Análise Estrutural e Temática de Frei Luís de Sousa

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Análise de Personagens e Enredo em Frei Luís de Sousa

D. Madalena é caracterizada como uma mulher angustiada com a possibilidade de encontrar o seu primeiro marido ainda vivo. O seu sofrimento era constantemente relembrado por Telmo Pais, fiel escudeiro de seu primeiro esposo. Esta situação manteve-se durante vinte e um anos, ao fim dos quais, D. João reapareceu, ocultando a sua verdadeira identidade através da personagem do romeiro. A revelação dá-se no auge da peça, dominando as personagens pelo desespero. Não sendo possível continuar com este casamento, uma vez que viviam em situação de adultério, dá-se a dissolução do mesmo.

Após este desfecho trágico, D. Manuel Coutinho e D. Madalena resolvem dedicar-se à vida religiosa, como forma de expiação.

No decorrer da cerimónia, D. Maria de Noronha, filha do casal, personagem que se apresenta frágil e altamente condicionada pela sua doença, a tuberculose, embora simultaneamente se caracterize pela capacidade intuitiva e espírito aventureiro, tomada pela vergonha e desespero, falece aos pés de seus pais.

A atitude de D. Manuel de Sousa Coutinho em relação ao domínio espanhol, assim como o retorno de D. João de Portugal (associado, evidentemente, ao sebastianismo), inserem-se na temática nacionalista, tão cara aos românticos da primeira geração.

Estrutura da Peça

Estrutura Externa: Frei Luís de Sousa apresenta-se dividido em 3 atos com 12, 15 e 12 cenas, respetivamente.

Estrutura Interna: Exposição, conflito e desenlace.

Estrutura por Ato

Cada ato em Frei Luís de Sousa contém uma exposição:

  • No primeiro ato, a Exposição desenrola-se nas primeiras 4 cenas: o leitor/espetador tem acesso ao contexto em que decorrerá a ação dramática, aos antecedentes da ação e ao passado das personagens.
  • No segundo ato, a Exposição decorre nas 3 primeiras cenas: o que se passou depois de terem saído de casa após o incêndio.
  • No terceiro ato, a Exposição corresponde à primeira cena: a decisão de entrada para o convento como solução para o conflito.

Cada ato em Frei Luís de Sousa contém um Conflito:

  • No primeiro ato, o Conflito decorre da quinta à oitava cena: à intenção dos governadores de Lisboa de se mudarem para Almada, ocupando a casa de D. Manuel de Sousa Coutinho, que decide incendiar o palácio para impedir tal acontecimento.
  • No segundo ato, o Conflito decorre entre a quarta e a oitava cena: D. Manuel vai a Lisboa, levando Maria e Telmo, e deixa D. Madalena sozinha com Frei Jorge.
  • No terceiro ato, o Conflito decorre entre a segunda e a nona cena: morte social das personagens e preparação para o desenlace.

Cada ato contém um Desenlace:

  • No primeiro ato, o Desenlace decorre da nona à décima segunda cena: incêndio do palácio.
  • No segundo ato, o Desenlace decorre entre a nona e a décima quinta cena: chegada de um romeiro com notícias perturbadoras – reconhecimento de D. João de Portugal nessa figura.
  • No terceiro ato, o Desenlace decorre entre a décima e a décima segunda cena: morte física de Maria e morte social dos seus pais.

Ação

Constitui-se no drama que se abate sobre a família de Manuel de Sousa Coutinho, casado com D. Madalena de Vilhena (viúva de D. João de Portugal), de quem tem uma filha. D. Madalena pressente que a sua felicidade e harmonia familiar podem estar em perigo, sendo disso prenunciador os versos d'Os Lusíadas: “Naquele engano d’alma ledo e cego, / Que a fortuna não deixa durar muito...”

O incêndio no final do ato I permite uma mudança dos acontecimentos e já na antiga casa de D. Madalena e de D. João de Portugal, a ação atinge o seu Clímax, proporcionando ao Romeiro a possibilidade de reconhecer a sua antiga casa e de se identificar a Frei Jorge.

Os presságios da desgraça iminente sucedem-se e tudo se conjuga para um desfecho dramático: morte física de Maria e a morte para o mundo de Manuel e Madalena.

Descrição das Personagens Principais

D. Madalena de Vilhena foi casada com D. João de Portugal e tinha 17 anos quando este desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, junto com D. Sebastião. Foi procurada intensamente durante 7 anos. Casou-se ao fim desse tempo com D. Manuel de Sousa Coutinho, com quem vive há catorze anos. É uma mulher bela, de grande caráter, que pressente que a sua felicidade é efémera, e que está predestinada à tragédia.

Manuel de Sousa Coutinho é um nobre e honrado fidalgo, que incendeia a sua própria casa para impedir que nela se instalem os governadores que querem fugir à peste que então grassava em Lisboa. Racional, equilibrado e sereno, é dominado pelos sentimentos quando se preocupa com a doença da filha. É um bom pai e um bom marido (será Frei Luís de Sousa quando entra para o convento).

O Romeiro apresenta-se, inicialmente, como um peregrino da Terra Santa, mas é o próprio D. João de Portugal que os vinte anos de cativeiro transformaram num homem velho que ninguém reconhece, nem mesmo o seu velho escudeiro Telmo. Identifica-se como "Ninguém" ao defrontar-se com a impossibilidade de um lugar na vida de D. Madalena e, por conseguinte, na sociedade. A sua existência constitui a impossibilidade da felicidade daquela família, tornando inválido o casamento de D. Madalena e ilegítimo o nascimento de Maria.

Tempo e Espaço

Tempo: A ação reporta-se ao final do século XVI, embora a descrição do cenário do Ato I se refira à "elegância" portuguesa dos princípios do século XVII. O texto é, porém, escrito no século XIX, acontecendo a primeira representação em 1843. A ação dramática de Frei Luís de Sousa passa-se 21 anos após a batalha de Alcácer Quibir, durante o domínio filipino.

Espaço: Cada ato contém um Desenlace. O ato I passa-se numa “câmara antiga com todo o luxo e caprichosa elegância do século XVII”, no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada. Este espaço elegante pretende corresponder à felicidade e harmonia familiar que aí se vive. O ATO II acontece “no palácio que fora de D. João de Portugal, em Almada; salão antigo, de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de família...” As memórias do passado e soturnidade deste espaço indiciam fatalidade. O ato III passa-se na capela, que se situa na “parte baixa do palácio de D. João de Portugal”. “É um casarão vasto sem ornato algum.” O espaço simboliza e caracteriza o mundo da espiritualidade em que os bens materiais não fazem sentido.

Elementos Simbólicos e Atmosféricos

A atmosfera: Sebastianismo (crença no regresso do monarca desaparecido e consequente libertação do domínio filipino). Telmo Pais alimenta estas crenças, e Maria mostra-se uma fervorosa partidária. Existe uma atmosfera de superstição em redor de D. Madalena.

Simbologia: A leitura dos versos de Camões refere-se ao trágico fim dos amores de D. Inês de Castro que, como D. Madalena, também vivia uma felicidade aparente, quando a desgraça se abateu sobre ela e a sua família.

O tempo dos principais momentos da ação acontece num dia aziago, sexta-feira:

  • fim da tarde e noite (Ato I), sexta-feira, tarde (Ato II), sexta-feira, alta noite (Ato III);
  • D. Madalena casou-se pela primeira vez a uma sexta-feira; a uma sexta-feira viu Manuel pela primeira vez;
  • à sexta-feira dá-se o regresso de D. João de Portugal; a uma sexta-feira morreu D. Sebastião, vinte e um anos antes.
Numerologia Intencional

A numerologia parece ter sido escolhida intencionalmente:

  • Madalena casou 7 anos depois de D. João ter desaparecido na batalha de Alcácer Quibir;
  • há 14 anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho;
  • a desgraça, com o aparecimento do Romeiro, sucede 21 anos depois da batalha (21 = 3 x 7).
  • O número 7 liga-se ao ciclo lunar e representa o descanso no fim da criação.
  • O número 3 é o número da criação e representa o círculo perfeito e exprime o percurso da vida: nascimento, crescimento e morte.
  • Na crença popular o 13 indicia azar. Maria vive apenas 13 anos.

Atos Ilocutórios

Assertivo - O enunciado produzido está relacionado com o valor de verdade. A enunciação pode ser submetida ao teste do verdadeiro ou falso. Exemplos: Luís de Camões foi o autor de Os Lusíadas. Penso que ele já me contou essa história.

Directivo - O locutor pretende levar o interlocutor a realizar algo. Expressão de uma vontade ou de um desejo do locutor para levar o interlocutor a realizar uma ação. Utilização de verbos como “condenar”, “pedir”, “ordenar”, “avisar”. Peço-te que me ouças! Sugiro que estudem mais! Aviso-te pela última vez: o trabalho está por fazer!

Compromissivo - O locutor compromete-se a realizar algo. Utilização de verbos como “prometer”, “garantir”, “assegurar”. Garanto que amanhã trago os testes. Prometo entregar o trabalho dentro do prazo.

Expressivo - Expressa sentimentos ou emoções. Manifesta os sentimentos do locutor. Utilização de verbos como “agradecer”, “dar os parabéns”, “lamentar”. Lamento muito! Congratulo-me com a tua vitória.

Declarativo - Cria um estado de coisas através da afirmação de que existem. Usado em rituais como casamentos ou batizados. Nomeio-te meu assessor. Declaro-vos casados.

Linguística Descritiva (Fenómenos Fonéticos)

-> Interceção de segmentos

  • Prótese - Um novo som passa a ser articulado em posição inicial da palavra. Ex: *thunu(m) > atum.
  • Epêntese - Um som surge no meio da palavra. Ex: *humile > humilde.
  • Paragoge - Um som surge no final da palavra. Ex: *ante > antes.

-> Supressão de segmentos

  • Aférese - Um som deixa de ser articulado no início da palavra. Ex: *apoteca > bodega.
  • Síncope - Um som deixa de ser articulado no meio da palavra. Ex: *pigmenta > pimenta.
  • Apócope - Um som deixa de ser articulado no fim da palavra. Ex: *lege > lei.

-> Alterações de segmentos

  • Assimilação - Um segmento fonético identifica-se com outro vizinho ou aproxima-se, ao adquirir um traço do segmento vizinho. Ex: *nostru(m) > nosso.
  • Dissimilação - Perde um ou mais traços fonéticos que tenha em comum com um segmento vizinho, diferenciando-se. Ex: *temaroso > temeroso; *anima > alma.
  • Nasalização - Vogal adquire nasalidade por influência de outro som nasal. Ex: *manum > mão; *mihim > mim.
  • Ditongação - Vogal dá lugar a um ditongo. Ex: *arena > areia; *lege > lei.
  • Redução Vocálica - Ex: medo/medroso; mata-matagal.
  • Crase - Fusão de 2 vogais. Ex: *lana > lã.
  • Metátese - Transposição de segmentos ou sílabas no interior de uma palavra. Ex: *semper > sempre; *apium > aipo.