Renascimento e Maneirismo: A Revolução das Artes
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No século XV, o Império Bizantino caiu. Ao ter sido tomado pelos Otomanos (povo islâmico), os intelectuais e artistas bizantinos fugiram para a Itália, levando a tradição clássica de raízes gregas que foi a base da renovação cultural e artística do Quattrocento italiano. Paralelamente, e apesar dos problemas que atingiram a Europa no século XV, como o Grande Cisma do Ocidente e a Peste Negra, a progressiva dissolução do poder feudal (e de todo o mundo medieval, em geral) e um crescente otimismo nas crenças nas potencialidades do homem levou à emersão de um novo espírito, alicerçado no renascimento do Humanismo e do Classicismo antigos. Todavia, a influência da Igreja também influenciou este desenvolvimento, o que levou à constituição de uma nova arte tão clássica como cristã.
No século XV, a Itália encontrava-se dividida em vários ducados, repúblicas e reinados rivais. Esta rivalidade trouxe uma grande oportunidade à arte, estimulando o seu desenvolvimento. O constante desejo de cada cidade-estado superar as outras cidades traduziu-se numa vasta produção artística e os novos ricos (banqueiros, mercadores... burgueses, em geral), procurando suplantar a classe de linhagem nobre, aculturaram-se e transformaram-se nos principais protetores das artes (mecenas). As cidades-estado, nascidas a partir do poder de importantes burgueses e impulsionadas para o desenvolvimento devido aos conflitos constantes no Sacro Império Romano-Germânico (que, nesta altura, era quase toda a Itália), foram o palco da emergência de um novo tipo de artistas e intelectuais, disputados pelos burgueses mais ricos. Esta emergência foi em parte instigada pela instabilidade política, que engrandecia a rivalidade e o desejo de ter o melhor.
A Arte e a Autonomia do Artista
Ao nível da arte em si, esta caracterizou-se pelo seguimento da linha naturalista já introduzida no Trecento, de reminiscência greco-romana. O intenso estudo perspético foi o que mais marcou as obras, apesar de ter havido outras renovações estéticas. O artista e a obra do Renascimento sofreram alterações profundas na sua relação com o contexto: a obra adquire independência, já não precisava de ser fiel a um programa iconográfico para ter qualidade, e o artista ganha autonomia, sendo valorizada a originalidade, subtileza de forma e nível de invenção, em vez de apenas qualidades técnicas ou escolha dos materiais.
O Renascimento foi a transição mais revolucionária desde o início da Idade Média. Ao contrário de outras correntes como o românico e o gótico, não se limitou a reformular o mesmo conceito; formatou toda uma linguagem com bases totalmente novas, centradas na intelectualidade profana, no homem e na natureza. Todavia, esta corrente não nasceu do nada. Relembrando os grandes feitos intelectuais e artísticos da época greco-romana, os humanistas italianos seguiram os modelos antigos, tentando pôr um fim à decadência que, segundo eles, se abatia sobre estas áreas há já dez séculos, incluindo toda a idade medieval, mais concretamente o período gótico, que consideravam bárbaro.
Pioneiros e Tratadistas
Os primeiros passos na direção da renovação apareceram logo no século XIV com Dante e Petrarca, em suas obras. Estes e outros florentinos, dinamizadores do principal foco de desenvolvimento e divulgação do Renascimento no seu início, frustrados com a direção que a Itália estava a tomar comparativamente aos tempos de glória da época romana, investiram na regeneração, recuperando a língua, as instituições e o esplendor do passado que se esfumava. Encontraram na arte clássica as bases sólidas para a regeneração artística. Outros factos que deram impulso a esta reelaboração artística foram a descoberta do tratado De Architectura de Vitrúvio, obra que se tornou a base do estudo de arquitetura de todo o artista renascentista. Houve igualmente o desenvolvimento de teses e investigações baseadas nesta obra, como por exemplo De Re Aedificatoria, de Alberti: esta teoria arquitetónica traduziu o pensamento vitruviano para o novo vocabulário renascentista e defendeu esta área como uma disciplina de bases racionais e científicas.
Petrarca foi um dos pioneiros do Renascimento e exemplo do homem renascentista (polivalente, interessado em todas as questões, universal). Contrapondo-se à submissão religiosa que afetava todos os pensadores da Idade Média, Petrarca defendeu o estudo dos textos clássicos, propondo a investigação das humanidades — conjunto de disciplinas a estudar nos autores clássicos numa perspectiva profana. Este pensador iniciou o que viria a ser a quebra com o dogmatismo puramente religioso e o início da crença no homem.
A Nova Percepção do Mundo
Toda a reformação que se iniciou na Itália não apareceu, obviamente, desligada de uma renovação nas ideias, conceitos e perceção do mundo em redor. Apesar de, para o homem renascentista, Deus continuar a ser o criador do homem, este já possuía livre-arbítrio para proceder às suas decisões. Este novo sentido deu liberdade ao renascentista, que vai considerar e valorizar a obra humana. O pensamento também seguiu esta linha: o dogmatismo que penetrava os pensadores medievais, refletido na crença nos sentidos e num certo descuido da razão, foi substituído pela racionalidade. Para solidificar esta visão objetiva do mundo, na arte visual, o homem serviu-se de instrumentos de rigor, como a pintura a óleo e a perspectiva linear.
O papel do artista na sociedade também sofreu uma grande alteração. Inspirado e seduzido pela curiosidade de descobrir o mundo, o artista passou a ser um humanista, o homem universal, cujo caso paradigmático foi Leonardo da Vinci. A erudição do artista também lhe deu a capacidade de se individualizar, o que se refletiu no reconhecimento das próprias obras e consequente assinatura. O estilo que nasceu em Florença e que acabou por alastrar-se a toda a Europa foi fruto, essencialmente, do trabalho de três artistas: Brunelleschi, Donatello e Masaccio.
Arquitetura: A Manifestação Matemática de Deus
A arquitetura renascentista foi profundamente influenciada pelo pensamento racional e a renovação formal foi exatamente alicerçada nessa nova visão do mundo. A base da formulação arquitetónica foi, tal como na antiga Roma, a geometria e a matemática, que eram a revelação da ordem de Deus no universo (a influência da Igreja não foi neutralizada nesta radical mudança). Esta nova arquitetura foi igualmente marcada pelo retirar do supérfluo (criando um movimento contrário ao gótico), pelo primor através da simplicidade e pela busca da perfeição divina. Estas características revelam-se no uso da luz branca inalterada vinda do exterior e no uso do quadrado e do círculo como elementos formais mais importantes. O desenvolvimento de uma obra arquitetónica também evoluiu imensamente. Os trabalhos iniciavam-se sempre no desenho, sendo este considerado fundamental no processo criativo. O estudo/projeto ganhou valor na conceção do edifício, apoiado pela geometria, que era o elemento estruturante do espaço arquitetónico.
A Cúpula de Santa Maria del Fiore de Brunelleschi
Em 1418, Brunelleschi ganhou o concurso para a execução da cúpula da catedral de Santa Maria del Fiore, que acabou por se distinguir como caso paradigmático da arquitetura renascentista. Através da introdução de novas técnicas construtivas, o artista conseguiu dispensar alguns elementos de reforço, fazendo toda a estrutura mais leve. A utilização de dois grandes cascos unidos entre si foi a chave para o sucesso desta obra. Mas mais do que o prodígio técnico alcançado, a obra, com a sua simples estrutura octogonal com o nervurado de sustentação, encerrou o programa formal e conceptual da época medieval.
Alberti e De Re Aedificatoria
No tratado De Re Aedificatoria, Alberti expôs o seu pensamento sobre o que deveria ser a arquitetura. Tomando por base o desenho "é una cosa mentale" de Leonardo, o teórico interpretou e atualizou os conceitos que Vitrúvio havia introduzido. Alberti recuperou também a linguagem formal da Antiguidade, como o seu vocabulário, e estabeleceu as normas e princípios segundo os quais se deveria adaptar as antigas tipologias às novas necessidades.
Escultura e Pintura: O Valor do Espaço
Os pintores flamengos, através do estudo por experimentação e empiricamente, descobriram uma forma de representar o espaço e situar as figuras. Paralelamente, para atingir o mesmo fim, os artistas florentinos usaram um método científico e rigoroso: a perspectiva linear, descoberta por Brunelleschi. Esta, além de ser mais rigorosa, concedeu aos artistas uma nova liberdade para o estudo do espaço, mais racional e compreensível.
O primeiro artista a introduzir este método na pintura foi Masaccio. Revolucionando esta forma de expressão, este artista baseou-se no trabalho de Giotto, dando-lhe uma continuação de direção renascentista. Uma das mais importantes características adotadas foi a rejeição do decorativismo gótico. Na escultura, foi Donatello que introduziu a linha renascentista. A influência de outros artistas florentinos, como Masaccio, é perfeitamente visível, tanto no método como no resultado. Donatello revolucionou a escultura, reintroduzindo a expressão na pose, o nu e o contrapposto. Voltou a libertar a figura da rigidez estática imposta pela época medieval, o que revitalizou a estatuária, concedendo-lhe personalidade e individualidade psicológica.
O Tempietto de Bramante
O Tempietto foi a obra que conseguiu reconciliar a tradição clássica e a fé cristã. Inspirando-se nos templos perípteros de Delfos e Tivoli, Bramante constituiu um edifício em que os ideais clássicos se expunham, contudo, ao serviço da Igreja. Através da substituição da temática pagã por elementos religiosos católicos, o artista conseguiu conciliar as proporções, a planta e a forma com os princípios cristãos.
David de Miguel Ângelo
Apesar de estar no limiar entre o Renascimento e o Maneirismo, o David reuniu as características greco-romanas que lhe dão a firmeza, perfeição e beleza de obra divina. Trazida à vida após um estudo detalhado da rocha que lhe iria dar forma, esta estátua foi a primeira estátua monumental do Renascimento, produzida com o intuito de ser exposta em frente ao Palazzo Vecchio, como símbolo cívico da República de Florença. Nesta obra distinguem-se a harmonia e o espírito humanista e idealista na expressão. Contudo, aspetos como a sensação de inquietude que jaz na estátua e o inconformismo revelado na posição escolhida criam uma certa ambiguidade que leva a poder-se considerar esta obra como maneirista.
O Maneirismo: A Arte da Inquietude
O período do Maneirismo iniciou-se por volta de 1520. Foi caracterizado por algumas mudanças no campo do visível na arte, mas com grandes alterações no pensamento. No segundo quartil do século XVI, a Europa encontrava-se desagregada e a Igreja dividida: verificava-se uma grande instabilidade política e guerras, e a Igreja tinha sofrido uma quebra ideológica que se refletiu no movimento da Reforma. Assim, aos tempos de certeza e racionalidade (positivismo humanista) sucederam tempos de dúvida, angústia e inquietação.
A crise política da Itália acabou por atingir o seu centro, capital da religião cristã. Assim, a Igreja foi inevitavelmente afetada. Paralelamente, nos países nórdicos, iniciou-se o movimento da Reforma, que criticava o excessivo protagonismo político em detrimento do espiritual na Igreja. O impulsionador deste movimento foi Martinho Lutero, conseguindo expandir as suas ideias pelo mundo germânico e escandinavo. Lutero defendeu uma Igreja liberta da tutela política e financeira, pelo que foi aceite pelos religiosos mais puritanos do norte da Europa.
A Igreja, descontente com este protesto, iniciou a Contra-Reforma, com o intuito de reunificá-la. O programa deste movimento foi apresentado no Concílio de Trento, em que se definiu um conjunto de prescrições dogmáticas e reformas disciplinares que ajudariam a restabelecer a unidade católica. Analogamente, surgiu uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, que tinha o objetivo de defender e expandir a fé cristã. Esta nova ordem introduziu um novo tipo de templo, constituído por uma só nave majestosa, mais apropriada a divulgar esta nova visão da religião.
A coexistência destes dois movimentos opostos causou instabilidade tanto a nível político como religioso e social. Aumentaram, neste período, os autos-de-fé, as perseguições, as fomes e a destruição de livros. No que diz respeito à relação arte-igreja, estes movimentos foram de encontro um ao outro: o reformista defendeu a iconoclastia, enquanto o contra-reformista reforçou a defesa das imagens sagradas, afirmando que estas eram o veículo da fé.
Novas Formas e Expressividade
A nível formal, esta instabilidade trouxe muitas novidades: por consequência destas mudanças, dá-se a dissolução dos modelos perfeitos, da racionalidade universal e do conjunto de ideias cultivado pelo Renascimento, aparecendo o movimento, a torção e a deformação, substituindo a harmonia, a ordem e a proporção. A abolição da fronteira entre as artes criou uma nova gama temática: o culto do insólito foi ampliado, e o imaginário e o fantástico começaram a aparecer. Esta nova realidade artística ofereceu o aprofundamento das possibilidades técnicas e plásticas.
A figura que inaugurou o Maneirismo foi Miguel Ângelo, já no fim da sua carreira. Este artista libertou a expressão do capricho pessoal, incluindo nas suas obras a sua própria interpretação mais evidentemente. Mais tardiamente, outros artistas desenvolveram as suas obras nestes termos, entre os quais Parmigianino, Giulio Romano e El Greco. O Maneirismo também foi marcado por um grande desenvolvimento na tratadística. Ainda ancorada em Vitrúvio, desenvolveu os aspetos formais e ajudou a difundir esses modelos pela Europa. Um importante tratado foi o de Serlio, que incluía imensas figuras para suplementar informativamente o texto e que serviram de base visual e informativa para a expansão desta linguagem arquitetónica pela Europa.
Vasari definiu, mais tarde, o Maneirismo de uma forma pejorativa, designando-o como arte afetada, cheia de artificialidades, afastada do equilíbrio e racionalismo humanistas. Contudo, o Maneirismo acabou por ser uma busca por maior expressividade formal e plástica, com a introdução de um estilo mais pessoal e individual, criando novas hipóteses artísticas.