Teoria Crítica, Gramsci e Interacionismo: Guia de Estudos

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1. Analise o questionamento que a teoria crítica faz à teoria tradicional.

A teoria em sentido tradicional, que naquele momento e até hoje tem sido a mais difundida, organiza a experiência geral baseada na formulação simplificante de questões como a reprodução da vida dentro da sociedade atual, como se o único problema estivesse em meras constatações e previsões segundo as leis da probabilidade. Trata-se de uma visão cartesiana e tecnicista, onde os sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma que, em certas circunstâncias, são aplicáveis ao maior número possível de ocasiões.

Então, Horkheimer, através de sua teoria crítica, critica a economia política que se preocupa com esse tecnicismo, ou economicismo, descartando os homens em sua subjetividade e contando-os como uma grande coletividade sem personalidade. Isso abriria chances para diversos riscos de regressos históricos e, em nome de uma economia isolada de outras disciplinas, como a filosofia, buscar sempre um dito progresso sem se dar conta de um fim comum em direção à expressão humana e ao bem comum. Como diz o citado autor, a teoria crítica não renuncia às ciências, mas permanece filosófica e dialética; desta forma, cita como essa separação pode gerar uma falsa sensação de progresso, com exemplos como a economia livre gerando monopólios e o aumento da injustiça social em vez do conceito da troca justa.

2. Desenvolva o papel que joga na teoria crítica o conceito de emancipação.

A teoria crítica da sociedade tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ela. A teoria crítica, na base de sua formação e desenvolvimento, segue conscientemente o interesse por uma organização racional da atividade humana, pois esta não se trata apenas dos fins tais como são apresentados pelas formas de vida vigentes, mas dos homens com todas as suas possibilidades.

Trata-se não apenas de uma teoria de trabalho que se mostra útil para o funcionamento do sistema dominante, mas sim de um movimento inseparável do esforço histórico de criar um mundo que satisfaça às necessidades e forças humanas, visando à emancipação do homem de uma situação escravizadora que tende a acontecer com a supremacia da teoria tradicional.

3. Em que sentido o capitalismo para Adorno implica uma mercadorização da cultura? Exemplifique com um caso atual.

Fazendo um recorte da mercantilização da cultura no seu estudo sobre a indústria cultural, Adorno disserta sobre a produção de produtos adaptados ao consumo das massas, criando um sistema que por si só determina esse consumo. Uma forma que viabiliza este fenômeno são os meios atuais da técnica, sempre em evolução, e a concentração econômica e administrativa. O objetivo dessa indústria é fazer acreditar que o consumidor é o sujeito da relação, o objetivo final a ser satisfeito, quando na verdade ele é apenas o objeto, o meio para a acumulação financeira daqueles que controlam essa indústria.

As mercadorias culturais da indústria se orientam a partir do lucro que gerarão e não do seu conteúdo em si. Toda prática da indústria cultural prioriza o lucro em detrimento da criação humana subjetiva e sua expressão artística legítima. Hoje em dia, vemos muito claramente esse fenômeno na indústria da música. Me eximirei de traçar a história da evolução da mídia física da música, bastando olhar as plataformas de streaming, onde você assina um serviço, mas nada que está lá é seu; tudo gera, a todo segundo, lucro para os detentores de plataformas, sem falar no caráter de alienação e manipulação de massas.

4. Explique as diferenças entre Oriente e Ocidente para Gramsci.

Gramsci chama de sociedades Orientais os lugares onde as formações sociais não desenvolveram uma sociedade civil forte e articulada, onde a esfera da ideologia se manteve umbilicalmente ligada aos aparelhos burocráticos da “sociedade política”; a luta de classes trava-se predominantemente em torno da conquista e da manutenção do Estado em sentido estrito. Ele toma como exemplo a Rússia de 1917, que viria a ser comandada por Lênin, onde a maior divisão que existia era entre a nobreza absolutista, os servos e a população majoritariamente pobre.

Quanto às sociedades que ele classificou como Ocidentais, entendia que deveria se impor às classes sociais interessadas numa transformação radical da sociedade a necessidade de um longo e amplo combate pela hegemonia e pelo consenso, devido a estas sociedades possuírem uma sociedade civil rica, pluralista e burocrática. Desta forma, as batalhas devem ser travadas inicialmente no âmbito da sociedade civil, visando à direção político-ideológica e à conquista do consenso, uma vez que a necessária conquista da hegemonia deve preceder a tomada do poder. Para Gramsci, a classe revolucionária já deve ser dirigente antes de ser dominante.

5. Explique os conceitos de sociedade civil e sociedade política para Gramsci.

Gramsci amplia conceitos marxianos, conceituando a sociedade civil como o conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias, compreendendo o sistema escolar, os parlamentos, as igrejas, os partidos políticos, as organizações profissionais, os sindicatos, os meios de comunicação, as instituições científicas e artísticas, entre outros. O autor considera este espaço como uma arena de disputa pela hegemonia, sendo também esta parte do Estado.

Já a sociedade política seria o conjunto dos mecanismos através dos quais a classe dominante detém o monopólio legal da coerção. Chamava-a também de Estado em sentido estrito ou Estado-coerção, formado por burocracias ligadas às forças armadas e à aplicação da lei, propriamente o governo oficial.

6. Explique as três premissas do interacionismo simbólico para Blumer.

Para Blumer, as premissas do interacionismo simbólico são:

  • Primeira premissa: Discorre sobre como o ser humano orienta suas ações para as coisas em função do que estas significam para ele. Aqui, lê-se “coisas” em sentido amplo, como tudo que for perceptível ao mundo de uma pessoa: objetos, pessoas, figuras de autoridade, instituições, virtudes, sentimentos, etc.
  • Segunda premissa: Considera que o significado destas coisas deriva-se de, ou surge como consequência da, interação social que cada qual mantém com o próximo. Em outras palavras, o significado é um produto social, uma criação que emana através das atividades definidoras dos indivíduos à medida que estes interagem.
  • Terceira premissa: Afirma que os significados são modificados por meio de um processo interpretativo que as pessoas usam ao lidar com os objetos e situações. Essa interpretação não é automática, mas ativa e contínua.

7. O que está primeiro para Blumer: a cultura e a estrutura social ou a interação social?

Em Blumer, a priori vem a interação social, que é um processo que forma o comportamento humano. Um ser humano em interação com outras pessoas há de ter em conta o que cada qual está fazendo ou a ponto de fazer, assim como está obrigado a orientar seu próprio comportamento ou a manejar suas situações em função daquilo que tomam em consideração.

Considerando isso, o tipo de relações derivadas do modo em que as pessoas atuam reciprocamente forma grupos que, por sua vez, formam estruturas sociais. A cultura — seja ela um costume, tradição, norma, valores ou regras — é um conjunto comportamental que acaba se instalando conforme comunidades, formadas por perenes estruturas sociais, vêm por último, segundo Blumer.

8. Becker utiliza o conceito de ação coletiva para explicar o desvio. Explique.

A ação coletiva, no contexto da teoria do desvio de Howard Becker, refere-se ao processo pelo qual um grupo social define o que é considerado desviante, estabelecendo regras e normas cuja transgressão é vista como desvio. Becker argumenta que o desvio não é uma característica inerente a certos comportamentos, mas sim uma construção social resultante da interação entre indivíduos e grupos, especialmente na forma como esses grupos rotulam certos comportamentos como desviantes.

9. Explique a proposta de metáfora teatral de Goffman para estudar fenômenos sociais.

Goffman, em sua metáfora teatral, compara a vida social a uma peça de teatro. Para ele, os indivíduos são “atores” que encenam papéis diante de um “público” em diferentes “palcos” sociais. Na “frente do palco”, as pessoas controlam suas ações e aparência para causar certas impressões. Nos “bastidores”, comportam-se de maneira mais autêntica, longe do olhar do público. Essa abordagem mostra como as interações cotidianas são performances moldadas pelas normas sociais, destacando a importância da aparência, linguagem corporal e contexto na construção da identidade.

10. O controle das impressões é um tema central da proposta goffmaniana. Explique em que consiste.

O controle das impressões, segundo Goffman, é o esforço que os indivíduos fazem para influenciar a percepção que os outros têm deles durante as interações sociais. As pessoas ajustam sua fala, gestos, expressões e comportamentos conforme o “papel” que desejam desempenhar em determinado contexto. Essa “encenação” ocorre principalmente na “frente do palco”, onde há maior preocupação com a imagem social. O objetivo é manter uma definição favorável da situação e evitar constrangimentos. Assim, a vida social se torna uma constante negociação de identidades.

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