Guia de Histologia: Tecidos, Células e Processos
Camada Córnea
A camada córnea é a porção de células superficiais do epitélio estratificado pavimentoso queratinizado. Essa camada é formada a partir da diferenciação das células produzidas na lâmina basal do epitélio, que aos poucos migram para a superfície e são impregnadas por queratina (proteína que protege contra a desidratação). Conforme a quantidade de queratina no interior da célula aumenta, essa célula morre, perde seu núcleo e fica acumulada superficialmente, formando a camada córnea. Sua função, portanto, é resistir a atritos intensos.
Lâmina Basal
A lâmina basal é formada principalmente por uma associação de fibras colágenas tipo IV a complexos de polissacarídeos, como as proteoglicanas e a proteína laminina. Esta estrutura separa e prende o epitélio ao tecido conjuntivo adjacente, permitindo, porém, a passagem de diversas moléculas.
O epitélio estratificado pavimentoso possui a sua camada basal formada por células-tronco, responsáveis pela reposição de células perdidas que se diferenciarão conforme sobem para a superfície. As células mais basais possuem formato cúbico, enquanto a parte apical possui células achatadas. Esses epitélios pavimentosos podem ser:
- Queratinizados: As células superficiais perdem o núcleo e armazenam filamentos de citoqueratina, formando a camada córnea para resistir a choques e atritos.
- Não queratinizados: A camada superficial de células permanece viva e nucleada, com a função de resistir a choques e atritos moderados.
Cicatrização
Presentes em grandes quantidades no tecido conjuntivo frouxo, os fibroblastos produzem componentes da matriz extracelular e proteínas essenciais para a cicatrização de regiões lesadas em tecidos com baixa capacidade de regeneração.
A reação de cicatrização inicia-se com a lesão da membrana externa das células. Essa desorganização gera um estímulo a macrófagos e fibroblastos, que migram para a área lesada, hipertrofiando-se e produzindo substâncias amorfas e proteínas como colágeno e elastina. O ferimento é rapidamente recoberto por uma malha de fibroblastos e pequenos vasos sanguíneos (angiogênese). Existem também os miofibroblastos, que possuem filamentos de actina e miosina, conferindo caráter contrátil para fechar a lesão. Ao fim do processo, a cicatrização contém fibrócitos inativos, fibras compactas e poucos vasos sanguíneos em processo de atrofiamento.
Comparativo de Tecidos: Intestino, Epidídimo e Trato Respiratório
- Intestino: Tecido epitelial simples cilíndrico com células caliciformes e planura estriada (microvilosidades para absorção).
- Epidídimo: Epitélio pseudoestratificado estereociliado.
- Trato respiratório: Epitélio pseudoestratificado ciliado com células caliciformes.
Obs.: Os cílios são menores e numerosos; os estereocílios são maiores e mais espaçados.
Células Caliciformes
As células caliciformes são glândulas unicelulares exócrinas produtoras de muco, encontradas no intestino delgado, grosso e trato respiratório. Sua função é proteger e hidratar a superfície epitelial. No trato respiratório, o muco atua como mecanismo de defesa.
Ao microscópio óptico, apresentam região apical pálida, pois fixadores como o xilol dissolvem o muco (constituído de proteínas hidrofílicas). O núcleo é achatado e deslocado para a base, apresentando Complexo de Golgi e retículo endoplasmático granular desenvolvidos.
Diapedese dos Neutrófilos
Em infecções, macrófagos liberam metabólitos que atraem neutrófilos por quimiotaxia. Para chegar ao tecido conjuntivo, os neutrófilos realizam a diapedese. Macrófagos liberam citocinas (IL-1) que estimulam a aproximação ao endotélio. O reconhecimento ocorre via receptores de selectina. Com ajuda dos complexos ICAMs e VCAMs, os neutrófilos aderem às células do vaso e deslizam até atravessá-las. Liberam gelatinases para passar pela lâmina basal e fagocitar o invasor.
Marginação e Função dos Neutrófilos
A marginação ocorre durante a resposta imunológica. Após a vasodilatação e diminuição do fluxo sanguíneo, os neutrófilos acumulam-se no endotélio dos vasos devido a estímulos químicos. Sua função principal é a fagocitose de agentes invasores.
Morfologia e Função do Epitélio de Transição
Exclusivo das vias urinárias (bexiga), o epitélio de transição possui células em raquete. O número de camadas e a forma das células variam conforme a distensão do órgão. Apresenta especializações que impedem a reabsorção da urina, que deve ser descartada.
Apresentação de Epítopo por Macrófago e Linfócito
Macrófagos processam antígenos no encontro entre fagossomo e lisossomo, formando epítopos. Estes são levados à membrana unidos ao complexo MHC II. O epítopo exposto é reconhecido pelo linfócito T após ativação pela IL-1. O TCR reconhece o epítopo e o CD4 (ou CD8) o MHC. A IL-1 também estimula a síntese de ICAMs, facilitando a diapedese.
O linfócito T helper produz IL-2 (induz diferenciação de linfócito B em plasmócito) e IL-4 (induz produção de IgE).
Opsonização
Processo onde microrganismos são recobertos por anticorpos (IgG, IgA, IgE) ou sistema complemento para facilitar a ingestão por células fagocíticas. Receptores específicos nos macrófagos ligam-se ao complexo opsonina-microrganismo para destruí-lo via mecanismos oxidativos.
Processo Alérgico (Mastócitos e Eosinófilos)
À medida que substâncias estranhas penetram no organismo, macrófagos as processam em epítopos ligados ao MHC II. O linfócito T helper estimula a produção de IL-2, IL-4 e IL-5. A IgE fabrica-se e liga-se aos mastócitos como opsonina. Em um segundo contato, a substância liga-se à IgE, rompendo os mastócitos e liberando histamina, causando prurido, edema e vasodilatação. Eosinófilos, estimulados por IL-5, liberam hidrocortisona para inativar os mediadores e diminuir a reação.
Diferenciação das Células Sanguíneas
Fatores estimulantes de colônias regulam as linhagens:
- Eritropoietina: Hemácias;
- IL-3: Todas as espécies;
- IL-5: Eosinófilos;
- IL-7: Linfócito B;
- Trombopoietina: Plaquetas (fragmentos de megacariócitos).
Hemácias: Eritropoiese e Reticulócitos
As hemácias (eritrócitos) transportam oxigênio, são anucleadas quando maduras, bicôncavas e acidófilas. A eritropoiese ocorre na medula óssea, regulada pela eritropoietina (rins). A hipóxia estimula sua produção. A reticulocitose é o aumento de reticulócitos (formas imaturas) no sangue, sinalizando produção acelerada pela medula.
Ativação Plaquetária e Granulopoiese
A trombopoietina estimula a formação de megacariócitos, que geram as plaquetas por fragmentação. A granulopoiese é a produção de granulócitos: células-mãe tornam-se mieloblastos, evoluindo para promielócitos, mielócitos e metamielócitos até a maturação.
Coagulação
Plaquetas aderem à lâmina basal lesada, formando o tampão plaquetário. O endotélio libera tromboplastina, ativando a protrombina em trombina. Esta converte o fibrinogênio em fibrina, criando uma rede que captura células e forma o coágulo. Após a reconstrução do vaso, enzimas digerem o coágulo.
Síntese de Colágeno
Inicia-se com o pró-colágeno, que forma uma tripla-hélice no retículo endoplasmático e é secretado. Enzimas (peptidase e lisil-hidroxilase) removem peptídeos extras, criando fibras colágenas. O Tipo I resiste a grandes tensões; o Tipo IV atua na sustentação e filtração.
Morfogênese e Tipos de Glândulas
Glândulas formam-se de epitélios que invadem o mesênquima. Exócrinas mantêm conexão via ductos para eliminar secreções. Endócrinas perdem a conexão e lançam secreções no sangue.
- Glândulas Mamárias: Alveolares compostas, secreção apócrina. Células mioepiteliais ajudam a expelir o produto.
- Glândulas Sudoríparas: Tubulares simples, secreção merócrina (exocitose sem perda citoplasmática).