Santo Agostinho de Hipona — Fé, Razão e Filosofia Cristã

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Aristóteles

Santo Agostinho de Hipona (354–430 d.C.)

Antecedentes históricos e culturais

Santo Agostinho de Hipona (354–430 d.C.)

O mundo greco‑romano clássico estava em declínio e surgiam forças emergentes contra a antiga glória greco‑romana com a ascensão do cristianismo. Agostinho viveu no período do Império Romano (séc. IV–V), caracterizado pelo declínio demográfico, pela ruralização da população e pelo consequente declínio das cidades. A rígida estratificação social, séculos mais tarde, contribuiria para o feudalismo. O Exército aumentou o seu poder como meio de proteção contra as invasões bárbaras e houve um declínio acentuado das artes; o antropomorfismo deu lugar a uma visão teocêntrica tradicional, enquanto a música passou a estar a serviço do culto religioso.

Durante este período circulou a transição de uma concepção cíclica do tempo, própria de algumas correntes gregas, para uma concepção linear: o tempo passa a ter um começo e um fim. A ascensão do cristianismo culminou com sua consagração como religião oficial do Império por Teodósio I, o Grande (380 d.C.), após sua legalização pelo Edito de Milão de Constantino (313 d.C.).

Como resposta às críticas dos filósofos pagãos, os primeiros pensadores cristãos procuraram sintetizar o cristianismo com a filosofia patrística, sobretudo com elementos platônicos. Esses primeiros Padres da Igreja (Tertuliano, Orígenes, São Basílio, Santo Agostinho ...) utilizaram o neoplatonismo (Plotino), o estoicismo e referências a Sêneca para construir a filosofia cristã inicial, em constante luta com o pensamento clássico e com as múltiplas heresias que surgiram (maniqueísmo, arianismo, etc.).

A Patrística antecipou questões como a relação entre razão e fé, a demonstração da existência de Deus, o mistério da criação, a liberdade humana e a luta entre o bem e o mal — temas centrais na filosofia de Santo Agostinho.

Teoria agostiniana: Fé e razão (teoria do conhecimento)

Fé e razão devem caminhar juntas: a fé não destrói a razão, antes a incentiva e a ilumina. Esta é a chamada Doutrina da Iluminação. Como traduz o aforismo agostiniano (crede ut intelligas), há uma reciprocidade entre crer e compreender — "crer para compreender; compreender para crer".

A razão inicia o esforço humano de busca pela verdade e tende a conduzir à fé; uma vez alcançada a fé, ela ilumina a razão para que esta compreenda os mistérios da realidade e da existência humana. A razão, iluminada pela fé, começa a ver o invisível e a extrair as consequências da fé — isto é, a razão tem acesso ao saber à luz da fé. Para Agostinho, os juízos racionais não são meros sentimentos: os critérios de juízo, para serem imutáveis e perfeitos, devem ter sua origem em Deus — modelos inteligentes de perfeição e imutabilidade — pois é Deus que ilumina a alma humana (fé) e permite o uso correto da razão.

Provas da existência de Deus segundo Agostinho

A teologia de Agostinho apresenta quatro provas ou indícios para a existência de Deus:

  • Prova do interior — na jornada interior a alma encontra uma verdade fundamental, um indício de algo primeiro e motor, que aponta para Deus.
  • Prova da perfeição do mundo — a ordem e a perfeição que percebemos no mundo indicam a necessidade de um arquiteto, que é Deus.
  • Argumentum a consensu gentium — o consenso geral (consensus gentium) em reconhecer Deus como criador do mundo é tomado como prova de sua existência.
  • As gradações do bem — as realidades que apresentam diferentes graus de bondade apontam para a existência de um bem supremo, que é Deus.

Uma vez provada a existência de Deus, resta considerar a sua essência: Deus é inefável; não podemos conhecer Deus plenamente por palavras, mas conhecemos seus atributos, que, em última análise, correspondem ao mistério da Trindade.

Criação do mundo e a existência do mal (cosmologia)

Santo Agostinho, influenciado por Platão (noção de Demiurgo) e pelo neoplatonismo, discute o criacionismo afirmando que a mente divina cria a realidade. Existem dois pontos importantes sobre a criação do mundo, segundo Agostinho:

  • O mundo pertence ao tempo linear; a criação marca o início do tempo — o tempo começa com a criação.
  • A criação é um ato divino que, embora possa ser descrito como processo em termos do criado, tem sua origem em um Criador imutável e intemporal; a transcendência de Deus coexiste com a contingência e a mudança das criaturas.

Segundo a doutrina das rationes seminales (razões seminais), Deus criou o mundo em um único ato, conferindo existência imediata a algumas coisas e potencialidade (poder de existir) a outras para se atualizarem no tempo.

Para Agostinho, Deus é o criador de tudo, mas não é criador do mal, porque o mal, em sentido ontológico, não tem existência positiva: o mal é privação do bem — "o mal não é ser; é ausência de ser". Existem três níveis de abordagem do problema do mal:

  • Mal metafísico: o mal entendido como privação do bem.
  • Mal moral: as más ações dos seres humanos resultam do uso do livre‑arbítrio; os agentes morais são responsáveis por seus atos precisamente porque são livres.
  • Mal físico: o sofrimento e a corrupção física são, para Agostinho, consequências do pecado original; a alma pecadora torna o corpo sujeito à corrupção.

História e filosofia: A Cidade de Deus

Em sua obra A Cidade de Deus, Santo Agostinho reflete sobre a história e descreve a existência de duas cidades: a cidade celestial, formada por aqueles que amam a Deus e desprezam a si mesmos; e a cidade terrena, formada por aqueles que amam o mundo e desprezam a Deus. As duas cidades coexistem na história e têm marcos providenciais relacionados à ação divina: o nascimento de Jesus Cristo e o fim dos tempos.

A concepção agostiniana da história é linear, de origem hebraica: a história tem um início (a criação) e um fim (o triunfo da Cidade de Deus sobre a cidade do homem, ou seja, a salvação final). O cristianismo é uma religião revelada: ele anuncia o que acontecerá no fim dos tempos. Essa revelação não suprime o livre‑arbítrio; antes, há um equilíbrio entre a ação da graça divina e a liberdade humana — onde há liberdade, há responsabilidade, e há espaço para esperança moral e teológica.

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