Historicidade, Morte e o Sentido da Existência Humana
Estrutura e Sentido da Historicidade: Temporalidade
Nós somos seres temporais, não só porque dependemos das condições do tempo em que vivemos, mas também pela nossa exposição ao tempo. O homem comporta uma dupla característica: a de continuidade (porque incorpora o passado em algo que foi presente) e a de invocação (porque antecipa as possibilidades que tem de cumprir).
Encarnação: Nós somos o nosso próprio corpo (a maneira como estamos expostos ao tempo). Mediante a experiência, o homem constrói a história e faz-se a si mesmo, desenvolvendo a sua capacidade espiritual no contacto com as coisas.
Interpessoalidade: Fato fundamental da existência humana é que o homem só se realiza como pessoa pelas mediações com os outros.
O Problema Antropológico da Morte
A sua significação está relacionada com a existência, no sentido de que o homem é um ser que tem de chegar a ser mais do que é em cada momento, ainda que, consciente, caminhe para o fim. O homem vai morrendo lentamente até à interrupção dos processos psicológicos que precedem os momentos finais, que já não têm retorno.
- Morte: É a perda irreversível de todas as funções vitais, ou seja, é a morte total do organismo.
- Morrer: É o caminho, o percurso que se faz até à interrupção completa dos processos psicofísicos que procedem até ao momento final, do qual já não se retorna.
Sobrevivência e Imortalidade
Considera-se a vida após a morte como o único recurso para satisfazer as exigências do homem. O pensamento antropológico oferece duas interpretações da nova forma de vida depois da morte, entendida como sobrevivência:
- Retorno e Transmigração: Uns entendem-na como um retorno através de um processo de transmigrações (reencarnação): o eterno retorno e o estado terminal de uma série de transmigrações. Friedrich Nietzsche expressa categoricamente a ideia do eterno retorno ao conceber a vida como um processo circular interminável, carente de novidade, andando em volta de si mesmo num movimento incessante. A transmigração ou reencarnação concebe a sobrevivência como o estado perfeito alcançado por uma passagem por sucessivas vidas terrenas. Existe uma certa preocupação ética e religiosa que considera a morte corporal como uma libertação de uma existência, revelando-se uma concepção dualista do ser humano composta de alma e corpo.
- Imortalidade como Espiritualidade: Antropólogos veem a imortalidade como espiritualidade, sendo que a alma (imortal), uma vez separada do elemento corporal, continua a existir.
Filósofos atuais defendem a concepção unitária do homem, cujo elemento espiritual (alma) tem a função única de animar e informar o corpo, tornando-o humano. O homem é uma só realidade que executa um único ato vital totalizado em si mesmo. O orgânico e o psíquico penetram-se de tal modo que fazem do ser humano uma realidade essencial como diz Zubiri, uma sustentabilidade que realiza uma atividade psico-orgânica, sendo que a morte biológica leva à destruição da sustentabilidade humana.
Tendo a vida sentido, esta não pode vir exclusivamente do homem, nem realizar-se no decorrer do tempo. O sentido da vida comporta confiança e implica que se aceite a irreversibilidade perante a morte, pois, caso contrário, o homem será escravo na sua existência terrena, não libertando os seus meios de suporte (comunicação). Karl Rahner vê na morte um ato supremo da liberdade, que o homem experimenta no destino imposto de fora, conhecido desde a total disposição do ser superior.
Aniquilação
Para o Niilismo, a sobrevivência e a imortalidade não são uma realidade, mas o sonho do homem sobre si mesmo; a projeção de um desejo ilusório. Segundo Jean-Paul Sartre e o existencialismo radical, a existência humana não é mais do que a sua própria fatalidade. A morte irrompe no sujeito, terminando com todas as suas possibilidades, tornando-o em perda para a posteridade.
Para o existencialismo alemão de Martin Heidegger, embora o homem esteja condicionado à possibilidade de não ser, não tem de desaparecer por completo: "O fato de definir a morte como um fim do 'ser-aqui' (Dasein), isto é, 'ser no mundo', não há de recair nenhuma decisão ontológica sobre a questão se é possível 'ser depois da morte', ser outro ser superior ou inferior."