A Evolução do Jornalismo no Brasil: Da Crônica ao Lead

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A notícia no Brasil antes da chegada do lead

Conceitos tidos por nós como básicos do jornalismo, como isenção, imparcialidade, brevidade e idoneidade, e todos os outros que se caracterizam por defender a neutralidade do jornalista em relação à notícia, são relativamente novos na imprensa brasileira. Seu uso só se tornou padrão para todos os meios de comunicação a partir de 1974, conceitos estes desenvolvidos lentamente por alguns jornais e rádios.

A estrutura formal e ética padrão no ato de noticiar, desde 1808 até os anos de 1970, era completamente diferente dos conceitos modernos. Em primeiro lugar, quase não havia o lead. Mesmo surgindo durante a Guerra Civil Norte-Americana (1861 a 1865), o formato característico do jornalismo só veio ao país em 1942, no rádio, e em 1952 nos jornais.

Neste meio tempo, em geral, o estilo preferido era o da Crônica Jornalística, e o assunto, salvo raras exceções, era a política. Produto da literatura, os textos dos jornais eram tudo menos enxutos. Caracterizavam-se pela abordagem ensaística, narrados geralmente em primeira pessoa e abordando um assunto específico. Seu parente mais próximo. Além disso, não havia indicação para padronização de textos ou mesmo sobre como os jornalistas deveriam proceder para executá-las. O resultado disto eram materiais produzidos de diversas maneiras que buscavam a popularidade (leia-se credibilidade) através de métodos distintos.

Os grandes exemplos desta forma de executar as reportagens são as matérias produzidas pelo chamado "esquadrão de ouro" da revista O Cruzeiro. David Nasser, seja em dupla com Jean Manzon ou outro fotógrafo, é considerado por muitos como o maior repórter que o país já teve. E seus métodos e reportagens, apesar de históricas, são amplamente questionados pelo padrão atual. O jornalista ficou famoso por suas grandes reportagens, cada uma delas produzida de forma ímpar.

Na primeira matéria juntos, Nasser e Manzon foram ao hospício para retratarem a própria loucura, na matéria "Os loucos serão felizes?", de 27/11/43. Nesta, o aspecto visual ganhou destaque em relação ao texto, já que os loucos não podiam se expressar muito. Em outras matérias, o tratamento não chegou a ser o da apuração. Eles simularam uma visita à Amazônia com fotos tiradas dentro da cidade do Rio de Janeiro. Em outra ocasião, na matéria "A vida dos mortos", eles simularam a morte de Manzon para narrar as reações ao passamento. A última foto desta matéria era o fotógrafo visitando o próprio túmulo.

Outra matéria lendária foi a ida de ambos para uma visita aérea a uma aldeia dos misteriosos índios Xavantes, quando, durante o voo, um silvícola alvejou o avião com uma lança de madeira. Com relação à execução da reportagem, os fatos são polêmicos.

Em primeiro lugar, a dupla só foi até um acampamento da Força Aérea próximo à taba, já que os aviões exploradores da época tinham um curto alcance. Tal equipamento, com asas de pano, só conseguia transportar quatro pessoas, sendo duas o piloto e o navegador, e a terceira um funcionário do governo. A vaga restante foi ocupada pelo fotógrafo, que, em vez de usar sua habitual Rolleiflex (máquina de alta qualidade, mas de baixa velocidade de exposição), levou uma filmadora de 16mm no avião. As imagens famosas foram obtidas pela ampliação dos frames do filme em papel, o que torna nítida a granulação do negativo. David Nasser, então, narrou a saga pelo relato de terceiros, completando os fatos vagos com sua própria imaginação.

Algumas vezes, esta forma de se produzir notícias era criada pela própria direção da revista. O grande exemplo foi a matéria transformada em caderno especial sobre a aparição de um disco voador no Rio de Janeiro. Na ocasião, com as vendagens estagnadas em um patamar, optou-se pela fraude deliberada para se conseguir um aumento nas tiragens, que foi obtido. A mando de Accioly Neto, a dupla Ed Keffel e João Martins produziu, por meio de trucagens, algumas fotos que simulavam uma aparição de OVNI no Brasil, em 17/05/1952, curiosamente em uma época em que estes estavam em evidência na mídia. O caderno de oito páginas circulou aos montes.

Segundo a versão romanceada, o fotógrafo estava saindo de outro compromisso, juntamente com um redator, quando viu, na Barra da Tijuca, o OVNI, que conseguiu fotografar, apesar de ter sacado sua câmera rapidamente e capturado imagens difíceis praticamente sem nenhum ajuste. Voltando à redação, ele gritou quando viu a imagem no negativo após a revelação. Negativos estes que foram exibidos como autênticos na própria publicação e mantidos no cofre dos Diários Associados. Na verdade, eles foram enviados para a Aeronáutica e um laudo foi emitido provando a fraude por parte dos jornalistas e do editor, o qual, evidentemente, não foi divulgado ao público.

A prática usual das matérias pagas

Outro aspecto da profissão na época era esta prática tida como antiética nos dias de hoje: as matérias feitas por encomenda ou vendidas para ganhos políticos/financeiros. Ou como se dizia na época, ou se vende a matéria positiva ou a retratação por alguma outra matéria.

A própria revista O Cruzeiro, de alta tiragem e cobertura nacional, em uma época em que o rádio e a televisão não eram fortes, era o carro-chefe de veiculação publicitária desde o momento de sua inauguração em 1928. Era equivalente ao custo de veiculação de uma propaganda no intervalo do Jornal Nacional.

Os valores obtidos com esta prática, mesmo em se tratando do padrão atual, eram enormes. Nos Diários Associados, por exemplo, o repórter levava 20% do preço pago pelo interessado. E este valor era suficiente para se comprar uma cobertura na orla do Rio de Janeiro. O caso mais famoso foi a matéria publicada em 29/06/1946, que causou a cassação do primeiro político brasileiro por falta de decoro parlamentar.

Barreto Filho era um deputado do PTB, getulista ao extremo e, pela gíria atual, uma "figurinha fácil". Um político espalhafatoso que gostava de aparecer, não importava o custo. Meses antes desta reportagem, ele já havia deixado se fotografar tomando banho em um chuveiro para demonstrar ao jornalista da revista Diretrizes que ele era getulista até debaixo d'água.

Para a matéria "Barreto Filho sem máscara", produzida por Nasser e Manzon, eles iriam além. O objetivo era retratar o controvertido político das mais variadas formas. A matéria seria aberta pela foto do deputado nu atendendo o telefone em sua banheira, e logo seria substituída por fotos de maiô em uma praia fazendo poses performáticas e cumprimentando marinheiros. Mas a sequência a seguir seria aquela que entraria para a história do jornalismo nacional. Tratava-se de vários flagrantes de Barreto Filho vestindo fraque e ceroulas, andando por sua casa e posando para fotografias ao lado de um busto de mármore.

Os opositores de Nasser acreditavam que ele havia convencido o político a tirar fotos da cintura para cima e as publicado de corpo inteiro. Mas, por incrível que pareça, foi o próprio Barreto Filho que encomendou e pagou pela publicação da matéria que viria a causar sua cassação pela cúpula do partido.

Samuel Wainer, em suas memórias, narrou de forma crua como eram executadas as operações de caixa dois e o tráfico de informação durante os anos 50 e 60, quando este possuía o jornal Última Hora, que foi ajudado pelo governo e bancado por industriais, banqueiros e empreiteiros de forma não muito lícita, para garantir o apoio do periódico a certas causas nacionais.

Outro exemplo disso foi a matéria "Os paus-de-arara - uma tragédia brasileira", a primeira vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo, em 1955. A matéria, produzida por Ubiratan Lemos e Mário de Moraes, narra a viagem de um caminhão carregando retirantes do Nordeste, desde sua partida até a chegada em São Paulo. A dupla passou pelos mesmos apuros das pessoas e chegou ao Rio de Janeiro com várias moléstias adquiridas na aventura, entre elas, o tifo.

Embora o estilo jornalístico da dupla fosse radicalmente diferente de Nasser e Manzon, baseando-se na narrativa precisa dos fatos e não em invenções alegóricas, esta matéria foi feita por encomenda. Mas esta não foi paga e a matéria acabou engavetada. Foi por sorte que ela foi publicada, já que houve um grande "buraco" em uma edição e a matéria saiu da gaveta para servir de "calhau".

Os últimos dias da antiga reportagem

O jornalismo, como um todo, estava adotando um novo modo de se fazer notícia, que havia sido inaugurado pelo Repórter Esso do rádio e pelo Diário Carioca. A reportagem passava a ter como ponto fundamental a posição neutra do jornalista com relação aos fatos. Um de seus grandes nomes, Odylo Costa Filho, no final dos anos 50, chegou à revista O Cruzeiro para reformulá-la. A parte gráfica ficou a cargo de Ziraldo.

De repente, o estilo Nasser, que havia consagrado a revista e construído o panteão do "Esquadrão de Ouro", passou a ser condenado. E isso já se refletia antes mesmo da chegada de Odylo, pela competição com a Revista Manchete, que levou a tradicional O Cruzeiro a uma crise.

Nasser, amigo pessoal de Assis Chateaubriand, passou a ser colunista, com duas páginas garantidas em todas as edições da revista. Mas a situação já era outra. Em certa ocasião, em 20/04/1963, o mais laureado repórter do Brasil foi forçado a ceder seu espaço para o direito de resposta a Nehemias Gueiros, no artigo intitulado "Recolha as pedras, David", algo impensado em seus anos de glória, 15 anos antes.

Nasser passou a adotar a linguagem sensacionalista em sua coluna, como quando se manifestou em relação ao assassinato de Aida Curi, através de três artigos em O Cruzeiro: "Filhinhos de Papai", "Por uma menina morta" e "Por uma menina viva", publicados em agosto de 1958.

Em outras vezes, ele usava seu palanque para fustigar os novos gestores da revista que o isolaram e transformaram seu jornalismo em obsoleto, como em 02/03/1963, quando fez em sua coluna uma matéria que fazia reverência às grandes reportagens das décadas anteriores. Mas sua sorte havia sido selada. Mesmo se envolvendo publicamente com grupos radicais, apoiando o golpe de 1964, narrando a suposta resistência de Carlos Lacerda, utilizando seu prestígio para enriquecer como fazendeiro no Paraná e relacionando-se com o Esquadrão da Morte, ele praticamente desapareceu nos anos 70. Foi a mesma época em que o jornalismo brasileiro deixou definitivamente de ser subjetivo.

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