Rigor e Relevância na Pesquisa em Administração no Brasil
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Em 2011, celebramos dois marcos importantes na história do ensino e da pesquisa em administração no Brasil. O primeiro são os 70 anos da criação do primeiro curso destinado à formação de administradores, a Escola Superior de Administração de Negócios (ESAN), em São Paulo. O segundo são os 50 anos da primeira edição do periódico científico mais tradicional em administração, a Revista de Administração de Empresas (RAE), publicada e mantida pela FGV-EAESP.
Neste artigo, recuperamos as trajetórias do ensino e da pesquisa em administração no Brasil para discutir desafios atuais relacionados à construção da relevância de nossa produção científica. Criados originalmente para fomentar e complementar os programas de formação profissional, os periódicos das escolas de administração tornaram-se, mais recentemente, ferramentas essenciais ao debate e à divulgação da produção acadêmica dos programas de pós-graduação. Argumentamos que essa evolução impôs tensões entre a pesquisa acadêmica e a tradição da formação profissional, ou, ainda, entre rigor e relevância.
A Evolução da Produção Científica
Esse processo, que impôs à comunidade de leitores a ênfase no rigor teórico-metodológico, permite-nos reconhecer a trajetória de amadurecimento e consolidação de nossa área acadêmica como campo de conhecimento, por meio da evolução de nossos periódicos, que se firmaram como arenas do debate científico. Contudo, ao longo desse processo, restringimos nosso alcance e relevância à comunidade de pesquisadores da área.
Após o crescimento das submissões na última década, reconstruir a relevância de nossa produção científica tornou-se um objetivo legítimo. Diante disso, arriscamos uma provocação: devemos avançar no debate sobre o impacto de nossa produção.
O que é Relevância? O que é Rigor?
Apesar de seu uso corrente no debate acadêmico, a ideia de relevância do trabalho científico não vem sendo definida com precisão por abarcar ambiguidade e complexidade. De modo geral, a relevância diz respeito ao consenso social em torno da importância e pertinência dos problemas tratados (VASCONCELOS, 2009).
O rigor, por sua vez, implica a construção teórica e conceitual cuidadosa e a observância a estritos ditames metodológicos. Argumentamos que nossas práticas científicas vêm privilegiando o rigor em detrimento da relevância, embora a fundamentação de um trabalho científico de valor social significativo exija o equilíbrio entre ambos.
Produção e Disseminação de Conhecimento no Brasil
A discussão sobre a relevância da produção acadêmica em administração faz-se presente e suas críticas encontram pertinência em nossa comunidade. A última década viu consolidar-se o debate sobre a qualidade de nossa produção científica. De fato, somos facilmente tentados a refletir sobre a existência de uma comunidade acadêmica fechada: poucos praticantes da administração frequentam o Enanpad ou são assinantes de nossos periódicos.
Estudo de Caso: A Trajetória da RAE
Um caso especial que ilustra a evolução das publicações da área é o da RAE, criada em 1961. A análise de sua trajetória revela uma inflexão importante: de uma revista científica que refletia o pensamento da EAESP, direcionada à classe emergente de administradores, para uma ferramenta essencial ao debate científico no círculo especializado de pesquisadores.
RAE em seus 50 anos
- Década de 1960: Foco em textos fundamentais, conceituais e técnicos para a formação profissional.
- Década de 1970: Textos mais analíticos e aprofundamento de temas econômicos e sociais.
- Década de 1980: Consolidação como periódico voltado ao management e introdução de temas como estratégia e comportamento organizacional.
- Década de 1990: Transição para o público acadêmico e início da normatização da pós-graduação.
- Década de 2000: Adoção de padrões internacionais de rigor e revisão por pares (blind review).
Discussão: O Desafio de Construir a Relevância
O debate sobre a relevância da pesquisa em administração é global. Ao privilegiarmos o rigor em detrimento do impacto entre praticantes, corremos o risco de afastar a academia das necessidades reais da gestão. Situar, definir, contextualizar problemas e traduzir achados são atividades críticas que dependem de um diálogo constante entre pesquisadores e a sociedade.
Enquanto perpetuarmos a polarização entre rigor e relevância, estaremos em desvantagem em relação a consultores e jornalistas, que estão mais adaptados à linguagem e ao ritmo dos gestores. O desafio atual é integrar essas esferas, promovendo uma ciência que seja, simultaneamente, rigorosa e socialmente relevante.