nova Perspectiva de Paúlo”, que faz uma crítica e discorda da visão reformada de como o apóstolo Paúlo interpretava essa doutrina pára o Judáísmo do séc. I. Qual será a validade da lei na época da graça?
Mauro Meister afirma que “as implicações da forma como entendemos a relação entre lei e graça vão muito além do aspecto puramente intelectual. Esse entendimento vai, na verdade, determinar toda a forma como alguém enxerga a vida cristã e que tipo de ética esse cristão irá assumir em sua caminhada.”23 Por isso, o objetivo geral do trabalho é trazer uma maior compreensão sobre a maneira como lidamos com a lei de Deus na era da graça, e como interpretamos o apóstolo Paúlo, principalmente quando lemos Gálatas, pára que possamos assumir uma postura correta em nossa caminhada como cristãos.
Base Confessional
O capítulo da Confissão de Fé de Westminster (CFW) que tomaremos como base é o XIX – Da Lei de Deus, uma vez que este traz um panorama geral dos usos e costumes da lei escrita dadá por Moisés: leis cerimonial, civil e moral. Encerraremos com o parágrafo VII que diz que os “usos da lei não são contrários à graça do Evangelho...”24
Antes de mais nada, é necessário compreender o que a CFW chama de pacto das
obras e pacto da graça. O pacto das obras foi o pacto que Deus fez com Adão, e nos termos da CFW, capítulo XIX, parágrafo I, “por este pacto, Deus o obrigou, bem como toda sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira, exata e perpétua; promete-lhe a vida sob a condição dele cumprir a lei e o ameaçou com a morte no caso dele violá-lá; e
23 MEISTER, 2003, p. 26.
24 Símbolos de fé: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve / Assembléiá de Westminster. São Paúlo:Cultura Cristã, 2005.
dotou-o com o poder e capacidade de guardá-lá.”. No entanto, esse é o pacto que operou antes da Queda de Adão e Eva, em Gênesis 3.
Berkhof25 aponta algumas diferenças entre o pacto das obras e o pacto da graça,
e dentre elas destacamos:
- O pacto das obras dependia da incerta obediência do ser humano, enquanto o pacto da graça repousa na obediência de Cristo como Mediador;
- No pacto das obras a guarda da lei é o caminho pára a vida, no pacto da graça o caminho pára a vida está na fé em Jesus Cristo;
- No pacto das obras, o homem comparece diante de Deus como criatura, e não há um mediador, ao passo que no pacto da graça, o homem comparece diante de Deus como um pecador, mas esse comparecimento se dá mediante um mediador, que é Cristo. Adão e Eva viveram originalmente sob o pacto das obras e dependiam da obediência à lei dadá por Deus em Gênesis 2.17 (“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”) Quando desobedeceram à lei, incorreram na maldição do pacto das obras, a morte. A partir disso, entra em ação o pacto da graça, que é a “manifestação graciosa e misericordiosa de Deus, aplicando a maldição do Pacto das obras à pessoa de seu Filhó, Jesus Cristo, fazendo com que parte da sua criação, primeiramente representada em
Adão, e agora representada por Cristo, pudesse ser redimida.”26
É interessante notar que a lei, antes da Queda, não se resumia apenas à ordem de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Existem outras leis, como a que lemos em Gênesis 1.28 (“E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeita-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”).
25 BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Trad. Odayr Olivetti. 3 Ed. São Paúlo: Cultura Cristã, 2009,p. 253.
26 MEISTER, 2003, p. 31.
A revelação da lei de Deus expressa de forma objetiva foi dadá nos tempos de Moisés, e a CFW divide os muitos aspectos da lei de Deus em três tipos de leis: lei moral, civil e cerimonial. É importante entendermos essas divisões pára sabermos o contexto em que cada lei é dadá e em que tipo de lei estamos pensando, quando falamos em Lei.
- A lei moral representa a vontade de Deus pára a humanidade, no que diz respeito ao comportamento e aós seus principais deveres. Tem a finalidade de deixar claro ao ser humano quais são seus deveres, auxiliando-o a discernir entre o que é bom e o que é mau.27 Nos parágrafos II e III do capítulo XIX da CFW, afirma-se que a lei moral aponta pára os dez mandamentos dados a Moisés. Ao contrário do que os antinomistas afirmam, negando qualquer tipo de obediência à lei moral, a CFW nos ensina que a lei moral, ao contrário da civil e cerimonial, não tem tempo e nem lugar e ainda é válida como um orientador pára a vida.
Observe o que o Catecismo Maior de Westminster entende por lei moral (pergunta 95):
“Qual é o uso da lei moral pára todos os homens?”
Resposta: A lei moral é de uso pára todos os homens, pára informá-los sobrea natureza santa de Deus e sua vontade, e de sua tarefa, constrangendo-os aandarem conformemente; pára convencê-los da sua incapacidade em guardá-lá e da poluição pecaminosa de sua natureza, de seus corações e vidas; párahumilhá-los no sentido de seu pecado e miséria e, desse modo, guiá-los parauma visão mais clara da necessidade de Cristo e da perfeição de suaobediência.”
- A lei civil representa a legislação dadá à nação de Israel, definindo, por exemplo, o que é crime e o que não é. Seu objetivo é regular a sociedade civil do estado teocrátiço de Israel, apresentando os direitos e deveres de cada cidadão. Como a própria CFW afirma no parágrafo IV do capítulo XIX, a Lei Civil terminou com aquela nacionalidade. Como exemplo da lei civil temos o relato de Números 35.6-12:
27 MEISTER, 2003, p. 54.
Das cidades, pois, que dareis aós levitas, seis haverá de refúgio, as quaisdareis pára que, nelas, se acolha o homicida; além destas, lhes darei quarentae duas cidades [...] Fala aós filhos de Israel e dize-lhes: Quando passardes oJordão pára a terra de Canáã, escolhei pára vós outros cidades que vos sirvamde refúgio, pára que, nelas, se acolha o homicida que matar alguéminvoluntariamente. Estas cidades vos serão pára refúgio do vingador dosangue, pára que o homicida não morra antes de ser apresentado perante acongregação pára julgamento.
- E lei cerimonial ou religiosa28, representa a legislação levítica do Antigo Testamento, como os sacrifícios e os simbolismos religiosos. Ela é cercada de símbolos, sinais e rituais que distinguiam o povo escolhido de Deus dos outros povos. Sua finalidade era imprimir no homem a santidade de Deus e apontar pára Cristo.29 Sendo assim, a lei cerimonial foi cumprida com a vinda de Jesus Cristo no Novo Testamento. O parágrafo III do capítulo XIX da CFW, afirma que as leis cerimoniais “estão todas abrogadas sob o Novo Testamento.”
Podemos dizer, portanto, que quando Paúlo critica os que estão vivendo sob a lei no Novo Testamento, ele está lutando, na verdade, contra aqueles que ainda praticavam principalmente as leis cerimoniais como a circuncisão, sacrifícios, ritos religiosos, que foram encerradas com a vinda de Cristo. Também contra aqueles que se submetiam à lei moral dos dez mandamentos como forma de obter salvação, negando assim a suficiência da morte substitutiva de Jesus Cristo.
Pára quê serve, pois, a lei, se vivemos na era da graça? É o que vamos buscar entender e responder no decorrer deste trabalho. No capítulo 1, faremos uma análise da carta de Paúlo aós Gálatas e procuraremos compreender como Jóão Calvino e Martinho Lutero interpretaram essa carta no que diz respeito ao legalismo presente no Judáísmo do séc. I. Também procuraremos entender como Paúlo enxergava as obras da lei e o evangelho da graça de Jesus Cristo.
28 Toda a lei cerimonial pode ser encontrada nos livros de Êxodó, Levítiço e Deuteronômio, sendoLevítiço o principal manual pára os israelitas.
29 MEISTER, 2003, p. 46.
No capítulo 2, voltaremos nossos olhos pára a “Nova Perspectiva de Paúlo”, baseada em Sanders e Dunn. Procuraremos entender o que é, o que tem ensinado e quais os pontos de divergência entre a mesma e a perspectiva tradicional, no que diz respeito ao tema “Lei e Graça”. Procuraremos, então, responder biblicamente aós pontos fracos desta nova perspectiva.
Finalmente, no terceiro e último capítulo, nossa proposta é buscar responder à pergunta: “Pára quê serve então a lei, se vivemos na era da graça?”, de acordo com a teologia reformada, enfatizando o último parágrafo (VII), do capítulo XIX da CFW que diz: “os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condizem com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer se fáça.”
Como conclusão do trabalho, procuramos resumir o que foi tratado ao longo dos três capítulos, e de um modo prátiço, aplicar a doutrina da Lei e Graça na vida eclesiástica, sempre tendo o cuidado de não cair no legalismo ou no antinomismo, mas atraídos pela graça, nos comprometendo com a lei de Deus, com seus mandamentos prescritos nas Sagradas Escrituras, e que nos levam a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
De acordo com Packer, “a doutrina paulina da graça gratuita e soberana tanto humilha a soberba dos legalistas, que são justos aós seus próprios olhos, como condena a lassidão preguiçosa e irresponsável dos antinomianos. Entendido corretamente, esse ensino gera uma jubilosa segurança e uma incansável energia no serviço de nosso Salvador.”30 É esta “doutrina paulina” que passaremos a analisar daqui em diante.
30 PACKER, 1994, p. 95.
Lei e Graça: Uma abordagem baseada em Gálatas
Neste capítulo, faremos um estudo da carta de Paúlo aós Gálatas, na qual ele trata da lei31 e do evangelho da graça de Jesus Cristo. Ao usar a palavra νοµος 32 vezes
em Gálatas, podemos dizer que esta é a carta magna da liberdade cristã - a liberdade que nos toma pela mão e nos conduz à prática do amor.
A todos aqueles que desejam levar Deus a sério e entender um pouco sobre lei e graça, Gálatas mostra o caminho em direção à verdadeira liberdade: a liberdade de ser escravo de Cristo, e não do legalismo. “Se Paúlo tivesse se rendido ao legalismo, o Cristianismo teria sido conhecido como nada mais do que um Judáísmo modificado, que de forma alguma teria conquistado o mundo. Os gentios o teriam rejeitado.”32
O contexto
Nos dias de Paúlo, os gálatas encontravam-se sob o domínio do Império Romano. Eles haviam sido fielmente instruídos pelo Apóstolo no verdadeiro evangelho, mas, em sua ausência, falsos apóstolos insidiosamente se infiltraram entre os gálatas e corromperam o genuíno evangelho por meio de dogmas e doutrinas falsas. As igrejas da Galácia haviam sido invadidas por falsos mestres judaizantes logo após a primeira viagem missionária de Paúlo e um ensino legalista estava pervertendo o evangelho
31 Paúlo usa a palavra “lei” (νόµος) pára referir-se ao “corpo de regulamentos dados por Deus a Israelmediante Moisés no Sinai, e como tal ela é abordada pelo apóstolo nessa carta, não em sua função social
e nacional como emblema do Judáísmo, mas como o conjunto de requisitos legais de Deus em relação aosjudeus, os quais os oponentes de Paúlo queriam impor aós gentios.” LOPES, Augustus Nicodemus. Nova Perspectiva sobre Paúlo: um estudo sobre as “obras da lei” em Gálatas. In: Fides Reformata XI,nº1, 2006, p. 89.
32 HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Gálatas. Trad. Valter Graciano Martins.
São Paúlo: Cultura Cristã, 1999, p. 11.
pregado e ensinado por este anteriormente. Esses novos ensinamentos pregavam que os gentios deveriam ser circuncidados bem como deveriam observar a lei de Moisés a fim de alcançarem a salvação. Afirmavam que a lei de Moisés precisava complementar a obra de Cristo, negando assim a suficiência da graça de Deus pára a salvação. Na visão daqueles homens, as obras eram condição, juntamente com a fé, pára que alguém fosse aceito por Deus. Era imperativo guardar também a lei, pois a fé em Cristo não era
suficiente pára a salvação.33 Estavam interpretando erroneamente tanto a lei quanto a
graça de Deus.
Quando Paúlo quando fica sabendo de tudo isso, escreve a carta aós Gálatas, a fim de levá-los de volta ao verdadeiro evangelho, bem como esclarecer o entendimento dos crentes da Galácia sobre lei e graça. Pára o apóstolo, “a função da lei não é salvar, mas revelar o pecado. A função da lei não é levar o homem pára o céu, mas conduzi-lo ao Salvador.”34 A carta aós Gálatas é, na verdade, um grito de alerta a todos os cristãos que se deixam seduzir por uma falsa doutrina semelhante a essa. É o estandarte de liberdade pára uma igreja que está caminhando mais uma vez pára a escravidão da qual um dia foram libertos pelo sangue de Cristo.
Paúlo luta por essa tese como por um artigo fundamental da fé cristã. E naverdade o é, pois nem o mal mais aparentemente inofensivo não haverá deextinguir o resplendor do evangelho, armar cilada às consciências e removera distinção entre a antiga e a nova aliança. Ele percebeu que Taís errosestavam também relacionados com uma opinião ímpia e destrutiva sobre omerecimento de justiça. E essa é a razão por que ele batalha com tamanhovigor e veemência. Quando tivermos compreendido quão significativa e séria
é a natureza desta controvérsia, então haveremos de estuda-lá com umaatenção muito mais aguçada.35
O propósito de Paúlo ao escrever esta carta era o de convencer os gálatas de que nenhum gentio precisava aceitar a circuncisão a fim de pertencer ao povo da aliança divina. A salvação e a verdade do evangelho vêm através da fé em Cristo, portanto,
33 LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A carta da liberdade cristã. São Paúlo: Hagnos, 2011, p. 07
34 Ibid., p. 08.
35 CALVINO, Jóão. Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses: Série Comentários Bíblicos. Trad.Valter Graciano Martins. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010, p. 22-23.
qualquer que busque violar a esfera sagrada da fé, adicionando leis, regras e novas exigências, estará adulterando o evangelho e deve ser confrontado.
Gálatas 1 e 2
Paúlo escreve às igrejas da Galácia (Gl 1.1-2) 36, que antes haviam recebido o verdadeiro evangelho da graça de Cristo, mas o haviam abandonado pára viver um outro evangelho baseado em ritos e leis: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, pára seguirem outro evangelho.” (1.6)
Nesta carta nós encontramos Paúlo muito preocupado com aqueles crentes, e o desejo dele é que as igrejas da Galácia voltem pára o verdadeiro evangelho, baseado na graça de Cristo. Talvez seja por essa preocupação que encontramos a palavra "graça" (χάρις) sete vezes, e "evangelho" (ευαγγέλιον) onze vezes por toda a carta, segundo o GNT37. Paúlo então, já no começo da carta, reapresenta bem rapidamente o verdadeiro evangelho que os gálatas estavam se esquecendo: “A vocês, graça e paz da parte de
Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nossos pecados a fim de nos resgatar desta presente era perversa, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pára todo o sempre. Amém.” (1.3-5)
“Segundo a vontade de Deus e Pai” (1.4) e não de acordo com os méritos humanos e os nossos esforços em cumprir leis e rituais. Paúlo quer que os gálatas entendam exatamente isso. Algumas pessoas tinham pervertido o evangelho da graça, inserindo elementos judaicos, certos rituais, tradições e leis, como se a graça de Cristo não fosse suficiente. Esse evangelho que eles estão ensinando, na realidade, não é o
36 De agora em diante, quando as referencias não vierem acompanhadas das iniciais, significa que elas sãoreferencias tiradas da carta aós Gálatas.
37 NESTLE-ALAND. O Novo Testamento Grego. 4.Ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” (1.7-8)
Paúlo agora luta pára manter a pureza do evangelho e a suficiência de Cristo pára nossa salvação. Nesse intuito, ele ilustra com sua própria história, como Cristo havia revelado sua graça a ele, e como ele passou do Judáísmo pára o cristianismo, do outro evangelho pervertido pára o verdadeiro evangelho da graça de Deus (1.11-2.21), da escravidão da lei pára a liberdade em Cristo.
Os elementos dessa história são comuns e podem muito bem parecer com nossa própria história também: Paúlo primeiramente apresenta sua vida sem Cristo, quando perseguia implacavelmente a igreja de Deus, procurando destruí-lá. No Judáísmo, Paúlo superava a maioria dos judeus, e era extremamente zeloso das tradições dos seus antepassados (1.13-14).
Em segundo lugar, Paúlo mostra o seu encontro com Cristo. Ele diz que Deus o havia separado desde o ventre materno e o havia chamado pela Graça (1.15-16). Depois disso, ele foi levado pára a Arábia, e passou um tempo de solidão, sendo formado pelo próprio Deus (1.17).
Após esse tempo, Paúlo começa a compartilhar sua história e a sua fé em Cristo (Gl. 1.18-20). Relata, então, sua missão no mundo, indo pelas muitas regiões da Síria e Cilícia, pelas igrejas da Judéiá, pregando e anunciando a graça de Cristo (1.21-24). A partir do capítulo 2, o apóstolo relata a transformação que ocorreu em seus relacionamentos com amigos e inimigos (2.1-10).
Finalmente, após contar toda sua história, Paúlo chega à grande conclusão que vai desmoronar toda a crença que os gálatas estavam abraçandó: “Ninguém é justificado pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo” (2.16).
De acordo com o RIENECKER e ROGERS, o verbo “justificar” (δικαιόω)
aparece três vezes em Gálatas 2.16, e todas elas se encontram na voz passiva, que “aponta ao fato que ninguém se justifica, mas é declarado justo por outra pessoa.” 38 Portanto, “ser justificado” deve ser definido como aquele ato gracioso de Deus pelo qual, tão-somente com base na obra mediadora que Cristo consumou, ele declara o pecador como justo, e este aceita tal benefício com um coração crente.39 Paúlo desvenda a doutrina da justificação pela fé, que é a doutrina central do cristianismo, e que foi restabelecida pela Reforma. O meio necessário pára a justificação é a fé em Jesus como Salvador crucificado e como Senhor ressurreto. A fé é necessária porque o mérito de nossa justificação não está em nós, mas em Cristo.
Segundo John Stott, esses capítulos nos apresentam quatro verdades cristãs: (1) “a maior necessidade do homem é a justificação, ou a aceitação de Deus”. (2) “A justificação não é pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo. O trabalho da lei é me dizer o que eu devo fazer, mas eu preciso dar ouvidos ao evangelho, que me ensina o que Cristo já fez por mim”. (3) “Não confiar em Jesus Cristo por causa da confiança em si mesmo é um insulto à graça de Deus e à cruz de Cristo, pois é dizer que são desnecessárias”. (4) “Confiar em Jesus Cristo, sendo assim unido a ele, é começar uma
nova vida”.40
Quando Paúlo nos diz que somos justificados por meio da fé, visto não podermos ser justificados por meio das obras, ele tem certeza daquilo que é verdadeiro, ou seja, “não podemos ser justificados pela justiça de Cristo, a menos que sejamos pobres e destituídos de nossa própria justiça”41. Sendo assim, temos que atribuir tudo ou nada à fé ou às obras.
38 RIENECKER, Fritz, ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Trad.:Gordon Chown e Júlio Zabatiero. São Paúlo: Vida Nova, 1995, p. 374.
39 HENDRIKSEN, 1999, p. 143.
40 STOTT, John. A mensagem de Gálatas. Trad. Yolanda Mirdsa Krievin. São Paúlo: ABU Editora,1989, p. 64.
41 CALVINO, 2010, p. 79.
Paúlo tentou ser justo e obedecer a um grande número de leis e regras pára agradar a Deus, mas não funcionou. E assim como Paúlo, nós precisamos desistir de ser "homens da lei" pára sermos "homens de Deus", que creem na graça de Deus e não em nossas próprias forças. Nosso ego precisa morrer, pára que a vida de Cristo possa ser viva em nós. Pára viver a vida de Cristo não é preciso obedecer e seguir a leis e rituais, pois tudo o que precisava ser feito, Cristo já fez na cruz do calvário, quando ele se entregou por nossos pecados. Deus se agrada de nós, quando nós confiamos e vivemos a vida de Cristo. Deus nos ama através de Cristo e este amor não é baseado pelo número de leis que seguimos.
Martinho Lutero, no Debate de Heidelberg, diz que “o ser humano que crê querer chegar à graça fazendo o que está em si acrescenta pecado sobre pecado, de sorte que se torna duplamente réu”42, ou seja, o ser humano precisa se ajoelhar e pedir graça, colocando toda a esperança em Cristo, no qual está nossa salvação, vida e ressurreição.
Quando Paúlo declara em Gálatas 2.19: “morri pára a lei...”, podemos afirmar, baseado em Calvino que, morrer pára a lei é renunciá-lá e libertar-se de seu domínio, de modo que não mais confiamos nela e ela não mais nos mantém cativos sob o jugo da escravidão. E então Paúlo contrasta a morte pára a lei com a morte vivificante da cruz de Cristo. Estar crucificado juntamente com Cristo é sinal de vida, “porque eu, mediante a própria lei, morri pára a lei, a fim de viver pára Deus” (2.19). Em suma, Paúlo nos diz que essa morte (pára a lei) não é o fim, e sim o início de uma vida melhor, porque Deus nos resgata do naufrágio da lei e, mediante sua graça, nos restaura pára uma nova vida. “Nada direi a respeito das outras interpretações. Este me parece ser o verdadeiro
significado do apóstolo.” afirma Calvino43.
42 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Os primórdios escritos de 1517 a 1519. São Leopoldo:Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.1, 1987, p. 48.
43 CALVINO, 2010, p. 83.
A observância da lei não desempenha qualquer papel na justificação, esta se realiza exclusivamente pela fé, pois acha-se somente em Cristo e através dele, e somente pela graça.
A justiça de Deus não é adquirida através de atos frequentemente repetidos, mas é infundida pela fé. A graça e a fé são infundidas, e as obras são uma consequência dessa realidade. São obras de Deus, operadas através de Cristo. Assim, pela fé Cristo está em nós e é ele quem cumpre toda a lei de Deus, “razão pela qual também nós cumprimos toda ela, através de Cristo, uma vez que (Cristo) se tornou nosso pela fé.”44 A lei é diferente da fé porque exige as obras pára justificar o homem, enquanto a fé não as exige. Aquele que é justificado pela fé é justificado sem nenhum mérito, pois a fé recebe a justiça que a graça oferece, que se encontra unicamente em Cristo.
Gálatas 3
Depois de mostrar aós gálatas com sua própria história que ninguém é justificado pela prática da lei, mas somente mediante a fé em Jesus Cristo, no capítulo 3, Paúlo passa a questioná-los, sendo que nos cinco primeiros versículos, faz cinco perguntas muito pessoais e incisivas:
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que óperamilagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (3.1-5)
Paúlo começa a confrontar os gálatas quanto aós novos ensinamentos do "outro evangelho" que estava sendo ensinado: Como começou a nova vida de vocês? Será que
44 LUTERO, 1987, v.1, p. 52-53.
foi resultado de esforço pára agradar a Deus? Pára Paúlo, é preciso perder o juízo pára pensar que é possível completar o que foi iniciado por Deus por esforço próprio.
E então, o apóstolo começa a citar o Antigo Testamento, mais especificamente, a experiência de Abraão em Gênesis 15, a fim de mostrar que Abraão foi considerado justo não por ter cumprido regras e leis, mas porque creu em Deus. Pela fé em Deus, Abraão foi feito justo, e agora, pela fé, nós também fazemos parte da bênção de Abraão: "Em ti, serão abençoados todos os povos" (3.8). Isso nos mostra que todo o que tentar viver a justiça por esforço próprio, independentemente de Deus, está destinado ao fracasso. O apóstolo, então, continua citando Deuteronômio 27.26; 21.23, e Gênesis 12.7, a fim de mostrar que o Espírito de Deus que habita em nós vem pela pregação da fé e não pela prática da lei. É graça e não mérito nosso, e isso já vem sendo ensinado desde os tempos antigos. Era verdade pára Abraão, era verdade pára os gálatas, e continua sendo verdade pára nós hoje! O argumento de Paúlo é que ninguém é capaz de guardar a lei na sua totalidade. Calvino afirma que nunca houve tal pessoa que
cumprisse plenamente a lei, e jamais haverá. Sendo assim, todo homem está condenado.45
Mas então, se ninguém é capaz de cumprir plenamente a lei, qual é o objetivo dela? Paúlo vai explicar isso a partir do versículo 19. O propósito da lei era preservar um povo pecador na história da salvação até que "o descendente" viesse, herdando as promessas e concedendo-as também pára nós. Paúlo afirma que a lei era como os tutores gregos, que conduziam as crianças à escola e as protegiam de perigos ou distrações, certificando-se de que chegariam onde deveriam. Lutero diz que:
a lei dá a conhecer o pecado, pára que, sendo conhecido o pecado, se procuree se obtenha a graça. [...]. A lei humilha, a graça exalta. A lei ópera o temor ea ira; a graça ópera a esperança e a misericórdia. Pois pela lei é adquirido oconhecimento do pecado; pelo conhecimento do pecado, porém, a humildade;e pela humildade, a graça. Desta forma, a obra estranha de Deus realiza, porfim, a sua obra própria, fazendo um pecador pára torná-lo justo.46
A lei nos serve de "aio" pára nos conduzir até Cristo, pára que sejamos justificados pela fé nele. Segundo Calvino, um aio não era designado pára toda a vida de uma pessoa, somente pára a infância. O objetivo era preparar a criança, por meio de instruções, pára as coisas mais excelentes. Assim, a autoridade da lei se limitava a determinada época, e seu propósito era preparar seus alunos de tal modo que, ao findarem as instruções elementares, eles fariam progressos dignos da maturidade. A lei, ao revelar a justiça de Deus, convenceu os homens de sua própria injustiça, e ela não lhes dava descanso, enquanto não fossem constrangidos a buscar a graça de Cristo.
Paúlo, em se tratando do objetivo da lei, afirma que ela foi promulgada pára tornar conhecidas as transgressões e compelir o homem a reconhecer sua culpa,47 “até que viesse o descendente” (3.19) – O descendente mencionado é aquele sobre qual a bênção foi pronunciada, e então Calvino conclui que a lei tinha que ocupar não a posição mais elevada, mas sim uma posição subordinada. “Ela foi promulgada pára estimular os homens a esperarem por Cristo.”48
Com a vinda de Cristo, temos livre acesso a Deus Pai, bem como um relacionamento direto com Deus, não havendo necessidade da lei pára nos conduzir até ele, mesmo porque nós nunca conseguiríAmós obedecer toda a lei pára nos justificarmos diante do Pai e agradá-lo. Apenas Cristo é capaz de cumprir toda a lei, e ele fez isso por nós, pára que a justiça de Cristo fosse imputada a nós, e então pudéssemos ser aceitos por Deus, e justificados unicamente pela fé nele.
Não é a nossa performance que nos faz aceitáveis diante de Deus, mas é a fé naquele que já fez tudo o que tinha que ser feito pára que pudéssemos ser aceitos: Jesus Cristo. É isso que agrada a Deus!
Quando, pois, [a pessoa] aprendeu sua impotência por meio dos preceitos e jáficou ansiosa quanto a como satisfazer a lei [...] então, realmente humilhada ereduzida a nada a seus olhos, não encontra em si mesma áquilo pelo qual
47 CALVINO, 2010, p. 110.
48 Ibid. P. 111.
possa ser justificada e salva. Neste ponto se faz presente a outra parte daEscritura – as promissões de Deus, que anunciam a glória de Deus e dizem:“Se queres cumprir a lei, não cobiçar, como exige a lei, crê em Cristo no qualte são prometidas a graça, justiça, paz, liberdade, e tudo; se creres, terás; senão creres, ficarás sem.” Pois o que te é impossível em todas as obras da lei,que são muitas, e, assim mesmo, inúteis, isso cumprirás de modo fácil eresumido pela fé. [...] Só ele (Deus) dá preceitos, só ele os cumpre.49
Gálatas 4
“Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filhó, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, pára que recebêssemos a adoção de filhos.” (Gl 4:4-5)
Após Paúlo questionar os gálatas quanto às obras da lei e a fé em Cristo, e chegar à conclusão de que absolutamente ninguém é justificado pela prática da lei, no capítulo 4, o apóstolo nos relata as implicações de tudo o que ele disse anteriormente sobre as obras da lei e a fé em Cristo. Ele começa fazendo uma comparação entre escravos e livres. Como escravos, dependíAmós dos dominadores deste mundo, sem autoridade sobre a própria vida, pois ainda não havíAmós sido emancipados; os escravos vivem sob a lei. Porém, quando chegou o tempo estabelecido por Deus, o próprio Deus enviou seu Filhó, Jesus Cristo, nascido de mulher, sob as condições da lei, pára redimir os que estavam escravizados, sob o domínio da lei. “Ainda que sem pecado, Cristo nasceu sob a lei, não somente com a obrigação de cumprir toda a lei, mas identificando-
se com os pecadores, os quais estão debaixo da maldição da lei”.50
A morte de Cristo nos libertou dessa maldição. Quando o apóstolo Paúlo diz em Gálatas 4.4 que Deus enviou seu Filhó, nascido sob a lei, significa que o Filhó de Deus, que por direito era isento de toda sujeição à lei, tornou-se sujeito a ela. Ele fez isso em nosso lugar, com o objetivo de obter a liberdade pára nós. Cristo decidiu tornar-se
49 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: O Programa da Reforma Escritos de 1520. São Leopoldo:Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.2, 1989, p. 440.
50 BÍBLIA de Estudo de Genebra. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paúlo: Cultura Cristã,
1999, p. 1394.
obrigado a cumprir a lei, a fim de obter isenção pára nós. Do contrário, ele teria se submetido ao jugo da lei inutilmente. Mas temos que observar que a isenção da lei que Cristo conquistou pára nós, não significa que não devamos mais obediência ao ensino da lei, pois, segundo Calvino, a lei é a norma eterna de uma vida agradável e santa. Paúlo está se referindo à lei com todos os seus apêndices.51
Assim, ele nos libertou da escravidão da lei pára sermos não mais escravos, mas
filhos que têm direito à herança. Uma vez libertos, fomos adotados como filhos. O filhó não é escravo, mas livre do domínio da lei. A lei de Cristo e a justiça de Cristo é que têm domínio sob aqueles que são filhos. A intimidade com Deus é pára aqueles que são filhos, não pára os escravos.
E Paúlo, mais uma vez preocupado com a situação dos gálatas, questiona: agora que vocês conhecem o Deus verdadeiro, como podem se sujeitar novamente às tradições e superstições? (4.9). A preocupação do apóstolo é tão grande, que ele afirma que está sofrendo como uma mãe em dores de parto, e o maior desejo dele é que Jesus Cristo seja formado nos gálatas, ou seja, que Cristo seja uma realidade na vida deles. Pára ilustrar tudo isso, novamente Paúlo se volta pára Gênesis, e cita Abraão (Gênesis 16, 21). O Patriarca teve dois filhos: um da escrava e outra da livre. O filhó da escrava nasceu por iniciativa humana, mas o filhó da livre nasceu pela promessa de Deus. Dois modos de relacionamento com Deus. O primeiro filhó da escrava fala de uma vida escrava que produz escravos como descendentes. O segundo filhó fala da Jerusalém invisível, uma Jerusalém livre.
Gálatas 5
Após fazer comparações com Abraão e afirmar que nós, filhos da promessa como Isaque, não somos escravos, mas livres, Paúlo passa a explicar de quê somos livres, e como viver essa liberdade que Cristo veio nos trazer. Ele começa o capítulo 5 afirmando que "Pára a liberdade foi que Cristo nos libertou." É muito comum ouvirmos esse versículo fora de contexto, dando margens pára uma interpretação errada da liberdade que Cristo nos oferece. De quê fomos, então, libertos?
Em primeiro lugar, Cristo nos libertou da lei como sistema de salvação. No v.3 Paúlo afirma que quem aceita o sistema da circuncisão ou qualquer outro sistema de regras, troca a maravilhosa vida de liberdade em Cristo pelas obrigações da vida de escravo da lei, ou seja, o dom da liberdade que Cristo conquistou com sofrimento, se entregando na cruz, Ácaba sendo desperdiçado. Calvino diz que a liberdade que Paúlo
falava é a isenção de cerimônias da lei, cuja observância era exigida, como necessária, pelos falsos apóstolos.52
Em segundo lugar, Cristo nos libertou do domínio do pecado. No v.13 Paúlo diz que nós fomos chamados pára a liberdade, mas não devemos usar essa liberdade pára dar ocasião à carne, ou seja, não podemos usar essa liberdade como desculpa pára fazer o que bem entendemos, pois agindo assim, destruiremos essa liberdade.
Após falar sobre a liberdade que temos em Cristo, em Gálatas 5.3 (“Testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei”) entende- se que os pregadores da circuncisão não fizeram tal exigência; e em 6.13 Paúlo diz: “Eles mesmos não observam a lei”. De acordo com Paúlo, cumprir toda a lei significa cumprir a lei na abrangência e com o rigor como ele o fez como judeu e fariseu, segundo a norma da interpretação farisaica da lei. O que Paúlo está querendo dizer em
5.3 é que se os cristãos optarem pela circuncisão, que também se sujeitem ao
cumprimento da lei em toda a sua abrangência e rigor. Percebemos aqui que o legalismo tinha de fato sido compreendido como caminho pára a salvação.53
O apóstolo, então, diz que existe uma guerra dentro de cada um de nós. Há uma raiz de egoísmo que guerreia contra a liberdade do Espírito que Cristo nos concedeu; a nossa carne milita contra o Espírito (v.17). Ele faz uma lista de coisas que as pessoas que vivem sob o domínio do pecado fazem: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e cousas semelhantes a estas (vs.19-20). Paúlo nos ensina que devemos usar nossa liberdade com moderação, pára não darmos liberdade à carne, “que
deve, antes, ser mantida sob jugo; mas a liberdade é um benefício espiritual que somente os espíritos piedosos são capazes de desfrutar.”54
Em seguida, Paúlo passa a falar da vida com Deus. Quando recebemos o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio, passamos a viver no caminho de Deus e contra essas coisas não há lei (vs.22-23). Como podemos, então, usufruir dessa liberdade conquistada por Cristo na cruz? Encontramos a resposta nos vs. 6 e 14: "Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor" e: "Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'".
Em Cristo, nem nossa religião, nem nossa indiferença quanto às obrigações religiosas significam alguma coisa. O que importa é a fé que atua pelo amor. (Gl. 5.6)
Gálatas 6
53 VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento,aós Apócrifos e aós Pais Apostólicos. Trad. Ílson Kayser. Santo André: Editora Academia Cristã, 2005, p.144.
Finalizando a abordagem da carta de Paúlo aós Gálatas, o apóstolo vai dizer como nós podemos cumprir a lei de Cristo, e que a única coisa que nós temos que nos gloriar, não é em nossa performance, nem em nossos méritos, mas na cruz de Cristo.
O capítulo começa tratando da importância de nos auxiliarmos uns aós outros, de tomarmos responsabilidade pára com o nosso próximo. Pára Paúlo essa é a maneira de cumprirmos a lei de Cristo, uma forma concreta da “fé que atua pelo amor” que ele afirma no capítulo 5, versículo 6. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl. 6.2). Isto é, se alguém cair em pecado, restaurem essa pessoa com perdão. Ajam com misericórdia e estendam a mão aós que precisam de ajuda. Fazendo isso, estaremos cumprindo a lei de Cristo.
Calvino dá a seguinte interpretação a Gálatas 6.2: “Se vocês têm um grande desejo de guardar uma lei, Cristo lhes recomenda uma lei que vocês preferirão a todas as outras, qual seja: exercer benevolência uns pára com os outros”.55 Lutero diz que
é cristão cuidar do corpo, pára que por meio do seu vigor e bem-estar,possamos trabalhar, adquirir bens e preservá-los pára o subsídio daqueles quetêm carência, pára que assim o membro robusto sirva ao membro fraco, esejamos filhos de Deus, um preocupado e trabalhando pelo outro, carregando
os fardos uns dos outros e assim cumprindo a lei de Cristo.56
Paúlo novamente volta ao assunto da circuncisão e da vida centrada em regras, e ensina que de nada vale tudo isso, só levam a uma vida de orgulho; uma vida baseada em leis e regras leva apenas ao egoísmo e à soberba. É por isso que a partir do v. 14 Paúlo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado pára mim, e eu, pára o mundo.”
Jóão Calvino, sobre esse versículo, diz que Paúlo está contrastando as tramas dos falsos apóstolos com sua própria sinceridade, como se estivesse dizendo: “Pára não serem compelidos a levar a cruz, então negam a cruz de Cristo, adquirem os aplausos
55 CALVINO, 2010, p. 186.
56 LUTERO, 1989, v. 2, p. 452.
dos homens com o preço de vossa carne e terminam conduzindo-vos em triunfo. Meu triunfo e minha glória, porém, se encontram na cruz do Filhó de Deus”57
Finalmente, no último versículo, Paúlo despede-se dizendo: "Que a graça de Cristo seja com o vosso espírito." Calvino diz que Paúlo orá não pára que a graça fosse derramada sobre eles gratuitamente, mas pára que pudessem ter em sua mente um sentimento correto sobre ela. Realmente, ela só é usufruída por nós quando atinge o
nosso espírito. Devemos, pois, pedir a Deus que prepare nossa alma pára ser uma habitação de sua graça.58
Conclusões de Lutero e Calvino
Lutero, em suas teses debatidas em Heidelberg, conclui que “a lei de Deus, mui salutar doutrina da vida, não pode levar o ser humano à justiça; antes, o impede”; e essa mesma lei, “provoca a ira de Deus, mata, maldiz, acusa, julga e condena tudo o que não está em Cristo”.59 É por isso que nós precisamos seguir o que ele chama de Teologia da Cruz, pois a lei, em si, não é má, e nós não devemos fugir dela. “A lei é santa e toda dádiva de Deus é boa. Entretanto, quem ainda não foi destruído, reduzido a nada pela cruz e pelo sofrimento, atribui as obras a si mesmo e não a Deus.”60 Quem foi atingido pelo sofrimento e pela cruz de Cristo, sabe que é Deus quem nele ópera e tudo realiza, e então entende que a lei só pode ser cumprida através de Cristo, diferente da teologia da glória, onde as pessoas ignoram Cristo e seu sofrimento e buscam encontrar Deus nas boas obras e no cumprimento de regras, na glória e no poder, tornando-se egoístas e inimigas da cruz de Cristo. Portanto, é necessário olhar pára a lei, com humildade, e reconhecer que é impossível cumpri-lá sem a ajuda de Cristo.
57 CALVINO, 2010, p. 197.
58 CALVINO, 2010, p. 202.
59 LUTERO, 1987, v. 1, p. 38-39.
60 Ibid, p. 51-52.
Jóão Calvino diz que “a lei nos foi dadá pelo Senhor pára nos ensinar a justiça perfeita, e que nela nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pela vontade de Deus e conformar-nos a ela”61 Portanto, a vida do homem deve ser regrada pela lei, não somente por uma honestidade externa, mas também pára a justiça interna e espiritual. O reformador ainda afirma que Cristo não foi um segundo Moisés, que déu uma segunda lei pára suprir o que faltava na lei mosaica. Cristo não fez acréscimos à lei, mas a restabeleceu em sua inteireza, limpou-a das mentiras dos fariseus com as quais a tinham obscurecido.62 Contudo, se o espírito da graça for retirado, a lei só servirá pára acusar e matar.
A lei de Deus é letra morta e mata os que a seguem, quando estádesvinculada da graça de Cristo e somente soa nos ouvidos, mas não toça ocoração. Mas se o Espírito a imprime de fato na sede da vontade, e se ele noscomunica Jesus Cristo, a Escritura é de fato a Palavra da vida, converte almase “dá sabedoria aós símplices (Salmos 19.7).63
Ao olhar pára a carta aós Gálatas, o que podemos perceber, é que a lei de Deus nos ensina o caminho da justiça divina, mas ela também nos recrimina, tanto por nossa natureza pecaminosa como por nossa injustiça. A lei de Deus nos revela o quanto somos perversos e avessos à justiça de Deus, e estamos muito longe de sermos capazes de cumpri-lá perfeitamente.
Podemos aprender que a lei de Deus expressa a vontade de Deus pára nossas vidas, mas sozinhos, somos incapazes de observá-lá. Olhando pára dentro de nós, percebemos que não satisfazemos a vontade de Deus, e portanto, somos indignos de manter nosso lugar entre as criaturas. Sendo assim, existe a necessidade de olharmos pára Cristo, que é o úNicó que cumpriu perfeitamente a vontade de Deus, e nos tornou aceitáveis diante do Pai. Sem Cristo, a lei somente nos acusa e mata, mas com Cristo, a lei nos revela a perfeita vontade de Deus.
61 CALVINO, Jóão. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paúlo: Cultura Cristã,vol.1, 2006, p. 167.
62 CALVINO, 2006, v.1, p. 168.
Quando temos plena convicção da nossa imperfeição e total dependência de Cristo, somos libertos do jugo da lei, e essa liberdade faz com que nossa consciência busque obedecer a lei, não como constrangidos ou forçados a tal tarefa, pára conseguir a justificação própria e ser aceitos por Deus, mas livremente, como resposta ao que Cristo já fez por nós. O fim dessa liberdade que Cristo conquistou pára nós é incentivar-nos à prática do bem.
Precisamos, portanto, apegar-nos mais à graça de Deus, que nos supre do que falta à lei, e amar a misericórdia divina, pela qual a graça nos é concedida, porque quando estamos debaixo da graça de Deus, a lei não exerce todo o seu rigor pressionando-nos até o fim, de modo a só ficar satisfeita se cumprirmos tudo o que ela manda. Em vez disso, ela nos exorta à perfeição pára a qual nos chama, e nos mostra a meta que devemos buscar durante a nossa vida. “Quando chegarmos ao fim, o Senhor
nos fará o benefício de levar-nos a alcançar a meta, a qual ainda estaremos buscando, embora distantes dela.”64
Concluindo este primeiro capítulo, apresentaremos três verdades compreendidas até aqui: Em primeiro lugar, quando Paúlo usa a expressão “obras da lei”, em sua carta aós Gálatas, ele se refere aós atos de obediência às leis cerimoniais como a circuncisão, e à lei moral de Moisés realizados pelos judeus de sua época, com a intenção de serem aceitos por Deus. Em segundo lugar, nunca foi propósito de Deus que a lei servisse de caminho pára a salvação. E em terceiro e último lugar, o homem é totalmente corrompido, devido ao pecado, e, portanto, não é capaz de cumprir o que a lei ordena. Ninguém pode se justificar pela lei simplesmente porque ninguém é capaz de fazer tudo o que a lei exige. Dependemos de Cristo pára sermos aceitos e justificados por Deus. A guarda da lei não vale a pena fora de Cristo.
Eis o resumo disso tudo: se buscarmos a salvação em nossas obras, é-nosnecessário guardar os mandamentos, os quais nos instruem sobre a justiçaperfeita. Mas não devemos parar aqui, se não quisermos desfalecer no meio
64 CALVINO, 2006, v.1, p. 228.
do caminho, porque nenhum de nós é capaz de os guardar. Assim, depois determos sido excluídos da justiça da lei, precisamos de outro retiro e socorro,qual seja, a fé em Jesus Cristo. Portanto, assim como o Senhor Jesus nessapassagem (Mateus 19.17) remete de volta à lei o doutor dela, sabendo que eleestava inchado de vã confiança em suas obras, e o fez pára que ele sereconhecesse pobre pecador e sujeito à condenação, assim também noutrolugar ele consola com a promessa de sua graça os que se humilham poraquele reconhecimento, e os consola sem fazer menção da lei. “Vinde a
mim”, diz ele, “todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”(Mateus 11.28)65
A Nova Perspectiva de Paúlo
Depois de abordarmos a carta aós Gálatas baseados nos comentários de Lutero e Calvino, e mostrarmos a Teologia Bíblica de Paúlo, neste segundo capítulo, examinaremos um tipo de interpretação mais recente da teologia de Paúlo que tem feito oposição à teologia reformada, e que é chamada de “Nova Perspectiva de Paúlo”. Ao final, tentaremos responder a seguinte pergunta: É a Nova Perspectiva de Paúlo, bíblica e confiável?
Nosso objetivo com este capítulo é mostrar quem são os principais expoentes da Nova Perspectiva, o que ela tem proposto e no que ela diverge da perspectiva tradicional e bíblica que vem sendo adotada pelos cristãos de teologia reformada.
Os principais expoentes
A interpretação tradicional que dominou os estudos paulinos por muito tempo passou a ser contestada por estudiosos, dentre eles, destacaremos E. P. Sanders e James Dunn. Eles dizem que “a teologia de Paúlo tem sido mal compreendida porque tem sido interpretada pelas lentes de Lutero e da Reforma”66 . Essa é a maior crítica dos defensores da Nova Perspectiva. O ponto fundamental não diz respeito à pessoa de
65 CALVINO, Jóão. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paúlo: Cultura Cristã,vol2, 2006, p. 264-265.
66 STUHLMACHER, Peter, Lei e Graça em Paúlo: uma resposta à polêmica em torno da doutrina da
justificação. Trad. Lucy Yamakami. São Paúlo: Vida Nova, 2002, p. 98.
Paúlo, mas à natureza do Judáísmo do primeiro século, como Paúlo e o Judáísmo enxergavam a questão da lei e graça.
Estes teólogos não concordaram com a perspectiva tradicional que vinha sendo adotada, principalmente pelos cristãos reformados, pois acreditavam que a teologia de Paúlo estava sendo interpretada de acordo com a visão e interpretação que Lutero fez na época da Reforma Protestante. Sendo assim, eles propuseram uma nova interpretação da teologia paulina, sem as lentes da Reforma, ou seja, uma nova maneira de enxergar os escritos de Paúlo, um novo jeito de interpretar as Escrituras e o Judáísmo do primeiro século. Nasce então a Nova Perspectiva de Paúlo.
E. P. Sanders
Sanders é um especialista em Novo Testamento e um dos principais proponentes da Nova Perspectiva de Paúlo. Seu campo de interesse é o Judáísmo e o cristianismo no mundo greco-romano. Muito citado por James Dunn, E. P. Sanders afirma que o Judáísmo palestinense do primeiro século, não era uma religião de obras feitas pára a obtenção da aprovação por Deus e entrada no pacto.67 Em uma de suas principais obras68, ele propõe uma reavaliação do pensamento paulino, de forma que seja possível perceber mais do que simples oposições e refutações à lei.
Em suas conclusões, Sanders afirma que o Judáísmo da época de Paúlo entendia a salvação como eleição e pacto, onde Deus escolhe Israel. Ele dizia que a lei observada pelos judeus era praticada não pára entrarem na aliança, mas pára se manterem nela. A isto, Sanders dá o nome de “nomismo da aliança”. Dunn, citando Sanders define “nomismo da aliança” como:
67 DUNN, James D. G., A nova perspectiva sobre Paúlo. Trad. Monika Ottermann. Santo André:Academia Cristã, 2011, p. 19.
68 SANDERS Ed Parish, Paúlo, a lei e o povo judeu. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paúlo:
Academia Cristã, Paulus, 2009.
A ideia de que o nosso lugar no plano de Deus está estabelecido com base naaliança e que a aliança exige como resposta apropriada do homem suaobediência aós mandamentos, fornecendo meios de expiação dastransgressões [...] A obediência mantém nossa posição na aliança, mas nãomerece a graça de Deus como tal [...] Justiça no Judáísmo é termo queimplica a manutenção do status entre o grupo dos eleitos.69
Sanders entendia que os fariseus da época de Paúlo, já nasciam dentro da graça e da aliança. Eles praticavam as “obras da lei” não por legalismo ou pára conseguir a aprovação de Deus, mas pára se manter dentro do pacto. Afirma-se, então, que o Judáísmo não é uma religião legalista, mas baseada na graça de Deus revelada nas alianças com Israel. A Nova Perspectiva veio pára confrontar toda a teologia tradicional de Paúlo que era sustentada principalmente por Lutero e Calvino. Pára Sanders, Paúlo
adotava a tese corrente da época, de que pertencer ao grupo de cristãos implicava procedimento correto, ou seja, observar a lei.70
Sanders nos ofereceu uma oportunidade inédita de olhar pára Paúlo comnovos olhos, de mudar nossa perspectiva do séc. XVI pára o séc. I, de fazeralgo que todo verdadeiro exegeta quer fazer – a saber, ver Pauloapropriadamente dentro de seu próprio contexto, ouvir Paúlo nos termos deseu próprio tempo, deixar Paúlo ser ele mesmo.71
Em resumo, o argumento fundamental de Sanders é que o Judáísmo não era uma religião de obras mas da graça e misericórdia de Deus. A partir de um estudo aprofundado da maior parte da literatura judaica do primeiro século, Sanders tentou mostrar que a relação de aliança que Israel tinha com Deus era básica pára o sentimento de nacionalidade do judeu e pára sua compreensão da religião. Ele afirma que Deus escolheu Israel pára ser seu povo, pára desfrutar de um relacionamento especial. A lei então foi dadá como uma expressão dessa aliança, “pára regular e preservar o relacionamento estabelecido pela aliança.”72
Isso significa que, no Judáísmo, a obediência à Lei nunca foi pensada comoum meio de entrar na aliança, de conseguir um relacionamento especial comDeus; era antes a questão de manter o relacionamento da aliança com Deus.
69 DUNN, James D. G. A teologia de Paúlo. Trad. Edwino Royer. São Paúlo: Editora Paulus, 2003, p.391.
70 SANDERS, 2009, p. 132.
71 DUNN, 2011, p. 161
72 Ibid, p. 160.
A partir disso, Sanders elabora sua expressão chave pára caracterizar ojudaísmo palestinense do primeiro século, “nomismo da aliança”.73
Um outro ponto importante na Nova Perspectiva é sobre a justificação pela fé, que na visão reformada, é o centro da teologia de Paúlo, mas que agora é vista por Sanders e outros teólogos da Nova Perspectiva como uma tática pragmática pára facilitar a missão aós gentios. Pára Albert Schweitzer, que é um dos teólogos da Nova Perspectiva, citado na obra de Stuhlmacher: “a doutrina da justificação pela fé é uma cratera secundária, formada dentro da cratera principal, a doutrina mística da redenção por meio do ‘estar em Cristo’”74
James Dunn
Além de Sanders, outro teólogo escocês, que tem contribuído pára a Nova Perspectiva é James Dunn, autor de uma das principais obras sobre esta corrente teológica, e que tem como título “A Nova Perspectiva sobre Paúlo”. Ele percorre linhas um pouco diferentes, e apesar de sofrer influência da apresentação do Judáísmo feita por Sanders, apresenta algumas discordâncias do retrato que este faz de Paúlo.
Dunn sustenta duas ideias básicas: (1) O Judáísmo não é uma religião legalista, que prega a justificação pelas obras, mas uma religião de graça. (2) O ensino de Paúlo sobre a justificação independente das obras da lei é baseado na igualdade entre judeus e gentios diante de Deus. O que Paúlo deseja é mostrar aós dois grupos (gentios e judeus) que Deus se inclina de maneira graciosa em direção a eles e os aceita.75
Em seu artigo sobre a Nova Perspectiva, falando sobre James Dunn, Augustus
Nicodemus diz:
Sua abordagem sociológica tem recebido vasta aceitação. Pára ele, Pauloataca as “obras da lei” não porque elas expressam algum desejo de alcançar
73 Ibid.
74 STUHLMACHER, 2002, p. 96.
75 Ibid., p. 47.
mérito por parte dos judeus, mas porque entende que elas fazem umadistinção entre os judeus, o povo de Deus da antiga dispensação, e os gentios,a quem o evangelho está sendo oferecido. As “obras da lei”, que Pauloidentifica como restritas à circuncisão, às leis sobre alimentos puros eimpuros (kashrut) e aós dias especiais do calendário judaico, são emblemasque caracterizam o Judáísmo e devem ser rejeitadas porque enfatizam aseparação entre judeus e não-judeus, a qual Cristo veio abolir76
A partir de agora então, o Judáísmo não é mais visto como uma religião legalista, mas como “nomismo da aliança”, ou seja, a lei depende da graça, vem depois da graça e o observar a lei é compreendido como a resposta de Israel à graça de Deus. A Nova Perspectiva de Paúlo entende que o legalismo é uma distorção do Judáísmo e não o próprio Judáísmo, e que as “obras da lei” são a marcá principal da identidade judaica. O que faz de um judeu, um verdadeiro judeu é a prática das “obras da lei” que o diferencia do gentio: a circuncisão, a guarda do sábadó, as regras sobre alimentação entre outros rituais.
Gálatas 2.16
Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante afé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, pára que fôssemosjustificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguémserá justificado.” (Gálatas 2.16)
Um dos pontos chaves da Nova Perspectiva de Paúlo é quando Paúlo fala sobre justificação em Gálatas 2.16. Justificação é uma palavra tomada emprestada dos tribunais, e é exatamente o oposto de condenação. Como vimos no primeiro capítulo sobre este texto, a palavra “justificar” é um verbo que se encontra na voz passiva pois é ato exclusivo e gracioso de Deus que torna justo o pecador injusto. James Dunn, por sua vez, entende que quando Paúlo se refere ao “ser justificado”, não é um ato distintivamente iniciatório de Deus, mas é o reconhecimento divino de que alguém está dentro da aliança. E Paúlo não está falando aqui pára cristãos que coincidentemente são
judeus, mas pára judeus cuja fé cristã é um extensão da fé judaica em um Deus que escolhe e sustenta pela graça.77
Dunn afirma que
Em Gálatas 2.16, Paúlo lida de fato, com o Judáísmo como sabemos ter sidono primeiro século – um sistema de religião consciente de seurelacionamento especial com Deus e sensível a suas obrigações peculiaresdentro de tal relacionamento. As críticas a Paúlo por sua falha noentendimento do Judáísmo, portanto, envolvem uma falha dupla deperspectiva. O que os eruditos no Judáísmo rejeitaram como falha deentendimento de Paúlo é uma falha no entendimento sobre Paúlo, baseada na(re-) leitura protestante padrão pelas lentes da Reforma. Quando tiramosessas lentes, Paúlo não parece estar tão fora de contato com seu contexto doprimeiro século como até mesmo Sanders imagina. Sanders, de fato, libertoua exegese paulina de seus faróis do século dezesseis, mas ele ainda nosdeixou com um Paúlo que teria feito pouco sentido pára seus contemporâneosjudeus e com uma disposição pára observar a lei em alguns momentos (1 Co
9.19-23) que teria soado com a mais espetacular contradição.78
Os reformados sempre afirmaram, com base principalmente em Gálatas e Romanos, que a mensagem central das cartas de Paúlo é que os pecadores podem ser justificados mediante a fé em Jesus Cristo, sem obras pessoais e meritórias. E que esta justificação consiste em Deus nos imputar – isto é, atribuir – a própria justiça de Cristo. Entendemos que a justiça de Cristo imputada ao ser humano injusto é a doutrina central da teologia paulina. O rev. Hernandes Dias Lopes chega a afirmar que “quando a igreja caminhou na verdade, essa doutrina (justificação pela fé) foi sustentada. Sempre que entrou em declínio, foi esquecida”.79 Somos justificados com uma justiça alheia, a de Cristo, e não com uma justiça nossa, que procede de nossa obediência à lei de Deus (obras da lei). Lutero e os demais reformadores entenderam que esse era exatamente o ponto de discussão entre Paúlo e os judaizantes, que à sua época queriam exigir que os crentes não judeus guardassem a lei de Moisés pára poderem ser salvos.
Já James Dunn entende que a justificação pela fé não é contrária à justificação pelas “obras”, mas é a marcá da identidade dos cristãos em contraste com os judeus e gentios. Pára Dunn, a justificação não significa que Deus transfere a sua própria justiça
77 DUNN, 2011, p. 167.
78 DUNN, 2011, p. 181
ao pecador, como ensina a doutrina reformada da imputação; Deus, à semelhança do que se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, todavia, imputar-lhe a sua própria justiça. A conclusão é que Paúlo nunca ensinou a doutrina da imputação da justiça. Não é isso o que Paúlo entende por justificação. Deus absolve o pecador por causa de sua fidelidade ao pacto, à aliança. É isso que significa a sua justiça.
Então, o que Paúlo estava atacando ao excluir a ideia de ser justificado pelas “obras da lei”? – Entendemos que Paúlo está querendo dizer que não somos justificados pelas nossas obras, ou por áquilo que fazemos pára Deus, mas sim, por áquilo que Deus já fez por nós. O que o apóstolo Paúlo está dizendo é que a única obra que Deus aceita como base de nossa justificação é a expiação de seu filhó Jesus Cristo na cruz do Calvário. Hernandes afirma que “somos justificados em virtude da sua morte em nosso
lugar e em nosso favor”.80
Quando Paúlo afirma que “por obras da lei, ninguém será justificado”, a palavra “ninguém” também pode ser traduzida como “carne”, ou seja, nenhuma carne será justificada. A palavra “carne” foi sugerida ao apóstolo Paúlo não só pela natureza física das circuncisões que os adversários queriam realizar nos gálatas, mas também pára indicar a fraqueza humana, o pecado humano, em textos como Gênesis 6.3,12 e Isaías
40.6. “Elevar as ‘obras da lei’ ao nível de requisito pára viver em harmoniosa relação de aliança com Deus, diz Paúlo, é colocar tal relação fora do alcance de todos, não importa se judeus ou gentios, porque a inclinação humana a desobedecer a Deus impede toda ‘carne’ de obedecer à lei completamente (Gálatas 2.16).”81
Pára John Stott, precisamos entender duas coisas: A primeira é que Deus é justo;
a segunda é que nós não somos. E estas duas realidades colocadas juntas, explicam nossa difícil situação. Algo está errado entre nós e Deus. Em vez de harmonia, há atrito, estamos sob juízo de Deus, e então Paúlo, através deste versículo nos mostra como pode
80 LOPES, 2011, p. 116.
81 HAWTHORNE, Gerald F., MARTIN, Ralph P., REID, Daniel G. Dicionário de Paúlo e suas cartas.Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paúlo: Paulus, Vida Nova, Loyola, 2008, p. 791.
um pecador condenado ser considerado justo: através da justificação pela fé. Sem a justificação pela fé exposta neste versículo, não existe nenhuma outra maneira de o homem ser considerado justo perante Deus.82
“Obras da lei”
Os teólogos da Nova Perspectiva (Sanders e Dunn) afirmam que Paúlo nunca foi contra as “obras da lei” como um caminho de salvação. Já Lutero, Calvino e outros reformadores sustentavam o contrário, que as “obras da lei” eram um caminho falso de salvação. Portanto, a Nova Perspectiva entende que a lei, as “obras da lei” e o Judáísmo precisam ser interpretados de maneira diferente.
A teologia reformada entende “obras da lei” em Gálatas como aqueles atos praticados pelos judeus em obediência aós mais estritos preceitos da lei de Moisés. Lei são os mandamentos dados a Moisés, e “obras da lei” são as obras que fazemos em observância à lei, cumprindo e obedecendo-a.
Eles procuravam guardar Taís preceitos visando acumular méritos diante de Deus. Guardavam certos preceitos, praticavam boas obras, a fim de serem aceitos por Deus e conseguir então entrar na aliança. Mas, James Dunn, em especial, argumentou que as “obras da lei”, às quais Paúlo se refere em Gálatas eram a circuncisão, a guarda do calendário religioso e as leis sobre os alimentos, que eram sinais que mostravam a identidade judaica no século I.
Paúlo era contra estas coisas porque elas separavam judeus dos gentios e impediam que gentios convertidos se sentassem à mesa com judeus convertidos. Ou seja, a polêmica de Paúlo não era contra o legalismo dos judaizantes, mas contra a insistência deles em manter os gentios distantes. Segundo os teólogos da Nova
82 STOTT, 1989, p. 58.
Perspectiva, a Reforma havia perdido este ponto de vista por causa de Lutero e Agostinho.
Por três vezes num úNicó versículo (Gálatas 2.16) Paúlo repete a expressão “... Não pelas obras da lei”, e de acordo com Dunn83, o apóstolo estava pensando nas obras da aliança, num sentido mais restrito, obras relacionadas à aliança, e praticadas em obediência à lei da aliança. Como o debate que estava acontecendo em Jerusalém era por causa da circuncisão, e em Antioquia por causa das leis alimentares, Dunn afirma que por “obras da lei” Paúlo estava tratando sobre determinadas observâncias da lei como circuncisão e leis alimentares praticadas por aqueles que já pertenciam à aliança, pára manter o status nela.
Podemos, então, observar dois pontos fundamentais dos ensinamentos de James Dunn: (1) “Obras da lei” não são entendidas pelos judeus ou pelo próprio Paúlo como obras que conseguem o favor de Deus; são simplesmente o que a condição de membro da aliança envolve, o que marcá judeus como povo de Deus. Servem pára demonstrar o status da aliança. (2) “Obras da lei”, diferente da exegese da Reforma, não significam “boas obras” em geral. A expressão “obras da lei” em Gálatas 2.16 se refere àqueles regulamentos prescritos pela lei que qualquer bom judeu simplesmente teria que seguir. Portanto, esta expressão, pára a Nova Perspectiva, faz distinção entre judeus e gentios.
A lei possuía uma função social e Sérvia pára delimitar e até separar Israel das outras nações. Ou seja, as “obras da lei” podiam funcionar como marcadores de fronteiras, práticas e rituais que diferenciavam Israel dos outros povos. Por isso também foi que Paúlo combateu as “obras da lei”, pois elas deixavam os gentios de fora, e só privilegiavam os judeus. Ou então os gentios tinham que judaizar-se, o que não agradou nem um pouco ao apóstolo Paúlo.
83 DUNN, 2011, p. 168
Contudo, nós entendemos que é mais provável que Paúlo use a expressão “obras da lei”, principalmente em Gálatas 2.16, num sentido mais amplo, ou seja, “boas obras” com a finalidade de conseguir a aprovação de Deus. Entendemos “obras da lei”, conforme explica Longenecker, como “todo complexo legalista de ideias relacionadas com o adquirir do favor divino pelo acúmulo de méritos mediante a observância da
Torá”.84
Augustus Nicodemus 85 afirma que a expressão “obras da lei” implica em cumprir toda a lei, e não apenas os mandamentos sobre circuncisão, alimentos e dias santos como afirma a Nova Perspectiva. Ao contrastar “obras da lei” com “fé em Cristo Jesus” em Gálatas 2.16, diferentemente do que ensinam Sanders e Dunn86, entendemos que Paúlo estava abrangendo judeus e gentios, não pára manter o status, mas pára entrar na aliança.
Ou seja, o que ele estava dizendo é que não é por praticar as obras requeridas pela lei que alguém (judeu ou gentio) é salvo, ou consegue entrar na aliança, mas única e exclusivamente pela dependência de Deus e de Jesus Cristo como Senhor e Salvador.
Os judaizantes acreditavam que somente através do trabalho duro, ou seja, das boas obras, é que o homem consegue ser justificado. Eles ensinavam que é necessário observar toda a lei, mas essa interpretação é falsa, pois a lei exige perfeição, e como vemos na própria Palavra de Deus, ninguém é perfeito, a não ser um, que é Cristo. O úNicó que obedeceu completamente a lei e viveu sem pecado nenhum.
Os judeus e judaizantes, segundo John Stott, afirmavam que
É preciso amar e servir ao Deus vivo, e não ter outros deuses ou substitutos.É preciso reverenciar o seu nome e o seu dia, e honrar os pais. É precisoevitar o adultério, o homicídio e o roubo. Nunca devemos dar falsotestemunho contra o nosso próximo nem cobiçar alguma coisa que lhepertença. Mas não era só isso. Além da lei moral, temos a lei cerimonial, àqual é preciso obedecer. É preciso levar a religião a sério, examinando as
84 LONGENECKER, Richard N. Galatians. In: Word Biblical Commentary. Dallas: Word Books, 1990,p. 86.
85 LOPES, 2006, p. 90.
86 Pára Sanders e Dunn, “obras da lei” são somente pára os bons judeus que seguiam pára manter o statusda aliança.
Escrituras em particular e frequentando os cultos públicos. É preciso jejuar,orar e dar esmolas. E, se fizer tudo isso, sem falhar em nada, ter-se-áalcançado o sucesso e a aceitação de Deus sendo então justificado “pelasobras da lei”87
Portanto, Paúlo rejeita as “obras da lei” porque o propósito de Deus nunca foi que a lei servisse de caminho pára a salvação, e pelo fato do homem ser totalmente corrompido pelo pecado, ele é incapaz de cumprir o que a lei ordena. Diante disto, a teologia reformada sustenta que ninguém pode se justificar pelas “obras da lei” porque ninguém é capaz de obedecer e seguir tudo o que a lei exige.
As fraquezas da Nova Perspectiva de Paúlo
A Nova Perspectiva, por diversas vezes, coloca em dúvida o Judáísmo descrito por Paúlo, e chega até a afirmar que o apóstolo era contraditório em suas postulações. Ela admite que autores bíblicos podem ter cometido erros históricos ou entrado em contradições, ou seja, os teólogos da Nova Perspectiva acabam atacando a autoridade e inerrância das Escrituras Sagradas, adotando práticas de interpretação liberal. Afirmar que Paúlo pode ter falhado em algum momento ou entrado em contradição consigo mesmo é colocar em dúvida a inspiração do Espírito Santo sobre os autores bíblicos e dizer que a Palavra de Deus contêm erros.
Pára eles, a Bíblia pode ser tratada como um livro de religião qualquer, cujos autores poderiam ter cometido erros históricos, fornecido alguma informação falsa ou equivocada e até mesmo cáído em contradições. Um exemplo se encontra na obra de Sanders, quando ele afirma: “Não obstante, Romanos 2 fica sendo o exemplo no qual Paúlo ultrapassa a incoerência ou a variedade de tema e de explicação pára chegar à
verdadeira contradição consigo mesmo.”88 Além disso, Sanders usa fontes do século III
87 STOTT, 1989, p. 59.
88 SANDERS, 2009, p. 179.
e IV como Talmud, Mishna e Midrashes pára reconstruir o pensamento judaico do século I.
Segundo Augustus Nicodemus em seu artigo sobre a Nova Perspectiva de Paulo89, Sanders apresenta algumas fraquezas. Em primeiro lugar, algumas coisas permanecem sem explicação, como a distinção que ele faz entre “ser justificado diante de Deus” (que pára ele não era a preocupação de Paúlo nem dos judeus) e “entrar no povo de Deus”. Em segundo lugar, Sanders omitiu das informações rabínicas as evidências de que o Judáísmo palestino era legalista. C. K. Barrett afirma ironicamente sobre Sanders: “Ele é um homem presunçoso que supõe compreender o Judáísmo do primeiro século melhor do que Paúlo”.90 Tanto é assim, que em sua obra “Paúlo, a lei e o povo judeu”, Sanders afirma categoricamente que quando Paúlo diz em Gálatas que a lei se cumpre no preceito de “amar o próximo”, ele está diminuindo a lei, mesmo não admitindo que a tenha reduzido.91
Outro ponto estranho é a maneira como a Nova Perspectiva interpreta Gálatas 2.16, dizendo que Paúlo queria simplesmente corrigir a ideia judaica de que a justificação pode ser recebida somente pelos que estão na aliança, que se distinguem dos gentios pela circuncisão, pela observância das leis alimentares, das normas de pureza e do sábadó.
Dizem eles que Paúlo queria tornar a justificação acessível também aós gentios que não observavam as “obras da lei”, que era observada apenas pelos judeus que já estavam na aliança, pára manter o status e a condição de verdadeiro judeu diante de Deus. No entanto, o que Paúlo está realmente dizendo é que ninguém (nem judeu, nem gentio) será justificado por Deus com base nas “obras da lei”.
89 LOPES, 2006, p. 83-94.
90 BARRET, C. K. Paul: An introduction to His thought. Louisville: Wesminster John Knox, 1994, p. 78.Tradução nossa.
91 SANDERS, op. Cit., p. 130.
Todas as tentativas de alguém confiar na própria justiça derivada da lei são inúteis, pois a justificação acontecerá pela fé em Cristo Jesus.92 O próprio apóstolo Paúlo afirma: “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão” (Gálatas 2.21).
Outra fraqueza que encontramos é sobre o “nomismo da aliança”, que diz que os judeus observavam as leis como forma de manter o status dentro do pacto. Sobre isso, Stuhlmacher cita Morna Hooker:
É evidente que não podemos falar aqui de um “nomismo da aliança” no casode Paúlo, já que iria na contramão da disputa básica de Paúlo com a Lei. Oponto é que, pára Paúlo, a Lei foi substituída por Cristo – ou, antes, já que aLei era uma medida interina, mostra-se em seu verdadeiro caráter desubstituto, agora que chegou a realidade. As perguntas “quem pertence àaliança?” e “como a pessoa reage à aliança?” são respondidas por Paúlo emtermos de Cristo; pelo Judáísmo, em termos da Lei93
Enquanto o Judáísmo é nomocêntrico, Paúlo é cristocêntrico. Enquanto o Judáísmo prega a salvação pelas obras, Paúlo prega a salvação pela fé em Jesus Cristo. O Judáísmo crê na justificação pela lei, o apóstolo crê na justificação pela fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus (Efésios 2.8). Em Gálatas 3.1-5 ele rompe de maneira fundamental com a lei e, assim, com o Judáísmo.
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que óperamilagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (Gálatas 3.1-5)
O que vemos neste versículo é o argumento de que é insensatez alguém ter começado no Espírito, e agora completar-se “na carne”, ou seja, é ridículo uma pessoa ter começado no evangelho e voltar à lei, como se ela complementasse o evangelho. O apóstolo Paúlo, ao contrário do que afirmam Sanders e Dunn, não está atacando apenas uma parte do Judáísmo que se tornou legalista, mas o Judáísmo como um sistema
92 STUHLMACHER, 2002, p. 52.
93 STUHLMACHER, 2002, p. 124.
legalista, que o mesmo apóstolo afirma no versículo supracitado ser uma religião da carne (“... Aperfeiçoando na carne”), onde a salvação e a entrada na aliança de Deus depende do homem e suas boas obras.
Por último, podemos concluir dizendo que não há unanimidade nem mesmo entre os proponentes da Nova Perspectiva, pois vemos muitas vezes James Dunn, principalmente em sua principal obra “A Nova Perspectiva sobre Paúlo”, criticando alguns aspectos dos escritos de Sanders. Dunn chega a dizer: “De fato, ao colocar as coisas em seu devido lugar, à medida que se referiam ao Judáísmo confrontado por
Paúlo, Sanders apenas complicou o quebra-cabeça.”.94
Portanto, a Nova Perspectiva de Paúlo deve ser encarada com cuidado e com restrições, e entendemos que a perspectiva tradicional é a perspectiva bíblica e a que melhor interpreta a teologia de Paúlo. Biblicamente, não há como enxergarmos o Judáísmo como uma religião da graça. Diante das Escrituras, só podemos interpretar o Judáísmo como um sistema legalista e uma religião de méritos pára entrar na aliança, o que vem em oposição ao evangelho da graça revelado em Jesus Cristo, e que Paúlo tanto lutou pára viver e pregar.
94 DUNN, 2011, p. 36.
A importância da lei na era da graça
A lei nos foi dadá pelo Senhor pára nos ensinar a justiça perfeita, e que nelanenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pelavontade de Deus e conformar-nos a ela. Assim, inutilmente imaginamosnovas formas de obras pára obter a graça de Deus, sendo que o úNicó serviço
legítimo que se lhe pode prestar é a obediência.95
Diante do que vimos até aqui, após olharmos pára a carta aós Gálatas na perspectiva de Calvino e Lutero, e então, no segundo capítulo, conhecermos um pouco da Nova Perspectiva de Paúlo, neste terceiro capítulo pretendemos olhar pára a teologia paulina, no que diz respeito à doutrina da lei e graça e de uma maneira prática, responder à pergunta feita na introdução: “Pára quê serve então a lei, se vivemos na era da graça?”
O tríplice uso da lei
As Escrituras nos mostram que Deus ordenou sua lei pára funcionar de três formas, o que Jóão Calvino, de uma forma clássica e pára o auxílio da igreja,
sistematizou e chamou de “o tríplice uso da lei”.96 O termo é apresentado também na Teologia Concisa de J.I. Packer.97
A primeira função da lei é ser um espelho que reflete tanto a justiça e a vontade perfeita de Deus como nossa própria pecaminosidade: “pois aquele a quem falta a capacidade pára seguir a justiça, este está de modo absoluto atolado em um lamaçal de pecados.”98 A lei serve pára mostrar o perigo da condenação do pecado e também nossa necessidade de perdão. Segundo Gálatas 3.24, a lei destina-se também a conduzir-nos em arrependimento e fé a Cristo, a fim de que fôssemos justificados.
Portanto, uma vez que somos todos comprovadamente seus transgressores,quanto mais claramente revela ela a justiça de Deus, tanto mais desvenda, emcontrário, nossa iniquidade; quanto mais explicitamente confirma o galardãoda vida e da salvação como dependente da justiça, tanto mais confirma aperdição dos iníquos. Portanto, estas ponderações longe estão de serinjuriosas à lei; ao contrário, são valiosas pára uma recomendação maisexcelente da beneficência divina.99
A segunda função da lei é restringir o mal. Embora a lei por si só não tenha poder pára mudar o coração, ela pode inibir a ilegalidade por suas ameaças de julgamento ou punições. Calvino diz que "esta justiça forçada e compulsória, é necessária à sociedade comum dos homens, a cuja tranquilidade esta se vota, enquanto se vela pára que todas as coisas não se misturem em confusão, o que aconteceria, se a todos tudo se permitisse."100
Desse modo, ela garante alguma ordem civil, e de certo modo, protege o justo do injusto. Podemos ver essa realidade em Romanos 13.4 que diz: “visto que a autoridade é ministro de Deus pára teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, pára castigar o que pratica o mal.”
96 Id. As Institutas da Religião Cristã: edição clássica. Trad. Waldir Carvalho Luz. 2.Ed. São Paúlo:Cultura Cristã, vol2, 2006, p. 118-123.
97 PACKER, J.I. Teologia Concisa: síntese dos fundamentos históricos da fé cristã. Trad. Rubens
Castilho. Campinas: Luz Pára o Caminho, 1998, p. 88-89.
98 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 118.
99 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 119.
100 Ibid., p. 121.
Orá, até mesmo aós filhos de Deus é útil que sejam exercitados por esta tutela,por quanto tempo, antes da sua vocação, destituídos do Espírito desantificação, se esbaldem na insensatez da carne. Pois, enquanto pelo temorda vingança divina se retraem pelo menos ao desregramento exterior e, dequalquer forma, ainda não quebrantados no espírito, fáçam pouco progressono presente, contudo, ao levarem o jugo da justiça, são, por outro lado,acostumados, de modo que, quando forem chamados, não sejam inteiramenteinexperientes e noviços em relação à disciplina ou coisa desconhecida.101
A terceira função da lei é expressar a vontade de Deus, áquilo que lhe agrada, e assim, guiar os regenerados a fazer a vontade do Pai, ou seja, levá-los às boas obras que Deus já havia planejado pára eles. Esta terceira função, que “não só é a principal, mas ainda contempla mais de perto ao próprio fim da lei, tem lugar em relação aós fiéis, em cujo coração já vigora e reína o Espírito de Deus.”102 E quando Jesus Cristo disse que todos os que tornam seus discípulos devem guardar a lei e fazer tudo o que ela ordena, é deste terceiro uso que ele estava falando.
“Entretanto, isto permanece sempre incontestável: nada se deve detrair da autoridade da lei, e que ela deve ser sempre tomada por nós com a mesma veneração e obediência.”103 E em se tratando de obediência à lei de Deus, existem dois perigos que nós precisamos tomar muito cuidado pára não cairmos neles: o legalismo e o antinomismo.
Dois perigos que devemos evitar
- Legalismo
Como já vimos na introdução, o legalismo contradiz a graça de Deus, porque busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e as obras da lei. O legalismo foca toda sua atenção no comportamento. Russell Shedd diz que “frequentemente deparamos com a ferrugem que desvirtua a graça de Deus, na forma de uma lista de supostos
101 Ibid.
102 Ibid., p. 122.
103 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 125.
‘pecados’ que o crente tem de evitar pára gozar a salvação.”104 Uma pessoa se torna legalista quando enfatiza demais a lei em detrimento da graça, ou seja, ela segue uma lista de regras e mandamentos a fim de ser aceita por Deus.
Esse perigo estava rondando e ameaçandó “a verdade do evangelho” nas igrejas da Galácia. Podemos comprovar isso em Gálatas 2.14, quando o apóstolo escreve à igreja dizendo: “vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho...” O legalismo estava tomando conta das igrejas gálatas, e isto estava incomodando tanto o apóstolo Paúlo que ele chega a afirmar em Gálatas 2.21 que “se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” O problema não é o apenas guardar a lei, mas o guardar a lei como caminho pára a salvação.
O legalismo requer que o homem se esforce pára cumprir a lei, e portanto, tudo depende do esforço do homem na autodisciplina. Sendo assim, a prática legalista leva a um outro perigo, que é o orgulho. A partir do momento que o homem segue práticas legalistas e começa a achar que sua aceitação diante de Deus é resultado do seu esforço em seguir uma lista de regras, ele vai se tornando orgulhoso, arrogante e cai na ilusão de achar que tudo depende dele. “Quem é mais disciplinado, ou tem gostos mais
condizentes com as práticas das “leis” eclesiásticas, conclui que é mais santo.”105
Sendo assim, devemos tomar cuidado pára não cair no legalismo, pois ele não pode evitar os pecados íntimos que mais ofendem a Deus, que é o orgulho e a hipocrisia.106 Devemos portanto nos lembrar sempre que vivemos pára o Senhor e não pára nós mesmos, e sem sua graça, nós nunca seremos capazes de conquistar sua aceitação, mesmo que sejamos capazes de observar todas as leis.
A resposta ao legalismo não é a crença fácil, o evangelismo sem anecessidade de arrependimento, a busca de uma segunda bênção mística doEspírito, ou uma vida cristã destituída de instrução e orientação corretas. Olegalismo deve ser combatido com um entendimento bíblico da verdadeira‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o autor gracioso danova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria contra a lei
104 SHEDD, Russell. Lei, graça e santificação. São Paúlo: Vida Nova. 2008, p. 45.
105 SHEDD, 2008, p. 52.
violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação pára que possamosparticipar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação dadápela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus, tornando-nospessoas que obedecem aós mandamentos de Deus.107
- Antinomismo
Se devemos tomar cuidado com o legalismo, a fim de não excluir a graça de Deus, também existe um outro perigo que precisamos ter o mesmo cuidado. Esse perigo é chamado de antinomismo, que é a negação da lei em função da graça. O antinomismo, em oposição ao legalismo, afirma que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na vida do cristão. Enquanto o legalismo exalta de tal maneira a lei que chega a excluir a graça, o antinomismo exalta de tal maneira a graça ao ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida.108
O termo antinomismo vem do grego “anti” (contra) e “nomos” (lei), e é sinônimo do vocábulo “libertinagem”, portanto, trata-se daqueles que pensam que a graça é tão abrangente que todo esforço pára fazer o que Deus manda é desnecessário.
Paúlo sabiá sobre esse perigo quando escreve aós Romanos: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, pára que seja a graça mais abundante” (Romanos 6.1). Pára os antinomistas, quando a graça nos alcança, já não é mais necessário nenhum tipo de lei. “Mas crer que a recepção de tão estupendo presente, como é o perdão dos pecados, não cria qualquer obrigação, é esquecer que a aliança que Deus faz com suas
criaturas sempre traz consigo sua exigência.”109
Pára não cair nesse perigo, é preciso entender que juntamente com a graça de Deus, vem a exigência e a obrigação. O arrependimento é necessário, uma vida que obedece às vontades de Deus é necessária, pois uma teologia que nos oferece graça sem arrependimento é uma teologia falsa. Shedd afirma que
107 CLARK, Gordon. Legalism. In Baker’s Dictionary of Christian Ethics. Grand Rapids: Baker BookHouse. 1973, p. 385, tradução nossa.
108 Veja na pág.8, acima.
109 SHEDD, 2008, p. 29.
Não achamos que o cristianismo verdadeiro possa existir com base numagraça tão leviana que o cristão não a valorize. Quando a salvação não passade uma assinatura num cartão de decisão ou um braço levantado num reuniãode evangelização, torna-se inevitável o desprezo desse dom de infinito valor.[...] Acontece que, se os pecadores não têm nenhuma ideia da majestade esantidade de Deus, nem do inconcebível inferno pára o qual caminham, agraça perde sua força transformadora.110
A graça dos antinomistas é uma graça barata111, que não exige nada. Mas a graça de Deus é transformadora e motiva o cristão a buscar o reino de Deus e a desejar cumprir sua vontade prescrita na lei. Ciente destes dois perigos, não podemos nem abraçar a lei de tal modo a diminuir a graça de Deus, e nem abraçar a graça excluindo por completo a lei de Deus. É necessário encontrar o ponto de equilíbrio.
O ponto de equilíbrio
Diante destas verdades, podemos afirmar que todos aqueles que receberam o evangelho de Jesus Cristo não estão mais debaixo da lei como um pacto de vida, mas estão agora debaixo da graça. No entanto, isso não significa que a lei se tornou desprezível, mas ainda hoje, na era da graça, a lei tem utilidade pára nós.
O parágrafo VII, do capítulo XIX da CFW afirma: “os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condiz com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se fáça.”
O apóstolo Paúlo entendia isso quando escreveu: “É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente da lei.” (Gálatas 3.21)
Apesar de não sermos salvos pela observação da lei, uma vez que somos salvos pela graça de Deus, a lei continua sendo indispensável na obra de santificação. A lei
110 Ibid. P. 33.
111 D. Bonhoeffer tornou esta expressão famosa em seu livro “Discipulado” em meados de 1930.
continua sendo um padrão de justiça que serve pára regrar nossas vidas; ela nos mostra a extensão de nossas obrigações pára com Cristo e através da ação do Espírito Santo, nos tornamos convictos do pecado, do arrependimento e da fé.112
Pela graça de Deus somos capacitados a cumprir a vontade de Deus e então, “a lei de Deus soberanamente se torna a espontâNeá lei de nossos espíritos, e daí aquela real lei da liberdade” 113 da qual fala Tiago 1.25: “Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem aventurado no que realizar.”
O cristão, portanto, é livre da lei como um sistema de salvação pára conquistar a aceitação de Deus, mas está sob a lei de Cristo, como uma regra de vida. O problema é que, por si só, o homem nunca será capaz de cumpri-lá corretamente, é necessário algo mais: a graça. Como diz Packer, a ideia da graça é a chave que abre o Novo Testamento
e nós não poderemos penetrar em seu verdadeiro significado enquanto não conhecermos algo acerca do que é a graça.114
De acordo com Packer:
A palavra “graça” expressa a ideia de que Deus agé por bondade espontâneapara salvar os pecadores: Deus amando o não-amável, fazendo uma aliançacom eles, perdoando-lhes os pecados, aceitando-os, revelando-se a eles,comovendo-os a uma resposta, levando-os finalmente ao pleno conhecimentoe gozo de si mesmo e derrubando todos os obstáculos que surgem a cadaestágio ao cumprimento desse propósito. A graça é o amor eletivo mais oamor pactuante, uma escolha gratuita, resultando numa obra soberana. Agraça salva do pecado e de todo o mal; a graça traz homens ímpios à
verdadeira felicidade, que consiste em conhecer o Criador. Esse é o conceitode “graça”, com o qual escreveram os autores do Novo Testamento.115
Depois, então, de nos fazer lembrar de nossa fraqueza e impureza através da lei, Deus nos conforta através da sua graça e misericórdia. E é através de Cristo que ele faz isso. Segundo Calvino, em Cristo, a face de Deus brilha cheia de graça e bondade até mesmo pára os pecadores miseráveis e indignos. “Ele déu este admirável exemplo do
112 HODGE, A.A. Confissão de Fé de Westminster comentada. Trad. Valter Graciano Martins. SãoPaulo: Editora Os Puritanos, 1999, p. 348-349.
113 Ibid., p. 349.
114 PACKER, 1994, p. 86.
115 Ibid. P. 88.
seu infinito amor quando expôs seu próprio filhó por nós, e nele nos abriu todo o tesouro da sua clemência e bondade.”116
A graça nos capacita a cumprir a lei
A fé reformada tem, ao longo dos séculos, lutado por ensinar e viver averdade do evangelho e da lei mantendo o equilíbrio entre a lei e a liberdade,evitando a imoralidade gerada pelo antinomismo e a prisão do legalismo.Tanto um quanto o outro podem gerar resultados cáóticos pára a vida docristão e da sociedade. Ninguém melhor do que o Senhor da Igreja pára nosmostrar qual o mais excelente caminho pára interpretarmos a lei.117
A visão e o conceito que Paúlo tem da lei é determinado pela cruz de Jesus Cristo, ou seja, ele sempre interpreta a lei com os óculos da morte e ressurreição de Cristo. “Por esse motivo, nós vemos nos seus escritos que ele tanto nega como confirma a lei.”118 Mas por que isso? A negação da lei é afirmada em Gálatas 2.21: “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que Cristo morreu em vão.” Aqui nós vemos Paúlo negando a lei como base pára a justificação, ou seja, por causa da queda, a partir de Gênesis 3, o homem é incapaz de guardá-lá. O apóstolo nega a lei como meio de conseguir a aceitação de Deus.
Ao confirmar a lei, o apóstolo nos ensina que esta proíbe o pecado, ou seja, ele enfatiza o caráter negativo da lei, afirmando que ela é a Palavra de Deus dirigida contra o pecado, como podemos observar em Romanos 3.19: “Orá, sabemos que tudo o que a lei diz, aós que vivem na lei o diz pára que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus.” Através da lei, o poder do pecado é exposto, e ela conduz o homem cáído a Cristo, ainda que este seja incapaz de observá-lá por completo sem a ação do Espírito Santo.
116 CALVINO, Jóão. Instrução na Fé: princípios pára a vida cristã. Trad. Denise Meister. Góiânia:Editora Logos, 2003, p. 35.
117 MEISTER, 2003, p. 82.
118 TENNEY, Merrill [org]. Enciclopédia da Bíblia: Cultura Cristã. São Paúlo: Cultura Cristã, 2008, vol.3, p. 896.
No versículo 19 do capítulo 3 de Gálatas, quando Paúlo nos diz que a “lei nos serviu de aio pára nos conduzir a Cristo”, não significa que a lei, por causa de seus sacrifícios, sacerdotes e prescrições de purificação ofereceu um esboço de Cristo. A função da lei pretendida aqui não é de, num sentido positivo, conduzir gradualmente aqueles que estão debaixo dela a Cristo, mas sim de “prepará-los pára a redenção que
manifestou-se em Cristo como libertação desse cativeiro.”119
Segundo Gálatas 3.22: “Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, pára que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aós que creem”, ou seja, o homem é encerrado sob o pecado pela lei, e quando de fato entendemos a função da lei, a mesma lei previne o homem de tentar ser justo diante de Deus por qualquer outro modo que não a fé em Jesus Cristo e sua obra.
Embora o cristão não esteja sob a lei como um meio de aceitação por Deus, ele busca obedecer a vontade de Deus em conformidade com o padrão estabelecido na lei. O dom da justificação leva ao reconhecimento da tarefa da obediência.120 Primeiro, o cristão é justificado por Cristo, e então ele é habilitado pára cumprir a lei de Deus.
A lei de Moisés [...] foi introduzida, pára que a pecaminosidade latente no serhumano fosse trazida à tona, expressando-se visivelmente em transgressõesconcretas de mandamentos específicos. Foi, realmente, isso que aconteceu; alei causou um aumento do pecado; “mas onde abundou o pecado,superabundou a graça”121
Quando a graça de Deus nos alcança, entramos numa nova vida e o pecado não tem mais qualquer autoridade sobre nós, pois passamos a pertencer a Deus, que nos libertou da escravidão anterior. Deus concede ao seu povo o presente gratuito da vida eterna em Cristo, e então, unido a Cristo, o cristão que vive em pecado se torna uma contradição de termos.
119 RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paúlo: A obra definitiva sobre o pensamento doapóstolo aós gentios. Trad. Suzana Klassen. São Paúlo: Cultura Cristã. 2004, p. 159.
120 TENNEY, 2008, p. 896.
121 BRUCE, F.F. Paúlo: o apóstolo da graça, sua vida, cartas e teologia. Trad. Hans Udo Fuchs. SãoPaulo: Shedd Publicações, 2003, p. 321.
Essa mudança só a graça é capaz de fazer. A lei podia declarar a vontade de Deus, mas não podia conceder poder pára fazer essa vontade. A lei podia mostrar a pecaminosidade do ser humano, mas não podia libertar o homem da escravidão desse pecado. É por isso que a pessoa podia estar sob a lei, reconhecer sua autoridade, e mesmo assim estar sob o controle do pecado.
Como Bruce afirma, “a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, o que a lei jamais poderá fazer; paradoxalmente, a lei pode servir pára fechar com mais força as correntes do pecado em torno do pecador.”122 E quando a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, um novo poder interior é concedido a essas pessoas, capacitando-as a cumprir o que não podiam antes. Ou seja, sem a graça, é impossível se cumprir os mandamentos de Deus que existem na lei.
A diferença é que antes de recebermos a graça de Deus, a lei, ou seja, a vontade de Deus, estava registrada em tábuas de pedra, e a partir do momento em que recebemos a graça, o próprio Deus grava sua vontade em nossos corações.123 Um impulso interior
realiza o que a compulsão exterior não conseguia.124 Este impulso interior é realizado
pela graça de Deus que nos capacita a cumprir plenamente a vontade dele, ou seja, “a história da graça de Deus é centrada exatamente nisto, que essa obediência que o homem decaído é incapaz de prestar, outro prestou em seu lugar.”125 Paúlo tinha essa realidade em mente quando escreveu Romanos 5.19: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.”
A lei de Cristo
122 Ibid., p. 231.
123 Cf. Ezequiel 36.27 e Hebreus 8.10.
124 BRUCE, 2003, p. 193.
125 TENNEY, 2008, p. 896.
Embora não possamos ser aceitos por guardar a lei, depois que somos aceitoscontinuamos guardando a lei por causa do amor que temos a Deus, que nosaceitou e nos déu o seu Espírito pára nos capacitar a guarda-lá. Naterminologia do Novo Testamento, embora a nossa justificação não dependada lei mas de Cristo crucificado, a nossa santificação consiste nocumprimento da lei.126
Cristo foi aquele que viveu e cumpriu cabalmente todos os aspectos da lei de Deus. Ele nunca quebrou a lei civil e foi o cumprimento da lei cerimonial, viveu a lei moral perfeitamente, sem nunca ter cometido um pecado sequer.127 Assim, Cristo morreu sem merecer ser morto pára que seu povo pudesse ser salvo e pára que fosse imputada sua justiça sobre os eleitos.
Cristo nos libertou do jugo da lei, e quando Paúlo adverte alguns membros das igrejas gálatas a não usarem essa liberdade pára darem ocasião à carne, a corréção que ele aplica é: “Sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gálatas 5.13), fazendo uso da prescrição de Levítiço 19.18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Quando a lei é usada dessa maneira, ela não pode ser entendida legalmente.
A lei do amor é incapaz de ser imposta ou obrigada por autoridade externa.Antes, é o princípió espontâneo de pensamento e ação em uma vidacontrolada pelo Espírito de Cristo; é aceita e praticada por vontade própria.Paúlo estava convicto de que a liberdade do Espírito era um incentivo maisforte à boa vida do que todos os mandamentos ou decretos do mundo.128
Paúlo fazia parte do grupo religioso dos fariseus, um grupo legalista que conhecia a lei como ninguém. Ele relata em Filipenses 3.5-6: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quando ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.” No entanto, Jesus lhe apareceu no caminho pára Damasco (Atos 9) como o Messias, e passou a realizar em Paúlo e através dele algo que iá além do que a lei era capaz de fazer.
126 STOTT, 1989, p. 131.
127 Cf. Carta aós Hebreus que é um tratado bem detalhado de como Cristo cumpriu a lei cerimonial.
128 BRUCE, 2003, p. 181.
Enquanto a lei o estava levando pára longe de Deus, sua nova fé em Jesus o trouxe, consciente, pára uma condição de justiça perante Deus e de paz com ele.129 Seu zelo pela lei era cego, ele ignorava a justiça de Deus e tentava estabelecer sua própria justiça, mas a partir do momento em que ele recebe a graça de Deus, ele percebe que o “fim da lei é Cristo, pára justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10.2-4).
Agora, através de Jesus Cristo, somos capacitados a cumprir a lei, não pára conquistar a aceitação de Deus, mas como resultado dessa aceitação. Pára Paúlo, fazer a vontade de Deus “não é uma questão de conformidade a regras exteriores, mas de dar expressão ao amor interior, gerado pelo Espírito.”130
Portanto, a lei de Cristo é também chamada de lei do amor, pois quando Paúlo
escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”, ele está pensando na lei que Cristo exemplificou, ou seja, que o próprio Jesus disse que toda a lei e os profetas dependiam dos mandamentos gêmeos de amar a Deus e amar o próximo (Mateus 22.40). Paúlo havia entendido a mensagem de Jesus quando escreveu que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo com a ti mesmo.” (Gálatas 5.14).
A lei de Cristo, ou lei do amor é totalmente diferente da lei da escravidão. “O amor é gerado por uma espontaneidade interior e não pode ser forçado por sanções penais.”131 Portanto, a graça de Deus tem o poder de gerar em nós o desejo de cumprir a lei de Deus, não com o objetivo de conseguir a salvação, mas porque esta é a vontade de Deus e é isto que agrada a Deus. A lei do amor resume e engloba toda a lei de Moisés, e é por isso que Paúlo fala que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13.10).
Mas como a lei do amor resume e engloba os dez mandamentos dados à Moisés?
Ao olharmos pára os dez mandamentos, vemos que o primeiro grande mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas diz respeito aós quatro primeiros mandamentos
registrados em Êxodó 20.3-11: (1) “Não terás outros deuses diante de mim”, (2) “Não farás pára ti imagem de escultura”, (3) “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”, (4) “Lembra-te do dia de sábadó, pára o santificar”.
O segundo grande mandamento de amar o próximo com a ti mesmo diz respeito aós últimos seis mandamentos que se encontram em Êxodó 20.12-17: (5) “Honra teu pai e tua mãe...”, (6) “Não matarás”, (7) “Não adulterarás”, (8) “Não furtarás”, (9) “Não dirás falso testemunho contra teu próximo”, (10) “Não cobiçarás...”. É por isso que Cristo perfeitamente resume a lei com o amor, e fazendo isso, estaremos cumprindo perfeitamente a lei de Deus. “Essa, pára Paúlo, é a lei de Cristo, porque assim é que Cristo vivia. E dessa maneira, pára Paúlo, o propósito divino que subjaz à lei de Moisés,
é evidenciado e concretizado.”132
Sem a graça somos apenas escravos do pecado e inutilmente tentamos cumprir a lei por obrigação ou na tentativa de conquistar a Deus e fazer justiça com nossas próprias mãos, mas quando recebemos a graça de Deus, Cristo nos liberta do pecado e do peso da lei como meio de salvação. “Se somos cristãos, não é por nossos próprios méritos, mas pela vocação graciosa de Deus.”133
A liberdade que agora temos não é pára satisfazer a carne, nem explorar o
próximo e nem pára ignorar a lei. Todos os que foram libertados por Jesus Cristo e receberam a graça expressam sua liberdade de três maneiras134; Paúlo no-las ensina na sua carta aós Gálatas: (1) no domínio próprio, (2) no amor e no serviço ao próximo e (3) na obediência à lei de Deus. Paúlo nos encoraja a permanecermos firmes nessa liberdade com a qual “Cristo nos libertou” (Gálatas 5.1) e pára a qual fomos “chamados” (Gálatas 5.13), sem cair novamente na escravidão.
Assim, podemos perceber que a lei de Cristo que Paúlo nos fala diz respeito a amar aós outros como Cristo nos ama. “Amar ao próximo”, “levar os fardos uns dos
132 BRUCE, 2003, p. 195.
133 STOTT, 1989, p. 130.
134 Ibid., p. 131.
outros” e “cumprir a lei” pára Paúlo são expressões equivalentes que nos indicam que amar os outros como Cristo nos amou é a maneira de obedecermos a vontade de Deus. Segundo John Stott135, carregar os fardos uns dos outros é o grande ministério. É uma coisa que todo cristão deveria fazer. É uma consequência natural do andar no Espírito. É por isso que ele escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”.
Ao olhar pára esta afirmação de Paúlo em Gálatas 6.2 e pára a vida de Jesus Cristo nos evangelhos, perceberemos que foi exatamente através do amor que Cristo cumpriu toda a lei, foi exatamente assim que Cristo viveu neste mundo. Se pegarmos como exemplo o sermão do monte, veremos como Jesus interpretou corretamente a lei. Cristo reinterpreta a lei sobre o homicídio (Mateus 5.21-26), sobre o adultério (Mateus 5.27-32), sobre os juramentos (Mateus 5.33-37), sobre a vingança (Mateus 5.38-42) e sobre o amor ao próximo (Mateus 5.43-48), e todas as vezes que Jesus fala sobre alguma lei, ele usa a expressão: “Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo.”, trazendo uma interpretação verdadeira e fiel da lei de Deus. E ninguém melhor pára fazer isso do que o próprio filhó de Deus.
O teólogo John Frame em seu artigo chamado “Preaching Christ from the Decalogue”136 nos mostra como podemos enxergar Cristo ao observamos a lei moral dos dez mandamentos. Ele afirma que a lei nos mostra a justiça de Cristo, nossa necessidade de Cristo, a justiça de Cristo sendo imputada a nós e como Deus quer que demos graças pelo que Cristo fez em nosso favor. Frame sintetiza dessa maneira:
- O primeiro mandamento nos ensina a adorar a Jesus como úNicó Senhor, Salvador e mediador (At 4.12; 1 Tm 2.5).
135 Ibid., p. 145.
136 FRAME, John. Preaching Christ from the Decalogue. Disponível em:
http://www.Thirdmill.Org/files/english/html/ot/OT.H.Frame.X.Decalogue.Html> Acesso em 02 jun.2012.(Tradução nossa).
- No segundo mandamento, Jesus é a imagem perfeita de Deus (Cl 1.15; Hb 1.3). Nossa devoção a ele torna impossível a adoração de qualquer outra imagem.
- No terceiro mandamento, Jesus é o nome de Deus, o nome diante do qual todo joelho se dobrará (Fp 2.10,11; cf. Is 45.23)
- No quarto mandamento, Jesus é o nosso descanso sabátiço. Em sua presença nós cessamos os nossos afazeres diários e ouvimos sua voz (Lc 10.38-42)
- No quinto mandamento, nós honramos a Jesus que nos trouxe como seus filhos (Hb 2.10) à glória.
- No sexto mandamento nós o honramos como a vida (Jó 10.10; 14.6; Gl 2.20; Cl 3.4), Senhor da vida (At 3.14), como aquele que déu a sua vida pára que pudéssemos viver (Mc 10.45).
- No sétimo mandamento nós o honramos como o noivo que se déu pára nos lavar, pára nos fazer sua noiva pura e sem mancha (Ef 5.22,23). Nós o amamos como nenhum outro.
- No oitavo mandamento nós honramos Jesus como nossa herança (Ef 1.11) e como aquele que provê pára todas as necessidades do seu povo, nesse mundo e além.
- No nono mandamento nós o honramos como a verdade de Deus (Jó 1.17; 14.6), em quem todas as promessas de Deus são “sim” e “amém” (2Co 1.20).
- No décimo mandamento nós o honramos como nossa completa suficiência (2Co 3.5; 12.9) pára satisfazer tanto as nossas necessidades externas quanto os desejos renovados do nosso coração.
Podemos dizer então que a nossa obediência à lei não acontece e nunca poderá acontecer fora de Cristo. Tentar submeter-se à lei sem Cristo leva à escravidão, mas submeter-se à lei com Cristo, olhando pára Cristo e com o auxílio da graça de Deus é liberdade e vida. É nesse sentido que o apóstolo Paúlo pode afirmar em Romanos 10.4 que “o fim da lei é Cristo, pára justiça de todo aquele que crê.”
Considerações finais
Com o tema: “Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo”, propusemos buscar uma interpretação fiel de como Paúlo lidava com esta doutrina e mostrar que quando temos uma interpretação errada de lei e graça, isso pode nos levar a certos perigos que prejudicam nossa caminhada cristã. A pergunta que guiou todo o trabalho foi: Pára quê serve a lei, na era da graça? A maior fonte de pesquisa foi o apóstolo Paúlo, e principalmente sua carta aós Gálatas, na qual pudemos constatar que lei e graça era um tema que gerava muitas preocupações e alvo de constantes corréções por parte de Paúlo.
Pára o apóstolo Paúlo, se a igreja tinha uma intepretação equivocada sobre a graça de Deus e as obras da lei, ela corria sérios riscos de perverter o evangelho da verdade. Por esse motivo ele insistentemente corrigia, exortava e doutrinava os cristãos a não se desviarem do verdadeiro evangelho. Nosso objetivo ao estudar este tema é o mesmo do apóstolo Paúlo: procuramos entender a doutrina da lei e graça e interpretá-lá corretamente, a fim de conduzir a igreja de Jesus Cristo sob uma doutrina correta, pára que não venhamos a perverter o evangelho da verdade.
No primeiro capítulo, fizemos uma análise da carta de Paúlo aós Gálatas, e de acordo com a visão reformada de Lutero e Calvino, sustentamos que através de Cristo somos libertos da lei como meio de salvação, pois sendo o homem pecador e impuro, ele não consegue, por si só cumprir as exigências da lei. É preciso de um fator externo que o auxilie, e este fator externo é a graça de Deus que veio através do Filhó de Deus, Jesus Cristo.
Em Gálatas nós vemos Paúlo exortando os crentes, muitas vezes com uma certa irritação, pois estavam tornando o evangelho de Cristo um evangelho legalista, e o que ele nos ensina é que todo aquele que tentar buscar a justiça por esforço próprio fracassará. A justiça com que somos justificados é a justiça de Cristo somente. Recebemos o Espírito Santo de Deus pela fé no filhó de Deus, e isto é feito pela graça e não por cumprir a lei. Isto é o que Paúlo nos ensina em sua carta aós Gálatas. A lei nos serviu como um guia pára nos conduzir até Cristo, ou seja, ela nos mostra nosso pecado e fraqueza e nos constrange a buscar a Cristo a fim de sermos perdoados e justificados.
No segundo capítulo, estudamos sobre um movimento que tem surgido pára confrontar a teologia tradicional da lei e graça. Esse movimento tem sustentado o que eles chamam de “A Nova Perspectiva de Paúlo”. Sanders e Dunn trazem uma nova proposta de interpretação, e afirmam que o Judáísmo da época de Paúlo não era legalista, antes, observava a lei como meio do fiel se manter dentro da aliança. Eles afirmam que a observância da lei Sérvia pára identificar e distinguir os judeus de todos os outros povos da terra. Mas através de uma análise cuidadosa, percebemos falhas nesta “Nova Perspectiva”, e em Gálatas 3.1-5 vemos o próprio Paúlo rompendo com a lei como meio de alcançar aprovação de Deus e assim, rompendo com o Judáísmo de sua época:
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que ópera
milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (Gálatas 3.1-5)
Não podemos aceitar esta “nova perspectiva” pois ela não interpreta a lei e a graça de uma maneira bíblica de acordo com a teologia paulina. Se optarmos por seguir Sanders e Dunn, passaremos a enxergar a doutrina da justificação como algo secundário e não mais como o coração do evangelho, conforme nos ensina a teologia reformada. Afinal de contas, a lei é pára os judeus que já estão na aliança, eles que já estão em Cristo, e a justificação é somente pára declarar que tal pessoa está na família da aliança.137 É apenas um reconhecimento deste pertencimento.
Mas nós cremos que a justificação tem um peso muito maior do que os teólogos da Nova Perspectiva nos apresenta. Pára nós, a justificação não é simplesmente uma declaração de membresia de uma pessoa na aliança. Quando Paúlo nos fala de justificação, ele fala de uma ação de Deus definitiva que efetua algo novo. Entendemos justificação como um ato divino que se aproxima do ato da criação, onde Deus determina nossa nova identidade, em vez de apenas reconhecer esta identidade.138
No terceiro e último capítulo, depois de ver o que o apóstolo Paúlo realmente pensava sobre a doutrina da lei e graça e como podemos interpretar corretamente esta doutrina, de uma maneira prática, respondemos a questão feita no início do trabalho: “Pára quê serve a lei na era da graça?”
Compreendemos dois perigos nos quais podemos cair ao lidarmos com a lei: o perigo de enfatizar demais a lei em detrimento da graça e sermos chamados de legalistas, ou de exaltarmos demais a graça a ponto de excluir totalmente a lei como se ela não tivesse nenhuma validade pára nós hoje. A isso damos o nome de antinomismo.
137 Píper, John. O futuro da justificação: uma resposta à N. T. Wright. Trad. Jonas Braga. Niterói:Tempo de Colheita, 2010, p. 50.
138 Pára mais informações sobre a doutrina da justificação defendida por N.T.Wright, que é um dos
teólogos da Nova Perspectiva, e rebatida por John Píper, cf. O livro do John Píper: “O futuro dajustificação: uma resposta à N. T. Wright”, onde ele trata especificamente sobre justificação.
Pára o legalista, Paúlo deixa bem claro em Gálatas 2.21 que “se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” Por colocar a ênfase na autodisciplina do homem, o legalista corré o risco de cair em dois pecados graves: o orgulho e a hipocrisia. Pára o antinomista, Paúlo escreve em Romanos 6.1: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, pára que seja a graça mais abundante?”. Pára o antinomista existe o perigo de pregar uma graça que não traz nenhum exigência por parte do crente, e que não corresponde à graça verdadeira de Jesus Cristo. A graça de Deus exige sim, arrependimento e obediência à vontade de Deus.
A melhor maneira de lidarmos com a lei de Deus é entendendo que somos pecadores e, consequentemente, somos incapazes de cumprir perfeita e corretamente a vontade de Deus. Por esse motivo Deus enviou seu filhó Jesus Cristo e toda a lei foi perfeitamente cumprida por ele. Sendo a justiça de Deus imputada a nós, pecadores, agora somos capacitados a cumprir a lei moral de Deus, pela graça e como resposta ao que Cristo já fez por nós na cruz.
Por isso concordamos com o que a CFW afirma em seu capítulo XIX, parágrafo VII que os “usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condiz com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se fáça.”
Pensando na vida eclesiástica, é importante que os cristãos tenham em mente que a salvação é obra exclusiva de Deus, mas que a graça não nos isenta de observarmos a lei de Deus por amor e em resposta à essa graça que nos capacita pára tal tarefa. A graça de Deus deve levar a Igreja a se comprometer cada vez mais com a lei moral de Deus, a amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo e a carregar os fardos uns dos outros. Assim, de acordo com Paúlo, estaremos cumprindo a lei de Cristo.
Quando a famosa frase “A igreja é o úNicó exército que abandona seus feridos no campo de batalha”139 se torna uma realidade, é sinal que não estamos cumprindo a lei de Cristo de carregar os fardos uns dos outros (Gálatas 6.2), não estamos amando a Deus como deveríAmós e muito menos amando o nosso próximo. Quando deixamos de carregar o fardo uns dos outros, estamos desobedecendo o cerne da lei, o maior mandamento, juntamente com amar a Deus sobre todas as coisas, que é amar o próximo. Consequentemente, deixamos de cumprir a lei de Cristo e desagradamos a Deus.
Com este trabalho, buscamos entender melhor a relação entre lei e graça e trazer de volta a responsabilidade da igreja de observar a lei de Deus e sair da passividade à qual muitas vezes o mal entendimento da graça nos leva. Devemos nos preocupar mais com o próximo, demonstrar nosso amor por Deus amando aqueles que nos cercam, entender que a vida cristã não é apenas vertical, em direção a Deus, mas é também horizontal, em direção ao nosso próximo. O que Paúlo nos ensina em Gálatas 6.2 é que quando amamos o outro e carregamos os fardos uns dos outros, estamos cumprindo a lei de Cristo e agradando a Deus. Este era o papel da igreja de Gálatas e este é o papel da Igreja de hoje.
O campo de estudo é vasto e há vários desdobramentos dentro da teologia. Existem vários aspectos que poderíAmós trabalhar dentro mesmo da doutrina da soteriologia. O próximo passo pára uma pesquisa e trabalho posterior seria estabelecer a importância da doutrina da lei e graça no processo de santificação do cristão, afinal de contas, a obediência à lei é uma resposta pela salvação e justificação recebidas em Jesus Cristo, e então, uma vez salvo, o crente entra em um processo de santificação que vai durar por toda a sua vida.
Chegamos ao fim deste trabalho com um sentimento de alegria e muitá gratidão a Deus por ter nos dado um entendimento maior acerca da doutrina da lei e graça e suas
consequências na vida cristã. Compreendemos, agora, porque o apóstolo Paúlo ficava tão preocupado com a interpretação errada e pervertida desta doutrina pois, como vimos, a interpretação correta desta doutrina vai determinar a maneira como vivemos a vida cristã e que tipo de ética vamos assumir em nossa caminhada.
Durante todo o desenvolvimento do trabalho, Deus esteve no controle conduzindo cada linha e cada parágrafo. As leituras foram feitas com determinação, todo o trabalho foi feito debaixo de muitá oráção e durante todo o processo fomos muito enriquecidos no que diz respeito à doutrina da lei e graça. Agora, cientes da nossa responsabilidade de ensinar e pastorear os cristãos na doutrina correta, podemos afirmar assim como Calvino:
O cumprimento da lei, assim, não é uma obra que pode ser realizada pelonosso poder; antes, depende do poder do Espírito. Através deste poder doEspírito, nossos corações são purificados de sua corrupção e amolecidos paraobedecerem a sua justiça. Pára os cristãos, o uso da lei é completamenteimpossível sem a fé, uma vez que, quando e onde o Senhor gravou em nossoscorações o amor pela justiça, o ensino externo da lei (que antes apenas nosacusava em nossa fraqueza e transgressão) agora torna-se uma lâmpada aguiar nossos pés até o fim pára que não nos desviemos do caminho certo. Elaé, agora, nossa sabedoria pela qual somos formados, instruídos e encorajadosa toda integridade e a nossa disciplina que não nos permite sofrer por sermos
dissolutos através de uma licenciosidade má.140
140 CALVINO, 2003, p. 45,46.
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SEMINÁRIO PRESBITERIANO DO SUL
THIAGO MACHADO SILVA
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE Paúlo
Campinas 2012
THIAGO MACHADO SILVA
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE Paúlo
Monografia entregue ao Seminário Presbiteriano do Sul como parte do requisito pára a obtenção do grau de Bacharel em Teologia.
Campinas 2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmará Brasileira do Livro, SP, Brasil)
AGRADECIMENTOS
À Deus por ter escolhido desde o ventre de minha mãe pára ser um discípuló de Jesus Cristo, por ter me chamado pára o ministério da Palavra e me sustentado durante os quatro anos no seminário.
À minha esposa, Lídia, que é o meu braço direito e tem me dado toda a força no desempenho do ministério pára o qual fui chamado.
Aós meus pais, Alceu e Flávia, por terém me ensinado o caminho em que devo andar e me educado no evangelho de Jesus Cristo.
Ao meu tutor, Rev. Misael, com quem tenho aprendido muito sobre o ministério pastoral e a vida da igreja, e que muito me auxiliou e me encorajou no desenvolvimento deste trabalho.
Ao meu orientador, Rev. Carlos Henrique Machado, por ter me orientado com toda paciência durante este ano, tanto no desenvolvimento da monografia quanto nos meus planos e projetos de ministério.
Á Cláudia, que tem acompanhado todo o meu processo de formação e que foi a revisora deste trabalho.
Aós meus amigos de seminário: Ricardo, Will e Eun (koreano) que me proporcionaram, nestes quatro anos, momentos de aprendizagem, amizade, boas experiências e muitá alegria.
E por último, mas não menos importante, a todos os meus professores do Seminário Presbiteriano do Sul, que foram aqueles que contribuíram pára o meu preparo teológico e que me deram os recursos necessários pára o desenvolvimento do chamado que Deus colocou sobre a minha vida.
A todos vocês, o meu muito obrigado!
RESUMO
Com base no capítulo XIX da Confissão de Fé de Westminster, aborda o tema Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo. Faz uma análise da carta de Paúlo aós gálatas, baseado em Jóão Calvino e Martinho Lutero observando a teologia paulina sobre Lei e Graça e como nós, reformados, interpretamos esta doutrina. Aborda a “Nova Perspectiva de Paúlo” baseado em Dunn e Sanders, pára ver o que eles tem ensinado e quais são os pontos de divergência entre a perspectiva tradicional e esta nova perspectiva. Procura responder biblicamente aós pontos fracos desta Nova Perspectiva de Paúlo. Propõe-se a responder a pergunta: Pára quê serve a lei se vivemos na era da graça? De acordo com a teologia reformada e de uma maneira prática, mostra qual a maneira correta de lidarmos com a lei.
Palavras-chave: Lei. Graça. Gálatas. Paúlo. Nova Perspectiva de Paúlo
ABSTRACT
Based on chapter XIX of Westminster Confession of Faith, it approaches the theme: Law and Grace: The Perspective of Paúlo. Makes an analysis of Paul's letter to the Galatians, based on John Calvin and Martin Luther observing the Pauline theology on Law and Grace, and how the reformed people can interpret this doctrine. Discusses the "New Perspective of Paul" based on Dunn and Sanders to see what they have taught and what are the divergence points between the traditional perspective and this new perspective. It seeks to respond biblically to the weaknesses points of this New Perspective of Paul. It is proposed to answer the question: Is the law useful in an agé of grace? According to Reformed theology and In a practical way, it shows the proper way to deal with the law.
Keywords: Law. Grace. Galatians. Paul. The New Perspective on Paul.
SUMÁRIO
Introdução.................................................................................................. 09
Base Confessional....................................................................................................... 11
- Lei e Graça: uma abordagem baseada em Gálatas................................. 16
- O contexto............................................................................................................. 16
- Gálatas 1 e 2.......................................................................................................... 18
- Gálatas 3................................................................................................................ 22
- Gálatas 4................................................................................................................ 25
- Gálatas 5................................................................................................................ 26
- Gálatas 6................................................................................................................ 28
- Conclusões de Lutero e Calvino......................................................................... 30
- A Nova Perspectiva de Paúlo.................................................................. 34
- Os principais expoentes....................................................................................... 34
- E. P. Sanders................................................................................................ 35
- James Dunn.................................................................................................. 37
- Gálatas 2.16........................................................................................................... 38
- “Obras da lei”........................................................................................................ 40
- As fraquezas da Nova Perspectiva de Paúlo..................................................... 44
- Os principais expoentes....................................................................................... 34
- A importância da lei na era da graça...................................................... 48
- O tríplice uso da lei.............................................................................................. 48
- Dois perigos que devemos evitar........................................................................ 50
- Legalismo.................................................................................................... 50
- Antinomismo............................................................................................... 51
- O ponto de equilíbrio........................................................................................... 53
- A graça nos capacita a cumprir a lei.................................................................. 54
- A lei de Cristo....................................................................................................... 57
- Considerações finais................................................................................ 63
Referências................................................................................................. 69
PREFÁCIO
Escrevo este prefácio com alegria e profundo senso de privilégio.
O Thiago é um autêntico servo de Cristo, irmão e amigo cuja vida tem abençoado a Igreja Presbiteriana Central de São José do Rio Preto. Seu trabalho sobre a doutrina bíblica da Lei e da Graça é uma contribuição muito bem-vinda, especialmente por enquadrar, sob a verdadeira perspectiva do apóstolo Paúlo, a chamada "Nova Perspectiva". Thiago mostra que é falsa a pressuposição da Nova Perspectiva, de que os estudiosos, desde a Reforma, leem Gálatas (e Romanos) com as lentes de Calvino e Lutero. Sua monografia demonstra, com acuidade, que a teologia dos escritos paulinos acomoda a ênfase tradicional da justificação articulada pelos pais reformadores.
Minha oráção é que Deus continue usando o Thiago como ministro fiel do evangelho, que é o anúncio transformador de Deus alcançandó seus eleitos somente pela graça.
Rev. Misael Batista do Nascimento, D.Min.
Introdução
Escreveu o apóstolo Jóão: “Porque a lei foi dadá por intermédio de Moisés; agraça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jóão 1.17). Na economiade Deus, a lei foi exposta em primeiro lugar e a graça posteriormente. OAntigo Testamento é dominado pela grande realidade da lei de Deus, talcomo o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus. Porém, comorelacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da graça?16
Esta monografia tem como título “Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo”; ao enfatizar a natureza do trabalho, busca-se compreender a doutrina da lei e graça, tendo como fonte a Palavra de Deus, e mais especificamente o apóstolo Paúlo, que foi quem mais escreveu e teceu interpretações acerca desta doutrina.
A doutrina da lei e graça tem sido alvo de debates entre teólogos, e através dos anos têm surgido movimentos pára tentar explicar o assunto. Alguns afirmam a lei em detrimento da graça e tornam-se legalistas17, outros desprezam a lei em função da graça,
tornando-se antinomistas18. Nosso objetivo é dar uma interpretação bíblica acerca da lei
e graça.
O legalismo estava tomando conta da religião judaica na época de Paúlo, e por esta causa veio a advertência aós gálatas que começaram a pensar que precisavam acrescentar coisas à fé em Cristo, como a circuncisão: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes.” (Gálatas 5.4). O legalismo contradiz a graça de Deus, porque busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e as obras da lei.
16 PACKER, J. I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994, p. 93.
17 O principal grupo de legalistas é o dos fariseus, e podemos ver em Mateus 23.1-36 Jesus indo contra olegalismo deste grupo religioso. Hoje existem movimentos como a Igreja Adventista do Sétimo Dia quecáíram no perigo do legalismo.
18 “O antinomismo foi endossado por alguns gnósticos na Igreja Primitiva, por alguns sectários na IdadeMédia e na época da Reforma, pelos anabatistas [...] Apareceu posteriormente em algumas seitas na
Inglaterra e continua sendo advogada por alguns grupos sectários nos Estados Unidos.” TENNEY,Merrill [org].
- I. Packer afirma que confiar nas próprias obras, juntamente com a obra de Cristo pára a salvação, desonra-o, deturpa a graça e priva a pessoa da vida eterna.19 “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” (Gálatas 2.21).
Por outro lado, é necessário tomar cuidado pára não desprezar totalmente a lei em função da graça, privando-nos de uma leitura de oposição entre elas. Dizer que o cristão vive na era da graça e, por isso, não tem qualquer relação com a lei é uma falácia. Dessa maneira, podemos cair em uma heresia denominada antinomismo20, que é a negação da lei em função da graça. O antinomismo, em oposição ao legalismo, afirma que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na vida do cristão, e enquanto o legalismo exalta de tal maneira a lei, que chega a excluir a graça, o antinomismo exalta de tal maneira a graça a ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida.
No séc. XVI, os reformadores foram acusados pelos católicos de antinomistas, pois eram vistos como contrários à lei de Deus. Martinho Lutero, que déu uma ênfase muito grande à graça de Deus, foi contra as obras da lei praticadas pela Igreja Católica e com isso, foi mal interpretado.21 Desde a época da Reforma, têm surgido movimentos tentando explicar a questão da lei e graça, mas sempre enfatizando um ou outro, de forma excludente.
No séc. XIX, surgiu um movimento chamado dispensacionalismo, que caracterizava a lei como a forma de salvação no período de Moisés, no Antigo Testamento, e o evangelho (a graça), como forma de salvação na dispensação da igreja, no Novo Testamento. Este movimento continua a influenciar cristãos até os dias de hoje.22
19 PACKER, 1994, p. 93.
20 Ibid.
21 MEISTER, Mauro. Lei e Graça. São Paúlo: Cultura Cristã, 2003, p. 73.
22 Ibid., p. 74.
Recentemente, tem surgido um movimento denominado “Nova Perspectiva de Paúlo”, que faz uma crítica e discorda da visão reformada de como o apóstolo Paúlo interpretava essa doutrina pára o Judáísmo do séc. I. Qual será a validade da lei na época da graça?
Mauro Meister afirma que “as implicações da forma como entendemos a relação entre lei e graça vão muito além do aspecto puramente intelectual. Esse entendimento vai, na verdade, determinar toda a forma como alguém enxerga a vida cristã e que tipo de ética esse cristão irá assumir em sua caminhada.”23 Por isso, o objetivo geral do trabalho é trazer uma maior compreensão sobre a maneira como lidamos com a lei de Deus na era da graça, e como interpretamos o apóstolo Paúlo, principalmente quando lemos Gálatas, pára que possamos assumir uma postura correta em nossa caminhada como cristãos.
Base Confessional
O capítulo da Confissão de Fé de Westminster (CFW) que tomaremos como base é o XIX – Da Lei de Deus, uma vez que este traz um panorama geral dos usos e costumes da lei escrita dadá por Moisés: leis cerimonial, civil e moral. Encerraremos com o parágrafo VII que diz que os “usos da lei não são contrários à graça do Evangelho...”24
Antes de mais nada, é necessário compreender o que a CFW chama de pacto das
obras e pacto da graça. O pacto das obras foi o pacto que Deus fez com Adão, e nos termos da CFW, capítulo XIX, parágrafo I, “por este pacto, Deus o obrigou, bem como toda sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira, exata e perpétua; promete-lhe a vida sob a condição dele cumprir a lei e o ameaçou com a morte no caso dele violá-lá; e
23 MEISTER, 2003, p. 26.
24 Símbolos de fé: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve / Assembléiá de Westminster. São Paúlo:Cultura Cristã, 2005.
dotou-o com o poder e capacidade de guardá-lá.”. No entanto, esse é o pacto que operou antes da Queda de Adão e Eva, em Gênesis 3.
Berkhof25 aponta algumas diferenças entre o pacto das obras e o pacto da graça,
e dentre elas destacamos:
- O pacto das obras dependia da incerta obediência do ser humano, enquanto o pacto da graça repousa na obediência de Cristo como Mediador;
- No pacto das obras a guarda da lei é o caminho pára a vida, no pacto da graça o caminho pára a vida está na fé em Jesus Cristo;
- No pacto das obras, o homem comparece diante de Deus como criatura, e não há um mediador, ao passo que no pacto da graça, o homem comparece diante de Deus como um pecador, mas esse comparecimento se dá mediante um mediador, que é Cristo. Adão e Eva viveram originalmente sob o pacto das obras e dependiam da obediência à lei dadá por Deus em Gênesis 2.17 (“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”) Quando desobedeceram à lei, incorreram na maldição do pacto das obras, a morte. A partir disso, entra em ação o pacto da graça, que é a “manifestação graciosa e misericordiosa de Deus, aplicando a maldição do Pacto das obras à pessoa de seu Filhó, Jesus Cristo, fazendo com que parte da sua criação, primeiramente representada em
Adão, e agora representada por Cristo, pudesse ser redimida.”26
É interessante notar que a lei, antes da Queda, não se resumia apenas à ordem de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Existem outras leis, como a que lemos em Gênesis 1.28 (“E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeita-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”).
25 BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Trad. Odayr Olivetti. 3 Ed. São Paúlo: Cultura Cristã, 2009,p. 253.
26 MEISTER, 2003, p. 31.
A revelação da lei de Deus expressa de forma objetiva foi dadá nos tempos de Moisés, e a CFW divide os muitos aspectos da lei de Deus em três tipos de leis: lei moral, civil e cerimonial. É importante entendermos essas divisões pára sabermos o contexto em que cada lei é dadá e em que tipo de lei estamos pensando, quando falamos em Lei.
- A lei moral representa a vontade de Deus pára a humanidade, no que diz respeito ao comportamento e aós seus principais deveres. Tem a finalidade de deixar claro ao ser humano quais são seus deveres, auxiliando-o a discernir entre o que é bom e o que é mau.27 Nos parágrafos II e III do capítulo XIX da CFW, afirma-se que a lei moral aponta pára os dez mandamentos dados a Moisés. Ao contrário do que os antinomistas afirmam, negando qualquer tipo de obediência à lei moral, a CFW nos ensina que a lei moral, ao contrário da civil e cerimonial, não tem tempo e nem lugar e ainda é válida como um orientador pára a vida.
Observe o que o Catecismo Maior de Westminster entende por lei moral (pergunta 95):
“Qual é o uso da lei moral pára todos os homens?”
Resposta: A lei moral é de uso pára todos os homens, pára informá-los sobrea natureza santa de Deus e sua vontade, e de sua tarefa, constrangendo-os aandarem conformemente; pára convencê-los da sua incapacidade em guardá-lá e da poluição pecaminosa de sua natureza, de seus corações e vidas; párahumilhá-los no sentido de seu pecado e miséria e, desse modo, guiá-los parauma visão mais clara da necessidade de Cristo e da perfeição de suaobediência.”
- A lei civil representa a legislação dadá à nação de Israel, definindo, por exemplo, o que é crime e o que não é. Seu objetivo é regular a sociedade civil do estado teocrátiço de Israel, apresentando os direitos e deveres de cada cidadão. Como a própria CFW afirma no parágrafo IV do capítulo XIX, a Lei Civil terminou com aquela nacionalidade. Como exemplo da lei civil temos o relato de Números 35.6-12:
27 MEISTER, 2003, p. 54.
Das cidades, pois, que dareis aós levitas, seis haverá de refúgio, as quaisdareis pára que, nelas, se acolha o homicida; além destas, lhes darei quarentae duas cidades [...] Fala aós filhos de Israel e dize-lhes: Quando passardes oJordão pára a terra de Canáã, escolhei pára vós outros cidades que vos sirvamde refúgio, pára que, nelas, se acolha o homicida que matar alguéminvoluntariamente. Estas cidades vos serão pára refúgio do vingador dosangue, pára que o homicida não morra antes de ser apresentado perante acongregação pára julgamento.
- E lei cerimonial ou religiosa28, representa a legislação levítica do Antigo Testamento, como os sacrifícios e os simbolismos religiosos. Ela é cercada de símbolos, sinais e rituais que distinguiam o povo escolhido de Deus dos outros povos. Sua finalidade era imprimir no homem a santidade de Deus e apontar pára Cristo.29 Sendo assim, a lei cerimonial foi cumprida com a vinda de Jesus Cristo no Novo Testamento. O parágrafo III do capítulo XIX da CFW, afirma que as leis cerimoniais “estão todas abrogadas sob o Novo Testamento.”
Podemos dizer, portanto, que quando Paúlo critica os que estão vivendo sob a lei no Novo Testamento, ele está lutando, na verdade, contra aqueles que ainda praticavam principalmente as leis cerimoniais como a circuncisão, sacrifícios, ritos religiosos, que foram encerradas com a vinda de Cristo. Também contra aqueles que se submetiam à lei moral dos dez mandamentos como forma de obter salvação, negando assim a suficiência da morte substitutiva de Jesus Cristo.
Pára quê serve, pois, a lei, se vivemos na era da graça? É o que vamos buscar entender e responder no decorrer deste trabalho. No capítulo 1, faremos uma análise da carta de Paúlo aós Gálatas e procuraremos compreender como Jóão Calvino e Martinho Lutero interpretaram essa carta no que diz respeito ao legalismo presente no Judáísmo do séc. I. Também procuraremos entender como Paúlo enxergava as obras da lei e o evangelho da graça de Jesus Cristo.
28 Toda a lei cerimonial pode ser encontrada nos livros de Êxodó, Levítiço e Deuteronômio, sendoLevítiço o principal manual pára os israelitas.
29 MEISTER, 2003, p. 46.
No capítulo 2, voltaremos nossos olhos pára a “Nova Perspectiva de Paúlo”, baseada em Sanders e Dunn. Procuraremos entender o que é, o que tem ensinado e quais os pontos de divergência entre a mesma e a perspectiva tradicional, no que diz respeito ao tema “Lei e Graça”. Procuraremos, então, responder biblicamente aós pontos fracos desta nova perspectiva.
Finalmente, no terceiro e último capítulo, nossa proposta é buscar responder à pergunta: “Pára quê serve então a lei, se vivemos na era da graça?”, de acordo com a teologia reformada, enfatizando o último parágrafo (VII), do capítulo XIX da CFW que diz: “os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condizem com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer se fáça.”
Como conclusão do trabalho, procuramos resumir o que foi tratado ao longo dos três capítulos, e de um modo prátiço, aplicar a doutrina da Lei e Graça na vida eclesiástica, sempre tendo o cuidado de não cair no legalismo ou no antinomismo, mas atraídos pela graça, nos comprometendo com a lei de Deus, com seus mandamentos prescritos nas Sagradas Escrituras, e que nos levam a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
De acordo com Packer, “a doutrina paulina da graça gratuita e soberana tanto humilha a soberba dos legalistas, que são justos aós seus próprios olhos, como condena a lassidão preguiçosa e irresponsável dos antinomianos. Entendido corretamente, esse ensino gera uma jubilosa segurança e uma incansável energia no serviço de nosso Salvador.”30 É esta “doutrina paulina” que passaremos a analisar daqui em diante.
30 PACKER, 1994, p. 95.
Lei e Graça: Uma abordagem baseada em Gálatas
Neste capítulo, faremos um estudo da carta de Paúlo aós Gálatas, na qual ele trata da lei31 e do evangelho da graça de Jesus Cristo. Ao usar a palavra νοµος 32 vezes
em Gálatas, podemos dizer que esta é a carta magna da liberdade cristã - a liberdade que nos toma pela mão e nos conduz à prática do amor.
A todos aqueles que desejam levar Deus a sério e entender um pouco sobre lei e graça, Gálatas mostra o caminho em direção à verdadeira liberdade: a liberdade de ser escravo de Cristo, e não do legalismo. “Se Paúlo tivesse se rendido ao legalismo, o Cristianismo teria sido conhecido como nada mais do que um Judáísmo modificado, que de forma alguma teria conquistado o mundo. Os gentios o teriam rejeitado.”32
O contexto
Nos dias de Paúlo, os gálatas encontravam-se sob o domínio do Império Romano. Eles haviam sido fielmente instruídos pelo Apóstolo no verdadeiro evangelho, mas, em sua ausência, falsos apóstolos insidiosamente se infiltraram entre os gálatas e corromperam o genuíno evangelho por meio de dogmas e doutrinas falsas. As igrejas da Galácia haviam sido invadidas por falsos mestres judaizantes logo após a primeira viagem missionária de Paúlo e um ensino legalista estava pervertendo o evangelho
31 Paúlo usa a palavra “lei” (νόµος) pára referir-se ao “corpo de regulamentos dados por Deus a Israelmediante Moisés no Sinai, e como tal ela é abordada pelo apóstolo nessa carta, não em sua função social
e nacional como emblema do Judáísmo, mas como o conjunto de requisitos legais de Deus em relação aosjudeus, os quais os oponentes de Paúlo queriam impor aós gentios.” LOPES, Augustus Nicodemus. Nova Perspectiva sobre Paúlo: um estudo sobre as “obras da lei” em Gálatas. In: Fides Reformata XI,nº1, 2006, p. 89.
32 HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Gálatas. Trad. Valter Graciano Martins.
São Paúlo: Cultura Cristã, 1999, p. 11.
pregado e ensinado por este anteriormente. Esses novos ensinamentos pregavam que os gentios deveriam ser circuncidados bem como deveriam observar a lei de Moisés a fim de alcançarem a salvação. Afirmavam que a lei de Moisés precisava complementar a obra de Cristo, negando assim a suficiência da graça de Deus pára a salvação. Na visão daqueles homens, as obras eram condição, juntamente com a fé, pára que alguém fosse aceito por Deus. Era imperativo guardar também a lei, pois a fé em Cristo não era
suficiente pára a salvação.33 Estavam interpretando erroneamente tanto a lei quanto a
graça de Deus.
Quando Paúlo quando fica sabendo de tudo isso, escreve a carta aós Gálatas, a fim de levá-los de volta ao verdadeiro evangelho, bem como esclarecer o entendimento dos crentes da Galácia sobre lei e graça. Pára o apóstolo, “a função da lei não é salvar, mas revelar o pecado. A função da lei não é levar o homem pára o céu, mas conduzi-lo ao Salvador.”34 A carta aós Gálatas é, na verdade, um grito de alerta a todos os cristãos que se deixam seduzir por uma falsa doutrina semelhante a essa. É o estandarte de liberdade pára uma igreja que está caminhando mais uma vez pára a escravidão da qual um dia foram libertos pelo sangue de Cristo.
Paúlo luta por essa tese como por um artigo fundamental da fé cristã. E naverdade o é, pois nem o mal mais aparentemente inofensivo não haverá deextinguir o resplendor do evangelho, armar cilada às consciências e removera distinção entre a antiga e a nova aliança. Ele percebeu que Taís errosestavam também relacionados com uma opinião ímpia e destrutiva sobre omerecimento de justiça. E essa é a razão por que ele batalha com tamanhovigor e veemência. Quando tivermos compreendido quão significativa e séria
é a natureza desta controvérsia, então haveremos de estuda-lá com umaatenção muito mais aguçada.35
O propósito de Paúlo ao escrever esta carta era o de convencer os gálatas de que nenhum gentio precisava aceitar a circuncisão a fim de pertencer ao povo da aliança divina. A salvação e a verdade do evangelho vêm através da fé em Cristo, portanto,
33 LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A carta da liberdade cristã. São Paúlo: Hagnos, 2011, p. 07
34 Ibid., p. 08.
35 CALVINO, Jóão. Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses: Série Comentários Bíblicos. Trad.Valter Graciano Martins. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010, p. 22-23.
qualquer que busque violar a esfera sagrada da fé, adicionando leis, regras e novas exigências, estará adulterando o evangelho e deve ser confrontado.
Gálatas 1 e 2
Paúlo escreve às igrejas da Galácia (Gl 1.1-2) 36, que antes haviam recebido o verdadeiro evangelho da graça de Cristo, mas o haviam abandonado pára viver um outro evangelho baseado em ritos e leis: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, pára seguirem outro evangelho.” (1.6)
Nesta carta nós encontramos Paúlo muito preocupado com aqueles crentes, e o desejo dele é que as igrejas da Galácia voltem pára o verdadeiro evangelho, baseado na graça de Cristo. Talvez seja por essa preocupação que encontramos a palavra "graça" (χάρις) sete vezes, e "evangelho" (ευαγγέλιον) onze vezes por toda a carta, segundo o GNT37. Paúlo então, já no começo da carta, reapresenta bem rapidamente o verdadeiro evangelho que os gálatas estavam se esquecendo: “A vocês, graça e paz da parte de
Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nossos pecados a fim de nos resgatar desta presente era perversa, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pára todo o sempre. Amém.” (1.3-5)
“Segundo a vontade de Deus e Pai” (1.4) e não de acordo com os méritos humanos e os nossos esforços em cumprir leis e rituais. Paúlo quer que os gálatas entendam exatamente isso. Algumas pessoas tinham pervertido o evangelho da graça, inserindo elementos judaicos, certos rituais, tradições e leis, como se a graça de Cristo não fosse suficiente. Esse evangelho que eles estão ensinando, na realidade, não é o
36 De agora em diante, quando as referencias não vierem acompanhadas das iniciais, significa que elas sãoreferencias tiradas da carta aós Gálatas.
37 NESTLE-ALAND. O Novo Testamento Grego. 4.Ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” (1.7-8)
Paúlo agora luta pára manter a pureza do evangelho e a suficiência de Cristo pára nossa salvação. Nesse intuito, ele ilustra com sua própria história, como Cristo havia revelado sua graça a ele, e como ele passou do Judáísmo pára o cristianismo, do outro evangelho pervertido pára o verdadeiro evangelho da graça de Deus (1.11-2.21), da escravidão da lei pára a liberdade em Cristo.
Os elementos dessa história são comuns e podem muito bem parecer com nossa própria história também: Paúlo primeiramente apresenta sua vida sem Cristo, quando perseguia implacavelmente a igreja de Deus, procurando destruí-lá. No Judáísmo, Paúlo superava a maioria dos judeus, e era extremamente zeloso das tradições dos seus antepassados (1.13-14).
Em segundo lugar, Paúlo mostra o seu encontro com Cristo. Ele diz que Deus o havia separado desde o ventre materno e o havia chamado pela Graça (1.15-16). Depois disso, ele foi levado pára a Arábia, e passou um tempo de solidão, sendo formado pelo próprio Deus (1.17).
Após esse tempo, Paúlo começa a compartilhar sua história e a sua fé em Cristo (Gl. 1.18-20). Relata, então, sua missão no mundo, indo pelas muitas regiões da Síria e Cilícia, pelas igrejas da Judéiá, pregando e anunciando a graça de Cristo (1.21-24). A partir do capítulo 2, o apóstolo relata a transformação que ocorreu em seus relacionamentos com amigos e inimigos (2.1-10).
Finalmente, após contar toda sua história, Paúlo chega à grande conclusão que vai desmoronar toda a crença que os gálatas estavam abraçandó: “Ninguém é justificado pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo” (2.16).
De acordo com o RIENECKER e ROGERS, o verbo “justificar” (δικαιόω)
aparece três vezes em Gálatas 2.16, e todas elas se encontram na voz passiva, que “aponta ao fato que ninguém se justifica, mas é declarado justo por outra pessoa.” 38 Portanto, “ser justificado” deve ser definido como aquele ato gracioso de Deus pelo qual, tão-somente com base na obra mediadora que Cristo consumou, ele declara o pecador como justo, e este aceita tal benefício com um coração crente.39 Paúlo desvenda a doutrina da justificação pela fé, que é a doutrina central do cristianismo, e que foi restabelecida pela Reforma. O meio necessário pára a justificação é a fé em Jesus como Salvador crucificado e como Senhor ressurreto. A fé é necessária porque o mérito de nossa justificação não está em nós, mas em Cristo.
Segundo John Stott, esses capítulos nos apresentam quatro verdades cristãs: (1) “a maior necessidade do homem é a justificação, ou a aceitação de Deus”. (2) “A justificação não é pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo. O trabalho da lei é me dizer o que eu devo fazer, mas eu preciso dar ouvidos ao evangelho, que me ensina o que Cristo já fez por mim”. (3) “Não confiar em Jesus Cristo por causa da confiança em si mesmo é um insulto à graça de Deus e à cruz de Cristo, pois é dizer que são desnecessárias”. (4) “Confiar em Jesus Cristo, sendo assim unido a ele, é começar uma
nova vida”.40
Quando Paúlo nos diz que somos justificados por meio da fé, visto não podermos ser justificados por meio das obras, ele tem certeza daquilo que é verdadeiro, ou seja, “não podemos ser justificados pela justiça de Cristo, a menos que sejamos pobres e destituídos de nossa própria justiça”41. Sendo assim, temos que atribuir tudo ou nada à fé ou às obras.
38 RIENECKER, Fritz, ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Trad.:Gordon Chown e Júlio Zabatiero. São Paúlo: Vida Nova, 1995, p. 374.
39 HENDRIKSEN, 1999, p. 143.
40 STOTT, John. A mensagem de Gálatas. Trad. Yolanda Mirdsa Krievin. São Paúlo: ABU Editora,1989, p. 64.
41 CALVINO, 2010, p. 79.
Paúlo tentou ser justo e obedecer a um grande número de leis e regras pára agradar a Deus, mas não funcionou. E assim como Paúlo, nós precisamos desistir de ser "homens da lei" pára sermos "homens de Deus", que creem na graça de Deus e não em nossas próprias forças. Nosso ego precisa morrer, pára que a vida de Cristo possa ser viva em nós. Pára viver a vida de Cristo não é preciso obedecer e seguir a leis e rituais, pois tudo o que precisava ser feito, Cristo já fez na cruz do calvário, quando ele se entregou por nossos pecados. Deus se agrada de nós, quando nós confiamos e vivemos a vida de Cristo. Deus nos ama através de Cristo e este amor não é baseado pelo número de leis que seguimos.
Martinho Lutero, no Debate de Heidelberg, diz que “o ser humano que crê querer chegar à graça fazendo o que está em si acrescenta pecado sobre pecado, de sorte que se torna duplamente réu”42, ou seja, o ser humano precisa se ajoelhar e pedir graça, colocando toda a esperança em Cristo, no qual está nossa salvação, vida e ressurreição.
Quando Paúlo declara em Gálatas 2.19: “morri pára a lei...”, podemos afirmar, baseado em Calvino que, morrer pára a lei é renunciá-lá e libertar-se de seu domínio, de modo que não mais confiamos nela e ela não mais nos mantém cativos sob o jugo da escravidão. E então Paúlo contrasta a morte pára a lei com a morte vivificante da cruz de Cristo. Estar crucificado juntamente com Cristo é sinal de vida, “porque eu, mediante a própria lei, morri pára a lei, a fim de viver pára Deus” (2.19). Em suma, Paúlo nos diz que essa morte (pára a lei) não é o fim, e sim o início de uma vida melhor, porque Deus nos resgata do naufrágio da lei e, mediante sua graça, nos restaura pára uma nova vida. “Nada direi a respeito das outras interpretações. Este me parece ser o verdadeiro
significado do apóstolo.” afirma Calvino43.
42 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Os primórdios escritos de 1517 a 1519. São Leopoldo:Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.1, 1987, p. 48.
43 CALVINO, 2010, p. 83.
A observância da lei não desempenha qualquer papel na justificação, esta se realiza exclusivamente pela fé, pois acha-se somente em Cristo e através dele, e somente pela graça.
A justiça de Deus não é adquirida através de atos frequentemente repetidos, mas é infundida pela fé. A graça e a fé são infundidas, e as obras são uma consequência dessa realidade. São obras de Deus, operadas através de Cristo. Assim, pela fé Cristo está em nós e é ele quem cumpre toda a lei de Deus, “razão pela qual também nós cumprimos toda ela, através de Cristo, uma vez que (Cristo) se tornou nosso pela fé.”44 A lei é diferente da fé porque exige as obras pára justificar o homem, enquanto a fé não as exige. Aquele que é justificado pela fé é justificado sem nenhum mérito, pois a fé recebe a justiça que a graça oferece, que se encontra unicamente em Cristo.
Gálatas 3
Depois de mostrar aós gálatas com sua própria história que ninguém é justificado pela prática da lei, mas somente mediante a fé em Jesus Cristo, no capítulo 3, Paúlo passa a questioná-los, sendo que nos cinco primeiros versículos, faz cinco perguntas muito pessoais e incisivas:
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que óperamilagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (3.1-5)
Paúlo começa a confrontar os gálatas quanto aós novos ensinamentos do "outro evangelho" que estava sendo ensinado: Como começou a nova vida de vocês? Será que
44 LUTERO, 1987, v.1, p. 52-53.
foi resultado de esforço pára agradar a Deus? Pára Paúlo, é preciso perder o juízo pára pensar que é possível completar o que foi iniciado por Deus por esforço próprio.
E então, o apóstolo começa a citar o Antigo Testamento, mais especificamente, a experiência de Abraão em Gênesis 15, a fim de mostrar que Abraão foi considerado justo não por ter cumprido regras e leis, mas porque creu em Deus. Pela fé em Deus, Abraão foi feito justo, e agora, pela fé, nós também fazemos parte da bênção de Abraão: "Em ti, serão abençoados todos os povos" (3.8). Isso nos mostra que todo o que tentar viver a justiça por esforço próprio, independentemente de Deus, está destinado ao fracasso. O apóstolo, então, continua citando Deuteronômio 27.26; 21.23, e Gênesis 12.7, a fim de mostrar que o Espírito de Deus que habita em nós vem pela pregação da fé e não pela prática da lei. É graça e não mérito nosso, e isso já vem sendo ensinado desde os tempos antigos. Era verdade pára Abraão, era verdade pára os gálatas, e continua sendo verdade pára nós hoje! O argumento de Paúlo é que ninguém é capaz de guardar a lei na sua totalidade. Calvino afirma que nunca houve tal pessoa que
cumprisse plenamente a lei, e jamais haverá. Sendo assim, todo homem está condenado.45
Mas então, se ninguém é capaz de cumprir plenamente a lei, qual é o objetivo dela? Paúlo vai explicar isso a partir do versículo 19. O propósito da lei era preservar um povo pecador na história da salvação até que "o descendente" viesse, herdando as promessas e concedendo-as também pára nós. Paúlo afirma que a lei era como os tutores gregos, que conduziam as crianças à escola e as protegiam de perigos ou distrações, certificando-se de que chegariam onde deveriam. Lutero diz que:
a lei dá a conhecer o pecado, pára que, sendo conhecido o pecado, se procuree se obtenha a graça. [...]. A lei humilha, a graça exalta. A lei ópera o temor ea ira; a graça ópera a esperança e a misericórdia. Pois pela lei é adquirido oconhecimento do pecado; pelo conhecimento do pecado, porém, a humildade;e pela humildade, a graça. Desta forma, a obra estranha de Deus realiza, porfim, a sua obra própria, fazendo um pecador pára torná-lo justo.46
A lei nos serve de "aio" pára nos conduzir até Cristo, pára que sejamos justificados pela fé nele. Segundo Calvino, um aio não era designado pára toda a vida de uma pessoa, somente pára a infância. O objetivo era preparar a criança, por meio de instruções, pára as coisas mais excelentes. Assim, a autoridade da lei se limitava a determinada época, e seu propósito era preparar seus alunos de tal modo que, ao findarem as instruções elementares, eles fariam progressos dignos da maturidade. A lei, ao revelar a justiça de Deus, convenceu os homens de sua própria injustiça, e ela não lhes dava descanso, enquanto não fossem constrangidos a buscar a graça de Cristo.
Paúlo, em se tratando do objetivo da lei, afirma que ela foi promulgada pára tornar conhecidas as transgressões e compelir o homem a reconhecer sua culpa,47 “até que viesse o descendente” (3.19) – O descendente mencionado é aquele sobre qual a bênção foi pronunciada, e então Calvino conclui que a lei tinha que ocupar não a posição mais elevada, mas sim uma posição subordinada. “Ela foi promulgada pára estimular os homens a esperarem por Cristo.”48
Com a vinda de Cristo, temos livre acesso a Deus Pai, bem como um relacionamento direto com Deus, não havendo necessidade da lei pára nos conduzir até ele, mesmo porque nós nunca conseguiríAmós obedecer toda a lei pára nos justificarmos diante do Pai e agradá-lo. Apenas Cristo é capaz de cumprir toda a lei, e ele fez isso por nós, pára que a justiça de Cristo fosse imputada a nós, e então pudéssemos ser aceitos por Deus, e justificados unicamente pela fé nele.
Não é a nossa performance que nos faz aceitáveis diante de Deus, mas é a fé naquele que já fez tudo o que tinha que ser feito pára que pudéssemos ser aceitos: Jesus Cristo. É isso que agrada a Deus!
Quando, pois, [a pessoa] aprendeu sua impotência por meio dos preceitos e jáficou ansiosa quanto a como satisfazer a lei [...] então, realmente humilhada ereduzida a nada a seus olhos, não encontra em si mesma áquilo pelo qual
47 CALVINO, 2010, p. 110.
48 Ibid. P. 111.
possa ser justificada e salva. Neste ponto se faz presente a outra parte daEscritura – as promissões de Deus, que anunciam a glória de Deus e dizem:“Se queres cumprir a lei, não cobiçar, como exige a lei, crê em Cristo no qualte são prometidas a graça, justiça, paz, liberdade, e tudo; se creres, terás; senão creres, ficarás sem.” Pois o que te é impossível em todas as obras da lei,que são muitas, e, assim mesmo, inúteis, isso cumprirás de modo fácil eresumido pela fé. [...] Só ele (Deus) dá preceitos, só ele os cumpre.49
Gálatas 4
“Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filhó, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, pára que recebêssemos a adoção de filhos.” (Gl 4:4-5)
Após Paúlo questionar os gálatas quanto às obras da lei e a fé em Cristo, e chegar à conclusão de que absolutamente ninguém é justificado pela prática da lei, no capítulo 4, o apóstolo nos relata as implicações de tudo o que ele disse anteriormente sobre as obras da lei e a fé em Cristo. Ele começa fazendo uma comparação entre escravos e livres. Como escravos, dependíAmós dos dominadores deste mundo, sem autoridade sobre a própria vida, pois ainda não havíAmós sido emancipados; os escravos vivem sob a lei. Porém, quando chegou o tempo estabelecido por Deus, o próprio Deus enviou seu Filhó, Jesus Cristo, nascido de mulher, sob as condições da lei, pára redimir os que estavam escravizados, sob o domínio da lei. “Ainda que sem pecado, Cristo nasceu sob a lei, não somente com a obrigação de cumprir toda a lei, mas identificando-
se com os pecadores, os quais estão debaixo da maldição da lei”.50
A morte de Cristo nos libertou dessa maldição. Quando o apóstolo Paúlo diz em Gálatas 4.4 que Deus enviou seu Filhó, nascido sob a lei, significa que o Filhó de Deus, que por direito era isento de toda sujeição à lei, tornou-se sujeito a ela. Ele fez isso em nosso lugar, com o objetivo de obter a liberdade pára nós. Cristo decidiu tornar-se
49 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: O Programa da Reforma Escritos de 1520. São Leopoldo:Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.2, 1989, p. 440.
50 BÍBLIA de Estudo de Genebra. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paúlo: Cultura Cristã,
1999, p. 1394.
obrigado a cumprir a lei, a fim de obter isenção pára nós. Do contrário, ele teria se submetido ao jugo da lei inutilmente. Mas temos que observar que a isenção da lei que Cristo conquistou pára nós, não significa que não devamos mais obediência ao ensino da lei, pois, segundo Calvino, a lei é a norma eterna de uma vida agradável e santa. Paúlo está se referindo à lei com todos os seus apêndices.51
Assim, ele nos libertou da escravidão da lei pára sermos não mais escravos, mas
filhos que têm direito à herança. Uma vez libertos, fomos adotados como filhos. O filhó não é escravo, mas livre do domínio da lei. A lei de Cristo e a justiça de Cristo é que têm domínio sob aqueles que são filhos. A intimidade com Deus é pára aqueles que são filhos, não pára os escravos.
E Paúlo, mais uma vez preocupado com a situação dos gálatas, questiona: agora que vocês conhecem o Deus verdadeiro, como podem se sujeitar novamente às tradições e superstições? (4.9). A preocupação do apóstolo é tão grande, que ele afirma que está sofrendo como uma mãe em dores de parto, e o maior desejo dele é que Jesus Cristo seja formado nos gálatas, ou seja, que Cristo seja uma realidade na vida deles. Pára ilustrar tudo isso, novamente Paúlo se volta pára Gênesis, e cita Abraão (Gênesis 16, 21). O Patriarca teve dois filhos: um da escrava e outra da livre. O filhó da escrava nasceu por iniciativa humana, mas o filhó da livre nasceu pela promessa de Deus. Dois modos de relacionamento com Deus. O primeiro filhó da escrava fala de uma vida escrava que produz escravos como descendentes. O segundo filhó fala da Jerusalém invisível, uma Jerusalém livre.
Gálatas 5
Após fazer comparações com Abraão e afirmar que nós, filhos da promessa como Isaque, não somos escravos, mas livres, Paúlo passa a explicar de quê somos livres, e como viver essa liberdade que Cristo veio nos trazer. Ele começa o capítulo 5 afirmando que "Pára a liberdade foi que Cristo nos libertou." É muito comum ouvirmos esse versículo fora de contexto, dando margens pára uma interpretação errada da liberdade que Cristo nos oferece. De quê fomos, então, libertos?
Em primeiro lugar, Cristo nos libertou da lei como sistema de salvação. No v.3 Paúlo afirma que quem aceita o sistema da circuncisão ou qualquer outro sistema de regras, troca a maravilhosa vida de liberdade em Cristo pelas obrigações da vida de escravo da lei, ou seja, o dom da liberdade que Cristo conquistou com sofrimento, se entregando na cruz, Ácaba sendo desperdiçado. Calvino diz que a liberdade que Paúlo
falava é a isenção de cerimônias da lei, cuja observância era exigida, como necessária, pelos falsos apóstolos.52
Em segundo lugar, Cristo nos libertou do domínio do pecado. No v.13 Paúlo diz que nós fomos chamados pára a liberdade, mas não devemos usar essa liberdade pára dar ocasião à carne, ou seja, não podemos usar essa liberdade como desculpa pára fazer o que bem entendemos, pois agindo assim, destruiremos essa liberdade.
Após falar sobre a liberdade que temos em Cristo, em Gálatas 5.3 (“Testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei”) entende- se que os pregadores da circuncisão não fizeram tal exigência; e em 6.13 Paúlo diz: “Eles mesmos não observam a lei”. De acordo com Paúlo, cumprir toda a lei significa cumprir a lei na abrangência e com o rigor como ele o fez como judeu e fariseu, segundo a norma da interpretação farisaica da lei. O que Paúlo está querendo dizer em
5.3 é que se os cristãos optarem pela circuncisão, que também se sujeitem ao
cumprimento da lei em toda a sua abrangência e rigor. Percebemos aqui que o legalismo tinha de fato sido compreendido como caminho pára a salvação.53
O apóstolo, então, diz que existe uma guerra dentro de cada um de nós. Há uma raiz de egoísmo que guerreia contra a liberdade do Espírito que Cristo nos concedeu; a nossa carne milita contra o Espírito (v.17). Ele faz uma lista de coisas que as pessoas que vivem sob o domínio do pecado fazem: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e cousas semelhantes a estas (vs.19-20). Paúlo nos ensina que devemos usar nossa liberdade com moderação, pára não darmos liberdade à carne, “que
deve, antes, ser mantida sob jugo; mas a liberdade é um benefício espiritual que somente os espíritos piedosos são capazes de desfrutar.”54
Em seguida, Paúlo passa a falar da vida com Deus. Quando recebemos o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio, passamos a viver no caminho de Deus e contra essas coisas não há lei (vs.22-23). Como podemos, então, usufruir dessa liberdade conquistada por Cristo na cruz? Encontramos a resposta nos vs. 6 e 14: "Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor" e: "Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'".
Em Cristo, nem nossa religião, nem nossa indiferença quanto às obrigações religiosas significam alguma coisa. O que importa é a fé que atua pelo amor. (Gl. 5.6)
Gálatas 6
53 VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento,aós Apócrifos e aós Pais Apostólicos. Trad. Ílson Kayser. Santo André: Editora Academia Cristã, 2005, p.144.
Finalizando a abordagem da carta de Paúlo aós Gálatas, o apóstolo vai dizer como nós podemos cumprir a lei de Cristo, e que a única coisa que nós temos que nos gloriar, não é em nossa performance, nem em nossos méritos, mas na cruz de Cristo.
O capítulo começa tratando da importância de nos auxiliarmos uns aós outros, de tomarmos responsabilidade pára com o nosso próximo. Pára Paúlo essa é a maneira de cumprirmos a lei de Cristo, uma forma concreta da “fé que atua pelo amor” que ele afirma no capítulo 5, versículo 6. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” (Gl. 6.2). Isto é, se alguém cair em pecado, restaurem essa pessoa com perdão. Ajam com misericórdia e estendam a mão aós que precisam de ajuda. Fazendo isso, estaremos cumprindo a lei de Cristo.
Calvino dá a seguinte interpretação a Gálatas 6.2: “Se vocês têm um grande desejo de guardar uma lei, Cristo lhes recomenda uma lei que vocês preferirão a todas as outras, qual seja: exercer benevolência uns pára com os outros”.55 Lutero diz que
é cristão cuidar do corpo, pára que por meio do seu vigor e bem-estar,possamos trabalhar, adquirir bens e preservá-los pára o subsídio daqueles quetêm carência, pára que assim o membro robusto sirva ao membro fraco, esejamos filhos de Deus, um preocupado e trabalhando pelo outro, carregando
os fardos uns dos outros e assim cumprindo a lei de Cristo.56
Paúlo novamente volta ao assunto da circuncisão e da vida centrada em regras, e ensina que de nada vale tudo isso, só levam a uma vida de orgulho; uma vida baseada em leis e regras leva apenas ao egoísmo e à soberba. É por isso que a partir do v. 14 Paúlo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado pára mim, e eu, pára o mundo.”
Jóão Calvino, sobre esse versículo, diz que Paúlo está contrastando as tramas dos falsos apóstolos com sua própria sinceridade, como se estivesse dizendo: “Pára não serem compelidos a levar a cruz, então negam a cruz de Cristo, adquirem os aplausos
55 CALVINO, 2010, p. 186.
56 LUTERO, 1989, v. 2, p. 452.
dos homens com o preço de vossa carne e terminam conduzindo-vos em triunfo. Meu triunfo e minha glória, porém, se encontram na cruz do Filhó de Deus”57
Finalmente, no último versículo, Paúlo despede-se dizendo: "Que a graça de Cristo seja com o vosso espírito." Calvino diz que Paúlo orá não pára que a graça fosse derramada sobre eles gratuitamente, mas pára que pudessem ter em sua mente um sentimento correto sobre ela. Realmente, ela só é usufruída por nós quando atinge o
nosso espírito. Devemos, pois, pedir a Deus que prepare nossa alma pára ser uma habitação de sua graça.58
Conclusões de Lutero e Calvino
Lutero, em suas teses debatidas em Heidelberg, conclui que “a lei de Deus, mui salutar doutrina da vida, não pode levar o ser humano à justiça; antes, o impede”; e essa mesma lei, “provoca a ira de Deus, mata, maldiz, acusa, julga e condena tudo o que não está em Cristo”.59 É por isso que nós precisamos seguir o que ele chama de Teologia da Cruz, pois a lei, em si, não é má, e nós não devemos fugir dela. “A lei é santa e toda dádiva de Deus é boa. Entretanto, quem ainda não foi destruído, reduzido a nada pela cruz e pelo sofrimento, atribui as obras a si mesmo e não a Deus.”60 Quem foi atingido pelo sofrimento e pela cruz de Cristo, sabe que é Deus quem nele ópera e tudo realiza, e então entende que a lei só pode ser cumprida através de Cristo, diferente da teologia da glória, onde as pessoas ignoram Cristo e seu sofrimento e buscam encontrar Deus nas boas obras e no cumprimento de regras, na glória e no poder, tornando-se egoístas e inimigas da cruz de Cristo. Portanto, é necessário olhar pára a lei, com humildade, e reconhecer que é impossível cumpri-lá sem a ajuda de Cristo.
57 CALVINO, 2010, p. 197.
58 CALVINO, 2010, p. 202.
59 LUTERO, 1987, v. 1, p. 38-39.
60 Ibid, p. 51-52.
Jóão Calvino diz que “a lei nos foi dadá pelo Senhor pára nos ensinar a justiça perfeita, e que nela nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pela vontade de Deus e conformar-nos a ela”61 Portanto, a vida do homem deve ser regrada pela lei, não somente por uma honestidade externa, mas também pára a justiça interna e espiritual. O reformador ainda afirma que Cristo não foi um segundo Moisés, que déu uma segunda lei pára suprir o que faltava na lei mosaica. Cristo não fez acréscimos à lei, mas a restabeleceu em sua inteireza, limpou-a das mentiras dos fariseus com as quais a tinham obscurecido.62 Contudo, se o espírito da graça for retirado, a lei só servirá pára acusar e matar.
A lei de Deus é letra morta e mata os que a seguem, quando estádesvinculada da graça de Cristo e somente soa nos ouvidos, mas não toça ocoração. Mas se o Espírito a imprime de fato na sede da vontade, e se ele noscomunica Jesus Cristo, a Escritura é de fato a Palavra da vida, converte almase “dá sabedoria aós símplices (Salmos 19.7).63
Ao olhar pára a carta aós Gálatas, o que podemos perceber, é que a lei de Deus nos ensina o caminho da justiça divina, mas ela também nos recrimina, tanto por nossa natureza pecaminosa como por nossa injustiça. A lei de Deus nos revela o quanto somos perversos e avessos à justiça de Deus, e estamos muito longe de sermos capazes de cumpri-lá perfeitamente.
Podemos aprender que a lei de Deus expressa a vontade de Deus pára nossas vidas, mas sozinhos, somos incapazes de observá-lá. Olhando pára dentro de nós, percebemos que não satisfazemos a vontade de Deus, e portanto, somos indignos de manter nosso lugar entre as criaturas. Sendo assim, existe a necessidade de olharmos pára Cristo, que é o úNicó que cumpriu perfeitamente a vontade de Deus, e nos tornou aceitáveis diante do Pai. Sem Cristo, a lei somente nos acusa e mata, mas com Cristo, a lei nos revela a perfeita vontade de Deus.
61 CALVINO, Jóão. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paúlo: Cultura Cristã,vol.1, 2006, p. 167.
62 CALVINO, 2006, v.1, p. 168.
Quando temos plena convicção da nossa imperfeição e total dependência de Cristo, somos libertos do jugo da lei, e essa liberdade faz com que nossa consciência busque obedecer a lei, não como constrangidos ou forçados a tal tarefa, pára conseguir a justificação própria e ser aceitos por Deus, mas livremente, como resposta ao que Cristo já fez por nós. O fim dessa liberdade que Cristo conquistou pára nós é incentivar-nos à prática do bem.
Precisamos, portanto, apegar-nos mais à graça de Deus, que nos supre do que falta à lei, e amar a misericórdia divina, pela qual a graça nos é concedida, porque quando estamos debaixo da graça de Deus, a lei não exerce todo o seu rigor pressionando-nos até o fim, de modo a só ficar satisfeita se cumprirmos tudo o que ela manda. Em vez disso, ela nos exorta à perfeição pára a qual nos chama, e nos mostra a meta que devemos buscar durante a nossa vida. “Quando chegarmos ao fim, o Senhor
nos fará o benefício de levar-nos a alcançar a meta, a qual ainda estaremos buscando, embora distantes dela.”64
Concluindo este primeiro capítulo, apresentaremos três verdades compreendidas até aqui: Em primeiro lugar, quando Paúlo usa a expressão “obras da lei”, em sua carta aós Gálatas, ele se refere aós atos de obediência às leis cerimoniais como a circuncisão, e à lei moral de Moisés realizados pelos judeus de sua época, com a intenção de serem aceitos por Deus. Em segundo lugar, nunca foi propósito de Deus que a lei servisse de caminho pára a salvação. E em terceiro e último lugar, o homem é totalmente corrompido, devido ao pecado, e, portanto, não é capaz de cumprir o que a lei ordena. Ninguém pode se justificar pela lei simplesmente porque ninguém é capaz de fazer tudo o que a lei exige. Dependemos de Cristo pára sermos aceitos e justificados por Deus. A guarda da lei não vale a pena fora de Cristo.
Eis o resumo disso tudo: se buscarmos a salvação em nossas obras, é-nosnecessário guardar os mandamentos, os quais nos instruem sobre a justiçaperfeita. Mas não devemos parar aqui, se não quisermos desfalecer no meio
64 CALVINO, 2006, v.1, p. 228.
do caminho, porque nenhum de nós é capaz de os guardar. Assim, depois determos sido excluídos da justiça da lei, precisamos de outro retiro e socorro,qual seja, a fé em Jesus Cristo. Portanto, assim como o Senhor Jesus nessapassagem (Mateus 19.17) remete de volta à lei o doutor dela, sabendo que eleestava inchado de vã confiança em suas obras, e o fez pára que ele sereconhecesse pobre pecador e sujeito à condenação, assim também noutrolugar ele consola com a promessa de sua graça os que se humilham poraquele reconhecimento, e os consola sem fazer menção da lei. “Vinde a
mim”, diz ele, “todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”(Mateus 11.28)65
A Nova Perspectiva de Paúlo
Depois de abordarmos a carta aós Gálatas baseados nos comentários de Lutero e Calvino, e mostrarmos a Teologia Bíblica de Paúlo, neste segundo capítulo, examinaremos um tipo de interpretação mais recente da teologia de Paúlo que tem feito oposição à teologia reformada, e que é chamada de “Nova Perspectiva de Paúlo”. Ao final, tentaremos responder a seguinte pergunta: É a Nova Perspectiva de Paúlo, bíblica e confiável?
Nosso objetivo com este capítulo é mostrar quem são os principais expoentes da Nova Perspectiva, o que ela tem proposto e no que ela diverge da perspectiva tradicional e bíblica que vem sendo adotada pelos cristãos de teologia reformada.
Os principais expoentes
A interpretação tradicional que dominou os estudos paulinos por muito tempo passou a ser contestada por estudiosos, dentre eles, destacaremos E. P. Sanders e James Dunn. Eles dizem que “a teologia de Paúlo tem sido mal compreendida porque tem sido interpretada pelas lentes de Lutero e da Reforma”66 . Essa é a maior crítica dos defensores da Nova Perspectiva. O ponto fundamental não diz respeito à pessoa de
65 CALVINO, Jóão. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paúlo: Cultura Cristã,vol2, 2006, p. 264-265.
66 STUHLMACHER, Peter, Lei e Graça em Paúlo: uma resposta à polêmica em torno da doutrina da
justificação. Trad. Lucy Yamakami. São Paúlo: Vida Nova, 2002, p. 98.
Paúlo, mas à natureza do Judáísmo do primeiro século, como Paúlo e o Judáísmo enxergavam a questão da lei e graça.
Estes teólogos não concordaram com a perspectiva tradicional que vinha sendo adotada, principalmente pelos cristãos reformados, pois acreditavam que a teologia de Paúlo estava sendo interpretada de acordo com a visão e interpretação que Lutero fez na época da Reforma Protestante. Sendo assim, eles propuseram uma nova interpretação da teologia paulina, sem as lentes da Reforma, ou seja, uma nova maneira de enxergar os escritos de Paúlo, um novo jeito de interpretar as Escrituras e o Judáísmo do primeiro século. Nasce então a Nova Perspectiva de Paúlo.
E. P. Sanders
Sanders é um especialista em Novo Testamento e um dos principais proponentes da Nova Perspectiva de Paúlo. Seu campo de interesse é o Judáísmo e o cristianismo no mundo greco-romano. Muito citado por James Dunn, E. P. Sanders afirma que o Judáísmo palestinense do primeiro século, não era uma religião de obras feitas pára a obtenção da aprovação por Deus e entrada no pacto.67 Em uma de suas principais obras68, ele propõe uma reavaliação do pensamento paulino, de forma que seja possível perceber mais do que simples oposições e refutações à lei.
Em suas conclusões, Sanders afirma que o Judáísmo da época de Paúlo entendia a salvação como eleição e pacto, onde Deus escolhe Israel. Ele dizia que a lei observada pelos judeus era praticada não pára entrarem na aliança, mas pára se manterem nela. A isto, Sanders dá o nome de “nomismo da aliança”. Dunn, citando Sanders define “nomismo da aliança” como:
67 DUNN, James D. G., A nova perspectiva sobre Paúlo. Trad. Monika Ottermann. Santo André:Academia Cristã, 2011, p. 19.
68 SANDERS Ed Parish, Paúlo, a lei e o povo judeu. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paúlo:
Academia Cristã, Paulus, 2009.
A ideia de que o nosso lugar no plano de Deus está estabelecido com base naaliança e que a aliança exige como resposta apropriada do homem suaobediência aós mandamentos, fornecendo meios de expiação dastransgressões [...] A obediência mantém nossa posição na aliança, mas nãomerece a graça de Deus como tal [...] Justiça no Judáísmo é termo queimplica a manutenção do status entre o grupo dos eleitos.69
Sanders entendia que os fariseus da época de Paúlo, já nasciam dentro da graça e da aliança. Eles praticavam as “obras da lei” não por legalismo ou pára conseguir a aprovação de Deus, mas pára se manter dentro do pacto. Afirma-se, então, que o Judáísmo não é uma religião legalista, mas baseada na graça de Deus revelada nas alianças com Israel. A Nova Perspectiva veio pára confrontar toda a teologia tradicional de Paúlo que era sustentada principalmente por Lutero e Calvino. Pára Sanders, Paúlo
adotava a tese corrente da época, de que pertencer ao grupo de cristãos implicava procedimento correto, ou seja, observar a lei.70
Sanders nos ofereceu uma oportunidade inédita de olhar pára Paúlo comnovos olhos, de mudar nossa perspectiva do séc. XVI pára o séc. I, de fazeralgo que todo verdadeiro exegeta quer fazer – a saber, ver Pauloapropriadamente dentro de seu próprio contexto, ouvir Paúlo nos termos deseu próprio tempo, deixar Paúlo ser ele mesmo.71
Em resumo, o argumento fundamental de Sanders é que o Judáísmo não era uma religião de obras mas da graça e misericórdia de Deus. A partir de um estudo aprofundado da maior parte da literatura judaica do primeiro século, Sanders tentou mostrar que a relação de aliança que Israel tinha com Deus era básica pára o sentimento de nacionalidade do judeu e pára sua compreensão da religião. Ele afirma que Deus escolheu Israel pára ser seu povo, pára desfrutar de um relacionamento especial. A lei então foi dadá como uma expressão dessa aliança, “pára regular e preservar o relacionamento estabelecido pela aliança.”72
Isso significa que, no Judáísmo, a obediência à Lei nunca foi pensada comoum meio de entrar na aliança, de conseguir um relacionamento especial comDeus; era antes a questão de manter o relacionamento da aliança com Deus.
69 DUNN, James D. G. A teologia de Paúlo. Trad. Edwino Royer. São Paúlo: Editora Paulus, 2003, p.391.
70 SANDERS, 2009, p. 132.
71 DUNN, 2011, p. 161
72 Ibid, p. 160.
A partir disso, Sanders elabora sua expressão chave pára caracterizar ojudaísmo palestinense do primeiro século, “nomismo da aliança”.73
Um outro ponto importante na Nova Perspectiva é sobre a justificação pela fé, que na visão reformada, é o centro da teologia de Paúlo, mas que agora é vista por Sanders e outros teólogos da Nova Perspectiva como uma tática pragmática pára facilitar a missão aós gentios. Pára Albert Schweitzer, que é um dos teólogos da Nova Perspectiva, citado na obra de Stuhlmacher: “a doutrina da justificação pela fé é uma cratera secundária, formada dentro da cratera principal, a doutrina mística da redenção por meio do ‘estar em Cristo’”74
James Dunn
Além de Sanders, outro teólogo escocês, que tem contribuído pára a Nova Perspectiva é James Dunn, autor de uma das principais obras sobre esta corrente teológica, e que tem como título “A Nova Perspectiva sobre Paúlo”. Ele percorre linhas um pouco diferentes, e apesar de sofrer influência da apresentação do Judáísmo feita por Sanders, apresenta algumas discordâncias do retrato que este faz de Paúlo.
Dunn sustenta duas ideias básicas: (1) O Judáísmo não é uma religião legalista, que prega a justificação pelas obras, mas uma religião de graça. (2) O ensino de Paúlo sobre a justificação independente das obras da lei é baseado na igualdade entre judeus e gentios diante de Deus. O que Paúlo deseja é mostrar aós dois grupos (gentios e judeus) que Deus se inclina de maneira graciosa em direção a eles e os aceita.75
Em seu artigo sobre a Nova Perspectiva, falando sobre James Dunn, Augustus
Nicodemus diz:
Sua abordagem sociológica tem recebido vasta aceitação. Pára ele, Pauloataca as “obras da lei” não porque elas expressam algum desejo de alcançar
73 Ibid.
74 STUHLMACHER, 2002, p. 96.
75 Ibid., p. 47.
mérito por parte dos judeus, mas porque entende que elas fazem umadistinção entre os judeus, o povo de Deus da antiga dispensação, e os gentios,a quem o evangelho está sendo oferecido. As “obras da lei”, que Pauloidentifica como restritas à circuncisão, às leis sobre alimentos puros eimpuros (kashrut) e aós dias especiais do calendário judaico, são emblemasque caracterizam o Judáísmo e devem ser rejeitadas porque enfatizam aseparação entre judeus e não-judeus, a qual Cristo veio abolir76
A partir de agora então, o Judáísmo não é mais visto como uma religião legalista, mas como “nomismo da aliança”, ou seja, a lei depende da graça, vem depois da graça e o observar a lei é compreendido como a resposta de Israel à graça de Deus. A Nova Perspectiva de Paúlo entende que o legalismo é uma distorção do Judáísmo e não o próprio Judáísmo, e que as “obras da lei” são a marcá principal da identidade judaica. O que faz de um judeu, um verdadeiro judeu é a prática das “obras da lei” que o diferencia do gentio: a circuncisão, a guarda do sábadó, as regras sobre alimentação entre outros rituais.
Gálatas 2.16
Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante afé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, pára que fôssemosjustificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguémserá justificado.” (Gálatas 2.16)
Um dos pontos chaves da Nova Perspectiva de Paúlo é quando Paúlo fala sobre justificação em Gálatas 2.16. Justificação é uma palavra tomada emprestada dos tribunais, e é exatamente o oposto de condenação. Como vimos no primeiro capítulo sobre este texto, a palavra “justificar” é um verbo que se encontra na voz passiva pois é ato exclusivo e gracioso de Deus que torna justo o pecador injusto. James Dunn, por sua vez, entende que quando Paúlo se refere ao “ser justificado”, não é um ato distintivamente iniciatório de Deus, mas é o reconhecimento divino de que alguém está dentro da aliança. E Paúlo não está falando aqui pára cristãos que coincidentemente são
judeus, mas pára judeus cuja fé cristã é um extensão da fé judaica em um Deus que escolhe e sustenta pela graça.77
Dunn afirma que
Em Gálatas 2.16, Paúlo lida de fato, com o Judáísmo como sabemos ter sidono primeiro século – um sistema de religião consciente de seurelacionamento especial com Deus e sensível a suas obrigações peculiaresdentro de tal relacionamento. As críticas a Paúlo por sua falha noentendimento do Judáísmo, portanto, envolvem uma falha dupla deperspectiva. O que os eruditos no Judáísmo rejeitaram como falha deentendimento de Paúlo é uma falha no entendimento sobre Paúlo, baseada na(re-) leitura protestante padrão pelas lentes da Reforma. Quando tiramosessas lentes, Paúlo não parece estar tão fora de contato com seu contexto doprimeiro século como até mesmo Sanders imagina. Sanders, de fato, libertoua exegese paulina de seus faróis do século dezesseis, mas ele ainda nosdeixou com um Paúlo que teria feito pouco sentido pára seus contemporâneosjudeus e com uma disposição pára observar a lei em alguns momentos (1 Co
9.19-23) que teria soado com a mais espetacular contradição.78
Os reformados sempre afirmaram, com base principalmente em Gálatas e Romanos, que a mensagem central das cartas de Paúlo é que os pecadores podem ser justificados mediante a fé em Jesus Cristo, sem obras pessoais e meritórias. E que esta justificação consiste em Deus nos imputar – isto é, atribuir – a própria justiça de Cristo. Entendemos que a justiça de Cristo imputada ao ser humano injusto é a doutrina central da teologia paulina. O rev. Hernandes Dias Lopes chega a afirmar que “quando a igreja caminhou na verdade, essa doutrina (justificação pela fé) foi sustentada. Sempre que entrou em declínio, foi esquecida”.79 Somos justificados com uma justiça alheia, a de Cristo, e não com uma justiça nossa, que procede de nossa obediência à lei de Deus (obras da lei). Lutero e os demais reformadores entenderam que esse era exatamente o ponto de discussão entre Paúlo e os judaizantes, que à sua época queriam exigir que os crentes não judeus guardassem a lei de Moisés pára poderem ser salvos.
Já James Dunn entende que a justificação pela fé não é contrária à justificação pelas “obras”, mas é a marcá da identidade dos cristãos em contraste com os judeus e gentios. Pára Dunn, a justificação não significa que Deus transfere a sua própria justiça
77 DUNN, 2011, p. 167.
78 DUNN, 2011, p. 181
ao pecador, como ensina a doutrina reformada da imputação; Deus, à semelhança do que se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, todavia, imputar-lhe a sua própria justiça. A conclusão é que Paúlo nunca ensinou a doutrina da imputação da justiça. Não é isso o que Paúlo entende por justificação. Deus absolve o pecador por causa de sua fidelidade ao pacto, à aliança. É isso que significa a sua justiça.
Então, o que Paúlo estava atacando ao excluir a ideia de ser justificado pelas “obras da lei”? – Entendemos que Paúlo está querendo dizer que não somos justificados pelas nossas obras, ou por áquilo que fazemos pára Deus, mas sim, por áquilo que Deus já fez por nós. O que o apóstolo Paúlo está dizendo é que a única obra que Deus aceita como base de nossa justificação é a expiação de seu filhó Jesus Cristo na cruz do Calvário. Hernandes afirma que “somos justificados em virtude da sua morte em nosso
lugar e em nosso favor”.80
Quando Paúlo afirma que “por obras da lei, ninguém será justificado”, a palavra “ninguém” também pode ser traduzida como “carne”, ou seja, nenhuma carne será justificada. A palavra “carne” foi sugerida ao apóstolo Paúlo não só pela natureza física das circuncisões que os adversários queriam realizar nos gálatas, mas também pára indicar a fraqueza humana, o pecado humano, em textos como Gênesis 6.3,12 e Isaías
40.6. “Elevar as ‘obras da lei’ ao nível de requisito pára viver em harmoniosa relação de aliança com Deus, diz Paúlo, é colocar tal relação fora do alcance de todos, não importa se judeus ou gentios, porque a inclinação humana a desobedecer a Deus impede toda ‘carne’ de obedecer à lei completamente (Gálatas 2.16).”81
Pára John Stott, precisamos entender duas coisas: A primeira é que Deus é justo;
a segunda é que nós não somos. E estas duas realidades colocadas juntas, explicam nossa difícil situação. Algo está errado entre nós e Deus. Em vez de harmonia, há atrito, estamos sob juízo de Deus, e então Paúlo, através deste versículo nos mostra como pode
80 LOPES, 2011, p. 116.
81 HAWTHORNE, Gerald F., MARTIN, Ralph P., REID, Daniel G. Dicionário de Paúlo e suas cartas.Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paúlo: Paulus, Vida Nova, Loyola, 2008, p. 791.
um pecador condenado ser considerado justo: através da justificação pela fé. Sem a justificação pela fé exposta neste versículo, não existe nenhuma outra maneira de o homem ser considerado justo perante Deus.82
“Obras da lei”
Os teólogos da Nova Perspectiva (Sanders e Dunn) afirmam que Paúlo nunca foi contra as “obras da lei” como um caminho de salvação. Já Lutero, Calvino e outros reformadores sustentavam o contrário, que as “obras da lei” eram um caminho falso de salvação. Portanto, a Nova Perspectiva entende que a lei, as “obras da lei” e o Judáísmo precisam ser interpretados de maneira diferente.
A teologia reformada entende “obras da lei” em Gálatas como aqueles atos praticados pelos judeus em obediência aós mais estritos preceitos da lei de Moisés. Lei são os mandamentos dados a Moisés, e “obras da lei” são as obras que fazemos em observância à lei, cumprindo e obedecendo-a.
Eles procuravam guardar Taís preceitos visando acumular méritos diante de Deus. Guardavam certos preceitos, praticavam boas obras, a fim de serem aceitos por Deus e conseguir então entrar na aliança. Mas, James Dunn, em especial, argumentou que as “obras da lei”, às quais Paúlo se refere em Gálatas eram a circuncisão, a guarda do calendário religioso e as leis sobre os alimentos, que eram sinais que mostravam a identidade judaica no século I.
Paúlo era contra estas coisas porque elas separavam judeus dos gentios e impediam que gentios convertidos se sentassem à mesa com judeus convertidos. Ou seja, a polêmica de Paúlo não era contra o legalismo dos judaizantes, mas contra a insistência deles em manter os gentios distantes. Segundo os teólogos da Nova
82 STOTT, 1989, p. 58.
Perspectiva, a Reforma havia perdido este ponto de vista por causa de Lutero e Agostinho.
Por três vezes num úNicó versículo (Gálatas 2.16) Paúlo repete a expressão “... Não pelas obras da lei”, e de acordo com Dunn83, o apóstolo estava pensando nas obras da aliança, num sentido mais restrito, obras relacionadas à aliança, e praticadas em obediência à lei da aliança. Como o debate que estava acontecendo em Jerusalém era por causa da circuncisão, e em Antioquia por causa das leis alimentares, Dunn afirma que por “obras da lei” Paúlo estava tratando sobre determinadas observâncias da lei como circuncisão e leis alimentares praticadas por aqueles que já pertenciam à aliança, pára manter o status nela.
Podemos, então, observar dois pontos fundamentais dos ensinamentos de James Dunn: (1) “Obras da lei” não são entendidas pelos judeus ou pelo próprio Paúlo como obras que conseguem o favor de Deus; são simplesmente o que a condição de membro da aliança envolve, o que marcá judeus como povo de Deus. Servem pára demonstrar o status da aliança. (2) “Obras da lei”, diferente da exegese da Reforma, não significam “boas obras” em geral. A expressão “obras da lei” em Gálatas 2.16 se refere àqueles regulamentos prescritos pela lei que qualquer bom judeu simplesmente teria que seguir. Portanto, esta expressão, pára a Nova Perspectiva, faz distinção entre judeus e gentios.
A lei possuía uma função social e Sérvia pára delimitar e até separar Israel das outras nações. Ou seja, as “obras da lei” podiam funcionar como marcadores de fronteiras, práticas e rituais que diferenciavam Israel dos outros povos. Por isso também foi que Paúlo combateu as “obras da lei”, pois elas deixavam os gentios de fora, e só privilegiavam os judeus. Ou então os gentios tinham que judaizar-se, o que não agradou nem um pouco ao apóstolo Paúlo.
83 DUNN, 2011, p. 168
Contudo, nós entendemos que é mais provável que Paúlo use a expressão “obras da lei”, principalmente em Gálatas 2.16, num sentido mais amplo, ou seja, “boas obras” com a finalidade de conseguir a aprovação de Deus. Entendemos “obras da lei”, conforme explica Longenecker, como “todo complexo legalista de ideias relacionadas com o adquirir do favor divino pelo acúmulo de méritos mediante a observância da
Torá”.84
Augustus Nicodemus 85 afirma que a expressão “obras da lei” implica em cumprir toda a lei, e não apenas os mandamentos sobre circuncisão, alimentos e dias santos como afirma a Nova Perspectiva. Ao contrastar “obras da lei” com “fé em Cristo Jesus” em Gálatas 2.16, diferentemente do que ensinam Sanders e Dunn86, entendemos que Paúlo estava abrangendo judeus e gentios, não pára manter o status, mas pára entrar na aliança.
Ou seja, o que ele estava dizendo é que não é por praticar as obras requeridas pela lei que alguém (judeu ou gentio) é salvo, ou consegue entrar na aliança, mas única e exclusivamente pela dependência de Deus e de Jesus Cristo como Senhor e Salvador.
Os judaizantes acreditavam que somente através do trabalho duro, ou seja, das boas obras, é que o homem consegue ser justificado. Eles ensinavam que é necessário observar toda a lei, mas essa interpretação é falsa, pois a lei exige perfeição, e como vemos na própria Palavra de Deus, ninguém é perfeito, a não ser um, que é Cristo. O úNicó que obedeceu completamente a lei e viveu sem pecado nenhum.
Os judeus e judaizantes, segundo John Stott, afirmavam que
É preciso amar e servir ao Deus vivo, e não ter outros deuses ou substitutos.É preciso reverenciar o seu nome e o seu dia, e honrar os pais. É precisoevitar o adultério, o homicídio e o roubo. Nunca devemos dar falsotestemunho contra o nosso próximo nem cobiçar alguma coisa que lhepertença. Mas não era só isso. Além da lei moral, temos a lei cerimonial, àqual é preciso obedecer. É preciso levar a religião a sério, examinando as
84 LONGENECKER, Richard N. Galatians. In: Word Biblical Commentary. Dallas: Word Books, 1990,p. 86.
85 LOPES, 2006, p. 90.
86 Pára Sanders e Dunn, “obras da lei” são somente pára os bons judeus que seguiam pára manter o statusda aliança.
Escrituras em particular e frequentando os cultos públicos. É preciso jejuar,orar e dar esmolas. E, se fizer tudo isso, sem falhar em nada, ter-se-áalcançado o sucesso e a aceitação de Deus sendo então justificado “pelasobras da lei”87
Portanto, Paúlo rejeita as “obras da lei” porque o propósito de Deus nunca foi que a lei servisse de caminho pára a salvação, e pelo fato do homem ser totalmente corrompido pelo pecado, ele é incapaz de cumprir o que a lei ordena. Diante disto, a teologia reformada sustenta que ninguém pode se justificar pelas “obras da lei” porque ninguém é capaz de obedecer e seguir tudo o que a lei exige.
As fraquezas da Nova Perspectiva de Paúlo
A Nova Perspectiva, por diversas vezes, coloca em dúvida o Judáísmo descrito por Paúlo, e chega até a afirmar que o apóstolo era contraditório em suas postulações. Ela admite que autores bíblicos podem ter cometido erros históricos ou entrado em contradições, ou seja, os teólogos da Nova Perspectiva acabam atacando a autoridade e inerrância das Escrituras Sagradas, adotando práticas de interpretação liberal. Afirmar que Paúlo pode ter falhado em algum momento ou entrado em contradição consigo mesmo é colocar em dúvida a inspiração do Espírito Santo sobre os autores bíblicos e dizer que a Palavra de Deus contêm erros.
Pára eles, a Bíblia pode ser tratada como um livro de religião qualquer, cujos autores poderiam ter cometido erros históricos, fornecido alguma informação falsa ou equivocada e até mesmo cáído em contradições. Um exemplo se encontra na obra de Sanders, quando ele afirma: “Não obstante, Romanos 2 fica sendo o exemplo no qual Paúlo ultrapassa a incoerência ou a variedade de tema e de explicação pára chegar à
verdadeira contradição consigo mesmo.”88 Além disso, Sanders usa fontes do século III
87 STOTT, 1989, p. 59.
88 SANDERS, 2009, p. 179.
e IV como Talmud, Mishna e Midrashes pára reconstruir o pensamento judaico do século I.
Segundo Augustus Nicodemus em seu artigo sobre a Nova Perspectiva de Paulo89, Sanders apresenta algumas fraquezas. Em primeiro lugar, algumas coisas permanecem sem explicação, como a distinção que ele faz entre “ser justificado diante de Deus” (que pára ele não era a preocupação de Paúlo nem dos judeus) e “entrar no povo de Deus”. Em segundo lugar, Sanders omitiu das informações rabínicas as evidências de que o Judáísmo palestino era legalista. C. K. Barrett afirma ironicamente sobre Sanders: “Ele é um homem presunçoso que supõe compreender o Judáísmo do primeiro século melhor do que Paúlo”.90 Tanto é assim, que em sua obra “Paúlo, a lei e o povo judeu”, Sanders afirma categoricamente que quando Paúlo diz em Gálatas que a lei se cumpre no preceito de “amar o próximo”, ele está diminuindo a lei, mesmo não admitindo que a tenha reduzido.91
Outro ponto estranho é a maneira como a Nova Perspectiva interpreta Gálatas 2.16, dizendo que Paúlo queria simplesmente corrigir a ideia judaica de que a justificação pode ser recebida somente pelos que estão na aliança, que se distinguem dos gentios pela circuncisão, pela observância das leis alimentares, das normas de pureza e do sábadó.
Dizem eles que Paúlo queria tornar a justificação acessível também aós gentios que não observavam as “obras da lei”, que era observada apenas pelos judeus que já estavam na aliança, pára manter o status e a condição de verdadeiro judeu diante de Deus. No entanto, o que Paúlo está realmente dizendo é que ninguém (nem judeu, nem gentio) será justificado por Deus com base nas “obras da lei”.
89 LOPES, 2006, p. 83-94.
90 BARRET, C. K. Paul: An introduction to His thought. Louisville: Wesminster John Knox, 1994, p. 78.Tradução nossa.
91 SANDERS, op. Cit., p. 130.
Todas as tentativas de alguém confiar na própria justiça derivada da lei são inúteis, pois a justificação acontecerá pela fé em Cristo Jesus.92 O próprio apóstolo Paúlo afirma: “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão” (Gálatas 2.21).
Outra fraqueza que encontramos é sobre o “nomismo da aliança”, que diz que os judeus observavam as leis como forma de manter o status dentro do pacto. Sobre isso, Stuhlmacher cita Morna Hooker:
É evidente que não podemos falar aqui de um “nomismo da aliança” no casode Paúlo, já que iria na contramão da disputa básica de Paúlo com a Lei. Oponto é que, pára Paúlo, a Lei foi substituída por Cristo – ou, antes, já que aLei era uma medida interina, mostra-se em seu verdadeiro caráter desubstituto, agora que chegou a realidade. As perguntas “quem pertence àaliança?” e “como a pessoa reage à aliança?” são respondidas por Paúlo emtermos de Cristo; pelo Judáísmo, em termos da Lei93
Enquanto o Judáísmo é nomocêntrico, Paúlo é cristocêntrico. Enquanto o Judáísmo prega a salvação pelas obras, Paúlo prega a salvação pela fé em Jesus Cristo. O Judáísmo crê na justificação pela lei, o apóstolo crê na justificação pela fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus (Efésios 2.8). Em Gálatas 3.1-5 ele rompe de maneira fundamental com a lei e, assim, com o Judáísmo.
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que óperamilagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (Gálatas 3.1-5)
O que vemos neste versículo é o argumento de que é insensatez alguém ter começado no Espírito, e agora completar-se “na carne”, ou seja, é ridículo uma pessoa ter começado no evangelho e voltar à lei, como se ela complementasse o evangelho. O apóstolo Paúlo, ao contrário do que afirmam Sanders e Dunn, não está atacando apenas uma parte do Judáísmo que se tornou legalista, mas o Judáísmo como um sistema
92 STUHLMACHER, 2002, p. 52.
93 STUHLMACHER, 2002, p. 124.
legalista, que o mesmo apóstolo afirma no versículo supracitado ser uma religião da carne (“... Aperfeiçoando na carne”), onde a salvação e a entrada na aliança de Deus depende do homem e suas boas obras.
Por último, podemos concluir dizendo que não há unanimidade nem mesmo entre os proponentes da Nova Perspectiva, pois vemos muitas vezes James Dunn, principalmente em sua principal obra “A Nova Perspectiva sobre Paúlo”, criticando alguns aspectos dos escritos de Sanders. Dunn chega a dizer: “De fato, ao colocar as coisas em seu devido lugar, à medida que se referiam ao Judáísmo confrontado por
Paúlo, Sanders apenas complicou o quebra-cabeça.”.94
Portanto, a Nova Perspectiva de Paúlo deve ser encarada com cuidado e com restrições, e entendemos que a perspectiva tradicional é a perspectiva bíblica e a que melhor interpreta a teologia de Paúlo. Biblicamente, não há como enxergarmos o Judáísmo como uma religião da graça. Diante das Escrituras, só podemos interpretar o Judáísmo como um sistema legalista e uma religião de méritos pára entrar na aliança, o que vem em oposição ao evangelho da graça revelado em Jesus Cristo, e que Paúlo tanto lutou pára viver e pregar.
94 DUNN, 2011, p. 36.
A importância da lei na era da graça
A lei nos foi dadá pelo Senhor pára nos ensinar a justiça perfeita, e que nelanenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pelavontade de Deus e conformar-nos a ela. Assim, inutilmente imaginamosnovas formas de obras pára obter a graça de Deus, sendo que o úNicó serviço
legítimo que se lhe pode prestar é a obediência.95
Diante do que vimos até aqui, após olharmos pára a carta aós Gálatas na perspectiva de Calvino e Lutero, e então, no segundo capítulo, conhecermos um pouco da Nova Perspectiva de Paúlo, neste terceiro capítulo pretendemos olhar pára a teologia paulina, no que diz respeito à doutrina da lei e graça e de uma maneira prática, responder à pergunta feita na introdução: “Pára quê serve então a lei, se vivemos na era da graça?”
O tríplice uso da lei
As Escrituras nos mostram que Deus ordenou sua lei pára funcionar de três formas, o que Jóão Calvino, de uma forma clássica e pára o auxílio da igreja,
sistematizou e chamou de “o tríplice uso da lei”.96 O termo é apresentado também na Teologia Concisa de J.I. Packer.97
A primeira função da lei é ser um espelho que reflete tanto a justiça e a vontade perfeita de Deus como nossa própria pecaminosidade: “pois aquele a quem falta a capacidade pára seguir a justiça, este está de modo absoluto atolado em um lamaçal de pecados.”98 A lei serve pára mostrar o perigo da condenação do pecado e também nossa necessidade de perdão. Segundo Gálatas 3.24, a lei destina-se também a conduzir-nos em arrependimento e fé a Cristo, a fim de que fôssemos justificados.
Portanto, uma vez que somos todos comprovadamente seus transgressores,quanto mais claramente revela ela a justiça de Deus, tanto mais desvenda, emcontrário, nossa iniquidade; quanto mais explicitamente confirma o galardãoda vida e da salvação como dependente da justiça, tanto mais confirma aperdição dos iníquos. Portanto, estas ponderações longe estão de serinjuriosas à lei; ao contrário, são valiosas pára uma recomendação maisexcelente da beneficência divina.99
A segunda função da lei é restringir o mal. Embora a lei por si só não tenha poder pára mudar o coração, ela pode inibir a ilegalidade por suas ameaças de julgamento ou punições. Calvino diz que "esta justiça forçada e compulsória, é necessária à sociedade comum dos homens, a cuja tranquilidade esta se vota, enquanto se vela pára que todas as coisas não se misturem em confusão, o que aconteceria, se a todos tudo se permitisse."100
Desse modo, ela garante alguma ordem civil, e de certo modo, protege o justo do injusto. Podemos ver essa realidade em Romanos 13.4 que diz: “visto que a autoridade é ministro de Deus pára teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, pára castigar o que pratica o mal.”
96 Id. As Institutas da Religião Cristã: edição clássica. Trad. Waldir Carvalho Luz. 2.Ed. São Paúlo:Cultura Cristã, vol2, 2006, p. 118-123.
97 PACKER, J.I. Teologia Concisa: síntese dos fundamentos históricos da fé cristã. Trad. Rubens
Castilho. Campinas: Luz Pára o Caminho, 1998, p. 88-89.
98 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 118.
99 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 119.
100 Ibid., p. 121.
Orá, até mesmo aós filhos de Deus é útil que sejam exercitados por esta tutela,por quanto tempo, antes da sua vocação, destituídos do Espírito desantificação, se esbaldem na insensatez da carne. Pois, enquanto pelo temorda vingança divina se retraem pelo menos ao desregramento exterior e, dequalquer forma, ainda não quebrantados no espírito, fáçam pouco progressono presente, contudo, ao levarem o jugo da justiça, são, por outro lado,acostumados, de modo que, quando forem chamados, não sejam inteiramenteinexperientes e noviços em relação à disciplina ou coisa desconhecida.101
A terceira função da lei é expressar a vontade de Deus, áquilo que lhe agrada, e assim, guiar os regenerados a fazer a vontade do Pai, ou seja, levá-los às boas obras que Deus já havia planejado pára eles. Esta terceira função, que “não só é a principal, mas ainda contempla mais de perto ao próprio fim da lei, tem lugar em relação aós fiéis, em cujo coração já vigora e reína o Espírito de Deus.”102 E quando Jesus Cristo disse que todos os que tornam seus discípulos devem guardar a lei e fazer tudo o que ela ordena, é deste terceiro uso que ele estava falando.
“Entretanto, isto permanece sempre incontestável: nada se deve detrair da autoridade da lei, e que ela deve ser sempre tomada por nós com a mesma veneração e obediência.”103 E em se tratando de obediência à lei de Deus, existem dois perigos que nós precisamos tomar muito cuidado pára não cairmos neles: o legalismo e o antinomismo.
Dois perigos que devemos evitar
- Legalismo
Como já vimos na introdução, o legalismo contradiz a graça de Deus, porque busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e as obras da lei. O legalismo foca toda sua atenção no comportamento. Russell Shedd diz que “frequentemente deparamos com a ferrugem que desvirtua a graça de Deus, na forma de uma lista de supostos
101 Ibid.
102 Ibid., p. 122.
103 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 125.
‘pecados’ que o crente tem de evitar pára gozar a salvação.”104 Uma pessoa se torna legalista quando enfatiza demais a lei em detrimento da graça, ou seja, ela segue uma lista de regras e mandamentos a fim de ser aceita por Deus.
Esse perigo estava rondando e ameaçandó “a verdade do evangelho” nas igrejas da Galácia. Podemos comprovar isso em Gálatas 2.14, quando o apóstolo escreve à igreja dizendo: “vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho...” O legalismo estava tomando conta das igrejas gálatas, e isto estava incomodando tanto o apóstolo Paúlo que ele chega a afirmar em Gálatas 2.21 que “se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” O problema não é o apenas guardar a lei, mas o guardar a lei como caminho pára a salvação.
O legalismo requer que o homem se esforce pára cumprir a lei, e portanto, tudo depende do esforço do homem na autodisciplina. Sendo assim, a prática legalista leva a um outro perigo, que é o orgulho. A partir do momento que o homem segue práticas legalistas e começa a achar que sua aceitação diante de Deus é resultado do seu esforço em seguir uma lista de regras, ele vai se tornando orgulhoso, arrogante e cai na ilusão de achar que tudo depende dele. “Quem é mais disciplinado, ou tem gostos mais
condizentes com as práticas das “leis” eclesiásticas, conclui que é mais santo.”105
Sendo assim, devemos tomar cuidado pára não cair no legalismo, pois ele não pode evitar os pecados íntimos que mais ofendem a Deus, que é o orgulho e a hipocrisia.106 Devemos portanto nos lembrar sempre que vivemos pára o Senhor e não pára nós mesmos, e sem sua graça, nós nunca seremos capazes de conquistar sua aceitação, mesmo que sejamos capazes de observar todas as leis.
A resposta ao legalismo não é a crença fácil, o evangelismo sem anecessidade de arrependimento, a busca de uma segunda bênção mística doEspírito, ou uma vida cristã destituída de instrução e orientação corretas. Olegalismo deve ser combatido com um entendimento bíblico da verdadeira‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o autor gracioso danova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria contra a lei
104 SHEDD, Russell. Lei, graça e santificação. São Paúlo: Vida Nova. 2008, p. 45.
105 SHEDD, 2008, p. 52.
violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação pára que possamosparticipar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação dadápela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus, tornando-nospessoas que obedecem aós mandamentos de Deus.107
- Antinomismo
Se devemos tomar cuidado com o legalismo, a fim de não excluir a graça de Deus, também existe um outro perigo que precisamos ter o mesmo cuidado. Esse perigo é chamado de antinomismo, que é a negação da lei em função da graça. O antinomismo, em oposição ao legalismo, afirma que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na vida do cristão. Enquanto o legalismo exalta de tal maneira a lei que chega a excluir a graça, o antinomismo exalta de tal maneira a graça ao ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida.108
O termo antinomismo vem do grego “anti” (contra) e “nomos” (lei), e é sinônimo do vocábulo “libertinagem”, portanto, trata-se daqueles que pensam que a graça é tão abrangente que todo esforço pára fazer o que Deus manda é desnecessário.
Paúlo sabiá sobre esse perigo quando escreve aós Romanos: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, pára que seja a graça mais abundante” (Romanos 6.1). Pára os antinomistas, quando a graça nos alcança, já não é mais necessário nenhum tipo de lei. “Mas crer que a recepção de tão estupendo presente, como é o perdão dos pecados, não cria qualquer obrigação, é esquecer que a aliança que Deus faz com suas
criaturas sempre traz consigo sua exigência.”109
Pára não cair nesse perigo, é preciso entender que juntamente com a graça de Deus, vem a exigência e a obrigação. O arrependimento é necessário, uma vida que obedece às vontades de Deus é necessária, pois uma teologia que nos oferece graça sem arrependimento é uma teologia falsa. Shedd afirma que
107 CLARK, Gordon. Legalism. In Baker’s Dictionary of Christian Ethics. Grand Rapids: Baker BookHouse. 1973, p. 385, tradução nossa.
108 Veja na pág.8, acima.
109 SHEDD, 2008, p. 29.
Não achamos que o cristianismo verdadeiro possa existir com base numagraça tão leviana que o cristão não a valorize. Quando a salvação não passade uma assinatura num cartão de decisão ou um braço levantado num reuniãode evangelização, torna-se inevitável o desprezo desse dom de infinito valor.[...] Acontece que, se os pecadores não têm nenhuma ideia da majestade esantidade de Deus, nem do inconcebível inferno pára o qual caminham, agraça perde sua força transformadora.110
A graça dos antinomistas é uma graça barata111, que não exige nada. Mas a graça de Deus é transformadora e motiva o cristão a buscar o reino de Deus e a desejar cumprir sua vontade prescrita na lei. Ciente destes dois perigos, não podemos nem abraçar a lei de tal modo a diminuir a graça de Deus, e nem abraçar a graça excluindo por completo a lei de Deus. É necessário encontrar o ponto de equilíbrio.
O ponto de equilíbrio
Diante destas verdades, podemos afirmar que todos aqueles que receberam o evangelho de Jesus Cristo não estão mais debaixo da lei como um pacto de vida, mas estão agora debaixo da graça. No entanto, isso não significa que a lei se tornou desprezível, mas ainda hoje, na era da graça, a lei tem utilidade pára nós.
O parágrafo VII, do capítulo XIX da CFW afirma: “os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condiz com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se fáça.”
O apóstolo Paúlo entendia isso quando escreveu: “É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente da lei.” (Gálatas 3.21)
Apesar de não sermos salvos pela observação da lei, uma vez que somos salvos pela graça de Deus, a lei continua sendo indispensável na obra de santificação. A lei
110 Ibid. P. 33.
111 D. Bonhoeffer tornou esta expressão famosa em seu livro “Discipulado” em meados de 1930.
continua sendo um padrão de justiça que serve pára regrar nossas vidas; ela nos mostra a extensão de nossas obrigações pára com Cristo e através da ação do Espírito Santo, nos tornamos convictos do pecado, do arrependimento e da fé.112
Pela graça de Deus somos capacitados a cumprir a vontade de Deus e então, “a lei de Deus soberanamente se torna a espontâNeá lei de nossos espíritos, e daí aquela real lei da liberdade” 113 da qual fala Tiago 1.25: “Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem aventurado no que realizar.”
O cristão, portanto, é livre da lei como um sistema de salvação pára conquistar a aceitação de Deus, mas está sob a lei de Cristo, como uma regra de vida. O problema é que, por si só, o homem nunca será capaz de cumpri-lá corretamente, é necessário algo mais: a graça. Como diz Packer, a ideia da graça é a chave que abre o Novo Testamento
e nós não poderemos penetrar em seu verdadeiro significado enquanto não conhecermos algo acerca do que é a graça.114
De acordo com Packer:
A palavra “graça” expressa a ideia de que Deus agé por bondade espontâneapara salvar os pecadores: Deus amando o não-amável, fazendo uma aliançacom eles, perdoando-lhes os pecados, aceitando-os, revelando-se a eles,comovendo-os a uma resposta, levando-os finalmente ao pleno conhecimentoe gozo de si mesmo e derrubando todos os obstáculos que surgem a cadaestágio ao cumprimento desse propósito. A graça é o amor eletivo mais oamor pactuante, uma escolha gratuita, resultando numa obra soberana. Agraça salva do pecado e de todo o mal; a graça traz homens ímpios à
verdadeira felicidade, que consiste em conhecer o Criador. Esse é o conceitode “graça”, com o qual escreveram os autores do Novo Testamento.115
Depois, então, de nos fazer lembrar de nossa fraqueza e impureza através da lei, Deus nos conforta através da sua graça e misericórdia. E é através de Cristo que ele faz isso. Segundo Calvino, em Cristo, a face de Deus brilha cheia de graça e bondade até mesmo pára os pecadores miseráveis e indignos. “Ele déu este admirável exemplo do
112 HODGE, A.A. Confissão de Fé de Westminster comentada. Trad. Valter Graciano Martins. SãoPaulo: Editora Os Puritanos, 1999, p. 348-349.
113 Ibid., p. 349.
114 PACKER, 1994, p. 86.
115 Ibid. P. 88.
seu infinito amor quando expôs seu próprio filhó por nós, e nele nos abriu todo o tesouro da sua clemência e bondade.”116
A graça nos capacita a cumprir a lei
A fé reformada tem, ao longo dos séculos, lutado por ensinar e viver averdade do evangelho e da lei mantendo o equilíbrio entre a lei e a liberdade,evitando a imoralidade gerada pelo antinomismo e a prisão do legalismo.Tanto um quanto o outro podem gerar resultados cáóticos pára a vida docristão e da sociedade. Ninguém melhor do que o Senhor da Igreja pára nosmostrar qual o mais excelente caminho pára interpretarmos a lei.117
A visão e o conceito que Paúlo tem da lei é determinado pela cruz de Jesus Cristo, ou seja, ele sempre interpreta a lei com os óculos da morte e ressurreição de Cristo. “Por esse motivo, nós vemos nos seus escritos que ele tanto nega como confirma a lei.”118 Mas por que isso? A negação da lei é afirmada em Gálatas 2.21: “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que Cristo morreu em vão.” Aqui nós vemos Paúlo negando a lei como base pára a justificação, ou seja, por causa da queda, a partir de Gênesis 3, o homem é incapaz de guardá-lá. O apóstolo nega a lei como meio de conseguir a aceitação de Deus.
Ao confirmar a lei, o apóstolo nos ensina que esta proíbe o pecado, ou seja, ele enfatiza o caráter negativo da lei, afirmando que ela é a Palavra de Deus dirigida contra o pecado, como podemos observar em Romanos 3.19: “Orá, sabemos que tudo o que a lei diz, aós que vivem na lei o diz pára que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus.” Através da lei, o poder do pecado é exposto, e ela conduz o homem cáído a Cristo, ainda que este seja incapaz de observá-lá por completo sem a ação do Espírito Santo.
116 CALVINO, Jóão. Instrução na Fé: princípios pára a vida cristã. Trad. Denise Meister. Góiânia:Editora Logos, 2003, p. 35.
117 MEISTER, 2003, p. 82.
118 TENNEY, Merrill [org]. Enciclopédia da Bíblia: Cultura Cristã. São Paúlo: Cultura Cristã, 2008, vol.3, p. 896.
No versículo 19 do capítulo 3 de Gálatas, quando Paúlo nos diz que a “lei nos serviu de aio pára nos conduzir a Cristo”, não significa que a lei, por causa de seus sacrifícios, sacerdotes e prescrições de purificação ofereceu um esboço de Cristo. A função da lei pretendida aqui não é de, num sentido positivo, conduzir gradualmente aqueles que estão debaixo dela a Cristo, mas sim de “prepará-los pára a redenção que
manifestou-se em Cristo como libertação desse cativeiro.”119
Segundo Gálatas 3.22: “Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, pára que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aós que creem”, ou seja, o homem é encerrado sob o pecado pela lei, e quando de fato entendemos a função da lei, a mesma lei previne o homem de tentar ser justo diante de Deus por qualquer outro modo que não a fé em Jesus Cristo e sua obra.
Embora o cristão não esteja sob a lei como um meio de aceitação por Deus, ele busca obedecer a vontade de Deus em conformidade com o padrão estabelecido na lei. O dom da justificação leva ao reconhecimento da tarefa da obediência.120 Primeiro, o cristão é justificado por Cristo, e então ele é habilitado pára cumprir a lei de Deus.
A lei de Moisés [...] foi introduzida, pára que a pecaminosidade latente no serhumano fosse trazida à tona, expressando-se visivelmente em transgressõesconcretas de mandamentos específicos. Foi, realmente, isso que aconteceu; alei causou um aumento do pecado; “mas onde abundou o pecado,superabundou a graça”121
Quando a graça de Deus nos alcança, entramos numa nova vida e o pecado não tem mais qualquer autoridade sobre nós, pois passamos a pertencer a Deus, que nos libertou da escravidão anterior. Deus concede ao seu povo o presente gratuito da vida eterna em Cristo, e então, unido a Cristo, o cristão que vive em pecado se torna uma contradição de termos.
119 RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paúlo: A obra definitiva sobre o pensamento doapóstolo aós gentios. Trad. Suzana Klassen. São Paúlo: Cultura Cristã. 2004, p. 159.
120 TENNEY, 2008, p. 896.
121 BRUCE, F.F. Paúlo: o apóstolo da graça, sua vida, cartas e teologia. Trad. Hans Udo Fuchs. SãoPaulo: Shedd Publicações, 2003, p. 321.
Essa mudança só a graça é capaz de fazer. A lei podia declarar a vontade de Deus, mas não podia conceder poder pára fazer essa vontade. A lei podia mostrar a pecaminosidade do ser humano, mas não podia libertar o homem da escravidão desse pecado. É por isso que a pessoa podia estar sob a lei, reconhecer sua autoridade, e mesmo assim estar sob o controle do pecado.
Como Bruce afirma, “a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, o que a lei jamais poderá fazer; paradoxalmente, a lei pode servir pára fechar com mais força as correntes do pecado em torno do pecador.”122 E quando a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, um novo poder interior é concedido a essas pessoas, capacitando-as a cumprir o que não podiam antes. Ou seja, sem a graça, é impossível se cumprir os mandamentos de Deus que existem na lei.
A diferença é que antes de recebermos a graça de Deus, a lei, ou seja, a vontade de Deus, estava registrada em tábuas de pedra, e a partir do momento em que recebemos a graça, o próprio Deus grava sua vontade em nossos corações.123 Um impulso interior
realiza o que a compulsão exterior não conseguia.124 Este impulso interior é realizado
pela graça de Deus que nos capacita a cumprir plenamente a vontade dele, ou seja, “a história da graça de Deus é centrada exatamente nisto, que essa obediência que o homem decaído é incapaz de prestar, outro prestou em seu lugar.”125 Paúlo tinha essa realidade em mente quando escreveu Romanos 5.19: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.”
A lei de Cristo
122 Ibid., p. 231.
123 Cf. Ezequiel 36.27 e Hebreus 8.10.
124 BRUCE, 2003, p. 193.
125 TENNEY, 2008, p. 896.
Embora não possamos ser aceitos por guardar a lei, depois que somos aceitoscontinuamos guardando a lei por causa do amor que temos a Deus, que nosaceitou e nos déu o seu Espírito pára nos capacitar a guarda-lá. Naterminologia do Novo Testamento, embora a nossa justificação não dependada lei mas de Cristo crucificado, a nossa santificação consiste nocumprimento da lei.126
Cristo foi aquele que viveu e cumpriu cabalmente todos os aspectos da lei de Deus. Ele nunca quebrou a lei civil e foi o cumprimento da lei cerimonial, viveu a lei moral perfeitamente, sem nunca ter cometido um pecado sequer.127 Assim, Cristo morreu sem merecer ser morto pára que seu povo pudesse ser salvo e pára que fosse imputada sua justiça sobre os eleitos.
Cristo nos libertou do jugo da lei, e quando Paúlo adverte alguns membros das igrejas gálatas a não usarem essa liberdade pára darem ocasião à carne, a corréção que ele aplica é: “Sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gálatas 5.13), fazendo uso da prescrição de Levítiço 19.18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Quando a lei é usada dessa maneira, ela não pode ser entendida legalmente.
A lei do amor é incapaz de ser imposta ou obrigada por autoridade externa.Antes, é o princípió espontâneo de pensamento e ação em uma vidacontrolada pelo Espírito de Cristo; é aceita e praticada por vontade própria.Paúlo estava convicto de que a liberdade do Espírito era um incentivo maisforte à boa vida do que todos os mandamentos ou decretos do mundo.128
Paúlo fazia parte do grupo religioso dos fariseus, um grupo legalista que conhecia a lei como ninguém. Ele relata em Filipenses 3.5-6: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quando ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.” No entanto, Jesus lhe apareceu no caminho pára Damasco (Atos 9) como o Messias, e passou a realizar em Paúlo e através dele algo que iá além do que a lei era capaz de fazer.
126 STOTT, 1989, p. 131.
127 Cf. Carta aós Hebreus que é um tratado bem detalhado de como Cristo cumpriu a lei cerimonial.
128 BRUCE, 2003, p. 181.
Enquanto a lei o estava levando pára longe de Deus, sua nova fé em Jesus o trouxe, consciente, pára uma condição de justiça perante Deus e de paz com ele.129 Seu zelo pela lei era cego, ele ignorava a justiça de Deus e tentava estabelecer sua própria justiça, mas a partir do momento em que ele recebe a graça de Deus, ele percebe que o “fim da lei é Cristo, pára justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10.2-4).
Agora, através de Jesus Cristo, somos capacitados a cumprir a lei, não pára conquistar a aceitação de Deus, mas como resultado dessa aceitação. Pára Paúlo, fazer a vontade de Deus “não é uma questão de conformidade a regras exteriores, mas de dar expressão ao amor interior, gerado pelo Espírito.”130
Portanto, a lei de Cristo é também chamada de lei do amor, pois quando Paúlo
escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”, ele está pensando na lei que Cristo exemplificou, ou seja, que o próprio Jesus disse que toda a lei e os profetas dependiam dos mandamentos gêmeos de amar a Deus e amar o próximo (Mateus 22.40). Paúlo havia entendido a mensagem de Jesus quando escreveu que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo com a ti mesmo.” (Gálatas 5.14).
A lei de Cristo, ou lei do amor é totalmente diferente da lei da escravidão. “O amor é gerado por uma espontaneidade interior e não pode ser forçado por sanções penais.”131 Portanto, a graça de Deus tem o poder de gerar em nós o desejo de cumprir a lei de Deus, não com o objetivo de conseguir a salvação, mas porque esta é a vontade de Deus e é isto que agrada a Deus. A lei do amor resume e engloba toda a lei de Moisés, e é por isso que Paúlo fala que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13.10).
Mas como a lei do amor resume e engloba os dez mandamentos dados à Moisés?
Ao olharmos pára os dez mandamentos, vemos que o primeiro grande mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas diz respeito aós quatro primeiros mandamentos
registrados em Êxodó 20.3-11: (1) “Não terás outros deuses diante de mim”, (2) “Não farás pára ti imagem de escultura”, (3) “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”, (4) “Lembra-te do dia de sábadó, pára o santificar”.
O segundo grande mandamento de amar o próximo com a ti mesmo diz respeito aós últimos seis mandamentos que se encontram em Êxodó 20.12-17: (5) “Honra teu pai e tua mãe...”, (6) “Não matarás”, (7) “Não adulterarás”, (8) “Não furtarás”, (9) “Não dirás falso testemunho contra teu próximo”, (10) “Não cobiçarás...”. É por isso que Cristo perfeitamente resume a lei com o amor, e fazendo isso, estaremos cumprindo perfeitamente a lei de Deus. “Essa, pára Paúlo, é a lei de Cristo, porque assim é que Cristo vivia. E dessa maneira, pára Paúlo, o propósito divino que subjaz à lei de Moisés,
é evidenciado e concretizado.”132
Sem a graça somos apenas escravos do pecado e inutilmente tentamos cumprir a lei por obrigação ou na tentativa de conquistar a Deus e fazer justiça com nossas próprias mãos, mas quando recebemos a graça de Deus, Cristo nos liberta do pecado e do peso da lei como meio de salvação. “Se somos cristãos, não é por nossos próprios méritos, mas pela vocação graciosa de Deus.”133
A liberdade que agora temos não é pára satisfazer a carne, nem explorar o
próximo e nem pára ignorar a lei. Todos os que foram libertados por Jesus Cristo e receberam a graça expressam sua liberdade de três maneiras134; Paúlo no-las ensina na sua carta aós Gálatas: (1) no domínio próprio, (2) no amor e no serviço ao próximo e (3) na obediência à lei de Deus. Paúlo nos encoraja a permanecermos firmes nessa liberdade com a qual “Cristo nos libertou” (Gálatas 5.1) e pára a qual fomos “chamados” (Gálatas 5.13), sem cair novamente na escravidão.
Assim, podemos perceber que a lei de Cristo que Paúlo nos fala diz respeito a amar aós outros como Cristo nos ama. “Amar ao próximo”, “levar os fardos uns dos
132 BRUCE, 2003, p. 195.
133 STOTT, 1989, p. 130.
134 Ibid., p. 131.
outros” e “cumprir a lei” pára Paúlo são expressões equivalentes que nos indicam que amar os outros como Cristo nos amou é a maneira de obedecermos a vontade de Deus. Segundo John Stott135, carregar os fardos uns dos outros é o grande ministério. É uma coisa que todo cristão deveria fazer. É uma consequência natural do andar no Espírito. É por isso que ele escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”.
Ao olhar pára esta afirmação de Paúlo em Gálatas 6.2 e pára a vida de Jesus Cristo nos evangelhos, perceberemos que foi exatamente através do amor que Cristo cumpriu toda a lei, foi exatamente assim que Cristo viveu neste mundo. Se pegarmos como exemplo o sermão do monte, veremos como Jesus interpretou corretamente a lei. Cristo reinterpreta a lei sobre o homicídio (Mateus 5.21-26), sobre o adultério (Mateus 5.27-32), sobre os juramentos (Mateus 5.33-37), sobre a vingança (Mateus 5.38-42) e sobre o amor ao próximo (Mateus 5.43-48), e todas as vezes que Jesus fala sobre alguma lei, ele usa a expressão: “Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo.”, trazendo uma interpretação verdadeira e fiel da lei de Deus. E ninguém melhor pára fazer isso do que o próprio filhó de Deus.
O teólogo John Frame em seu artigo chamado “Preaching Christ from the Decalogue”136 nos mostra como podemos enxergar Cristo ao observamos a lei moral dos dez mandamentos. Ele afirma que a lei nos mostra a justiça de Cristo, nossa necessidade de Cristo, a justiça de Cristo sendo imputada a nós e como Deus quer que demos graças pelo que Cristo fez em nosso favor. Frame sintetiza dessa maneira:
- O primeiro mandamento nos ensina a adorar a Jesus como úNicó Senhor, Salvador e mediador (At 4.12; 1 Tm 2.5).
135 Ibid., p. 145.
136 FRAME, John. Preaching Christ from the Decalogue. Disponível em:
http://www.Thirdmill.Org/files/english/html/ot/OT.H.Frame.X.Decalogue.Html> Acesso em 02 jun.2012.(Tradução nossa).
- No segundo mandamento, Jesus é a imagem perfeita de Deus (Cl 1.15; Hb 1.3). Nossa devoção a ele torna impossível a adoração de qualquer outra imagem.
- No terceiro mandamento, Jesus é o nome de Deus, o nome diante do qual todo joelho se dobrará (Fp 2.10,11; cf. Is 45.23)
- No quarto mandamento, Jesus é o nosso descanso sabátiço. Em sua presença nós cessamos os nossos afazeres diários e ouvimos sua voz (Lc 10.38-42)
- No quinto mandamento, nós honramos a Jesus que nos trouxe como seus filhos (Hb 2.10) à glória.
- No sexto mandamento nós o honramos como a vida (Jó 10.10; 14.6; Gl 2.20; Cl 3.4), Senhor da vida (At 3.14), como aquele que déu a sua vida pára que pudéssemos viver (Mc 10.45).
- No sétimo mandamento nós o honramos como o noivo que se déu pára nos lavar, pára nos fazer sua noiva pura e sem mancha (Ef 5.22,23). Nós o amamos como nenhum outro.
- No oitavo mandamento nós honramos Jesus como nossa herança (Ef 1.11) e como aquele que provê pára todas as necessidades do seu povo, nesse mundo e além.
- No nono mandamento nós o honramos como a verdade de Deus (Jó 1.17; 14.6), em quem todas as promessas de Deus são “sim” e “amém” (2Co 1.20).
- No décimo mandamento nós o honramos como nossa completa suficiência (2Co 3.5; 12.9) pára satisfazer tanto as nossas necessidades externas quanto os desejos renovados do nosso coração.
Podemos dizer então que a nossa obediência à lei não acontece e nunca poderá acontecer fora de Cristo. Tentar submeter-se à lei sem Cristo leva à escravidão, mas submeter-se à lei com Cristo, olhando pára Cristo e com o auxílio da graça de Deus é liberdade e vida. É nesse sentido que o apóstolo Paúlo pode afirmar em Romanos 10.4 que “o fim da lei é Cristo, pára justiça de todo aquele que crê.”
Considerações finais
Com o tema: “Lei e Graça: A perspectiva de Paúlo”, propusemos buscar uma interpretação fiel de como Paúlo lidava com esta doutrina e mostrar que quando temos uma interpretação errada de lei e graça, isso pode nos levar a certos perigos que prejudicam nossa caminhada cristã. A pergunta que guiou todo o trabalho foi: Pára quê serve a lei, na era da graça? A maior fonte de pesquisa foi o apóstolo Paúlo, e principalmente sua carta aós Gálatas, na qual pudemos constatar que lei e graça era um tema que gerava muitas preocupações e alvo de constantes corréções por parte de Paúlo.
Pára o apóstolo Paúlo, se a igreja tinha uma intepretação equivocada sobre a graça de Deus e as obras da lei, ela corria sérios riscos de perverter o evangelho da verdade. Por esse motivo ele insistentemente corrigia, exortava e doutrinava os cristãos a não se desviarem do verdadeiro evangelho. Nosso objetivo ao estudar este tema é o mesmo do apóstolo Paúlo: procuramos entender a doutrina da lei e graça e interpretá-lá corretamente, a fim de conduzir a igreja de Jesus Cristo sob uma doutrina correta, pára que não venhamos a perverter o evangelho da verdade.
No primeiro capítulo, fizemos uma análise da carta de Paúlo aós Gálatas, e de acordo com a visão reformada de Lutero e Calvino, sustentamos que através de Cristo somos libertos da lei como meio de salvação, pois sendo o homem pecador e impuro, ele não consegue, por si só cumprir as exigências da lei. É preciso de um fator externo que o auxilie, e este fator externo é a graça de Deus que veio através do Filhó de Deus, Jesus Cristo.
Em Gálatas nós vemos Paúlo exortando os crentes, muitas vezes com uma certa irritação, pois estavam tornando o evangelho de Cristo um evangelho legalista, e o que ele nos ensina é que todo aquele que tentar buscar a justiça por esforço próprio fracassará. A justiça com que somos justificados é a justiça de Cristo somente. Recebemos o Espírito Santo de Deus pela fé no filhó de Deus, e isto é feito pela graça e não por cumprir a lei. Isto é o que Paúlo nos ensina em sua carta aós Gálatas. A lei nos serviu como um guia pára nos conduzir até Cristo, ou seja, ela nos mostra nosso pecado e fraqueza e nos constrange a buscar a Cristo a fim de sermos perdoados e justificados.
No segundo capítulo, estudamos sobre um movimento que tem surgido pára confrontar a teologia tradicional da lei e graça. Esse movimento tem sustentado o que eles chamam de “A Nova Perspectiva de Paúlo”. Sanders e Dunn trazem uma nova proposta de interpretação, e afirmam que o Judáísmo da época de Paúlo não era legalista, antes, observava a lei como meio do fiel se manter dentro da aliança. Eles afirmam que a observância da lei Sérvia pára identificar e distinguir os judeus de todos os outros povos da terra. Mas através de uma análise cuidadosa, percebemos falhas nesta “Nova Perspectiva”, e em Gálatas 3.1-5 vemos o próprio Paúlo rompendo com a lei como meio de alcançar aprovação de Deus e assim, rompendo com o Judáísmo de sua época:
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foiJesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós:recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assiminsensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vosaperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, naverdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que ópera
milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação dafé? (Gálatas 3.1-5)
Não podemos aceitar esta “nova perspectiva” pois ela não interpreta a lei e a graça de uma maneira bíblica de acordo com a teologia paulina. Se optarmos por seguir Sanders e Dunn, passaremos a enxergar a doutrina da justificação como algo secundário e não mais como o coração do evangelho, conforme nos ensina a teologia reformada. Afinal de contas, a lei é pára os judeus que já estão na aliança, eles que já estão em Cristo, e a justificação é somente pára declarar que tal pessoa está na família da aliança.137 É apenas um reconhecimento deste pertencimento.
Mas nós cremos que a justificação tem um peso muito maior do que os teólogos da Nova Perspectiva nos apresenta. Pára nós, a justificação não é simplesmente uma declaração de membresia de uma pessoa na aliança. Quando Paúlo nos fala de justificação, ele fala de uma ação de Deus definitiva que efetua algo novo. Entendemos justificação como um ato divino que se aproxima do ato da criação, onde Deus determina nossa nova identidade, em vez de apenas reconhecer esta identidade.138
No terceiro e último capítulo, depois de ver o que o apóstolo Paúlo realmente pensava sobre a doutrina da lei e graça e como podemos interpretar corretamente esta doutrina, de uma maneira prática, respondemos a questão feita no início do trabalho: “Pára quê serve a lei na era da graça?”
Compreendemos dois perigos nos quais podemos cair ao lidarmos com a lei: o perigo de enfatizar demais a lei em detrimento da graça e sermos chamados de legalistas, ou de exaltarmos demais a graça a ponto de excluir totalmente a lei como se ela não tivesse nenhuma validade pára nós hoje. A isso damos o nome de antinomismo.
137 Píper, John. O futuro da justificação: uma resposta à N. T. Wright. Trad. Jonas Braga. Niterói:Tempo de Colheita, 2010, p. 50.
138 Pára mais informações sobre a doutrina da justificação defendida por N.T.Wright, que é um dos
teólogos da Nova Perspectiva, e rebatida por John Píper, cf. O livro do John Píper: “O futuro dajustificação: uma resposta à N. T. Wright”, onde ele trata especificamente sobre justificação.
Pára o legalista, Paúlo deixa bem claro em Gálatas 2.21 que “se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” Por colocar a ênfase na autodisciplina do homem, o legalista corré o risco de cair em dois pecados graves: o orgulho e a hipocrisia. Pára o antinomista, Paúlo escreve em Romanos 6.1: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, pára que seja a graça mais abundante?”. Pára o antinomista existe o perigo de pregar uma graça que não traz nenhum exigência por parte do crente, e que não corresponde à graça verdadeira de Jesus Cristo. A graça de Deus exige sim, arrependimento e obediência à vontade de Deus.
A melhor maneira de lidarmos com a lei de Deus é entendendo que somos pecadores e, consequentemente, somos incapazes de cumprir perfeita e corretamente a vontade de Deus. Por esse motivo Deus enviou seu filhó Jesus Cristo e toda a lei foi perfeitamente cumprida por ele. Sendo a justiça de Deus imputada a nós, pecadores, agora somos capacitados a cumprir a lei moral de Deus, pela graça e como resposta ao que Cristo já fez por nós na cruz.
Por isso concordamos com o que a CFW afirma em seu capítulo XIX, parágrafo VII que os “usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condiz com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente áquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se fáça.”
Pensando na vida eclesiástica, é importante que os cristãos tenham em mente que a salvação é obra exclusiva de Deus, mas que a graça não nos isenta de observarmos a lei de Deus por amor e em resposta à essa graça que nos capacita pára tal tarefa. A graça de Deus deve levar a Igreja a se comprometer cada vez mais com a lei moral de Deus, a amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo e a carregar os fardos uns dos outros. Assim, de acordo com Paúlo, estaremos cumprindo a lei de Cristo.
Quando a famosa frase “A igreja é o úNicó exército que abandona seus feridos no campo de batalha”139 se torna uma realidade, é sinal que não estamos cumprindo a lei de Cristo de carregar os fardos uns dos outros (Gálatas 6.2), não estamos amando a Deus como deveríAmós e muito menos amando o nosso próximo. Quando deixamos de carregar o fardo uns dos outros, estamos desobedecendo o cerne da lei, o maior mandamento, juntamente com amar a Deus sobre todas as coisas, que é amar o próximo. Consequentemente, deixamos de cumprir a lei de Cristo e desagradamos a Deus.
Com este trabalho, buscamos entender melhor a relação entre lei e graça e trazer de volta a responsabilidade da igreja de observar a lei de Deus e sair da passividade à qual muitas vezes o mal entendimento da graça nos leva. Devemos nos preocupar mais com o próximo, demonstrar nosso amor por Deus amando aqueles que nos cercam, entender que a vida cristã não é apenas vertical, em direção a Deus, mas é também horizontal, em direção ao nosso próximo. O que Paúlo nos ensina em Gálatas 6.2 é que quando amamos o outro e carregamos os fardos uns dos outros, estamos cumprindo a lei de Cristo e agradando a Deus. Este era o papel da igreja de Gálatas e este é o papel da Igreja de hoje.
O campo de estudo é vasto e há vários desdobramentos dentro da teologia. Existem vários aspectos que poderíAmós trabalhar dentro mesmo da doutrina da soteriologia. O próximo passo pára uma pesquisa e trabalho posterior seria estabelecer a importância da doutrina da lei e graça no processo de santificação do cristão, afinal de contas, a obediência à lei é uma resposta pela salvação e justificação recebidas em Jesus Cristo, e então, uma vez salvo, o crente entra em um processo de santificação que vai durar por toda a sua vida.
Chegamos ao fim deste trabalho com um sentimento de alegria e muitá gratidão a Deus por ter nos dado um entendimento maior acerca da doutrina da lei e graça e suas
consequências na vida cristã. Compreendemos, agora, porque o apóstolo Paúlo ficava tão preocupado com a interpretação errada e pervertida desta doutrina pois, como vimos, a interpretação correta desta doutrina vai determinar a maneira como vivemos a vida cristã e que tipo de ética vamos assumir em nossa caminhada.
Durante todo o desenvolvimento do trabalho, Deus esteve no controle conduzindo cada linha e cada parágrafo. As leituras foram feitas com determinação, todo o trabalho foi feito debaixo de muitá oráção e durante todo o processo fomos muito enriquecidos no que diz respeito à doutrina da lei e graça. Agora, cientes da nossa responsabilidade de ensinar e pastorear os cristãos na doutrina correta, podemos afirmar assim como Calvino:
O cumprimento da lei, assim, não é uma obra que pode ser realizada pelonosso poder; antes, depende do poder do Espírito. Através deste poder doEspírito, nossos corações são purificados de sua corrupção e amolecidos paraobedecerem a sua justiça. Pára os cristãos, o uso da lei é completamenteimpossível sem a fé, uma vez que, quando e onde o Senhor gravou em nossoscorações o amor pela justiça, o ensino externo da lei (que antes apenas nosacusava em nossa fraqueza e transgressão) agora torna-se uma lâmpada aguiar nossos pés até o fim pára que não nos desviemos do caminho certo. Elaé, agora, nossa sabedoria pela qual somos formados, instruídos e encorajadosa toda integridade e a nossa disciplina que não nos permite sofrer por sermos
dissolutos através de uma licenciosidade má.140
140 CALVINO, 2003, p. 45,46.
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