Rococó e Neoclassicismo: Contexto, Arte e Iluminismo

História19,13 KB

Contexto Temporal e Espacial

O período em que se inserem o Rococó e o Neoclassicismo pertence ao final da Idade Moderna e ao preliminar da Idade Contemporânea, ou seja, séc. XVIII e inícios do séc. XIX.

Este período foi marcado por ambiguidades, como a manutenção de instituições e estruturas do Antigo Regime (sociedade de ordens e absolutismo monárquico) e a anunciação de uma nova era, essencialmente no campo da sociedade e da política. Foi um período de grandes alterações políticas, que assistiu a revoluções como a da independência americana e a Revolução Francesa.

Contexto Económico e Social

Ao nível económico, ficou marcado pela dinamização da produtividade (a partir da segunda década do séc. XVIII), principalmente na agricultura, reanimada por avanços tecnológicos e bons anos agrícolas. A expansão económica também se deveu a uma proliferação das pequenas oficinas paralelamente às grandes manufacturas.

O crescimento económico resultou na melhoria geral das condições de vida e no crescimento populacional. Todos estes acontecimentos reduziram a depressão que recaiu sobre a Europa a partir dos finais do séc. XVI. Um grande impulsionador desta prosperidade foi o avanço científico-tecnológico.

A melhoria geral trazida por este período levou ao crescimento das classes populares, em especial da burguesia, que esteve extremamente activa em todos os campos de actividade, incluindo os político e financeiro, nos quais alguns dos mais ricos burgueses participavam. A alta burguesia experimentou o cruzamento com a aristocracia através de, por exemplo, casamentos e festas.

O individualismo setecentista impulsionou a construção de palacetes citadinos e castelos de campo, que eram o palco de um modo de vida requintado e confortável, com a imposição de códigos de etiqueta. Esta época foi também estimuladora de uma maior abertura das ideias.

Do Palco para o Salão

Entre a morte de Luís XIV e a tomada de poder de seu neto Luís XV, a França foi governada por regentes do trono. Neste período, a corte perdeu o interesse na vida real e as cerimónias tornavam-se cada vez mais monótonas. Assim, a aristocracia começou a ganhar mais interesse na vida pessoal, passando mais tempo nas mansões privadas e nos palacetes, tentando atingir o nível de conforto da corte, o que se concretizou na propagação da educação e cultura, próprias do pensamento iluminista.

Os iluministas, filósofos humanistas e racionalistas, consideravam o progresso como fonte de felicidade, objectivo último da humanidade. Anunciador de mudanças profundas, o Iluminismo foi a base das revoluções liberais que fariam cair o absolutismo em prol de regimes democráticos. Também o liberalismo influenciou ideologicamente vários movimentos políticos, como a Revolução Americana, em 1776, e a Revolução Francesa, em 1789.

A decoração interior desses edifícios tornou-se, portanto, importante, e o luxo, a exuberância, a beleza requintada, a sensualidade e o intimismo tornaram-se características importantes. Esta intimidade e individualidade trazida por este período vão retirar a opulência barroca das habitações senhoriais e trarão formas mais alegres, optimistas, despreocupadas, mais ligadas a uma arte natural e privada.

O centro da vida social passou do palco para o salão, lugar mais privativo, onde se reunia a família após as refeições ou mais gente por ocasião de alguma festividade, banquete... As reuniões no salão também trouxeram uma novidade: com a efervescência do Iluminismo, começou a haver maior interesse nas coisas menos prosaicas, dando-se mais importância à intelectualidade... o que trouxe grandes personalidades no campo das artes, das ciências... a esses saraus. Desta maneira, os salões tornaram-se os centros da vida social cultural e artística, desempenhando o papel de divulgar as novidades intelectuais e políticas.

O Iluminismo

No séc. XVIII, reconhecia-se como Luz o conhecimento racional, o saber esclarecido. Assim, quem o detinha ou praticava denominava-se de iluminista. Assim, o mais valorizado no indivíduo era a sua inteligência e razão, uma vez era reconhecido como o único meio fidedigno de alcançar a verdade universal que, em última instância, levaria à felicidade (esta última considerada como direito natural do homem e objectivo principal da sua existência).

O progresso era, assim, considerado como positivo, era reconhecido como algo que só poderia melhorar a existência material e espiritual do homem. Este período caracteriza-se, portanto, por uma visão optimista do futuro. Estes novos ideais, esta nova liberdade intelectual, levou o homem a pensar acerca dos direitos humanos, entre as quais o direito à liberdade e à igualdade — direitos naturais.

O iluminismo alimentou uma relação muito estreita com o universo da burguesia; esta usava-o como instrumento de afirmação devido à identidade entre o movimento e as suas (da burguesia) mentalidades. O crescimento da burguesia ajudou a que houvesse, na generalidade, uma aceitação dos ideais em questão, mesmo nos estratos sociais mais elevados.

O meio de divulgação do iluminismo não se limitou, como outrora; surgiram as enciclopédias como compêndios de todo o conhecimento que havia.

A Secularização Cívica e a Divulgação Iluminista

A par das revoluções do séc XVIII, houve uma democratização e popularização geral. O elitismo dissolveu-se cada vez mais, paralelamente à tentativa de sensibilização e ao incentivo à acção, à educação e à responsabilidade social. Para transmitir estes novos valores e atitudes ao povo, começaram a instituir-se as festas cívicas, que substituíam as antigas festas religiosas.

A Arte Rococó

Em resumo, o Tardo-Barroco e o Rococó constituem a última fase da idade moderna, iniciada no Renascimento. É caracterizado por uma maior liberdade, desprendimento da encomenda, que se reflecte numa arte mais aberta, numa composição mais livre e alegre. O prazer estético é elevado a um ponto nunca antes experimentado, usando as capacidades plásticas da luz.

Origens do Rococó

O Rococó nasceu em França, por volta de 1715, atingindo o apogeu em 1730 e declinando no final do reinado de Luís XV (1715-1774). A sua expansão chegou às colónias portuguesas e espanholas, após ter proliferado na Europa.

Esteticamente, define-se pela tolerância, liberdade, irreverência, intimidade e individualismo que caracteriza o homem iluminista, a quem se destinou esta arte (elite aristocrática e intelectual). A arte rococó distanciou-se, portanto, das imposições canónicas academistas, defendendo a criatividade intelectual/improvisação.

Num momento inicial, manifestou-se como novo tipo de ornamentação, mais especificamente, para ornamentação interior. Ao nível formal, caracterizou-se pelo estilo leve, elegante, pelas cores suaves, linhas sinuosas e informais. Também se reflectiu nas artes ornamentais, como o mobiliário, a ourivesaria, prataria e ferraria, a tapeçaria e as belas-artes.

A Arquitectura Rococó

A arquitectura Rococó teve o seu auge na Alemanha e na Áustria, como base para monumentos civis e religiosos. Baseou-se nalguns princípios como:

  • Diferenciação dos edifícios de acordo com a sua função, através da manipulação dos espaços pela sua articulação e decoração;
  • Traçado exterior simples e tratamento do interior, agora mais cómodo e íntimo;
  • Utilização de elementos decorativos barrocos, linhas ondulantes, da assimetria;
  • O uso de materiais fingidos, como os rocalhos (imitação de rocha), falsos mármores...

Estes princípios beneficiaram mais a arquitectura civil.

Características Exteriores

Exteriormente, os edifícios barrocos apresentam as seguintes características:

  • Fachadas alinhadas e alisadas;
  • Uso das balaustradas, entablamentos e cornijas;
  • Portas e janelas de maiores dimensões, com acabamento em arco de volta perfeita ou achatado;
  • Concentração da decoração exterior nas portas e janelas;
  • Utilização abundante do ferro forjado;
  • Uso do jardim como complemento arquitectónico.

Características Interiores

No interior, os edifícios apresentavam-se da seguinte maneira:

  • Plano das habitações centrado no salão, sendo que o andar de cima era destinado aos donos da casa;
  • Divisões baixas, pequenas, independentes, arredondadas;
  • Decoração exagerada das paredes, com molduras embutidas para telas, com tapeçarias, frescos...

Uma vez que houve uma grande proximidade temporal entre o Barroco e Rococó, é vulgar encontrar-se um edifício exteriormente Barroco e interiormente decorado no estilo do Rococó (decoração sumptuosa e da cor).

A arquitectura religiosa, mais concretamente a igreja, desenvolveu-se principalmente na Áustria, Prússia, Baviera, tendo por base plantas longitudinais e bastante complexas, exteriores simples com muitas janelas e decoração que se mistura com a arquitectura, escultura e pintura.

A Escultura Rococó

A escultura Rococó encetou imensas estratégias escultóricas, tendo, no entanto, retomado alguns processos Barrocos; novos cânones estéticos, que valorizavam a curva/contracurva, formas delicadas e fluidas, ganham protagonismo.

Na figura humana, houve a exploração do cânone maneirista, baseado em corpos alongados, que abordava a linguagem rococó. Nos grupos escultóricos, as figuras ganham um grande movimento e ritmo e um grande sentido cénico.

No campo dos géneros escultóricos, houve a introdução de novos:

  • A escultura decorativa, que se integrava na arquitectura;
  • A estatuária de pequeno porte, destinada a interiores e com funções somente decorativas.

A escultura rococó também ficou marcada pelo uso de novos materiais, como a pedra, o bronze, o ouro e a prata, a madeira, a argila e o gesso. Também foi usada uma porcelana especial, usada vastamente na produção de pequenas esculturas, tanto que se tornou num surto artesanal. As pequenas esculturas tiveram tanto êxito que se formaram, principalmente nos países sul-europeus, indústrias de produção, muito no campo dos presépios.

Também se seguiu a abordagem de novas temáticas. Houve o abandono de temas mais nobres e sérios em prol da ironia, da jocosidade e da sensualidade. Foram exploradas as temáticas mitológica — em que se preferiram os deuses menores —, profana — em que se valorizaram os aspectos pitorescos e frívolos — e religiosa.

A Pintura Rococó

A pintura rococó reflectiu a sociedade aristocrática e festiva. Abundaram as cenas pastoris e o retrato — agora usado pelos burgueses. As temáticas foram tratadas mais ligeiramente com referências à mitologia.

A nível formal, o ritmo, a exuberância e a tendência decorativa são os principais focos. É visível uma rica ornamentação e um cromatismo muito leve.

Os pintores que mais se destacaram foram Watteau, que trabalhou temas de festas galantes, cenas de género e mitológicas, contudo com algumas réstias de barroco (como a ansiedade e tristeza dele características), e Fragonard, de pincelada rápida e espontânea, aplicando dinâmica e emotivamente a cor.

Rococó no Mundo

Na Itália

No Rococó Italiano, a arquitectura só se evidenciou na decoração interior e pintura decorativa mural. Neste campo, destacou-se Giambattista Tiepolo, que faz um jogo de cores claras e límpidas conjugado com o brilho colorido de tradição veneziana.

Na pintura sobre tela, destacou-se a vedute, pintura de género de panorâmicas de cidade, na qual se destacam Canale (Caneletto), que pinta os cenários urbanos com minucioso realismo, e Francesco Guardi, em que a arquitectura é fantasia envolvida por uma luminosidade delicada.

A Arte Neoclássica

A arte neoclássica foi a arte iluminista por excelência. Acompanhou a revolução científica e filosófica do séc. XVII. Assim, revalorizou o estudo da Natureza e dos antigos como fonte de inspiração. Era, portanto, o regresso à ordem.

Ao nível técnico-formal, caracterizou-se pelo virtuosismo, idealização da beleza, alcançada através de aprendizagens rigorosas. No campo conceptual e temático, retomou os conteúdos eruditos, abstractos ou moralizantes, baseados na História, Literatura... Retoumou-se a ideia de arte como meio pedagógico, e o artista voltou a assumir o papel de educador público.

A Arquitectura Neoclássica

A arquitectura neoclássica baseou-se no estudo dos antigos, adicionando novas características tecnológicas e formais adequadas àquele tempo, com novos sistemas construtivos, novas máquinas e novos materiais.

Esta nova ideia da arquitectura levou a uma maior preparação escolar dos arquitectos, que estudavam, agora, apoiados no rigor científico imposto pelas academias, que, mais tardem, se transformaram as primeiras escolas politécnicas.

A arquitectura do período neoclássico não foi pura cópia da romana ou grega; empenhou-se na funcionalidade, com originalidade e engenho e foi a raiz de várias tipologias adaptadas às exigências da época. Criaram-se, portanto, novos cânones estruturais, formais e estéticos, que resultaram nas seguintes características:

  • Emprego de materiais nobres e tradicionais — pedra, mármore, granito, as madeiras — e novos materiais como o ferro fundido;
  • Uso de processos técnicos mais recentes e avançados, com sistemas construtivos simples que, assimilados aos elementos arquitectónicos, levaram à simplicidade estrutural;
  • Uso de formas regulares, geométricas e simétricas nas plantas;
  • Volumes maciços bem definidos por panos murais lisos;
  • Uso de abóbadas de berço e cúpulas nas coberturas.

A arquitectura neoclássica demonstrou também preocupação com os interiores, organizando-os segundo critérios geométricos e formais.

A decoração de interiores recorreu a elementos estruturais clássicos, à pintura mural, ao relevo... advindos das novas descobertas na arqueologia (Pompeia e Herculano). Contudo, era uma decoração austera, limitada, estática, e era essencialmente estrutural. Assim, a intimidade e o conforto foram procurados através de uma elegância discreta e serena.

As características enunciadas tinham a função de evidenciar a racionalidade estrutural e formal, dando robustez, nobreza, sobriedade e monumentalidade ao edifício. Foi, deste modo, empregue em várias tipologias, que se subdividiam em dois conjuntos: as de directa inspiração clássica e as novas tipologias, como hospitais, museus, bibliotecas, escolas, cafés, salas de teatro e ópera, bancos, bolsas, repartições públicas e sedes de governo. A encomenda civil e estatal/pública cresceram tanto que deixaram a encomenda religiosa para segundo lugar.

Arquitectura Neoclássica: Variantes e Autores

Houve vários locais de desenvolvimento da arquitectura neoclássica, como a França, a Alemanha e a Inglaterra.

A França constituiu um dos núcleos principais do neoclassicismo, uma vez que as tendências clássicas se mantiveram durante o período Barroco e Rococó.

No Neoclassicismo francês, há casos que ultrapassam as vertentes do realista e exequível, com, por exemplo, obras de Ledoux e Boullé, os visionários utópicos, com formas tão idealizadas que tentavam prever uma arquitectura do futuro.

Outros importantes arquitectos foram Soufflot, que desenhou o Panteão de Paris (igreja de Santa Genoveva) e Vignon, com a Igreja de Madeleine.

A Alemanha, por outro lado, desenvolveu mais sob influência grega, com maior rigor científico e formal, apoiando-se na ordem dórica.

Outro grande centro de desenvolvimento foram os Estados Unidos da América, tendo-se sediado este estilo como o primeiro estilo nacional. Com influências inglesas, teve arquitectos de destaque como Thomas Jefferson, Latrobe e Thornton, que trabalharam sobre diversas tipologias.

A Pintura Neoclássica

A pintura neoclássica apareceu nos finais do sec. XVIII, tendo-se propagado até meados do séc. XIX. Com raízes ideológicas no iluminismo, no Humanismo, no Cientismo e no Individualismo, reagiu contra o Barroco e o Rococó ao nível estético, usando o Classicismo como fonte de inspiração.

Partindo dos cânones clássicos, os pintores adoptaram formas racionais, pondo em evidência a austeridade e a simplicidade.

Ao nível formal, a pintura neoclássica é definida pela composição geométrica, pelo desenho rigoroso e linear, pelo perfeccionismo técnico e pelo tratamento da luz e do claro-escuro muito elaborado. Há também a predominância da linha, do contorno e do volume sobre a cor. As cores são sóbrias em variações frias, sem grande variação cromática. A pintura é como que uma cobertura da forma. A estética é naturalista e as formas são idealizadas.

Ao nível temático, a pintura passou pelos assuntos históricos, alegóricos, mitológicos, heróicos e pelos retratos.

A Pintura Neoclássica: Autores

No ramo da pintura, os pintores que se destacaram foram, essencialmente, franceses. Jacques-Louis David foi uma personagem central na pintura neoclássica. Tem como obras de destaque “O juramento dos Horácios”, “A morte de Marat”... Outros pintores importantes foram Antoine-Jean Gros e Ingres, ambos discípulos de David.

A Escultura Neoclássica

Tal como a pintura, a escultura neoclássica baseou-se na arte dos povos grego e romano, usando os mesmos temas.

A estatuária também serviu para a glorificação e publicidade de pessoas importantes, como políticos e outras figuras públicas, tal como havia sido usada pelos povos clássicos.

Ao nível formal, a escultura copiou as formas greco-latinas de representação com fidelidade, minúcia, perfeição e sentido estético.

Tecnicamente, o uso de metodologias rigorosas desde a concepção até ao acabamento resultou em obras de uma concepção exímia. O material mais usado foi o mármore branco e, em menor escala, o bronze. A madeira foi excluída da escultura erudita.

A Escultura Neoclássica: Autores e Locais de Foco

Os grandes artistas da escultura neoclássica foram Canova, com obras como “Vénus e Marte”, Houdon e Thorvaldsen.

A escultura neoclássica teve uma divulgação ao nível europeu, com foco em Roma e em Paris, por onde passaram todos os escultores desta época.

Baixar

PDF Word HTML