Temas e Sátira Social na Farsa de Inês Pereira

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A hipocrisia caracteriza figuras que representam diferentes grupos sociais. Inês Pereira finge trabalhar, quando é preguiçosa. O Escudeiro quer passar-se por valente, distinto e galanteador, mas acaba por se revelar cobarde, pelintra e autoritário com Inês. O Clérigo e o Ermitão, que deviam ser celibatários e viver uma existência contemplativa, revelam ser licenciosos. Lianor quer fazer-se passar por honrada e virtuosa, mas a sua concupiscência vem à superfície no relato da tentativa de sedução do clérigo.

O tema anterior liga-se ao da dissolução de costumes: a viragem da Idade Média para o Renascimento traz consigo uma nova mentalidade, originada em circunstâncias como o enfraquecimento do domínio da nobreza, a ascensão da burguesia e a questionação das doutrinas e das práticas da Igreja. Na farsa, assistimos a consequências desta nova realidade: a ambição de ascender socialmente, a valorização excessiva do dinheiro, o desrespeito pelas regras religiosas, a decadência dos modelos de comportamento da corte e a perspetivação do casamento como um negócio.

A Condição Feminina

A condição feminina é outro tema da obra. A mulher da Idade Média e do início do Renascimento vê a sua liberdade e os seus direitos limitados pela lei e pelas condições sociais. Inês Pereira protagoniza esse problema, e a insatisfação da personagem ao longo de grande parte da peça advém das circunstâncias em que se encontra e decorrem do estatuto social da mulher: vive submissa sob a autoridade da mãe ou do marido, com a liberdade limitada e direitos sociais cerceados. Mas o problema estende-se a outra figura feminina, Lianor Vaz, que é alcoviteira por não ter outra forma de subsistência.

O Casamento e a Relação Mãe-Filha

O casamento é outra questão que marca presença nas temáticas deste auto. Na perspetiva de Inês, o casamento é a oportunidade para concretizar o seu projeto de vida: ter um marido “discreto”, ascender na escala social e libertar-se da condição em que vivia. No entanto, o primeiro matrimónio, contraído com o Escudeiro sob o signo da ilusão e do embevecimento, coloca-a sob o domínio de um marido autoritário e confina-a, de novo, ao espaço doméstico. O segundo casamento, com o ingénuo e abastado Pero Marques, é contraído com um grande sentido prático: Inês encontra liberdade de atuação, poder de decisão e conforto económico.

Se a relação mãe-filha é um tema intemporal, neste auto é condicionada pelas regras sociais da época. Inês vive na dependência e sob a autoridade da mãe e a perspetiva de um casamento que lhe trouxesse algum estatuto e independência encontra vários obstáculos. A relação entre Inês e a Mãe é pautada ora por momentos de conflito e tensão, ora por gestos de apoio e afeto.

A Sátira Social Vicentina

O teatro de Gil Vicente é eminentemente satírico. O dramaturgo visava chamar a atenção para as mudanças que afetavam a sociedade de quinhentos e que, na sua perspetiva, a corrompiam, traduzindo-se em comportamentos viciosos, tais como:

  • O desejo de promoção social das camadas mais baixas;
  • O oportunismo e o parasitismo da nobreza;
  • O desprezo pela vida camponesa e a ingenuidade dos rústicos;
  • O prestígio das maneiras cortesãs e o culto da aparência;
  • Os casamentos arranjados por interesse;
  • A mentira da alcoviteira e a tirania do Escudeiro;
  • O adultério e a imoralidade do clero.

Estes comportamentos são alvo de crítica através de dois meios: a personagem-tipo e o cómico. O teatro vicentino é um teatro de ideias, não de carateres, apresentando tipos sociais que agem segundo a lógica da sua condição.

O Cómico como Instrumento de Crítica

O teatro de Gil Vicente segue a máxima “ridendo castigat mores” (a rir castigam-se os costumes). O registo cómico assume várias modalidades:

  • Cómico de carácter: Assenta na personalidade e na incapacidade de integração da personagem.
  • Cómico de situação: Baseia-se na intriga, desencontros e o inesperado.
  • Cómico de linguagem: Resulta da desadequação do discurso, ironia, sarcasmo e jogos de palavras.

Na Farsa de Inês Pereira, estes elementos entrelaçam-se para expor as contradições de um mundo às avessas, culminando na cena burlesca final entre Inês e Pero Marques, que simboliza a subversão da ordem social.

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