A Filosofia de Ortega y Gasset: Perspectivismo e Vida
Contexto Cultural e Histórico
O sistema canovista, da revolução à guerra civil: o século XIX é marcado por uma luta constante entre o Antigo Regime e o liberalismo. Isso leva a um período revolucionário de seis anos em que a Primeira República foi proclamada. Após a abolição da República, estabeleceu-se o turnismo entre os dois partidos: o Liberal e o Conservador. A monarquia alfonsina durará até 1931, quando se institui a Segunda República. Em 1923, impôs-se uma ditadura sob o comando militar de Primo de Rivera. A Segunda República foi um regime instável, culminando na Guerra Civil Espanhola, seguida pela ditadura de Franco, social e culturalmente mais repressiva que a de Primo.
No campo econômico, ocorre a incorporação da Espanha à Revolução Industrial; o setor agrícola perde peso enquanto os setores têxtil e siderúrgico ganham relevância. A população cresce e desenvolve-se o movimento operário através do Partido Socialista, da UGT e da CNT.
No domínio cultural, ocorre a chamada "Idade de Prata", onde há um extraordinário desenvolvimento. A influência do positivismo levará a uma crítica social denominada regeneracionismo, expressa através do naturalismo. Surge o Modernismo, um amplo movimento cultural caracterizado pela ruptura com a situação anterior e pela proposta de uma mudança radical. Giner de los Ríos criou o Instituto Livre de Educação.
Contexto Filosófico
A filosofia analítica surge no Reino Unido, Áustria e Alemanha, expandindo-se para os EUA. É uma das correntes mais influentes da atualidade, junto ao marxismo e às tradições fenomenológica e existencialista. Suas características incluem:
- Rejeição clara do idealismo empírico;
- Negação do valor da metafísica como ciência;
- A análise da linguagem como principal tarefa da filosofia.
Trata-se de uma nova forma de compreender a filosofia: deixa de ser um conhecimento orientado à compreensão sistemática da realidade para tornar-se uma atividade voltada à análise da linguagem. Busca-se determinar os limites do pensamento através da clarificação da linguagem.
Abordagem de Edmund Husserl
Husserl pretende construir um conhecimento filosófico com o rigor da matemática. Ele criticou o positivismo dominante, que reduzia a realidade a fatos explicados por leis causais. Para Husserl, a ciência perdeu o "mundo real" das experiências originais do homem, transformando a consciência em apenas mais uma coisa no mundo.
1. O Significado da Vida
A. Descrição da sua filosofia
A filosofia de José Ortega y Gasset é vitalista, permitindo compreender a realidade de forma aberta e flexível. A filosofia é o conhecimento do universo.
B. Objeto da filosofia
O objeto é o conhecimento do universo como um "todo". Não apenas as coisas isoladas, mas a totalidade. Algumas coisas não são físicas, mas existem como parte dessa totalidade.
- O que há no universo? Tudo o que existe, quer saibamos ou não; as coisas que pensamos existir e aquelas das quais temos certeza.
C. Metodologia filosófica
O método utilizado por Ortega é o "cerco filosófico", tratando os problemas a partir de diferentes formações e perspectivas. Características:
- Imperativo da autonomia: O filósofo deve rejeitar pressupostos externos.
- Imperativo da pantonomia: Encontrar cada conceito em função do todo.
- Imperativo da essencialidade: Buscar a raiz do ser das coisas.
2. Perspectivismo: 1º Período (1919-1923)
O Perspectivismo é uma crítica ao idealismo/subjetivismo e ao realismo/objetivismo. O raciovitalismo serve de base para analisar a filosofia anterior.
- Contra o idealismo: O sujeito não é o único eixo em torno do qual gira a realidade.
- Contra o realismo: O sujeito não é um simples pedaço da realidade, mas uma realidade que vive o "aqui e agora".
2.1. Realismo e Objetivismo
Para o realismo, a verdadeira realidade são as coisas independentes do pensamento. O ego não é central; apenas o tangível importa. Desenvolve-se o conceito de substância como algo permanente sob as mudanças.
Crítica: Ortega afirma que o sujeito não é apenas "mais uma coisa", mas o destinatário que escolhe e vive a realidade.
2.2. Idealismo ou Subjetivismo
Baseia-se na dúvida metódica. A única certeza é o pensamento (cogito).
- O pensamento é o ponto de partida; duvida-se da realidade externa.
- A realidade é reduzida à experiência interior (imanência).
- O pensamento é visto como res cogitans (substância pensante).
Crítica: Para Ortega, o pensamento não é independente das coisas. A realidade radical é a coexistência do pensamento e das coisas. Eu não existo sem as coisas em que penso.
O pensamento não é uma substância (que existe por si só), mas uma relação. Ortega critica o idealismo porque ele vai contra a vida, ao convencer o ser humano de que a realidade extra-mental é apenas uma imagem interna. Ele propõe invalidar o conceito tradicional de "ser", pois:
- O "ser" é uma interpretação inventada, não a realidade em si.
- A realidade é devir, mudança e tentativa, não algo estático.
- O Eu é inseparável das coisas: "Eu sou eu e minhas circunstâncias".
3. Raciovitalismo: 2º Período (1923-1955)
Teoria que une o racionalismo crítico (Descartes) e o vitalismo (Nietzsche). O ser humano usa a razão para viver a vida real, particular e histórica.
A. Razão Vital
Ortega propõe a razão vital em oposição à razão pura. É a ação intelectual que nos põe em contato com a realidade e evolui com a história.
B. A vida como realidade radical
A vida (o eu com as coisas) é o objeto fundamental da filosofia. Viver é:
- A realidade radical e o encontro com o mundo.
- Ocupar-se com algo e decidir.
- Uma tarefa em curso, nada está pronto.
- Um problema de autorrealização e coexistência.
C. Razão Histórica
A razão vital é também razão histórica. Ortega não é contra a razão, mas contra o racionalismo abstrato. A frase "Eu sou eu e minhas circunstâncias" resume isso:
- Eu sou eu: A vida é íntima e subjetiva.
- Minhas circunstâncias: Tudo o que envolve o ser humano e que ele usa para se construir.
O ser humano não é algo pronto, mas uma necessidade constante de fazer-se. É preciso "salvar as circunstâncias" para salvar a si mesmo.
4. A Questão do Nosso Tempo
4.1. Historicismo
O ser humano não tem natureza, tem história. A vida é feita na história e cada época possui uma tarefa histórica realizada por gerações. Ortega distingue entre a elite (que guia) e as massas. Em sua obra sobre a invertebração da Espanha, critica a rebeldia das massas que não seguem a direção da elite intelectual.
4.2. Perspectivismo e Verdade
Não existe uma única visão da realidade, mas múltiplas perspectivas complementares. A verdade nasce da união dessas visões individuais em uma visão geral. Cada indivíduo seleciona impressões e cria sua perspectiva através da razão vital.