A Moralidade Coletiva e o Exercício da Liberdade
A Moralidade Coletiva
Por Julián Marías
O que é frequente é normal? E o que é normal é necessariamente lícito? O filósofo e ensaísta espanhol Julián Marías, falecido em fins de 2005, trata dessa e de outras questões neste artigo, resumo de uma conferência ministrada no “Instituto de Espanha” (Madrid) em 15/04/1998.
Falaremos hoje de um problema relacionado com o horizonte do próximo século: o problema da moralidade coletiva. A moral é assunto pessoal e, portanto, individual. O homem, porém, vive em sociedade e possui uma vida individual articulada com a vida coletiva. Por consequência, a vida moral está condicionada naturalmente pela situação social, pelo conjunto de usos, vigências, pressões sociais, modelos e exemplos.
A Liberdade como Fator Decisivo
Deve ficar claro que, por se tratar de um assunto pessoal, o fator decisivo é a liberdade. O homem é responsável, faz a sua vida e escolhe o seu projeto. As circunstâncias sociais influem, mas a liberdade é fundamental e faz com que o homem seja responsável pelo que escolhe e decide dentro das possibilidades.
O homem da nossa época recebe interpretações da realidade que, muitas vezes, têm caráter moral. Formas de vida, de relacionamento humano, de família e de ética política apresentam-se como normais porque são frequentes. Essa identificação é perigosa: considerar o que é frequente como normal, o que é normal como lícito, e o que é lícito legalmente como se fosse moral. São identificações inaceitáveis.
A Influência dos Meios de Comunicação
A palavra moral deriva do latim mos, moris, que significa costume. Os costumes têm caráter moral e a moral é afetada por eles. Em última análise, o homem pode aceitar as vigências sociais ou resistir a elas. Contudo, a vida coletiva é afetada por um sistema de pressões. Se considerarmos a vida atual, comprovamos que o que aparece como modelo nos meios de comunicação é, muitas vezes, minoritário.
- A pressão coletiva: Não se compreende a nossa época sem ter em conta essa pressão, que, embora minoritária na realidade, exerce efeitos sobre todas as classes sociais.
- Manipulação consentida: Produz-se um estreitamento do horizonte ou uma manipulação que muitas pessoas aceitam passivamente.
Desorientação e o Remédio da Liberdade
Não acredito que a nossa época seja especialmente imoral, mas é uma época de muita desorientação. Há uma sensação geral de incerteza onde se acredita que tudo é aceitável e que não se pode julgar nada. Isso não é liberdade.
Liberdade é o que eu posso querer pessoalmente. O único remédio para esta situação está no exercício da liberdade. A recuperação da saúde geral da vida moral depende da afirmação da liberdade individual, evitando que grupos minoritários utilizem técnicas para manipular os indivíduos e despojá-los da sua realidade pessoal.
Sobre o Autor
Julián Marías (1914-2005): Foi o pensador mais proeminente em língua espanhola. A força do seu pensamento reside na associação entre a experiência da vida e a razão vital. Autor de uma vasta bibliografia, Marías foi um filósofo que buscou orientar o homem do século XX, preservando-o da confusão e do desvario. Amigo do Brasil, deixou um legado intelectual que permanece atual e necessário.