Trabalho em Sistemas Complexos: Cooperação e Subjetividade

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Neste artigo, destacamos o caráter coletivo da organização do trabalho, detendo-nos particularmente nas questões relacionadas à sua dimensão material (sobretudo a cooperação) – em especial nos componentes subjetivos aí presentes – enquanto aspectos fundamentais para se pensar a segurança e a confiabilidade em sistemas complexos. A escolha dessa atividade como objeto central de nossa análise justifica-se por três razões principais:

  • i) Abre espaço para investigar aspectos considerados críticos na atividade do mergulhador, tais como o risco de acidentes;
  • ii) Permite abordar de modo fecundo a dimensão coletiva do trabalho;
  • iii) Possibilita mapear outros fatores ainda pouco estudados, concernentes aos componentes subjetivos no trabalho, como o confinamento e o isolamento em condições extremas.

Entendemos que a permeabilidade de saberes – a “dependência cognitiva” engendrada no seio de alguns coletivos – pode ser vista como um pré-requisito para a cooperação eficiente em sistemas complexos, servindo para completar as representações lacunares de cada um dos trabalhadores, dando suporte e orientando a preparação, a mobilização e a disponibilidade individual. Este referencial seria, conforme Clot (1999: 29), um “componente do corpo social e simbólico que se interpõe entre as pessoas no trabalho; um componente, apenas, do gênero de atividades exigidas na situação, que aí comporta outras”.

Sem dúvida, este é um requisito necessário, mas não suficiente para atender às demandas colocadas em atividades coletivas como a do trabalho em mergulho profundo. Ou seja, além de uma intensa mobilização cognitiva, há todo um investimento de ordem psíquica que se apresenta intensamente nessas atividades. Daí buscarmos o aporte de abordagens clínicas do trabalho, que colaboram para uma análise mais fecunda das situações laborais, conforme a Ergologia nos oferece como horizonte (Schwartz, 2000).

Em função de fatores como os citados, configurou-se um quadro que alçou esse tipo de indústria, em dado momento, ao status de privilegiado “laboratório natural” para as ciências do trabalho. Na literatura pertinente à realidade brasileira, encontramos pesquisas que acenaram para a gravidade dos transtornos mentais que acometem os trabalhadores embarcados. Losicer (1995) e Siqueira Silva (1997), por exemplo, assinalam que este trabalho reproduz muitas características das chamadas instituições totais. Mostram que a imersão nos “confins do confinamento”, vivida pelos trabalhadores na Bacia de Campos, pode ocasionar sérios efeitos de despersonalização, tal como indicaram os marítimos estudados por Erving Goffman e as pesquisas desenvolvidas com trabalhadores offshore no Mar do Norte. O estudo desenvolvido por Sampaio et al. (1998) também aponta que o trabalho em plataformas é potencialmente desestruturante para a saúde mental.

Considerações Teórico-Metodológicas

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