Valle-Inclán: O Esperpento em Luces de Bohemia

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Evolução e Mudanças na Obra de Valle-Inclán

A obra de Valle-Inclán evolui de um modernismo elegante e nostálgico para uma literatura crítica, baseada numa distorção cruel da realidade. Esta visão levou Salinas a considerá-lo um "filho pródigo" da Geração de 98, numa tentativa de o associar a esse movimento. No entanto, esta associação é incorreta: tanto pelos seus pressupostos ideológicos como pela novidade radical da sua estética, Valle-Inclán posiciona-se longe dos ideais adotados pelos noventayochistas na sua maturidade. A sua carreira é, em certos aspetos, semelhante à de Antonio Machado.

É importante evitar reduzir a sua trajetória a apenas duas fases: a modernista e a do esperpento. Embora a distância entre as Sonatas e o esperpento seja evidente, também é verdade que já existem elementos de "esperpentização" antes da consolidação do género.

O Nascimento do Esperpento

Em 1920, um ano crucial para o autor, publicou quatro peças teatrais:

  • Farsa y licencia de la Reina Castiza
  • Farsa italiana de la enamorada del Rey
  • Divinas Palabras
  • Luces de Bohemia

É em Luces de Bohemia que Valle-Inclán define o esperpento: uma estética extravagante onde o trágico e o burlesco se misturam. Segundo o autor, Goya foi o precursor do esperpentismo. O esperpento nasce ao refletir os heróis clássicos em espelhos côncavos, mostrando que "a Espanha é uma deformação grotesca da civilização europeia". A sua definição canónica encontra-se na cena XII de Luces de Bohemia.

Receção e Legado Teatral

Durante muito tempo, considerou-se que os esperpentos não eram verdadeiramente teatro, mas sim romances dialogados e irrepresentáveis. Estas opiniões foram, entretanto, refutadas. Os novos conceitos de encenação e as técnicas teatrais modernas permitiram levar muitas das suas obras ao palco. O que aconteceu foi que Valle-Inclán estava muito à frente das convenções teatrais do seu tempo, dominadas pelo teatro de Benavente. Além disso, recusou-se a submeter-se ao gosto estético de grupos sociais ou empresários. Continuou o seu trabalho com orgulho, mesmo que as suas peças estivessem condenadas a ser "teatro para ler". Anos mais tarde, Valle-Inclán foi redescoberto e é hoje visto como a maior figura do drama espanhol dos últimos três séculos e um verdadeiro vanguardista que antecipou as novas tendências do teatro mundial.

Análise de Luces de Bohemia: Contexto e Personagens

Valle-Inclán nasceu em Villanueva de Arosa, Pontevedra, em 1866. Foi, nas palavras de Ramón Gómez de la Serna, "a melhor máscara a passear pela rua de Alcalá". Por baixo da sua excentricidade boémia, escondia-se uma dissidência violenta e uma entrega rigorosa à sua escrita, em constante busca por novos caminhos. Valle-Inclán era declaradamente antiburguês. A partir de 1915, radicalizou as suas posições, opondo-se ao sistema não a partir de um tradicionalismo idílico, mas de posições revolucionárias. As suas declarações tornaram-se mais frequentes a partir de 1920, ano de publicação de Luces de Bohemia.

Os Personagens como Marionetas

A obra está densamente povoada por mais de 50 personagens, alguns deles inspirados em pessoas reais. Segundo o próprio Valle-Inclán, os seus personagens são marionetas ou fantoches que representam uma tragédia. No entanto, Buero Vallejo argumentou que alguns desses personagens transcendem o estatuto de fantoche e adquirem uma dimensão humana considerável, como Max Estrella, os operários catalães ou a mãe da criança morta.

Max Estrella

É uma mistura de humor e denúncia, de dignidade e indignidade. Juntamente com o seu orgulho, carrega a amarga consciência da sua mediocridade. Destaca-se o seu sentimento de fraternidade para com os oprimidos e a ternura que demonstra pela jovem prostituída.

Don Latino de Hispalis

É o grande fantoche da obra. Representa a miséria e a deslealdade, chegando ao ponto de roubar a carteira de Max no final, que continha o bilhete de lotaria premiado.

Outros Personagens

Os restantes personagens podem ser agrupados em diferentes categorias:

  • Classe média: O livreiro Zaratustra, o taberneiro Pica Lagartos.
  • Polícia: O capitão Pitito, Serafín el Bonito.
  • Pedantes: O jornalista Don Filiberto, Basilio Soulinake.
  • Tipos populares: A porteira, as prostitutas, a Lunares, os coveiros.
  • O coro: Representado na cena XI pela mãe com o filho morto nos braços.

A técnica de caracterização dos personagens é magistral, baseando-se não só nos seus atos, mas fundamentalmente no seu discurso.

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