Renascimento Espanhol: Petrarca, Garcilaso e Picaresca

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Petrarca e o Humanismo (Século XIV)

Petrarca, poeta italiano, foi um expoente dos ideais humanistas do Século XIV. Produziu obras de inspiração latino-humanista (como Bucolicum Carmen), mas sua importância histórica reside nas composições em língua vulgar (romance).

Obras em Língua Vernácula

  • Triunfos: Poema alegórico em tercetos encadeados, composto por 6 partes ou capítulos de extensão desigual. Temas: amor, morte, fama, tempo, vergonha e eternidade.
  • Cancioneiro (Canzoniere): Afetou toda a poesia espanhola dos Séculos XVI e XVII, bem como a França e a Inglaterra. Formado por mais de 350 poemas, a maioria com temas de amor. Foi uma seleção e polimento de sua vida, inspirado por Laura de Noves.

Estrutura do Cancioneiro

A obra é dividida em duas partes:

  1. O tormento do poeta, a sensualidade do amor e da vida.
  2. O amante é mostrado na poesia sublime.

O Petrarquismo

O Petrarquismo serviu de modelo para a poesia europeia (Santillana, Ausiàs March, Boscán, Garcilaso), sendo herdeiro do amor cortês medieval.

Temas e Recursos

  • Assuntos: Lamento, desgosto, amor idealizado.
  • Recursos Clássicos: Alegoria, motivos mitológicos, comparações para mostrar as dores de um amor impossível e distante.
  • Linguagem e Estilo: Sentimentos e valores transparentes e polidos. Uso abundante de metáforas, antíteses, símiles, aliterações, correlações e paradoxos.
  • Métrica: Soneto, pentâmetro, silva, estância, écloga e ode.

A Poesia Espanhola no Século XVI

No Século XV, já existia poesia clássica e popular (canções, poesia cortês) com o uso do octossílabo. No Século XVI, houve uma difusão geral da poesia culta através do cancioneiro, com composições de amor cortês. A poesia popular continuou a prosperar com o romance.

A poesia do Século XVI foi dominada pela influência italiana, promovendo uma profunda renovação na métrica espanhola (pentâmetro, sonetos, tercetos, lira, silvas). Também afetou os temas:

  • Idealização do ser amado.
  • Temas bucólicos e pastoris.
  • Natureza idealizada.

Garcilaso de la Vega

Garcilaso de la Vega é o grande lírico do Renascimento espanhol, influenciado pela cultura latina e pelos temas e formas renascentistas. Sua poesia se caracteriza pela transparência da linguagem e pela expressão de tópicos como:

  • Locus Amoenus (belas paisagens).
  • Idealização da beleza feminina.
  • Carpe Diem (a fugacidade da vida).

Obras de Garcilaso

Éclogas

Poemas bucólicos que se passam em belas paisagens.

  • Écloga I: Salício e Nemoroso lamentam a morte de Elisa e Galatea, fundindo sentimento, natureza e ambiente pastoral.
  • Écloga III: Quatro ninfas bordam em tecidos cenas que evocam tragédias de amor: três mitos clássicos e um novo amor (o poeta eleva o mito de Elisa e Nemoroso, Isabel e Garcilaso). A obra termina com um desafio entre dois pastores e o mergulho das ninfas no rio, destacando a beleza da paisagem pastoral idealizada.

Sonetos

Garcilaso foi o primeiro grande mestre desta forma. Os sonetos são organizados em blocos temáticos de amor e desilusões, timidez, ciúmes e lamentos.

Canções

Destacam-se a Canção III e a Canção V.

  • Canção III: Escrita durante seu exílio na ilha do Danúbio. É o primeiro uso do locus amoenus com sentimento natural.
  • Canção V (Ode à Flor de Gnido): Tenta convencer uma dama de Nápoles a aceitar o amor de um amigo. Utiliza a métrica da lira.

A Novela Picaresca: Lazarillo de Tormes

O romance alcançou grande desenvolvimento no Século XVI, culminando com o aparecimento da obra de Cervantes. Havia dois tipos de romance:

  • Realista: Como Lazarillo de Tormes, que reflete a descrição da vida real.
  • Romântico-Idealista: Descreve um mundo ficcional (paisagens, eventos e sentimentos), como Amadis de Gaula e a série de livros de cavalaria (Amadis da Grécia e Palmeirim de Oliva).

Lazarillo de Tormes

As primeiras quatro edições de Lazarillo de Tormes foram publicadas em 1554, em diferentes locais (Alcalá de Henares, Medina del Campo e Antuérpia). Acredita-se que tenha sido escrito entre 1529 e 1532. O autor é anônimo, possivelmente para evitar represálias por criticar o clero e o Erasmismo.

Sinopse e Estrutura

Lázaro serve a vários mestres: o cego, o clérigo de Maqueda, o escudeiro de Toledo, Frei da Misericórdia, o buldero (vendedor de bulas), um pintor de pandeiros, o capelão e o meirinho. Por fim, casa-se com a criada e amante de um arcipreste.

A trama consiste em um prólogo e sete tratados (capítulos). O livro tem forma autobiográfica: o narrador escreve para uma certa pessoa que lhe pediu para contar os rumores sobre a infidelidade de sua esposa. Lázaro não se limita a responder, mas conta toda a sua vida, criticando o modo de vida de seus mestres. A unidade estrutural se fecha e se abre com a referência ao “caso”.

Os três primeiros capítulos são longos, pois é neles que Lázaro forja sua personalidade.

Temas e Críticas

Muitos episódios se centram na decepção, com personagens que representam o povo da época. A obra critica a falta de misericórdia da sociedade para com os necessitados. A fome se torna uma forma peculiar de aprendizado.

  • Crítica Religiosa: Crítica sutil ao clero e à falsa religiosidade.
  • A Honra: Refletida no romance como pura aparência (o escudeiro, por exemplo, que não pode trabalhar, pois seria uma desgraça).

Estilo e Linguagem

O romance inaugura o realismo que florescerá mais tarde com Cervantes. Embora não recuse trocadilhos, busca uma linguagem popular e colorida que confere maior credibilidade à narrativa. A ironia abunda, dando forma a uma visão crítica.

Características da Novela Picaresca

Embora não tenha nascido com o rótulo de “romance picaresco”, a obra é uma crítica social sobre a vida de um jovem de pais ignóbeis que recorre à esperteza e astúcia para sobreviver aos seus senhores. As características do gênero são:

  • Narrativa em 1ª pessoa.
  • Caráter realista.
  • O protagonista não tem honra familiar.
  • Não há mudança de classe social.
  • Estrutura de trabalho em aberto (serviço a vários mestres).

Poesia Ascética e Mística

Poesia Ascética: Frei Luis de León

A poesia ascética busca a purificação (purgativa) e a iluminação. Frei Luis de León é herdeiro do Renascimento em forma e substância, utilizando estrofes, versos heroicos e liras (heptassílabos e hendecassílabos), com tópicos clássicos e religiosos italianos. Sua linguagem é acessível e muito cuidada.

  • Poesia: Cerca de 30 poemas. Expressa o desejo de paz, a busca pelo descanso espiritual e a felicidade de contemplar a beleza criada por Deus.
  • Prosa: Destaque para suas traduções da Bíblia (não literais), acompanhadas de comentários próprios. Obras originais: De los Nombres de Cristo e La Perfecta Casada, que comentam os caminhos de Cristo e os deveres e virtudes da mulher cristã.

Poesia Mística: San Juan de la Cruz

A poesia mística passa pelas três vias: Purgativa, Iluminativa e Unitiva. San Juan de la Cruz expressa a alegria e a emoção da alma ao encontrar Deus (Amor Divino) em poemas como:

  • Noite Escura
  • Cântico Espiritual
  • Chama Viva de Amor

Sua lírica faz uso abundante de alegoria, paradoxo, imagem e símbolo para mostrar o estado mais elevado de felicidade: a união mística da alma com Deus.

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