Sofistas vs. Platão: Análise Comparativa de Conceitos
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Análise Comparativa: Posições Sofistas e Platônicas
A seguir, apresentamos uma comparação das posições filosóficas dos Sofistas e de Platão em relação aos conceitos fundamentais da metafísica e da moral:
I. Fundamentos Filosóficos
Realidade (Ontologia)
Posição Sofista
- Não há realidade objetiva independente do sujeito cognoscente, nem uma verdade única e a mesma para todos.
- O ser está em constante fluxo e mudança.
- A realidade é reduzida à sua pessoa, à sua "vontade" ou às declarações dos sujeitos (fenomenismo).
Posição Platônica
- Dualismo ontológico: Divisão e separação do ser em sensível e inteligível.
- A única realidade verdadeira é a inteligível, pois é universal, necessária, imutável e independente do sujeito (idealismo).
- O ser inteligível recebe sua essência do Bem.
- O mundo sensível é de segunda ordem, consequência da essência inteligível, que ele recebe por participação.
O Conhecimento (Epistemologia)
Posição Sofista
- Não há conhecimento absolutamente verdadeiro; ele depende do sujeito e provém da experiência sensorial, que é sempre particular e privada (subjetivismo).
- O conhecimento também depende de características culturais e históricas (relativismo).
- Mesmo que a realidade objetiva existisse, seria inacessível, pois o conhecimento sensível oferece apenas um aspecto do tema (fenômeno).
- O conhecimento, entendido como necessário e universal, é impossível (ceticismo).
Posição Platônica
- A verdade é universal e necessária.
- O conhecimento é possível apenas dos seres inteligíveis, que são os únicos verdadeiros (idealismo), e só pode ser alcançado pela alma racional.
- O mundo sensível oferece apenas a opinião (doxa), não o conhecimento verdadeiro, sendo enganoso.
O Homem (Antropologia)
Posição Sofista
- Não há uma natureza comum e universal a todos os homens.
- Todo ser humano é o resultado de uma educação em seu contexto sociocultural, que configura sua personalidade. Não há um ser homem "naturalmente".
- Mesmo que essa natureza existisse, ela não poderia ser conhecida.
Posição Platônica
- Dualismo antropológico: A verdadeira identidade do homem é sua alma, que possui uma estrutura tripartida.
- A alma racional é imortal, é a fonte do verdadeiro conhecimento e, para alcançá-lo, deve lutar contra o corpo e os sentidos.
- A vida torna-se uma forma de separação do corpóreo.
Ética
Posição Sofista
- Relativismo ético e convencionalismo, em oposição ao absolutismo platônico.
- Não há um Bem absoluto que se ajuste a todos; os padrões morais são diferentes em cada cultura.
- As normas morais são resultado do acordo entre os homens, sua cultura e história. Assim, não há uma definição única de homem virtuoso, justiça ou felicidade.
Posição Platônica
- O Bem existe objetivamente.
- As ações e decisões só são boas se estiverem em conformidade com o Bem, que é um e o mesmo para todos.
- O bem da alma é retornar à sua vida inteligível, separada do corpo. Para isso, o homem deve ser justo, e cada parte de sua alma deve ser virtuosa.
- O homem que conhece seu papel funcionará bem (intelectualismo moral) e, ao cumpri-lo integralmente, será feliz.
Política
Posição Sofista
- O Estado não precisa responder à natureza do homem, uma vez que esta não existe.
- Suas leis e estrutura são o resultado do consenso entre os cidadãos, sendo, portanto, de natureza convencionalista.
Posição Platônica
- A principal virtude política é a justiça.
- Somente se os cidadãos e os governantes forem justos, o Estado será justo.
- Os cidadãos devem submeter suas vidas ao funcionamento do Estado (uma sociedade "fechada"). A política e a ética caminham juntas.
- A estrutura e as leis estatais serão justas quando forçarem cada cidadão a seguir o papel que lhe pertence por natureza. Portanto, o Estado deve ser estruturado de acordo com a natureza do homem.
II. Atualidade e Relevância Contemporânea
Os fragmentos examinados giram em torno da educação, especialmente a dos governantes do Estado. A preocupação de Platão com a filosofia em nosso mundo atribui grande importância à educação, assumindo outra ideia platônica que se destaca nos textos mencionados: a educação é a melhor maneira de melhorar o homem e acabar com as desigualdades sociais.
Quando nossa sociedade aceita isso, ela passa a pensar na educação de valores. Platão também destaca que o último passo em seu projeto educativo é o conhecimento do Bem, sendo os valores éticos ainda mais importantes. Conhecer o Bem é o que o homem deve buscar. Mais uma vez, articula-se uma ideia presente em nosso sistema educacional e nas políticas sociais: a importância de ensinar valores. Não se trata apenas de transmitir informações, mas de fazer com que estudantes e cidadãos adquiram valores democráticos de respeito, tolerância, direitos humanos, etc.
Intimamente ligada à educação, aparece a reflexão platônica sobre o que a política deve ser. Platão se preocupa com a forma como o governante deve agir e o que deve melhorar para seus cidadãos. Platão critica aqueles que usam a política como meio de enriquecimento pessoal ou promoção social.
Casos de corrupção entre governantes, a separação entre política e compromisso ético, a crise dos partidos políticos tradicionais e o surgimento de posições fundamentalistas ou de extrema-direita demonstram que a política se separou da busca pelo bem dos cidadãos, distanciando-se do seu dever ser. Os governantes, portanto, deveriam ser aqueles que melhor assumiram os valores éticos.
A distinção platônica entre um mundo de sombras e o mundo real é reformulada na crítica lançada por diversas posições à mídia, especialmente à televisão, por apresentar um mundo distorcido que entretém as pessoas por horas. Que modelos propomos? Que vidas levam os protagonistas das séries de maior audiência? A análise reflexiva, o lazer distante de nossa realidade social ou a proposta de projetos alternativos são perspectivas que não encontram espaço na mídia. Neste sentido, Emilio Lledó propõe uma leitura do Mito da Caverna em sentido antropológico, na qual nos vemos como prisioneiros dela.