Teoria da Vinculação e o Desenvolvimento Infantil
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Caracterizar os conceitos de vinculação e figura de vinculação
A vinculação é a necessidade de criar e manter relações de proximidade e afetividade com os outros, de o bebé se apegar a outros seres humanos para assegurar proteção e segurança. Esta relação, que se manifesta pela necessidade de contactos físicos ou de proximidade e afetividade é, tal como a fome e a sede, uma necessidade básica ou primária.
O bebé estabelece laços de vinculação com a pessoa que cuida preferencialmente dele, que responde da forma mais adequada às suas necessidades. Nas suas conceções, John Bowlby centrou as suas investigações no papel da mãe. No entanto, outros cuidadores podem substituir a mãe: há agentes maternantes, como os pais, os avós, outros familiares ou até quaisquer outros elementos sociais que desempenham esse papel, funcionando como figura de vinculação. Na sociedade atual, em que as crianças estão integradas em jardins de infância, são favorecidas outras relações que nos permitem afirmar que existem vinculações múltiplas.
Analisar os contributos de Bowlby e de Ainsworth para a teoria da vinculação
A teoria de John Bowlby ganha forma em 1948, quando a OMS encomenda a Bowlby um relatório sobre as crianças sem família, vítimas da Europa pós-guerra. Segundo a teoria da vinculação, a proximidade física do progenitor é uma necessidade inata, primária, essencial ao desenvolvimento mental do ser humano e ao desenvolvimento da sociabilidade. Bowlby constata que a separação dos pais tinha efeitos muito negativos no desenvolvimento físico e psicológico das crianças.
No seu relatório, cujo impacto científico foi enorme, o investigador refere a abundância de factos que demonstram as consequências da carência de cuidados maternos, sendo elas:
- Relações afetivas superficiais;
- Ausência de concentração intelectual;
- Incapacidade de se relacionar socialmente com o outro;
- Delinquência;
- Ausência de reações emocionais, entre outros.
A partir de várias conceções e trabalhos de outros investigadores, Bowlby defende que a vinculação aos progenitores responde a duas necessidades: proteção e socialização.
Mary Ainsworth trabalhou com John Bowlby e ajudou a desenvolver a teoria da vinculação. Ainsworth utilizou um procedimento experimental que ficou conhecido como “situação estranha”. Em síntese, a investigadora regista o efeito da separação e do reencontro dos bebés. Segundo Ainsworth, a forma como o bebé reagia, quer à ausência da mãe, quer ao seu regresso, refletiria o seu equilíbrio emocional, que relacionava com os cuidados que recebera.
A partir das suas observações, distinguiu três categorias de vinculação:
- Vinculação segura: as crianças choram e protestam pela ausência da mãe, mas procuram contacto físico logo que ela entra na sala, ficando calmas. É o tipo de vinculação com o carácter mais adaptativo.
- Vinculação evitante: as crianças parecem indiferentes à separação da mãe, bem como ao seu regresso.
- Vinculação ambivalente/resistente: os bebés manifestam ansiedade mesmo antes de a mãe sair e perturbação quando esta abandona a sala, hesitando entre a aproximação e o afastamento dela quando esta regressa.
Compreender a importância das experiências de Harlow para a teoria da vinculação
Nos finais da década de 50, o psicólogo Harry Harlow realizou um conjunto de estudos com macacos rhesus que mostraram os efeitos da ausência da mãe junto das jovens crias. Construiu duas mães artificiais: uma de arame e outra revestida por um tecido felpudo. Harlow constatou que as crias passavam a maior parte do tempo agarradas à mãe de peluche, e era junto dela que procuravam abrigo face a uma situação de perigo. Mesmo quando só a mãe de arame fornecia alimento, os macaquinhos apenas recorriam a ela para se alimentarem, regressando de imediato à mãe revestida por tecido felpudo.
Em estudos posteriores, Harlow procurou avaliar o efeito nos bebés macacos criados sem qualquer contacto, isolando-os em jaulas vazias. Quando os períodos de tempo eram longos, os animais apresentavam comportamentos anormais: encostavam-se ao fundo da jaula, balançavam-se, abraçavam-se a si próprios e mordiam-se. Quando adultos, apresentavam um comportamento sexual fortemente alterado, bem como incapacidade para tratar das crias.
Com estas experiências, Harlow concluiu que o vínculo entre a cria e a mãe está mais ligado ao contacto corporal e ao conforto daí decorrente do que à alimentação. Esta necessidade básica do conforto de contacto é também reconhecida nos bebés humanos. Assim, a origem da vinculação encontra-se nesta necessidade e não na nutrição. Concluiu, ainda, que são devastadores os efeitos da ausência da mãe ou dos agentes maternantes, traduzindo-se em perturbações físicas e psicológicas profundas.
Apresentar as consequências da perturbação da relação precoce: Spitz e o hospitalismo
René Spitz desenvolveu pesquisas em crianças que, durante os primeiros 12 meses de vida, permaneceram um período prolongado numa instituição, privadas da presença da mãe. Spitz concluiu que os bebés apresentavam perturbações somáticas e psíquicas como resultado da ausência completa da mãe numa instituição onde os cuidados são administrados de forma anónima, sem que se estabeleçam cuidados afetivos.
Spitz designou por hospitalismo o conjunto de perturbações vividas por estas crianças institucionalizadas e privadas de cuidados maternos:
- Atraso no desenvolvimento corporal;
- Dificuldades na habilidade manual e na adaptação ao meio ambiente;
- Atraso na linguagem;
- Menor resistência às doenças;
- Apatia (nos casos mais graves).
Estes efeitos do hospitalismo são duradouros e, muitas vezes, irreversíveis. Com as suas investigações, René Spitz confirmou a necessidade de laços e de contactos afetivos entre o bebé e o adulto. A sua ausência pode conduzir a perturbações emocionais, comportamentais e desenvolvimentais graves.