Teoria do Conhecimento: Descartes vs. David Hume

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O que Significa Conhecer?

  • Conhecer é estabelecer uma relação entre nós e o mundo;
  • Nós somos os sujeitos do conhecimento porque somos nós que conhecemos;
  • As coisas, ou estados de coisas, do mundo são os objetos de conhecimento, porque são aquilo que é conhecido ou que procuramos conhecer;
  • O conhecimento é uma relação entre o sujeito e o objeto;

Tipos de Conhecimento

  • Conhecimento por contacto (conhecer algo ou alguém): é um conhecimento imediato, direto de coisas ou lugares. Ex.: Conhecer Veneza.
  • Conhecimento proposicional (saber-que): é saber que uma dada proposição é verdadeira (expressa numa frase declarativa). Ex.: A Ana sabe que Beethoven compôs sonetos.
  • Conhecimento prático (saber-fazer): é um conhecimento que se expressa por intermédio de uma atividade. Ex.: Saber nadar.

Definição Tradicional de Conhecimento

CVJ – Crença Verdadeira Justificada

Condições Necessárias para Haver Conhecimento

1 – Que seja uma crença:

  • Estado mental ou psicológico de convicção ou adesão a algo;
  • Problema: poderá alguém saber alguma coisa sem acreditar nessa mesma coisa?
  • Não há conhecimento sem crença: não podemos saber uma coisa sem acreditar nessa coisa;
  • Mas haver uma crença não é suficiente para haver conhecimento.

2 – Que seja verdadeira:

  • Para haver conhecimento, as nossas crenças têm de ser verdadeiras;
  • O conhecimento é fáctico (implica a verdade daquilo que se conhece);
  • A verdade depende de como as coisas são realmente e não do que nós pensamos;
  • Uma crença verdadeira está em conformidade com o mundo e não apenas com a nossa mente, ao passo que a verdade depende do objeto;
  • Todo o conhecimento é uma crença verdadeira;
  • Nem todas as crenças verdadeiras são conhecimento.

3 – Que seja justificada:

  • Quando temos boas razões a seu favor;
  • Permite relacionar de maneira apropriada a crença;
  • Saber não é uma questão de sorte: exclui a ideia de que o conhecimento pode ser uma questão de sorte, sendo antes de mérito.
Para haver conhecimento basta haver crença com justificação?

Não. Pode haver justificações indutivas. Ex.: O sol vai nascer amanhã porque até hoje nasceu todos os dias.

As três condições são consideradas necessárias, mas não suficientes.

Críticas à Definição Tradicional de Conhecimento

Edmund Gettier (contraexemplos à defesa do conhecimento como crença verdadeira justificada):

  • Pode haver crenças verdadeiras justificadas sem que tais crenças equivalham a um efetivo conhecimento, ainda que sejam realizadas as três condições: crença, verdade e justificação;
  • Pode haver crenças verdadeiras que são justificadas apenas acidentalmente, em resultado da sorte, do acaso ou da mera coincidência;
  • As três condições não são suficientes, apesar de necessárias;
  • Mostrou que a teoria tripartida do conhecimento (CVJ) não descreve adequadamente o conhecimento, visto que é possível deduzir proposições verdadeiras de proposições falsas.

Formas de Justificação do Conhecimento

  • Conhecimento a priori (pensamento ou razão): juízos cuja verdade pode ser conhecida independentemente de qualquer experiência, tendo, portanto, origem no pensamento ou razão. São universais (são sempre verdadeiros em toda a parte) e necessários (negá-los implica entrar em contradição). Ex.: 5 + 5 = 10.
  • Conhecimento a posteriori (sentidos/experiência): juízos cuja verdade só pode ser conhecida através da experiência sensível. Não são estritamente universais (não são verdadeiros em toda a parte) e são contingentes (são verdadeiros, mas poderiam ser falsos, e negá-los não implica entrar em contradição).

Descrição e Interpretação da Atividade Cognitiva

Teorias explicativas do conhecimento:

Possibilidade do conhecimento: Será que o sujeito apreende efetivamente o objeto? Será que o conhecimento é possível?

  • Não → Ceticismo
  • Sim → Fundacionalismo

O Ceticismo

Pode haver apenas um ceticismo localizado, que incide sobre um conhecimento determinado: por exemplo, o conhecimento metafísico (ceticismo metafísico).

Ceticismo absoluto ou radical: Não é possível ao sujeito apreender, de um modo efetivo, o objeto.

Ceticismo mitigado ou moderado: Não é possível ao sujeito apreender, de um modo rigoroso, o objeto.

Ceticismo Radical

O conhecimento não é possível. Não temos maneira de saber se sabemos alguma coisa.

Argumento Central do Ceticismo

  • Se há conhecimento, então as nossas crenças estão justificadas;
  • Mas as nossas crenças não estão justificadas (premissa-chave);
  • Logo, não há conhecimento.

Argumentos Céticos

Argumento da divergência de opiniões:

  • Se alguma opinião estivesse devidamente justificada, não haveria razão para outras pessoas razoáveis não a aceitarem;
  • Haver duas opiniões opostas sobre a mesma coisa não significa que ambas sejam falsas, mas mostra que nenhuma está adequadamente justificada.

Argumento dos erros percetivos:

  • A existência, relativamente ao mesmo objeto, de sensações e perceções diferentes, e até incompatíveis.

Argumento da ilusão:

  • A ideia de que os nossos sentidos nos iludem frequentemente.

Argumento da regressão infinita:

  • Tentamos sempre justificar uma crença com base noutra;
  • Acabamos por nunca conseguir justificar crença alguma;
  • Iniciamos uma regressão que é infinita.

O Fundacionalismo

O conhecimento deve ser concebido como uma estrutura que se ergue e se desenvolve a partir de fundamentos certos, seguros e indubitáveis (combinação da razão e da experiência).

  • Razão → Racionalismo: Valorização do conhecimento a priori (mas não se nega a existência do conhecimento a posteriori).
  • Experiência → Empirismo: Valorização do conhecimento a posteriori (mas não se nega a existência do conhecimento a priori).

O Fundacionalismo e as Crenças Básicas

  • De acordo com a definição tradicional de conhecimento, uma crença encontra-se justificada se tivermos razões para pensar que ela é verdadeira;
  • Uma crença é justificada por outra, a qual, por sua vez, é justificada por outra, e assim sucessivamente;
  • A justificação é inferencial: a crença justificada infere-se daquela que a justifica;
  • Corre-se o risco da regressão infinita da justificação (que se evita através das crenças básicas ou fundacionais).

Crenças básicas:

  • Infalíveis: não podem estar erradas;
  • Incorrigíveis: não podem ser refutadas;
  • Indubitáveis: não podem ser postas em dúvida;
  • Suportam o sistema do saber. Não necessitam de uma justificação fornecida por outras crenças, porque se justificam a si mesmas.

Crenças não básicas: são justificadas por outras crenças.

O Racionalismo de Descartes

Como chega Descartes à conclusão de que os céticos estão errados?

A Dúvida Metódica

  • Princípio da dúvida: Devemos recusar o nosso assentimento a opiniões que não são completamente certas e indubitáveis, isto é, aquelas em que descobrimos alguma razão de dúvida.
  • Princípio do assentimento: Devemos dar o nosso assentimento apenas às ideias claras e distintas, que são aquelas para as quais não há razão de dúvida.

A certeza que Descartes quer para a filosofia é a que encontrava na matemática.

Regras do método (racional e a priori) inspirado na matemática (permitem guiar a razão, orientando duas operações fundamentais):

  • Evidência: Não aceitar nada como verdadeiro se não se apresentar à consciência como claro e distinto, sem qualquer margem para dúvidas;
  • Análise: Dividir cada uma das dificuldades em partes, para melhor as resolver;
  • Síntese: Começar pelo mais simples e fácil de compreender e subir gradualmente para o mais complexo;
  • Enumeração/revisão: Fazer enumerações tão completas e revisões tão gerais, que se tenha a certeza de nada omitir.

Operações da razão:

  • Intuição: ato de apreensão direta e imediata de noções simples, evidentes e indubitáveis;
  • Dedução: encadeamento de intuições, envolvendo um movimento do pensamento, desde os princípios evidentes até às consequências necessárias.

Características da Dúvida

  • Metódica e provisória: É um meio para atingir a certeza e a verdade, não constituindo um fim em si mesma;
  • Hiperbólica: Rejeita como se fosse falso tudo aquilo em que se note a mínima suspeita de incerteza;
  • Universal e radical: Incide não só sobre o conhecimento em geral, como também sobre os seus fundamentos e as suas raízes.

A Natureza da Dúvida

A dúvida é um exercício voluntário que leva à suspensão do juízo.

Função da Dúvida

  • Tem uma função catártica, já que liberta o espírito dos erros que o podem perturbar ao longo do processo de indagação da verdade;
  • Abre caminho à possibilidade de reconstruir, com fundamentos sólidos, o edifício do saber.

A dúvida consiste em recusar todas as crenças em que se note a mínima suspeita de incerteza, sendo um instrumento da luz natural ou razão, posto ao serviço da verdade.

Razões que Justificam a Dúvida

  • Argumento cético da ilusão: Porque os sentidos são muitas vezes enganadores;
  • Argumento do sonho: Porque não dispomos de um critério para discernir o sonho da vigília;
  • Hipótese do génio maligno: Porque pode existir um deus enganador, ou um génio maligno, que sempre nos engana;
  • Porque alguns seres humanos se enganam nas demonstrações matemáticas.

Dúvida sobre as Crenças A Posteriori

Facto: Os sentidos enganam-nos algumas vezes → Suposição: Os sentidos enganam-nos sempre.

Limitação: O argumento coloca em causa as informações transmitidas pelos sentidos sobre as propriedades dos objetos, mas não põe em dúvida a existência dos objetos.

O Argumento do Sonho

Facto: Algumas vezes, não distinguimos o sonho da realidade.

Suposição: Não distinguimos o sonho da realidade sempre.

Limitação: O argumento coloca em causa a existência da realidade física, mas não põe em dúvida as "verdades matemáticas".

Dúvida sobre as Crenças A Priori

A hipótese do Deus enganador:

Facto: Deus permite que nos enganemos algumas vezes.

Suposição: Deus permite que nos enganemos sempre.

Limitação: O Deus enganador (hipótese) pode ter-nos criado destinados, sem darmos por isso, a confundirmos o verdadeiro com o falso, isto é, a errarmos sistematicamente.

A Superação do Ceticismo: O Cogito

Se duvido, penso; se penso, existo. Embora nada exterior seja certo, é certo o pensamento que se pensa a si próprio.

O Cogito é a primeira crença básica. Logo, a primeira premissa do argumento cético da regressão infinita é falsa.

Características do cogito:

  • É um princípio evidente e indubitável, uma certeza inabalável;
  • Obtém-se por intuição, de modo inteiramente racional e a priori;
  • Serve de modelo do conhecimento: fornece o critério de verdade;
  • É uma crença fundacional relativamente a todo o sistema do saber (é uma crença que sustenta todas as outras crenças);
  • Apresenta o limite da dúvida e impõe uma exceção à sua universalidade;
  • Revela a natureza ou a essência do sujeito: o pensamento ou alma (refere-se a toda a atividade consciente, distinguindo-se do corpo).

Para o racionalista, o fundamento do conhecimento reside na razão.

A Descoberta da Existência do Eu

  • A ideia de que tinha um corpo baseava-se nos seus sentidos, pelo que não era indubitável;
  • O próprio ato de duvidar (pensar que podia não existir) era a prova de que existia: penso, logo existo. Mesmo que não tivesse um corpo, tinha de ser verdade que era um ser pensante.

O Princípio do "Eu Penso"

Esse princípio indubitável era a "rocha sólida" de que Descartes precisava para alicerce de todo o conhecimento.

Do Cogito a Deus

  • Descartes pensa que nada nem ninguém, a não ser Deus, pode garantir que não me engado quando concebo algo clara e distintamente;
  • Conceber algo clara e distintamente não seria garantia de verdade caso Deus não existisse. Isto porque nada impediria um génio maligno de me fazer conceber clara e distintamente coisas falsas;
  • Porém, imaginemos que Deus existe, que é um ser poderoso e bom, autor não apenas do mundo em que vivo, mas também da própria natureza;
  • Como é poderoso, Deus poderá garantir que eu não seja desprovido de capacidade para conhecer as coisas, desde que aplique cuidadosamente a razão que ele mesmo me deu. E Deus quererá isso porque é bondoso.

O problema que se levanta: Mas como sei que Deus existe mesmo?

Provas da Existência de Deus

Ideia de Ser Perfeito: noção de um ser omnisciente, omnipotente e sumamente bom.

Provas da existência de Deus:

  • 1ª prova - Argumento ontológico: na ideia de ser perfeito estão compreendidas todas perfeições; a existência é uma dessas perfeições; logo, Deus existe necessariamente. O facto de existir é inerente à essência de Deus.
  • 2ª prova - Argumento da marca impressa: a causa que faz com que a ideia de ser perfeito, que representa uma substância infinita, se encontre em nós não pode ser outro ser senão Deus, que possui todas as perfeições representadas nessa ideia.
  • 3ª prova - Argumento da contingência: a causa da existência do ser pensante e imperfeito não é ele próprio. De contrário, daria a si próprio as perfeições de que tem ideia. Além disso, como o sujeito finito não possui o poder de se conservar no seu próprio ser, o seu criador e conservador é Deus (causa sui).

A Recuperação das Coisas Materiais

A questão de saber o que as coisas são (essência) é anterior à questão de saber se elas existem.

Deus não é enganador e garante a objetividade das ideias claras e distintas das coisas.

Concebemos, acerca das coisas materiais, que são possuidoras de qualidades quer inteligíveis (primárias) quer sensíveis (secundárias).

  • Qualidades inteligíveis (primárias): são qualidades claras e distintas. Ex.: extensão.
  • Qualidades sensíveis (secundárias): são subjetivas, estão em mim e não nas coisas. Ex.: a cor, o odor, a dureza, etc.

A extensão (essência) é uma característica permanente das coisas. De todas as qualidades que uma realidade física possa ter, ela não pode nunca deixar de ter comprimento, largura e altura (res extensa). Estas são as três qualidades que definem uma coisa como extensa.

Conhecemos a essência do mundo físico antes de sabermos se ele existe efetivamente.

Descartes, para mostrar a existência das coisas, tem de garantir que a consciência do sujeito pensante não pode, por si só, explicar determinadas ideias (representações) que temos das coisas corpóreas.

Tipos de ideias:

  • Adventícias: produzidas pelos sentidos. Ex.: casa, árvore (ideias obscuras e confusas que não conduzem a um conhecimento verdadeiro);
  • Inatas: produzidas pelo entendimento. Ex.: ideia de Deus (Deus colocou no entendimento humano as sementes da verdade);
  • Factícias: produzidas pela imaginação. Ex.: unicórnio (ideias confusas).
  • A convicção da existência do mundo não é um conhecimento, mas uma espécie de crença, um sentimento, mas bastante presente e intenso, no qual podemos confiar;
  • Há uma ligação entre corpo e alma muito próxima e, portanto, temos noção da existência do nosso corpo, e isto serve de evidência à existência da realidade;
  • Sei que existo fisicamente e experimento interações com outros corpos, mesmo não sendo o autor ou a causa destes outros corpos; mas eles causam sensações em mim e, se Deus não engana, tenho de concluir que as coisas corpóreas existem;
  • Seria estranho que um Deus sumamente bom nos fizesse de maneira a estarmos enganados quando não podemos senão acreditar.

Na veracidade divina, o mundo não é um sonho.

Conclusão: A convicção da existência do mundo físico não é um conhecimento, mas uma espécie de crença, um sentimento.

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O Racionalismo

  • A razão (entendimento) é a fonte principal do conhecimento;
  • A razão é fonte de um conhecimento totalmente independente da experiência sensível – necessário e universal. A matemática constitui o modelo do conhecimento;
  • O sujeito impõe-se ao objeto.

Desconfiança dos sentidos: Eles são fonte de crenças confusas e, muitas vezes, incertas.

Otimismo racionalista: Há uma correspondência entre pensamento e realidade. Toda a realidade pode ser conhecida.

Ideias inatas: As ideias fundamentais já nascem connosco.

Intuição e dedução: As ideias fundamentais descobrem-se por intuição intelectual. O conhecimento constrói-se de forma dedutiva.

O Fundacionalismo de Descartes

Ideias inatas – conhecimento claro e distinto

Principais verdades:

  • A existência do pensamento (alma), traduzida no cogito;
  • A existência de Deus, ser perfeito, com os atributos respetivos;
  • A existência de corpos extensos em comprimento, largura e altura.

O fundamento do conhecimento é o cogito, enquanto crença básica ou fundacional e primeira verdade, e outras ideias claras e distintas da razão.

Todavia, este fundamento do conhecimento depende daquele que é o princípio de toda a realidade: Deus.

Círculo Cartesiano: o facto de a ideia que temos de Deus ser clara e distinta garante-nos que Deus existe; mas é Deus quem garante a verdade e a objetividade das ideias claras e distintas.

Críticas ao Racionalismo de Descartes

  • David Hume considera que Descartes não refutou os céticos; portanto, não encontrou um fundamento para o conhecimento;
  • Hume diz que Descartes se propôs refutar os céticos colocando-se ele próprio no papel dos céticos;
  • Descartes diz que os seus sentidos o podem estar a enganar porque se lembra de já o terem enganado antes; ele já está a confiar na sua memória;
  • Hume sugere que Descartes não cumpriu o que disse – não duvidou de tudo, pois, caso contrário, jamais teria sido capaz de chegar a certeza alguma;
  • Mesmo que permita concluir que sou um ser pensante, impede de saber algo mais;
  • Estaríamos condenados a saber apenas que sou um ser que pensa.

David Hume: À pergunta: "Mas se não partirmos do pensamento, partimos de quê?"

Hume responde: Só podemos partir das perceções, pois nada mais há na nossa mente a não ser perceções.

Perceções: Impressões e Ideias

Impressões: são as nossas sensações, tanto externas como internas. São impressas em nós, são intensas, nítidas e vívidas.

  • Externas: são fornecidas pelos sentidos;
  • Internas: são emoções.

Ideias: São cópias das impressões, menos intensas, nítidas e vívidas do que a impressão. Não há ideias que não derivem das impressões dos sentidos.

  • Simples: memória. Ex.: temos a ideia de peixe e de mulher;
  • Complexas: imaginação sobre as ideias simples. Ex.: peixe + mulher = sereia.

O Fundacionalismo Empirista

  • Fundacionalista: busca um fundamento para o conhecimento;
  • Empirista: esse fundamento reside nos sentidos.

Questões de Facto e Relações de Ideias

Todo o conhecimento acerca do mundo é a posteriori.

Distinguir questões de facto e relações de ideias:

Hume defende que tudo o que podemos afirmar se refere a questões de facto ou a relações de ideias.

  • A negação de uma afirmação sobre questões de facto não implica contradição alguma;
  • A negação de uma afirmação sobre relations de ideias implica uma contradição.

Não envolve qualquer contradição negar que o calor dilata os metais, apesar de ser verdade que os dilata; mas estar-nos-íamos a contradizer se negássemos que três mais dois é igual a metade de dez.

  • Verdades necessárias: é o que é verdadeiro e não poderia ter sido falso. Ex.: Nenhum casado é solteiro.
  • Verdades contingentes: o que é verdadeiro, mas poderia ter sido falso. Ex.: Fernando Pessoa nasceu em Lisboa.

A Priori e A Posteriori

  • As verdades contingentes só podem ser conhecidas recorrendo à experiência – são conhecidas a posteriori. Ex.: se nos limitarmos a pensar não podemos saber que Fernando Pessoa nasceu em Lisboa; para o saber precisamos de consultar documentos e outras fontes empíricas.
  • As verdades necessárias não dependem de como é o mundo, nem sequer precisamos de olhar para o mundo para as descobrirmos.

As verdadeiras necessárias podem ser demonstradas apenas pelo raciocínio dedutivo, que se limita a tirar conclusões a partir da combinação de ideias que já temos.

O raciocínio usado em questões de facto é diferente, tratando-se do raciocínio indutivo. Ex.: observamos pegadas no chão e inferimos que passou por ali alguma pessoa.

Hume reconhece que existe conhecimento a priori, mas acrescenta que este conhecimento não é substancial → não nos diz nada acerca do mundo.

Conclusão: o conhecimento substancial encontra nos sentidos a sua única fonte de justificação.

O Problema da Causalidade

Para além da experiência:

  • O sol vai nascer amanhã → é uma previsão;
  • Todos os peixes respiram por guelras → uma lei da natureza;
  • Esta barra de metal dilatou por causa do calor → explicação causal.

Todas estas afirmações referem questões de facto e são verdades contingentes. Só podemos conhecê-las a posteriori, recorrendo aos sentidos. Mas dizer que o sol vai nascer amanhã é afirmar algo que não foi observado; trata-se de uma afirmação que vai muito além do que os sentidos nos podem dizer.

  • E o mesmo pode ser dito acerca da dilatação da barra de metal, pois os nossos sentidos só nos mostram que a barra de metal dilatou, mas não que dilatou por causa do calor;
  • Os sentidos não mostram que uma coisa aconteceu por causa de outra.

Causa e Efeito

Esta barra de metal dilatou por causa do calor.

Este tipo de inferência não é dedutiva nem demonstrativa; trata-se de um raciocínio indutivo, que se apoia na relação de causalidade.

Chama-se "relação de causalidade" à relação de causa e efeito.

  • Hume defende que as causas e os efeitos não podem ser conhecidos pela razão;
  • Podemos imaginar um ser com as maiores capacidades racionais; esse ser seria incapaz de descobrir pela razão as causas e os efeitos de um dado objeto que nunca viu;
  • É a experiência que nos diz que o metal dilatou e que está quente, mas não diz que o calor causou a dilatação do metal.

O que nos leva a acreditar que o calor causou a dilatação do metal?

A Conjunção Constante e o Hábito

  • Quando vemos uma conjunção constante, temos tendência para concluir que há uma relação de causalidade entre os fenómenos.

A ideia de conexão necessária:

  • Há uma conexão necessária entre dois acontecimentos quando um não pode ocorrer sem o outro.

Como podemos saber que há uma conexão necessária?

  • Através do hábito.

Ao observarmos repetidamente uma conjunção constante entre certos acontecimentos ou objetos, gera-se em nós a expectativa de que o mesmo ocorra no futuro, o que nos leva a pensar que um não pode ocorrer sem o outro.

  • Trata-se de uma tendência psicológica ou sentimento;
  • Algo que se passa na nossa mente e não algo que possa ser observado no mundo.

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