A Restauração Monárquica Espanhola (1876-1902): Política, Sociedade e Crises
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A Restauração Monárquica na Espanha (1876-1902)
Este longo período da história espanhola, que se seguiu ao reinado de Isabel II e foi marcado pela criação de um novo direito político pelos líderes dos principais partidos (Conservador e Liberal, herdeiros dos grupos moderados e progressistas), inclui o reinado de Afonso XII e a regência de Maria Cristina de Habsburgo. Presidido pela Constituição de 1876, este período seria seriamente abalado pelo impacto da Guerra em Cuba e pelo desastre de 1898. O indiscutível crescimento econômico dos últimos tempos não permitiu, contudo, alcançar o nível de desenvolvimento das grandes potências, imersas na chamada Segunda Revolução Industrial. A sociedade da Restauração continuou caracterizada por atraso, analfabetismo e uma distribuição desigual da riqueza.
O Retorno dos Bourbons e o Início da Restauração
O regresso dos Bourbons, após o golpe do General Pavía e a dissolução do Parlamento, estabeleceu um governo provisório. Em teoria, a República ainda estava em vigor, mas na prática era uma ditadura militar do General Serrano. Um aumento de impostos e novas manifestações permitiram travar o avanço carlista. No entanto, no final do ano, a posição de Serrano já era frágil, enquanto o apoio à causa afonsina crescia entre as classes médias e dentro do Exército.
O Príncipe Afonso assinou o Manifesto de Sandhurst, seguindo o conselho de Cánovas, garantindo o diálogo e a monarquia constitucional, e a sua vontade de aceitar muitos dos progressos políticos alcançados na administração. Cánovas preparava o regresso à monarquia, mas generais monárquicos avançaram e proclamaram em Sagunto, a 29 de dezembro de 1874, em favor da monarquia. O governo não ofereceu resistência e demitiu-se. Cánovas formou um gabinete e preparou a proclamação de Afonso como Rei.
Consolidação do Regime e Fim da Guerra Carlista
Para restabelecer a autoridade da Coroa, Cánovas nomeou novos governadores e prefeitos monárquicos e decretou uma série de medidas repressivas contra a oposição. A repressão, contudo, foi seletiva; Cánovas manteve contato com líderes progressistas e procurava que os democratas aceitassem a monarquia e se juntassem ao novo regime político.
A campanha final contra os carlistas permitiu a queda da primeira zona carlista catalã e o estreitamento do cerco ao núcleo de Navarra e País Basco, culminando na sua rendição em 1876 (após o Manifesto de Somorrostro). O Carlismo foi militarmente derrotado, mas o sentimento regionalista e o movimento tradicionalista ultraconservador e católico permaneceram vivos.
O fim da Guerra Carlista permitiu o envio de tropas para Cuba. Por dois anos, a negociação foi combinada com uma liderança militar eficaz. A Paz de Zanjón, que pôs fim à guerra em 1878, incluía uma ampla anistia, a liberdade dos escravos asiáticos e uma série de reformas legais.
O Sistema Canovista e a Constituição de 1876
Bases Políticas do Sistema Canovista
Antonio Cánovas foi a figura chave da Restauração. Seu primeiro objetivo foi estabelecer firmemente a monarquia, até mesmo acima da Constituição. Para ele, a Monarquia e o Parlamento eram os dois pilares da história da Espanha. A Coroa deveria recuperar o prestígio perdido durante o reinado de Isabel II. Cánovas pensava numa monarquia que partilhasse a soberania com o Parlamento, com a disponibilidade de uma vasta experiência e, sobretudo, desempenhasse um papel ativo na vida política.
Características da Constituição de 1876
As eleições de dezembro para as Cortes Constituintes foram convocadas sob sufrágio universal. O processo eleitoral foi manipulado para assegurar uma larga maioria dos candidatos do Governo. A Constituição de 1876 é um texto flexível, de modo a permitir que os partidos estáveis aceitassem o sistema. Sua inspiração é doutrinária e conservadora. O projeto de direitos e deveres é amplo e inclui quase todos os ganhos de 1869.
Poderes do Estado e Questão Religiosa
No que diz respeito aos poderes do Estado, a Constituição estabelece o princípio da soberania compartilhada, afirmando que o poder de fazer leis reside nas Cortes com o Rei. A Coroa podia vetar um projeto de lei. As Cortes são bicamerais, com uma câmara superior composta por três tipos de senadores:
- Por direito próprio;
- Por nomeação real;
- Eleitos pelas corporações e pelos maiores contribuintes.
O poder executivo é exercido pela Coroa através de ministros, que são responsáveis perante as Câmaras. O rei escolhe livremente o chefe de governo e não é responsável perante as Cortes. O texto mantém a independência do poder judicial e o código de unidade.
A questão religiosa é resolvida com o reconhecimento do catolicismo como religião oficial do Estado, garantindo a manutenção do culto e do clero. Alguns dos mais importantes artigos da Constituição de 1876 incluem:
- Os deputados eram eleitos e podiam ser reeleitos indefinidamente, pela forma prescrita pela lei.
- Todos tinham o direito de expressar livremente suas ideias e opiniões, de reunião pacífica, de petições individuais ou coletivas ao Rei, às Cortes e às autoridades.
Acontecimentos Políticos e Crises (1885-1902)
O "Parlamento Longo" e as Reformas Liberais
Entre 1885 e 1890, governou o Partido Liberal, com Sagasta à frente, e este período foi chamado de "Parlamento Longo", o único da Restauração que durou quase até ao limite constitucional. O governo de Sagasta implementou um programa de maior abertura política. Ele restabeleceu a liberdade de ensino, a liberdade de imprensa foi restaurada, expandiu-se a liberdade de associação e aprovou um novo Código Civil. Mas a reforma mais importante ocorreu em 1890, através da nova lei eleitoral que estabeleceu o sufrágio universal masculino, embora seus efeitos tenham sido atenuados, naqueles anos, pela manipulação eleitoral.
Governos Conservadores e a Crise Econômica
Entre 1890 e 1892, governaram os conservadores. Nesta fase, a mais significativa foi a aprovação da Lei Tarifária de 1891, devido à crise econômica europeia.
A Guerra de Cuba e o Desastre de 1898
Os liberais voltaram a governar a partir de 1892. Seu mandato destacou a proposta de reforma da administração e do governo de Cuba, que acabou por ser retirada. Meses depois, em fevereiro de 1895, a insurreição eclodiu, resultando na Guerra em Cuba. A partir de 1890, a Guerra em Cuba, o choque entre os líderes políticos e a depressão econômica começaram a comprometer o sistema da Restauração.