Descartes: Dúvida Metódica, Cogito e a Prova de Deus

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Descartes.

NOÇÕES FUNDAMENTAIS

1. Dúvida e Certeza

Descartes levanta a questão chamada Epistemologia. Sem nenhum conhecimento prévio, todas as informações devem ser revistas para afastar qualquer suspeita de erro. A verdade é guiada por um método teórico. A dúvida metódica é o uso da dúvida como um procedimento para descobrir a verdade. É a menor dúvida que, na menor incerteza, deve ser aplicada.

A questão é exigida pela primeira regra do método, que não requer mais do que considerar como verdadeiro aquilo que é óbvio, que se apresenta à nossa mente de forma clara e distinta.

Assim, Descartes analisa todos os canais de informação possíveis:

Dúvida dos sentidos, dúvida do raciocínio ou dedução, e a incerteza na distinção da realidade (sono/vigília).

O último momento da dúvida é a hipótese do Gênio Maligno, um ser poderoso e mau que nos faz cair em erros, mesmo nas ideias que percebemos como óbvias. A dúvida cartesiana tem a característica de ser universal. É aplicável a todas as coisas, reais ou não. A dúvida metódica é, portanto, provisória e teórica, e não cética.

A certeza principal para Descartes reside na proposição: ''Penso, logo existo'' (Cogito Ergo Sum). Isso não é obtido através da razão, mas é capturado por intuição. Para garantir o critério da verdade e a distinção da mente, recorremos à existência de Deus como um criador bondoso, disposto a nos livrar de um Gênio Maligno.

2. Pensamentos e Ideias

O pensamento é o atributo essencial da substância pensante, que garante a minha existência. O pensamento é a compreensão, a vontade, a imaginação, a sensação, etc. Ao descartar o conteúdo do pensamento, as ideias, Descartes altera a filosofia anterior, a Escolástica, que acreditava que o pensamento repousava inequivocamente sobre as coisas e não sobre as ideias.

Para Descartes, a ideia é o meio do pensamento, e repousa sobre as ideias e não nas coisas, cuja existência é questionável, em princípio.

Para Descartes, as ideias são conteúdos mentais que dependem do sujeito que pensa, sendo os materiais com que a mente trabalha. Essas ideias foram colocadas no sujeito por Deus. As ideias inatas coincidem com a verdade (clara e distinta), visto que a existência infinitamente bondosa da divindade garante a sua correspondência com a realidade.

Existem 3 tipos de ideias:

  • Ideias Adventícias: Provenientes da experiência externa, das realidades exteriores a mim. (Exemplo: Ideia do sol).
  • Ideias Factícias: Incorporadas a partir de outras ideias (Exemplo: Riqueza, unicórnio).
  • Ideias Inatas: Provenientes da minha própria natureza (Exemplo: A ideia de pensar, de existir).

Descartes distingue entre: a realidade objetiva das ideias, a sua própria realidade formal e a realidade eminente ou dos objetos, menos precisa do que a formal.


Descartes

Tópicos Centrais

1. Cogito e Garantia dos Critérios

Descartes começa duvidando deliberadamente de todo o conhecimento possível em sua filosofia. A dúvida metódica, um procedimento de investigação filosófica, utiliza a dúvida como um caminho a seguir, alargando o âmbito dos nossos sentidos, capacidade de raciocínio e tornando-nos incapazes de distinguir a realidade do sonho. Encontramos também a dúvida hiperbólica, representada pelo Gênio Maligno.

Ao duvidar de tudo, encontramos uma verdade inegável:

''Penso, logo existo'' (Cogito Ergo Sum).

Esta verdade não é a conclusão de um argumento em questão, mas é um processo produtivo no qual tomo consciência de que, mesmo que eu me engane e tudo seja falso, é claro que eu sou quem duvida. Esta verdade pode refutar as teorias dos céticos.

Outro problema surge: o estreitamento da dúvida reduz tudo à declaração do próprio pensamento. Para resolver isso, Descartes explica outras verdades contidas na primeira, que são: A Essência do Ser, o Critério da Verdade e a Necessidade de Deus em seu sistema.

A essência de si mesmo é pensar: eu sou uma coisa que pensa, uma substância pensante (res cogitans). Esta declaração é a segunda verdade cartesiana. Descartes retorna ao dualismo platônico refutado por Aristóteles, onde o 'eu' é definido como o pensamento ou coisa da alma (res cogitans) e distinto do corpo (res extensa). Esta afirmação se sustenta porque podemos duvidar do nosso corpo, mas não do nosso 'eu' como pensamento. Há uma separação radical entre o pensamento e a extensão (matéria). O sistema cartesiano enfrenta um novo problema, a comunicação entre o corpo e a mente, que é resolvida pela glândula pineal.

O critério da verdade é uma regra que nos diz quando realmente podemos estar certos de algo. Isso está implícito na primeira regra do método: uma ideia é clara quando é apresentada diretamente e não deriva de outras. Uma ideia é distinta quando está separada de qualquer outra ideia e apresentada de forma independente.

O critério da verdade é um estudo formal, desenhado a partir da intuição cartesiana (Cogito Ergo Sum). Conceitos cartesianos: substância é aquilo que não precisa de outra coisa para existir; o atributo é a propriedade essencial de uma substância; e o modo é o que mais necessita para existir.

A hipótese do Gênio Maligno não prejudica o pensamento intuitivo do Cogito, mas coloca em questão as intuições que são evidentes, como uma realidade fora da mente. A necessidade de Deus em seu sistema é a quarta verdade. É necessário garantir que os critérios claro e distinto sejam válidos.

Como fui criado por Deus, que é bom e bondoso, isso impedirá que eu caia em erro e que o Gênio Maligno me engane. A existência de Deus é a garantia final e absoluta do critério da verdade.

2. A Demonstração da Existência de Deus

O critério de verdade garante que os pensamentos claros e distintos em minha mente correspondam a coisas externas a mim, mas isso não significa que se possa provar que Deus existe e que Ele não me engana por ser bom e bondoso.

Enquanto isso não for provado, a hipótese do Gênio Maligno não é invalidada, mantendo a possibilidade de que algo claro e distinto seja falso.

A prova cartesiana da existência de Deus é caracterizada pelos seguintes pontos:

  • Parte do Cogito, que é a única certeza para Descartes;
  • Não pode haver manifestações de dedução, pois os argumentos e falácias são inválidos para a dúvida;
  • O teste deve ser intuitivo.

AS TRÊS PROVAS DE DESCARTES PARA A EXISTÊNCIA DE DEUS

Entre as ideias que estão em nossa mente está a ideia de Deus, entendida como a 'substância perfeita'. A ideia de Deus não é adventícia, porque os sentidos não percebem nada de eterno ou infinito; não é factícia, porque a imaginação não pode alcançar esses atributos de perfeição; é inata. Descartes descobre que o sujeito pode ser a causa de todas as outras ideias, mas não a ideia de 'perfeição', porque esta é maior do que o indivíduo que pensa.

O perfeito não pode ser obra do menos perfeito. Só Deus, como ser infinito e real, pode causar uma ideia de infinito no sujeito pensante.

Descartes pensa, coincidindo com Santo Agostinho, que se negarmos que Deus é a causa da existência do sujeito, deve-se admitir que o sujeito causa a si mesmo. Mas se eu tivesse me criado, possuiria todas as qualidades possíveis. Como sou finito, imperfeito e limitado, concluo que não posso ser a causa da minha própria existência e, portanto, meu criador deve ser mais perfeito, neste caso, Deus.

A existência de Deus é demonstrada pelos argumentos baseados na ideia de perfeição que está no pensamento e no princípio da causalidade.

A 3ª Demonstração é chamada Prova Ontológica, proposta por Anselmo de Cantuária. Segundo Descartes, a essência do ser perfeito inclui a existência e, portanto, não se pode pensar em um ser perfeito como não existente, da mesma forma que não se pode pensar em um triângulo que não tem três lados. Descartes utiliza a Prova da Existência do Ser Perfeito como o Critério de Verdade ou garantia epistemológica, com a certeza de que o Ser Perfeito é o criador do sujeito. Isso cancela a hipótese do Gênio Maligno, porque Deus, em Sua infinita bondade, nos impede de cair em erro.

Além disso, assegura que as ideias que o sujeito percebe de forma clara e distinta correspondem à realidade.