Ricardo Reis e Alberto Caeiro: Estética e Natureza

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Ricardo Reis, o heterónimo pessoano de formação clássica, evidencia, nos seus poemas, a perceção clara da efemeridade da vida e do tempo. De facto, a sua consciência aguda da passagem implacável do tempo e a impotência do homem para lutar contra essa inexorabilidade levam o sujeito poético a optar pelo carpe diem, pela fruição do tempo presente, procurando sempre os prazeres moderados (a sua faceta epicurista) e aceitando calma e serenamente a ordem natural das coisas e do destino e os limites da condição humana, apregoando valores estoicos.

Assim, na sua poesia, convida-nos a viver tranquilamente (ataraxia), pensando o menos possível e a esperarmos que as coisas aconteçam: "Não vale a pena fazer um gesto, pois a vida passa como um rio, quer nos preocupemos quer não."

Alberto Caeiro é o heterónimo pessoano que se identifica com o real objetivo, sendo-lhe suficiente observar os fenómenos do mundo exterior, sem comentar. Segundo Maria José Peixoto, Caeiro apresenta-se como um guardador de rebanhos, preocupando-se em ver de forma objetiva e natural a realidade circundante. Assim, é o poeta da objetividade.

Poeta do olhar, procura ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ("As coisas não têm significado, têm existência"). Não lhe interessa o que se encontra por trás das coisas. Ver é conhecer o mundo, por isso pensa com os olhos, com as mãos e os pés, o mesmo é dizer que é um sensacionista.

Para Caeiro, o pensamento falseia o que os sentidos captam, logo recusa o pensamento metafísico, intelectualizado; surge como um poeta antimetafísico, a quem só interessa a errância pela Natureza, que lhe apela aos sentidos.

Resumindo, Caeiro é o "argonauta das sensações verdadeiras... homem primitivo", como afirma Manuel de Gusmão. Na poesia de Alberto Caeiro, a definição de homem ideal é a de um homem anterior à consciência, ao conhecimento e à ciência. Como o poeta valoriza a identificação com a natureza, defende-se que o homem volte à sua condição de "animal humano", esse sim próximo da natureza e livre da intelectualização.

A poesia de Caeiro é, assim, um exercício de teorização feito por um "guardador de rebanhos" que filosofa contra a filosofia e mostra como deve ser a vida num puro sensorialismo. Por isso, o poeta condena com veemência "os poetas que são artistas e trabalham nos seus versos como um carpinteiro nas suas tábuas". São os sentidos que permitem atingir o âmago das coisas, devendo, portanto, libertar-nos do exercício de conhecimento que fazemos sobre as sensações.

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