A Prova da Existência de Deus em Descartes
Uma vez certo de sua existência como ser pensante, Descartes inicia a segunda etapa de sua metafísica: a prova da existência de Deus. Ter em mente a ideia de substância infinita não significa, por si só, que Deus existe, mas apenas que compreendemos a ideia de perfeição absoluta. A razão humana não é perfeita, dado que apresenta dúvidas e hesitações; logo, não é uma entidade perfeita. Se somos criaturas imperfeitas, como poderíamos conceber uma ideia tão perfeita quanto a de Deus?
Antes de prosseguir, Descartes distingue dois níveis de existência:
- Existência objetiva: A existência da ideia em nossa mente, como objeto de pensamento.
- Existência formal ou atual: A existência do objeto fora de nossa mente.
Com base nisso, Descartes afirma que a realidade objetiva de cada ideia deve ter sido causada por algo que possua, pelo menos, tanta realidade formal quanto a realidade objetiva da ideia, pois a causa deve ter tanta realidade quanto o efeito, nunca menos.
Para responder se a ideia inata de Deus possui existência objetiva, Descartes desenvolve os seguintes argumentos:
- Princípio da causalidade: A realidade formal da causa de uma ideia deve ter tanta ou mais realidade do que a existência objetiva da própria ideia.
- Argumento da origem do ser: "Eu, um ser que pensa e possui a ideia de Deus, a quem devo minha existência?" Descartes analisa três opções: eu mesmo, meus pais ou um ser mais perfeito que eu, mas menos que Deus. Ele conclui que não pode ser a causa de sua própria existência, pois, se fosse, teria todas as perfeições da ideia de Deus. Seus pais apenas forneceram a existência corporal, não a substância pensante. Portanto, a causa deve ser o próprio Deus.
- Argumento Ontológico: Baseado em Anselmo de Cantuária, é o mais coerente com os princípios cartesianos: "A ideia de Deus, um ser perfeito, inclui necessariamente a sua existência, pois um Deus perfeito que não existisse estaria em contradição com sua própria definição."