TICs na Educação: Perspectivas e o Papel da Oralidade

Classificado em Psicologia e Sociologia

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O Argumento Otimista: O Poder Transformador das TICs

Há quem aposte entusiasticamente no papel transformador das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) nas formas de ensinar e aprender. Essas pessoas apoiam-se na ideia de que a interação com tais tecnologias é muito atrativa para os adolescentes de hoje, verdadeiros nativos digitais.

  • Adaptação ao aprendiz: a imensa quantidade de informação e recursos disponíveis na rede permite ao usuário selecionar a informação que mais se ajusta aos seus interesses e necessidades, o que favorece a autorregulação e o controle da própria aprendizagem. É o aprendiz quem decide o quê, como e quando aprender.
  • Interação: as TICs favorecem um cenário dialógico em que cada ação do aprendiz pode ser acompanhada de um feedback. Um bom uso dessas tecnologias permite ao usuário tomar consciência de seus próprios atos (função metacognitiva).
  • Multimídia: graças às novas tecnologias, o conhecimento elaborado em sala de aula passa do formato impresso para um formato multimídia, ampliando enormemente as modalidades de expressão e comunicação.
  • Publicação: nas aulas tradicionais, os alunos consomem informação ou, no melhor dos casos, produzem algum conteúdo que será supervisionado apenas pelo docente. As TICs permitem mostrar criações próprias e originais a um público real.

O Argumento Pessimista: As TICs Empobrecem o Aprender

De uma ótica completamente oposta à anterior, os pessimistas sustentam que a interação com a informação na era digital supõe um empobrecimento das formas de conhecer, na medida em que promove o imediatismo, a superficialidade e a falta de reflexão.

  • Empobrecimento cognitivo na era digital: os alunos estão acostumando-se a um acesso imediato à informação, que não requer deles um processo de reflexão e construção pessoal. Além disso, é comum realizarem várias tarefas ao mesmo tempo, o que impede um processamento elaborado da informação.
  • Gestão da sala de aula: são frequentes as dificuldades na gestão da sala de aula com a introdução das TICs, devido à escassez de recursos (na absoluta maioria dos casos, os alunos são obrigados a compartilhar os computadores) e à perda do controle sobre as tarefas que os alunos realizam.
  • Os computadores não podem ensinar tudo: as novas tecnologias proporcionam conteúdos, mas em nenhum caso chegarão a ensinar tudo o que é necessário. As aprendizagens sociais e atitudinais devem ser mediadas pelo docente.

Se antes o único conhecimento legítimo que emergia em uma sala de aula era aquele proporcionado pelo docente, hoje a informação e suas fontes multiplicam-se quase indefinidamente. Esses condicionantes supõem um desafio e um esforço redobrados para os docentes, que se veem forçados a modificar seus modelos de ensino e instrução.

O Argumento Cético: Será que Algo Realmente Mudou?

Segundo esta visão, as mudanças não são nem positivas nem negativas, pois simplesmente não houve mudanças de fato: as formas de ensinar e aprender na era digital são as mesmas que sempre predominaram na escola, apenas se modificando o suporte quando as TICs são introduzidas em sala de aula (o que não é muito comum).

  • Estratégias de seleção das informações: os alunos não sabem buscar e selecionar as informações relevantes, deixando-se levar pelo próprio fluxo e formato em que se apresentam.
  • Tradução da informação de um código a outro: os alunos têm dificuldade quando as informações são apresentadas em códigos diferentes (texto, imagens, etc.) e é necessário traduzi-las de um para outro.
  • Integração de diferentes fontes e tipos de informação: para além da dificuldade de tradução, há problemas quando os alunos deparam-se com informações diversas ou contraditórias, como ocorre nos espaços virtuais, onde nunca se tem um saber consolidado e estabelecido.
  • Tendência a reproduzir em vez de refletir: no melhor dos casos, quando se deparam com informações diversas, os alunos tendem a usar o “recortar e colar” em vez de procurar construir sua própria visão, integrando essas diversas posições.

Oralidade e a Transmissão do Conhecimento

Oralidade é a transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória humana. Antes do surgimento da escrita, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. A memória auditiva e visual eram os únicos recursos de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e a transmissão do conhecimento às futuras gerações. A inteligência estava intimamente relacionada à memória. Os anciões eram os mais sábios, pelo conhecimento acumulado.

Pierre Lévy, em "As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do Pensamento na Era da Informática", faz distinção entre a oralidade primária, onde a palavra, por ser o único canal de informação, é responsável pela gestão da memória social; e a oralidade secundária, em que a palavra (falada) tem uma função complementar à da escrita (e posteriormente à dos meios eletrônicos), sendo utilizada basicamente para a comunicação cotidiana entre as pessoas.

Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob guarda de contadores de histórias, cantores e outros tipos de arautos, que na prática eram autenticamente os portadores da memória da comunidade. Este é o caso do papel desempenhado na África Ocidental pelos griot, sendo o relato mais famoso o dos feitos do rei Sundiata Keita, soberano do Império Mali.

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