Farmacologia Clínica: Corticoides, Epilepsia e Psicotrópicos
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Corticoterapia
Ações e Efeitos Colaterais Gerais
Ações: Antialérgico, Imunossupressor, Anti-inflamatório (inibição da COX), Reposição hormonal.
Efeitos Colaterais: Hiperglicemia, aumento da Pressão Arterial (PA), resposta metabólica ao estresse.
Classificação por Duração de Ação
- Ação Curta: Cortisol.
- Ação Intermediária (mais utilizados): Prednisona (Prednisolona/Metilprednisolona), Triamcinolona.
- Ação Longa: Betametasona, Dexametasona (uso prolongado, maior risco de efeitos colaterais).
Síndrome de Cushing
Decorrente do aumento do nível de cortisol. Sintomas: obesidade, fácie em lua cheia, pletora, aumento da resistência à insulina (podendo levar a Diabetes Mellitus - DM).
Síndrome de Retirada
O organismo entende que o aumento de corticoides leva à inibição do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA), causando atrofia da adrenal. Requer retirada gradual.
Regimes de Retirada (A: Alta dose, M: Média dose, B: Baixa dose)
| Uso Crônico (> 2 meses) | Uso Intermediário (2 semanas a 2 meses) | Uso Curto (< 2 semanas) |
|---|---|---|
A: 1/5 a cada 2 semanas | A: ¼ a cada semana | A: ⅓ a cada 4 dias |
Dosagem: A: 40-100mg/dia | M: 15-40mg/dia | B: 5-15mg/dia
Epilepsia
Tratamento por Tipo de Crise
- Crise Generalizada: Valproato.
- Epilepsia Focal (Adultos): Carbamazepina (também usada em crianças), Fenitoína e Valproato.
- Idosos: Gabapentina e Lamotrigina.
- Associação: Valproato + Lamotrigina.
- Emergência (Estado de Mal Epiléptico): Diazepam; Fenitoína, Fosfofenitoína ou Fenobarbital (crianças); Midazolam, Propofol, Tiopental.
Mecanismos de Ação (MOA)
- Bloqueio de Canais de Sódio Voltagem-Dependentes (VSCC): Carbamazepina, Fenitoína, Valproato, Lamotrigina.
- Bloqueio de Canais de Cálcio Tipo T (CCa Tipo T): Valproato; Succinimidas e Etossuximida (para crises de ausência).
Bloqueio da Sinapse Glutamatérgica
- Diminuição de Glutamato: Lamotrigina.
- Bloqueio NMDA: Levetiracetam.
- Bloqueio AMPA: Topiramato.
Potencialização do GABA
- Aumento da Liberação: Gabapentina.
- Inibição da GABA Transaminase: Valproato.
- Bloqueio da Captação Neuronal: Tiagabina.
- Atuação na Unidade Receptora GABA-A: Fenobarbital, Benzodiazepínicos (BNZ).
Outros Mecanismos
- Antagonismo α2δ dos canais de cálcio neuronal (diminuição de glutamato): Gabapentina, Pregabalina.
- Antagonismo SV2A: Levetiracetam.
Efeitos Colaterais
- Valproato: Alopecia, ganho de peso, lesão hepática, pancreatite e inibição da CYP.
- Carbamazepina: Ganho de peso, aplasia de medula, lesão hepática e indução enzimática.
- Aplasia de Medula: Lamotrigina, Etossuximida.
- Lesão Hepática: Fenobarbital, Lamotrigina, Etossuximida, Fenitoína.
- Perda de Peso: Topiramato e Zonisamida.
Opioides
Atenção: Não devem ser usados em casos de cálculo renal, pois podem provocar espasmos do ureter. Causam tolerância e crise de abstinência se a retirada for abrupta.
Naturais | Semi-sintéticos | Sintéticos | Agonistas-Antagonistas | Antagonistas |
Ópio, Morfina (forte), Codeína (fraco), Tebaína | Oxicodona, Heroína, Hidroxicodona, Oximorfona, Hidroximorfona | Metadona, Meperidina, Petidina, Fentanil, Metadol | Buprenorfina, Nalbufina, Pentazocina. São fracos, podem ser utilizados para dores de menor intensidade. | Naltrexona, Naloxona |
Efeitos Específicos e Características
- Morfina: Náuseas e vômitos. Causa menos depressão respiratória devido à atividade adrenérgica da dor. Desgranula mastócitos, liberando histamina, o que gera hipotensão (cuidado em IAM ou hipovolemia). Diminui o consumo de O₂ (potencializando a hipotensão).
- Meperidina: Meia-vida curta, o que pode levar à toxicidade.
- Codeína: Usada para tosse.
- Metadona: Usada para dor oncológica; possui efeito curto.
- Fentanil: Meia-vida curta; usado em anestesia venosa ou por emplastro transdérmico.
- Agonistas Parciais: Causam pouca depressão respiratória, menos constipação e espasmo biliar. São menos potentes, utilizados no tratamento da dependência farmacológica.
Antipsicóticos
Possuem baixo risco de toxicidade e não produzem dependência.
Antipsicóticos Típicos (Primeira Geração)
Clorpromazina, Haloperidol, Fenotiazina, Flupenridol.
A diminuição da ação da Dopamina (D₂) faz com que a Acetilcolina (Ach) seja liberada em excesso, produzindo a Síndrome Extrapiramidal (SEP). Além do bloqueio D₂, ocorre bloqueio de receptores:
- Muscarínicos (M): Xerostomia, midríase, taquicardia, aumento da Pressão Intraocular (PIO).
- Histamina (H₁): Aumento de secreções, sedação, ganho ponderal.
- Alfa-1 (α₁): Taquicardia reflexa, diminuição da PA e sonolência.
Tratamento da Síndrome Extrapiramidal (SEP)
Antiparkinsonianos - Amadantina | Antagonista fraco dos receptores NMDA, porém com atividade liberadora de dopamina por mecanismo desconhecido. O aumento de dopamina inibe a ação da Ach. |
Antimuscarínicos – Benztropina, Triexifenidil | Bloqueio da liberação de acetilcolina e de sua atuação nos receptores muscarínicos. |
Anti-histamínicos - Difenidramina | Atividade antimuscarínica. |
Beta-bloqueador: Propranolol | Indicado para acatisia em função de seus efeitos centrais que acalmam o paciente. |
Antipsicóticos Atípicos (Segunda Geração)
Bloqueiam D₂ e 5HT₂ (Mecanismo: Bloqueio D₂ leva à diminuição de DA; Bloqueio 5HT₂A leva à diminuição de 5HT e aumento de DA).
Efeitos Colaterais Específicos
Efeitos gerais: Taquicardia e hipotensão postural.
- Quetiapina: Aumenta a possibilidade de catarata.
- Clozapina: Agranulocitose, sedação, ganho ponderal (devido ao bloqueio H₁ e muscarínico).
- Risperidona: Ganho de peso, aumento no intervalo QT.
- Olanzapina: Ganho de peso, hiperlipidemia, diabetes.
- Ziprasidona: Aumento do intervalo QT.
Depressão
Antidepressivos Tricíclicos (ATC)
Bloqueiam a recaptação de Noradrenalina (NET), Serotonina (SERT) e Dopamina (DART). No entanto, também bloqueiam H₁, Muscarínicos (M), Alfa (α) e Canais de Potássio (PDC), causando muitos efeitos colaterais.
- Aminas Secundárias (Bloqueio NA > 5HT): Nortriptilina (cuidado em pacientes com afeto negativo).
- Aminas Terciárias (Bloqueio 5HT > NA): Amitriptilina, Clomipramina, Imipramina.
- Tetracíclicos: Mianserina e Maprotilina.
O aumento de NA promove a diminuição do limiar convulsivo. O aumento de 5HT reduz DA, o que pode levar ao agravamento do Parkinson, hiperprolactinemia, etc.
Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS)
- Fluoxetina: Inibição de sistemas CYP. Tem efeito sobre a NO sintetase. Faz o bloqueio 5HT₂C, inclusive nos neurônios gabaérgicos, o que promove a diminuição da liberação de GABA nos neurônios adrenérgicos e dopaminérgicos, aumentando a liberação desses NT no córtex pré-frontal, e havendo o efeito ansiogênico (todos os outros ISRS são ansiolíticos).
- Fluvoxamina: Receptores sigma 1 e 2.
- Sertralina: NO sintetase, receptores sigma, inibição da recaptação de dopamina.
- Paroxetina: NO sintetase; bloqueio muscarínico (Ach).
- Citalopram: Bloqueio H₁.
- Escitalopram: Considerado o melhor ISRS.
Efeitos Colaterais dos ISRS
Normalmente melhoram com o down-regulation dos receptores pré-sinápticos.
- Agravamento do Parkinson (devido à modulação no neurônio gabaérgico e dopaminérgico).
- Náuseas, diarreia (via 5HT₃), cefaleia, insônia.
- Perda de Peso: A elevação da serotonina reduz os impulsos hipotalâmicos do apetite (mecanismo similar à Sibutramina).
- Disfunção Sexual (Longo Prazo): Ativação dos receptores 5HT₂A e C inibe as vias nervosas que levam à sensação de orgasmo a partir da medula. Além disso, a diminuição da dopamina causa o aumento da prolactina.
- Síndrome Serotoninérgica: Risco em associação com iMAO.
- Síndrome da Apatia: Devido à diminuição da dopamina.
Inibidores da Recaptação de Dopamina e Noradrenalina (IRDN)
Bupropiona: Efeito dose-dependente; bloqueia mais receptores de dopamina do que noradrenalina.
Vantagens: Não produz disfunção sexual por não se relacionar com receptores 5HT e não promove diminuição da dopamina (útil em pacientes com Parkinson). Produz sensação de recompensa, podendo ser utilizada para a cessação do tabagismo.
Desvantagens: Diminui o limiar convulsivo, não podendo ser utilizada em pacientes com depressão psicótica e epilépticos.
Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN)
Duloxetina e Venlafaxina. Em doses baixas, interferem com a serotonina; em doses altas, com a noradrenalina. Assim, controlam os afetos positivos, negativos, atenção e comportamento.
A Venlafaxina pode causar Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), pois tem um efeito dose-dependente na recaptação de noradrenalina.
Inibidores Seletivos da Recaptação de Noradrenalina (ISRN)
Reboxetina: Usada para pacientes com predomínio de redução do afeto positivo, apatia e fadiga.
Fármacos Desinibidores (Antagonistas de Autorreceptores)
Bloqueiam autorreceptores modulatórios negativos (α₂, 5HT₁A e D₂), levando ao aumento imediato das monoaminas.
Mirtazapina: Faz bloqueio α₂, 5HT₂A (relacionado à disfunção sexual e sedação) e 5HT₂C, e 5HT₃ (modula a Ach, levando à diminuição de náuseas, vômitos e diarreia), aumentando a noradrenalina e serotonina. Realiza também bloqueio H₁, causando sedação e ganho de peso.
Moduladores das Monoaminas Cerebrais
Usados no tratamento da ansiedade e insônia. Não são primeira escolha para depressão. Não alteram o peso corporal ou causam disfunção sexual. Provocam sedação.
- Nefazodona: Fraca inibição da recaptação de NE e 5HT. Além disso, é antagonista 5HT₂ (A>C) e antagonista α₁. Desvantagem: Pode causar insuficiência hepática e alterações visuais (pelo bloqueio α₁).
- Trazodona: Fraca inibição da recaptação de 5HT. Antagonista 5HT₂ (A>C), antagonista α₁ e H₁. Desvantagem: Priapismo e hipotensão ortostática (bloqueio α₁).
Inibidores da Monoamina Oxidase (iMAO)
A MAO controla os níveis normais de monoaminas livres no citosol.
- Não Seletivos Irreversíveis: Fenelzina, Tranilcipromina.
- Seletivos MAO-A Reversíveis: Moclobemida.
Não são drogas de primeira escolha, pois a meia-vida é baixa, devendo ser usadas 3 a 4 vezes por dia. São usadas em depressão atípica ou resistente. Outra desvantagem é a interação com alimentos e medicamentos.
Efeitos Colaterais: Crise serotoninérgica, ganho de peso, hipotensão e disfunção sexual.
Ansiedade
Buspirona
Agonista parcial 5HT₁A. No receptor pós-sináptico, impede a 5HT de gerar ansiedade. No pré-sináptico, realiza feedback negativo. Com o agonismo prolongado, ocorre dessensibilização dos 5HT₁A, aumentando a serotonina na fenda sináptica, ativando 5HT₂C no neurônio gabaérgico, liberando GABA em direção à amígdala, resultando no efeito ansiolítico. Não causa dependência ou tolerância. Utilizada quando há restrição a Antidepressivos (AD) e Benzodiazepínicos (BZD); mais indicada para idosos.
Propranolol
É altamente lipossolúvel, o que favorece sua escolha neste caso, pois tem mais facilidade de atravessar a Barreira Hematoencefálica (BHE).
Efeitos: Redução da taquicardia, do consumo de O₂ pelo miocárdio e redução da PA (efeitos beta-1).
Redução de Tremores: Ação central (bloqueio dos estímulos da amígdala para o tronco encefálico, resultando em resposta motora) e efeito periférico (nos neurônios colinérgicos, receptores beta-2 facilitam a liberação de acetilcolina na placa motora).
Novos Alvos Terapêuticos
- Antagonistas CRF₁: Na ansiedade, há uma secreção elevada de CRF e uma ação prolongada nos receptores, com consequente aumento dos níveis de glicocorticoides. O bloqueio dos receptores ajuda a modular essa resposta.
- Antagonistas V₁B: Receptor de vasopressina que libera ACTH durante o estresse. O bloqueio resulta na diminuição de ACTH e corticosteroides.
- Ligantes α₂δ: A Gabapentina se liga a essas subunidades nos Canais de Sódio Voltagem-Dependentes (VSCC), bloqueando a liberação de neurotransmissores (NT). Usado para ansiedade social e pânico.