Farmacologia Clínica: Corticoides, Epilepsia e Psicotrópicos

Enviado por Comunidade Wikiteka e classificado em Medicina e Ciências da Saúde

Escrito em em português com um tamanho de 20,24 KB

Corticoterapia

Ações e Efeitos Colaterais Gerais

Ações: Antialérgico, Imunossupressor, Anti-inflamatório (inibição da COX), Reposição hormonal.

Efeitos Colaterais: Hiperglicemia, aumento da Pressão Arterial (PA), resposta metabólica ao estresse.

Classificação por Duração de Ação

  • Ação Curta: Cortisol.
  • Ação Intermediária (mais utilizados): Prednisona (Prednisolona/Metilprednisolona), Triamcinolona.
  • Ação Longa: Betametasona, Dexametasona (uso prolongado, maior risco de efeitos colaterais).

Síndrome de Cushing

Decorrente do aumento do nível de cortisol. Sintomas: obesidade, fácie em lua cheia, pletora, aumento da resistência à insulina (podendo levar a Diabetes Mellitus - DM).

Síndrome de Retirada

O organismo entende que o aumento de corticoides leva à inibição do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA), causando atrofia da adrenal. Requer retirada gradual.

Regimes de Retirada (A: Alta dose, M: Média dose, B: Baixa dose)

Uso Crônico (> 2 meses)Uso Intermediário (2 semanas a 2 meses)Uso Curto (< 2 semanas)

A: 1/5 a cada 2 semanas
M: ¼ a cada 2 semanas
B: ¼ a cada 1 semana

A: ¼ a cada semana
M: ⅓ a cada semana
B: ½ a cada ¾ dias

A: ⅓ a cada 4 dias
M e B não precisam

Dosagem: A: 40-100mg/dia | M: 15-40mg/dia | B: 5-15mg/dia

Epilepsia

Tratamento por Tipo de Crise

  • Crise Generalizada: Valproato.
  • Epilepsia Focal (Adultos): Carbamazepina (também usada em crianças), Fenitoína e Valproato.
  • Idosos: Gabapentina e Lamotrigina.
  • Associação: Valproato + Lamotrigina.
  • Emergência (Estado de Mal Epiléptico): Diazepam; Fenitoína, Fosfofenitoína ou Fenobarbital (crianças); Midazolam, Propofol, Tiopental.

Mecanismos de Ação (MOA)

  • Bloqueio de Canais de Sódio Voltagem-Dependentes (VSCC): Carbamazepina, Fenitoína, Valproato, Lamotrigina.
  • Bloqueio de Canais de Cálcio Tipo T (CCa Tipo T): Valproato; Succinimidas e Etossuximida (para crises de ausência).

Bloqueio da Sinapse Glutamatérgica

  • Diminuição de Glutamato: Lamotrigina.
  • Bloqueio NMDA: Levetiracetam.
  • Bloqueio AMPA: Topiramato.

Potencialização do GABA

  • Aumento da Liberação: Gabapentina.
  • Inibição da GABA Transaminase: Valproato.
  • Bloqueio da Captação Neuronal: Tiagabina.
  • Atuação na Unidade Receptora GABA-A: Fenobarbital, Benzodiazepínicos (BNZ).

Outros Mecanismos

  • Antagonismo α2δ dos canais de cálcio neuronal (diminuição de glutamato): Gabapentina, Pregabalina.
  • Antagonismo SV2A: Levetiracetam.

Efeitos Colaterais

  • Valproato: Alopecia, ganho de peso, lesão hepática, pancreatite e inibição da CYP.
  • Carbamazepina: Ganho de peso, aplasia de medula, lesão hepática e indução enzimática.
  • Aplasia de Medula: Lamotrigina, Etossuximida.
  • Lesão Hepática: Fenobarbital, Lamotrigina, Etossuximida, Fenitoína.
  • Perda de Peso: Topiramato e Zonisamida.

Opioides

Atenção: Não devem ser usados em casos de cálculo renal, pois podem provocar espasmos do ureter. Causam tolerância e crise de abstinência se a retirada for abrupta.

Naturais

Semi-sintéticos

Sintéticos

Agonistas-Antagonistas

Antagonistas

Ópio, Morfina (forte), Codeína (fraco), Tebaína

Oxicodona, Heroína, Hidroxicodona, Oximorfona, Hidroximorfona

Metadona, Meperidina, Petidina, Fentanil, Metadol

Buprenorfina, Nalbufina, Pentazocina. São fracos, podem ser utilizados para dores de menor intensidade.

Naltrexona, Naloxona

Efeitos Específicos e Características

  • Morfina: Náuseas e vômitos. Causa menos depressão respiratória devido à atividade adrenérgica da dor. Desgranula mastócitos, liberando histamina, o que gera hipotensão (cuidado em IAM ou hipovolemia). Diminui o consumo de O₂ (potencializando a hipotensão).
  • Meperidina: Meia-vida curta, o que pode levar à toxicidade.
  • Codeína: Usada para tosse.
  • Metadona: Usada para dor oncológica; possui efeito curto.
  • Fentanil: Meia-vida curta; usado em anestesia venosa ou por emplastro transdérmico.
  • Agonistas Parciais: Causam pouca depressão respiratória, menos constipação e espasmo biliar. São menos potentes, utilizados no tratamento da dependência farmacológica.

Antipsicóticos

Possuem baixo risco de toxicidade e não produzem dependência.

Antipsicóticos Típicos (Primeira Geração)

Clorpromazina, Haloperidol, Fenotiazina, Flupenridol.

A diminuição da ação da Dopamina (D₂) faz com que a Acetilcolina (Ach) seja liberada em excesso, produzindo a Síndrome Extrapiramidal (SEP). Além do bloqueio D₂, ocorre bloqueio de receptores:

  • Muscarínicos (M): Xerostomia, midríase, taquicardia, aumento da Pressão Intraocular (PIO).
  • Histamina (H₁): Aumento de secreções, sedação, ganho ponderal.
  • Alfa-1 (α₁): Taquicardia reflexa, diminuição da PA e sonolência.

Tratamento da Síndrome Extrapiramidal (SEP)

Antiparkinsonianos - Amadantina

Antagonista fraco dos receptores NMDA, porém com atividade liberadora de dopamina por mecanismo desconhecido. O aumento de dopamina inibe a ação da Ach.

Antimuscarínicos – Benztropina, Triexifenidil

Bloqueio da liberação de acetilcolina e de sua atuação nos receptores muscarínicos.

Anti-histamínicos - Difenidramina

Atividade antimuscarínica.

Beta-bloqueador: Propranolol

Indicado para acatisia em função de seus efeitos centrais que acalmam o paciente.

Antipsicóticos Atípicos (Segunda Geração)

Bloqueiam D₂ e 5HT₂ (Mecanismo: Bloqueio D₂ leva à diminuição de DA; Bloqueio 5HT₂A leva à diminuição de 5HT e aumento de DA).

Efeitos Colaterais Específicos

Efeitos gerais: Taquicardia e hipotensão postural.

  • Quetiapina: Aumenta a possibilidade de catarata.
  • Clozapina: Agranulocitose, sedação, ganho ponderal (devido ao bloqueio H₁ e muscarínico).
  • Risperidona: Ganho de peso, aumento no intervalo QT.
  • Olanzapina: Ganho de peso, hiperlipidemia, diabetes.
  • Ziprasidona: Aumento do intervalo QT.


Depressão

Antidepressivos Tricíclicos (ATC)

Bloqueiam a recaptação de Noradrenalina (NET), Serotonina (SERT) e Dopamina (DART). No entanto, também bloqueiam H₁, Muscarínicos (M), Alfa (α) e Canais de Potássio (PDC), causando muitos efeitos colaterais.

  • Aminas Secundárias (Bloqueio NA > 5HT): Nortriptilina (cuidado em pacientes com afeto negativo).
  • Aminas Terciárias (Bloqueio 5HT > NA): Amitriptilina, Clomipramina, Imipramina.
  • Tetracíclicos: Mianserina e Maprotilina.

O aumento de NA promove a diminuição do limiar convulsivo. O aumento de 5HT reduz DA, o que pode levar ao agravamento do Parkinson, hiperprolactinemia, etc.

Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS)

  • Fluoxetina: Inibição de sistemas CYP. Tem efeito sobre a NO sintetase. Faz o bloqueio 5HT₂C, inclusive nos neurônios gabaérgicos, o que promove a diminuição da liberação de GABA nos neurônios adrenérgicos e dopaminérgicos, aumentando a liberação desses NT no córtex pré-frontal, e havendo o efeito ansiogênico (todos os outros ISRS são ansiolíticos).
  • Fluvoxamina: Receptores sigma 1 e 2.
  • Sertralina: NO sintetase, receptores sigma, inibição da recaptação de dopamina.
  • Paroxetina: NO sintetase; bloqueio muscarínico (Ach).
  • Citalopram: Bloqueio H₁.
  • Escitalopram: Considerado o melhor ISRS.

Efeitos Colaterais dos ISRS

Normalmente melhoram com o down-regulation dos receptores pré-sinápticos.

  • Agravamento do Parkinson (devido à modulação no neurônio gabaérgico e dopaminérgico).
  • Náuseas, diarreia (via 5HT₃), cefaleia, insônia.
  • Perda de Peso: A elevação da serotonina reduz os impulsos hipotalâmicos do apetite (mecanismo similar à Sibutramina).
  • Disfunção Sexual (Longo Prazo): Ativação dos receptores 5HT₂A e C inibe as vias nervosas que levam à sensação de orgasmo a partir da medula. Além disso, a diminuição da dopamina causa o aumento da prolactina.
  • Síndrome Serotoninérgica: Risco em associação com iMAO.
  • Síndrome da Apatia: Devido à diminuição da dopamina.

Inibidores da Recaptação de Dopamina e Noradrenalina (IRDN)

Bupropiona: Efeito dose-dependente; bloqueia mais receptores de dopamina do que noradrenalina.

Vantagens: Não produz disfunção sexual por não se relacionar com receptores 5HT e não promove diminuição da dopamina (útil em pacientes com Parkinson). Produz sensação de recompensa, podendo ser utilizada para a cessação do tabagismo.

Desvantagens: Diminui o limiar convulsivo, não podendo ser utilizada em pacientes com depressão psicótica e epilépticos.

Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN)

Duloxetina e Venlafaxina. Em doses baixas, interferem com a serotonina; em doses altas, com a noradrenalina. Assim, controlam os afetos positivos, negativos, atenção e comportamento.

A Venlafaxina pode causar Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), pois tem um efeito dose-dependente na recaptação de noradrenalina.

Inibidores Seletivos da Recaptação de Noradrenalina (ISRN)

Reboxetina: Usada para pacientes com predomínio de redução do afeto positivo, apatia e fadiga.

Fármacos Desinibidores (Antagonistas de Autorreceptores)

Bloqueiam autorreceptores modulatórios negativos (α₂, 5HT₁A e D₂), levando ao aumento imediato das monoaminas.

Mirtazapina: Faz bloqueio α₂, 5HT₂A (relacionado à disfunção sexual e sedação) e 5HT₂C, e 5HT₃ (modula a Ach, levando à diminuição de náuseas, vômitos e diarreia), aumentando a noradrenalina e serotonina. Realiza também bloqueio H₁, causando sedação e ganho de peso.

Moduladores das Monoaminas Cerebrais

Usados no tratamento da ansiedade e insônia. Não são primeira escolha para depressão. Não alteram o peso corporal ou causam disfunção sexual. Provocam sedação.

  • Nefazodona: Fraca inibição da recaptação de NE e 5HT. Além disso, é antagonista 5HT₂ (A>C) e antagonista α₁. Desvantagem: Pode causar insuficiência hepática e alterações visuais (pelo bloqueio α₁).
  • Trazodona: Fraca inibição da recaptação de 5HT. Antagonista 5HT₂ (A>C), antagonista α₁ e H₁. Desvantagem: Priapismo e hipotensão ortostática (bloqueio α₁).

Inibidores da Monoamina Oxidase (iMAO)

A MAO controla os níveis normais de monoaminas livres no citosol.

  • Não Seletivos Irreversíveis: Fenelzina, Tranilcipromina.
  • Seletivos MAO-A Reversíveis: Moclobemida.

Não são drogas de primeira escolha, pois a meia-vida é baixa, devendo ser usadas 3 a 4 vezes por dia. São usadas em depressão atípica ou resistente. Outra desvantagem é a interação com alimentos e medicamentos.

Efeitos Colaterais: Crise serotoninérgica, ganho de peso, hipotensão e disfunção sexual.

Ansiedade

Buspirona

Agonista parcial 5HT₁A. No receptor pós-sináptico, impede a 5HT de gerar ansiedade. No pré-sináptico, realiza feedback negativo. Com o agonismo prolongado, ocorre dessensibilização dos 5HT₁A, aumentando a serotonina na fenda sináptica, ativando 5HT₂C no neurônio gabaérgico, liberando GABA em direção à amígdala, resultando no efeito ansiolítico. Não causa dependência ou tolerância. Utilizada quando há restrição a Antidepressivos (AD) e Benzodiazepínicos (BZD); mais indicada para idosos.

Propranolol

É altamente lipossolúvel, o que favorece sua escolha neste caso, pois tem mais facilidade de atravessar a Barreira Hematoencefálica (BHE).

Efeitos: Redução da taquicardia, do consumo de O₂ pelo miocárdio e redução da PA (efeitos beta-1).

Redução de Tremores: Ação central (bloqueio dos estímulos da amígdala para o tronco encefálico, resultando em resposta motora) e efeito periférico (nos neurônios colinérgicos, receptores beta-2 facilitam a liberação de acetilcolina na placa motora).

Novos Alvos Terapêuticos

  • Antagonistas CRF₁: Na ansiedade, há uma secreção elevada de CRF e uma ação prolongada nos receptores, com consequente aumento dos níveis de glicocorticoides. O bloqueio dos receptores ajuda a modular essa resposta.
  • Antagonistas V₁B: Receptor de vasopressina que libera ACTH durante o estresse. O bloqueio resulta na diminuição de ACTH e corticosteroides.
  • Ligantes α₂δ: A Gabapentina se liga a essas subunidades nos Canais de Sódio Voltagem-Dependentes (VSCC), bloqueando a liberação de neurotransmissores (NT). Usado para ansiedade social e pânico.