Guia de Materiais Dentários e Cimentos Odontológicos
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1. Introdução aos Materiais Dentários
O objetivo da Odontologia envolve o desenvolvimento de materiais aperfeiçoados, a prevenção da cárie, o alívio da dor, o restabelecimento da eficiência mastigatória, a fonética e a estética. Historicamente, foram empregados metais, cerâmicas, polímeros e compósitos.
- 1728 (Pierre Fauchard): Descrição de variados tipos de restauração.
- 1792: Confecção inicial de dentes em porcelana.
- ADA (American Dental Association): Especificação e certificação de produtos odontológicos.
- FDA (Food and Drug Administration): Proteção e regulamentação populacional contra dispositivos médicos e odontológicos.
- FDI (Federação Dentária Internacional): Representação e normatização internacional.
- ISO (International Organization for Standardization): Normas e especificações internacionais para materiais dentários.
Estrutura do Órgão Dental e Periodonto
- Dente: Esmalte, dentina e polpa.
- Periodonto de Inserção: Cemento radicular, ligamento alvéolo-dental e osso/processo alveolar.
- Gengiva: Periodonto de proteção (e inserção marginal).
- Esmalte: Altamente friável; composto por 6% de água, 2% de matéria orgânica e 92% de hidroxiapatita.
- Dentina: Proporciona resistência e elasticidade; composta por 25% de água, 30% de matéria orgânica e 45% de hidroxiapatita.
- Funções da Polpa: Sensorial, de defesa e formação/produção de dentina.
Propriedades Físicas dos Materiais
As propriedades físicas são intrínsecas e não podem ser modificadas unicamente por fatores externos.
- Condutividade Térmica: Condutores possuem alta condutividade térmica; isolantes exibem baixa condutividade. O amálgama tem alta condutividade e difusividade térmica (estímulos térmicos como água gelada podem causar choque pulpar). As bases e forramentos funcionam como barreira térmica isolante.
- Expansão e Contração Térmica: Variação volumétrica em resposta à alteração de temperatura.
- Significância Clínica: O material restaurador ideal deve apresentar coeficiente de expansão térmica linear similar ao da estrutura dentária, acompanhando suas dimensões térmicas.
- Dimensões da Cor: A percepção cromática é definida por três pilares:
- Matiz: Cor dominante do objeto conforme o comprimento de onda. Cores primárias: vermelho, verde e azul; representada na escala pelas letras A, B, C e D.
- Croma (Saturação): Intensidade ou pureza do matiz (grau de saturação), numerado habitualmente em 1, 2, 3, 4, etc.
- Valor (Luminosidade): Claridade ou escuridão da cor, mensurável independentemente do matiz.
Propriedades Mecânicas
Representam o comportamento dos materiais na cavidade oral quando submetidos a forças mecânicas mastigatórias.
- Tensão de Compressão: Força que comprime ou encurta o corpo.
- Tensão de Tração: Força que estica ou traciona longitudinalmente o corpo.
- Tensão de Cisalhamento: Forças paralelas aplicadas em sentidos opostos, gerando deslizamento.
- Tensão de Flexão: Combinação de tensões que resulta na curvatura da estrutura.
- Deformação Plástica: Deformação permanente pós-tensão, sem retorno à forma inicial, podendo levar à fratura dependendo da intensidade da carga.
- Deformação Elástica: Capacidade de recuperação total do formato prévio após cessar a aplicação da força.
- Resiliência: Quantidade de energia absorvida antes de atingir o limite elástico de deformação.
- Módulo de Elasticidade (E): Índice indicativo da rigidez de um material.
- Friabilidade: Incapacidade de o material suportar deformação plástica antes de fraturar.
Biocompatibilidade e Classificação Cavitária
Conforme diretrizes do FDA, para ser considerado biocompatível, o biomaterial não pode ser tóxico, carcinogênico ou mutagênico, nem intervir negativamente no reparo tecidual. Deve ser esterilizável, estável durante a aplicação clínica e resistente à degradação ou corrosão.
Classificação de Cavidades (Black)
- Classe I: Regiões de cicatrículas e fissuras em superfícies oclusais de molares e pré-molares, além de cicatrículas linguais/palatinas.
- Classe II: Superfícies proximais combinadas ou não com as oclusais em dentes posteriores.
- Classe III: Superfícies proximais de dentes anteriores sem atingir o ângulo incisal.
- Classe IV: Superfícies proximais de dentes anteriores com envolvimento do ângulo incisal.
- Classe V: Terço cervical de todas as superfícies dentárias (vestibular, lingual ou palatina).
2. Cimentos Odontológicos
Os cimentos possuem três aplicações clínicas primordiais: cimentação, forramento cavitário e restauração.
- Sistemas: Pó/líquido ou pasta/pasta que reagem quimicamente para a tomada de presa, regidos por tempos de espatulação, de trabalho e de presa (inicial e final).
- Forramento: Cimento de hidróxido de cálcio (presa química) e cimento de ionômero de vidro (química ou fotopolimerizável).
- Restauração: Cimento de óxido de zinco e eugenol (presa química), cimento de ionômero de vidro (química/fotoativada) e cimentos provisórios (com gesso, ativados pela umidade/saliva).
- Cimentação: Fosfato de zinco e cimento de ionômero de vidro em dentes com vitalidade pulpar preservada.
- Bases e Forramentos Protetores: Visam isolar termicamente, conter correntes galvânicas e proteger quimicamente contra monômeros e acidez em cavidades profundas ou com exposição da polpa.
Cimento de Hidróxido de Cálcio
- Apresentação em Cimento: Sistema pasta-pasta para forramento do complexo dentina-polpa.
- Pó Puro (P.A.): Empregado em casos de exposição pulpar direta (capeamento direto/pulpotomia).
- Solução: Soro fisiológico associado ao pó para limpeza cavitária e irrigação em endodontia.
- Pasta: Soro fisiológico e pó para curativo intracanal de demora.
- Formulações Comerciais (Ex.: Dycal, Life, Hidro C): Possuem baixa resistência compressiva, alta solubilidade e pH alcalino elevado (11 a 12), atuando na neutralização ácida e estimulando a síntese de dentina reparadora.
Cimento de Ionômero de Vidro (CIV)
Desenvolvido no período de 1969 a 1971 a partir de modificações do cimento de silicato.
- CIV Fotoativado para Forramento (ex.: Vitrebond, Vivaglass): Destaca-se por sua biocompatibilidade, adesão química à estrutura dental e liberação contínua de flúor.
- Manipulação: Deve seguir rigorosamente os tempos de aglutinação, trabalho e geleificação.
Óxido de Zinco e Eugenol (ZOE e IRM)
- IRM (ZOE Reforçado com Polímero): Indicado para restaurações provisórias e selamento durante intervenções endodônticas. Proporção recomendada de 1 concha de pó para 1 gota e 1/4 de líquido; espatulação homogênea em placa em até 1 minuto; consistência de massa de vidraceiro; tempo de presa de cerca de 5 minutos.
- ZOE Convencional: Empregado na obturação de canais radiculares com consistência fluida, espatulação de 1 minuto e tempo de presa inicial mais lento.
3. Condicionamento Ácido e Selantes
O condicionamento ácido visa desmineralizar microporosamente o esmalte e a dentina, possibilitando a infiltração de monômeros e criando união micromecânica.
- Ácido Fosfórico: Concentração de 30% a 40%, consistência em gel e coloração contrastante, acondicionado em seringas providas de pontas aplicadoras rombas.
Selantes de Fóssulas e Fissuras
Compostos resinosos à base de monômeros metacrílicos (como Bis-GMA e TEGDMA) formulados com cargas inorgânicas (quartzo, vidro, sílica). Têm o propósito de vedar e obliterar cicatrículas e fissuras em decíduos e permanentes contra a colonização bacteriana.
- Classificações: Transparentes, coloridos ou opacos/matizados.
- Vantagens e Limitações: Procedimento minimamente invasivo e simples; todavia, não dispensa controle clínico periódico nem substitui a higiene oral adequada.
- Indicações: Fissuras anatômicas profundas e retentivas, dentes recém-erupcionados e pacientes em alto risco à cárie.
- Contraindicações: Sulcos anatômicos rasos e coalescentes, cáries interproximais ou oclusais cavitadas ativas no elemento e baixa cooperação do paciente.
- Modalidades Técnicas:
- Não invasiva: Profilaxia coronária prévia e aplicação do sistema resinoso.
- Invasiva (adamantinoplastia): Abertura micromecânica com broca restrita ao esmalte; se a dentina for atingida, procede-se à restauração adesiva em vez do selamento simples.
Passo a Passo Clínico para Aplicação de Selantes
- Profilaxia prévia criteriosa do dente com pedra-pomes e água.
- Anestesia local infiltrativa caso o posicionamento do grampo de isolamento gere desconforto gengival.
- Instalação de isolamento absoluto do campo operatório.
- Aplicação do ácido fosfórico pelo período de 30 segundos.
- Lavagem abundante com jato de água por 15 segundos.
- Secagem cuidadosa da superfície por 15 segundos.
- Aplicação precisa do selante resinoso com auxílio de sonda exploradora nº 5 ou pincel microbrush.
- Fotopolimerização pelo tempo preconizado de 20 segundos.
- Acabamento e polimento dos bordos.
- Remoção do isolamento, conferência da oclusão e repetição do polimento caso haja contato prematuro.